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COLUNAS

Segunda-feira, 1/5/2006
Sobre responsabilidade pessoal
Ram Rajagopal

+ de 39500 Acessos
+ 6 Comentário(s)

Estamos acostumados no Brasil a discutir se estamos ou não a caminho do primeiro mundo, se temos ou não as mesmas liberdades e direitos de sociedades consagradas. A discussão também costuma girar em torno da falência do Estado brasileiro, de como nossos direitos básicos são violados, e de que o governo federal não nos dá o retorno para os impostos pagos e pelo nosso status de cidadãos.

Este é somente meio lado da moeda. Por um lado, encontramos indivíduos indignados com o mau funcionamento do hospital público e da escola estadual, que o obrigam a desembolsar dinheiro próprio. Por outro, este mesmo indivíduo prontamente responsabiliza o Estado por sua responsabilidade pessoal. O governo, em alguma instância, deve cuidar das mínimas mazelas e obrigações de sua vida.

O que é responsabilidade pessoal? Uma discussão acalorada sobre o assunto no grupo Estertores da Razão me levou a pinçar as seguintes explicações reproduzidas em minhas próprias palavras (com possíveis erros de interpretação):

"Responsabilidade pessoal é o dever de cada indivíduo de fazer o que quer, o que pode e o que consegue, se possível independentemente das tendências de grupo, arcando com as conseqüências de suas decisões"
Zé Rodrix, autor e compositor

"É a obrigação de cada indivíduo de ser independente do estado, da mídia, da família e de sua sociedade, para criar e gerir uma ética própria, arcando com as consequências de seus atos e decisões"
Ram Rajagopal, cientista e blogueiro

"Ter pensamento analítico próprio, gerando opiniões e análises que solidificam o entendimento da sociedade de forma independente, descobrindo valores para si mesmo que se sustentem ao teste do tempo"
Rafael Lima, engenheiro, blogueiro e cronista do cotidiano

"Fazer continuamente um questionamento crítico pessoal sobre a sociedade e seus valores, se utilizando deste entendimento para ditar suas próprias ações no cotidiano, e para se possível determinar quais as diretrizes que um governo ou liderança local deve tomar"
Daniel Malaguti, advogado, blogueiro e escritor

"Não se levar a sério demais e ser responsável por si mesmo e por seus atos, decisões e palavras, sempre procurando manter ao máximo possível o respeito ao próximo e a sua liberdade"
Luis Eduardo Matta, escritor, colunista do Digestivo e savant-bon vivant

Como se vê, a responsabilidade pessoal possui muitas definições. Mas, em todas elas, encontra-se um ponto em comum: é o dever do indivíduo de assumir as consequências por seus atos e decisões. Mesmo o argumento da ignorância, “ah, eu fiz isso mais não sabia que era assim”, não isenta o indivíduo das consequências de suas decisões. É fácil observar a irresponsabilidade pessoal dos outros. É muito mais difícil observar e aceitar a própria irresponsabilidade...

Na sociedade brasileira encontramos inúmeros exemplos de irresponsabilidade pessoal. Um que vem acontecendo nas últimas semanas é a enésima tentativa de salvar a empresa privada Varig S.A. Em uma enquete on-line do jornal O Globo, 67% dos indivíduos, que imagino serem da mesma classe média que você é, imaginam que o governo deve dar uma mãozinha a empresa. Na mesma reportagem, você descobre que o falido estado do Rio de Janeiro decidiu perdoar as dívidas da empresa, estimando que esta ação produz um grande ganho político frente as expectativas do eleitorado.

Mas o que me incomodou mais na situação toda não foi a tentativa de utilizar o salário da minha família – a parte que é dada ao governo sob a forma de impostos – para salvar uma empresa que vem sendo mal gerida nos últimos 25 anos. O que me incomodou foram as expectativas dos próprios funcionários da Varig que esperam que o governo os salve da incompetência dos diretores da empresa. E aqui temos o exemplo explícito de falta de responsabilidade pessoal. Ao se decidir pela Varig, que é emprego privado, o funcionário já sabe de antemão que há o risco de se trabalhar para uma direção incompetente. E mais, assume também o risco de que a empresa possa falir e que seu bônus salarial esteja sob alto risco. É um risco implicitamente assumido por ser empregado de alguém. Quando o empreendimento quebra, não é reponsabilidade alguma da sociedade “salvar o barco” (ou neste caso, o avião).

Sim, existem as pessoas que estão prestes a se aposentar, existem outras que fizeram seu trabalho assiduamente. Mas o risco de falência sempre existiu, e é uma variável que deve ser levada em conta ao se escolher a opção de ser empregado de alguém... Inclusive ponderando um pouco sobre o assunto, você descobre a seguinte relação: ser empregado garante um salário maior e estável, mas em compensação aumenta o seu risco por transferir a responsabilidade pela manutenção do seu salário para a mão de um patrão. A alternativa é procurar ser independente de emprego, trabalhando para si mesmo. Em geral, neste caso você tem um salário menor, mas seu risco em relação a incompetência e desonestidade alheia é bem menor... Esta é a verdadeira escolha que fazemos ao assinarmos um contrato de emprego.

No caso da Varig, ainda há mais um agravante: os funcionários já sabiam da situação ruim da empresa, que vem ocorrendo há mais de 10 anos. Porque não se demitiram e procuraram outros empregos? Uma das razões é porque acreditam que o salário que conquistaram em seu atual emprego é um dever do patrão, da sociedade, e não uma situação temporária. A responsabilidade pessoal dita que, ao se expor a uma empresa ruim para manter o mesmo padrão de vida, momentameneamente, o indivíduo tem que arcar as consequências de sua escolha. E esta pode ser vir a perder tudo. Como foram os casos de vários funcionários da Enron que estavam arriscando suas aposentadorias nas ações da empresa, e o máximo que o governo fez foi parcelar suas dívidas. Em um típico exemplo de responsabilidade pessoal, um piloto conhecido meu pediu demissão da Varig cerca de 10 anos atrás, e foi trabalhar na TAM por um salário consideravelmente menor. Hoje está bem melhor de vida do que seus colegas que preferiram manter o status quo.

Outros exemplos de irresponsabilidade pessoal florescem na nossa sociedade. Um que me parece bem flagrante é a expectativa de todo formando universitário por um emprego. Quando não encontra um bom emprego, com um bom salário, logo encontra mil razões para culpar os orgãos de governo pela falta de oportunidades ou a universidade por não prepará-lo para o mercado de trabalho. Já ouvi até o absurdo argumento de que a universidade formava profissionais demais, reduzindo o salário e a oportunidade de todos de forma irresponsável. Ora, a responsabilidade pessoal dita que sua opção por uma carreira universitária, se foi a mais fácil aos 16 anos de idade, não necessariamente dá direito algum a receber um salário e um emprego. Você estará sujeito ao mercado, ao bom/mau funcionamento das empresas, e até a corrupção da sociedade... E não é dever algum do governo federal intervir para lhe dar o “primeiro emprego”. Porque não começar a trabalhar em um empreendimento próprio?

Na França, aconteceram muitas manifestações e bagunça quando se anunciou o fim da cama quentinha e confortável ao fim da universidade. O governo de lá descobriu que, ao transformar uma possibilidade num direito obrigatório, estava atrasando o desenvolvimento da sociedade, e sujeitando-a como um todo à perda de valor econômico e social. Ou seja, descobriu a premissa que o mais importante dever do governo federal é manter os meios para que cada um possa exercer sua responsabilidade pessoal, e não ser pessoalmente responsável por cada cidadão...

Hoje em dia com a internet e a competição globalizada, não existe mais tempo para se ponderar sobre o valor da responsabilidade pessoal. Ou você se torna pessoalmente responsável por sua vida, seu emprego e suas decisões, ou sua vida estará em permanente controle de terceiros, à mercê das idas e vindas de mercados, governos, preço de petróleo, el niño, galpões chineses, etc. Você é pessoalmente responsável por sua educação, por sua saúde e pelo seu emprego e salário. É também pessoalmente responsável por cada uma de suas decisões, não importando as condições sob as quais elas foram tomadas. Assim como é pessoalmente responsável por seus atos e pela ética que escolheu para sua vida. O ser humano é justamente considerado racional por ser capaz de resistir, até certo ponto, à influência do meio externo se utilizando do poder da razão. No Brasil de classe média, como não estamos na penúria da fome ou de doenças graves, estamos bem dentro do ponto que se considera o ponto certo...

Quais seriam as responsabilidades dos governantes? Na melhor das hipóteses, o governo tem a obrigação de garantir os meios para que cada um possa exercer sua responsabilidade pessoal, e que cada um cumpra as regras do jogo (i.e. leis), punindo porventura aqueles que falham a segui-las. Mas jamais o governo deve transferir o risco das decisões individuais de seus cidadãos para a tutela pública. Esta espécie de sociedade é um insulto a independendência do indivíduo, e ao seu dever de aprender com erros e acertos.

Responsabilidade pessoal não é um fardo que cada um deve carregar. É, sim, um dos deveres mais iluminados da vida de uma pessoa que exerce seus direitos e deveres adquiridos pela faculdade de raciocinar e refletir. Se num primeiro momento pode lhe parecer difícil, temerário e perigoso, uma vez que você experimenta esta liberdade, não há mais volta... Nunca mais você irá sequer imaginar a vida monótona e incolor sem ela.


Ram Rajagopal
Berkeley, 1/5/2006

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* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
1/5/2006
21h57min
Muito bom o seu texto, Ram. Serve para lembrar a todos a nossa tendência ao comodismo e o natural medo da responsabilidade. É assumindo erros que o ser humano consegue amadurecer de forma verdadeira e consistente. Um abraço.
[Leia outros Comentários de Aluizio]
5/5/2006
11h50min
Caro Ram: Não concordo com a ponte feita em seu texto entre responsabilidade pessoal e o caso Varig, mas não poderia deixar de ressaltar alguns pontos importantes:

1. O Governo deve à VARIG;
2. Entre as atribuições do Governo, certamente promover o crescimento e facilitar a manutenção de empresas nacionais com relevantes serviços prestados e inegável importância social estão entre elas;
3. manter uma empresa aérea nacional funcionando em rotas internacionais é uma questão estratégica também, evitando que fiquemos à mercê de políticas tarifárias internacionais, entre outros possíveis cenários de dependência.

Portanto, a questão VARIG vai além do simplismo a que foi reduzida, você poderia ter abordado o comportamento irresponsável de Luís Inácio na questão do gás boliviano, possivelmente em troca de mais algumas caixas de whisky recheadas com dólares venezuelanos, este, sim, um exemplo de (ir)responsabilidade pessoal.
[Leia outros Comentários de Marcelo Zanzotti]
5/5/2006
23h31min
Será que o ótimo social é manter uma empresa mal administrada ou dar espaço a aquelas que estão crescendo e saudáveis? Manter maus administradores raramente é uma boa decisão... Quanto 'a questão "estratégica", ela se reduz ao seguinte fato: muitos voôs da VARIG já são feitos por code-share. Miami e Nova Iorque parece que já estão nas rotas da TAM e da Gol. Então não há nada estratégico nessa decisão... Quanto ao texto, acho que a crítica não foi ao governo (apesar de discordar do que foi feito), mas sim 'a associação de funcionários que se recusava a aceitar cortes salariais, achando que o BNDES iria colocar mais dinheiro para salvar a empresa... A questão é simples: saiu de casa, está tomando risco... Por que eu tenho que patrocinar o seu?
[Leia outros Comentários de Ram]
8/5/2006
04h55min
Concordo em parte com seu artigo. Penso que não podemos nem devemos deitar nos braços do governo e esperar tudo dele. Entretanto, se sou obrigada a pagar impostos ao Estado - e que não são poucos nem pequenos - creio que o Estado me deve algo em troca! Ou é só embolsar e ponto final? Educação fundamental para todos é obrigação do governo, sim! Assim como assitência à saúde, cuidados com estradas, segurança à população que trabalha e tem direito ao lazer. Se o Estado não é obrigado a nada, para que os impostos extorsivos que temos que pagar? Numa sociedade há deveres e direitos. Não podemos culpar totalmente o Estado pelo fato de se sair de uma faculdade e não ter um emprego à espera. Mas podemos exigir, sim, que um país como o Brasil, cresça a ponto de poder oferecer trabalho a quem queira trabalhar. É fácil quando se tem a opção de sair do país e buscar seu destino em outras plagas... Nem todos têm essa possibilidade. Quanto à Varig, bem... quantos Bancos têm sido benificiados...
[Leia outros Comentários de regina mas]
30/5/2006
18h18min
Concordo totalmente com você, Ram. O teor de seu texto é irrefutável. Se pagamos altos impostos, sejamos exigentes com a manutenção das estradas, exijamos boas escolas e boa assistência à saúde, etc. Estou de acordo que o BNDES empreste dinheiro à Varig, desde que sejam os mesmos juros aplicados nos empréstimos a qualquer empresa! E cumpramos nossa responsabilidade pessoal.
[Leia outros Comentários de Evaldo Sales Costa]
3/7/2006
17h30min
Ó, estao todos de parabéns (quem escreveu)! Isso é que é uma demonstração de responsabilidade: saber passar para nós o que procurávamos.
[Leia outros Comentários de luiza]
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