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Sexta-feira, 26/5/2006
Leitura vertical e leitura horizontal
Julio Daio Borges

+ de 6100 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Quanto à nomenclatura, acho que foi a expressão “blogs verticais” aplicada a portais como Weblogs, Inc., de Jason Calacanis, nos Estados Unidos, e Weblogs SL, de Julio Alonso, na Espanha, que me fez pensar nos dois tipos de leitura que apresento aqui. Na realidade, não tem nada a ver em termos de conceito. “Blogs verticais”, se você quer saber, são blogs hiperespecializados, de nicho, que acabam se tornando referência no assunto. Quanto às minhas “leituras”, vamos começar pelo começo...

Desde que comecei a ler mais a internet – algo que sempre recomendo –, através dos feeds, descobri que minha percepção, da própria leitura, começou a mudar. Antes do Digestivo, apenas para exemplificar, eu, como leitor, ia onde meus interesses me levavam. Até sofria interferência da mídia, mas acho que conseguia dividir 50% para cada lado. Quando você se torna um “profissional de mídia”, porém, a indústria cultural, e a indústria de releases (principalmente), acaba te afetando, não adianta. Inconscientemente, você adota o ritmo deles e embarca nas novidades que eles te apontam...

Como jornalista, ao me desligar momentaneamente dos releases, para me concentrar nos feeds, me dei conta de como nós, leitores, somos o que lemos. (Atenção, se você não está entendendo as expressões, siga para os links: “blogs”, “feeds”, “releases” – e depois volte.) Como naquele ditado, “somos o que comemos”, acredito que, mais do que nunca, nossa cabeça é também produto do que mentalmente processamos. Por mais que sempre nos desculpemos – acostumados que estamos a digerir informação trash (música trash, televisão trash, internet trash) – dizendo que todo mundo está sujeito à sua cota de fast-food, temos de reconhecer que a sabedoria oriental ainda funciona: quanto mais bobagem você ouve, mais bobagem você vai falar.

Quem me acompanha aqui, sabe que, por minha própria conta e risco, embarquei numa pesquisa sobre Web 2.0 (pára-quedista, olhe o link) e descobri que existe um outro mundo na internet do qual a mídia daqui nem desconfia. Me “ausentei”, como leitor, dos releases-nossos-de-cada-dia, e, de repente, comecei a reportar o que acontecia nessa nova Web, o que me indicavam os meus feeds: no Blog, nos Digestivos e nas Colunas. Se vocês prestaram atenção, vocês viram...

O fato é que quando saí dos feeds e voltei para os releases (tradução: saí da pesquisa sobre Web 2.0 e regressei para a indústria cultural daqui), notei o quanto estava condicionado às informações que os blogs me passavam. Eles eram as minhas novas “fontes”! Eles sem querer, ou querendo, como um todo orgânico, estavam orientando meus passos, minhas leituras, minha percepção do mundo. Foi um choque.

No fundo, eu sempre fui um leitor bastante exigente da mídia tupiniquim e sempre impliquei com a informação que dela provinha. E sabia, obviamente, que esses mecanismos – de informação e de formação – estavam em jogo o tempo todo. Mas, com a internet, eu nunca havia sentido isso: eu nunca havia sentido que, mais do que a velha mídia, ela pode ser, sim, um instrumento poderoso para formar nossa percepção das coisas, das pessoas, do mundo enfim.

Conclui, dessa viagem toda, que existem, basicamente, dois tipos de leitura. A horizontal que você faz, dia a dia, caçando as mesmas notícias em diferentes veículos; e a vertical que você faz, mais eventualmente, sobretudo na internet, quando mergulha num tópico e quer explorar – ao longo do tempo – tudo o que puder sobre ele. Digamos: você faz uma leitura horizontal quando tenta acompanhar a semana do “terror em São Paulo”, por conta dos ataques do PCC; e você faz uma leitura vertical quando consulta a internet para se aprofundar sobre determinado tema (pode até ser o “PCC” de novo, mas, desta vez, você entra em arquivos e não segue atrás da novidade mais fresquinha...).

É a mudança que Seth Godin, paralelamente, apontou do Yahoo para o Google. Pense nos antigos portais de informação (quase todos os do Brasil): muita coisa na tela, algumas fotos, uma pancada de links e quase sempre, em destaque, as últimas notícias. Agora pense no Google (outro portal, quer queira, quer não): uma tela quase toda em branco, com meia dúzia (literalmente) de links e uma caixa onde você deve indicar o assunto, o tema, da sua busca, ou poderíamos sugestivamente dizer, da sua pesquisa.

Você percebe que são duas propostas completamente distintas? Uma é o “hoje”, com suas urgências, seus erros e seus atropelos (leitura horizontal). E outra é atemporal, com erros também, claro, mas com uma dose talvez maior de acertos (leitura vertical). Num caso, você está à mercê do bombardeio da mídia e vai absorver, dizer e sentir o que a imprensa te indicar (vide o clima da semana passada nesta nossa capital...). No outro caso, você vai possivelmente se descolar da realidade, vivendo, quem sabe, um outro tempo que não, historicamente, o seu.

Até aí, você pode dizer – velho profissional de mídia – que essa dualidade sempre existiu. As bibliotecas sempre conviveram com o jornal diário, por exemplo. Quem queria ir para a pesquisa, dirigia-se às primeiras; quem preferia o dia-a-dia, atinha-se ao embrulha-peixe e às bancas de revista. Acontece, porém, que na internet uma coisa está ao lado da outra: você pula do livro (em PDF) para a notícia (em HTML); do blog para a Wikipédia; do podcast para o acervo da Amazon. E isso – esse salto tão perto assim – antes não existia.

A novidade também está, creio, no fato de a internet caminhar cada vez mais para a sua vocação de biblioteca. Nos exemplos que eu citei, das empresas mais bem-sucedidas na WWW, isso é nítido: o Google, embora se diga, não é tradicionalmente uma “empresa de mídia”; a Wikipédia sofre mais atualizações do que qualquer outra enciclopédia, mas vive, evidentemente, da acumulação de conhecimento; e a Amazon, por mais que tenha diversificado seu portfolio, é a biblioteca de Alexandria do presente, nem aí para as notícias...

O que eu acho, também, –e esse é o aspecto mais radical do meu texto– é que a mídia –apesar de, a princípio, não ser “biblioteca” ou não ter essa vocação– caminha igualmente para isso. Eu vejo no Digestivo. Os colaboradores notam as milhares de visitas por dia e me perguntam para onde vão essas pessoas: pois sabem que elas não vão necessariamente para as primeiras páginas do site, para a homepage; elas vão, majoritariamente, para o nosso arquivo. O que pode ser esquisito para uma revista eletrônica, mas é o que tem acontecido.

Não sei se por influência do Google, mas nós, profissionais de mídia, temos de abrir os olhos para isso: o leitor está fazendo muito mais “leituras verticais” do que “horizontais”, hoje em dia. Por que o Google é o Google? Porque, em tese, ele possui o arquivo de toda a internet. Você já pensou nisso? O Google replica, em seus servidores, a internet inteira – e foi a empresa (ou iniciativa) mais eficiente, até agora, no sentido de colocar ordem no caos. (E não é uma empresa de mídia!)

Aqui no Digestivo, desde o nosso segundo layout, em 2002, eu passei a orientar a estrutura do site para o aspecto “biblioteca” da internet, de modo que o leitor pára-quedista se sentisse também confortável, e “se encontrasse”, em qualquer página do Digestivo Cultural. O leitor novo, raramente, vai começar pela homepage. Ele vem quase que direto do Google, de acordo com a palavra-chave que digitou, e que o Google associou a alguma página interna do Digestivo. Então, ele precisa encontrar um “logo”, um título, um “autor”, uma forma de contato, um “menu” e o caminho de volta. E ele precisa encontrar, fundamentalmente, mais subsídio (“arquivo”), se precisar de mais informação – se aquela da página não for suficiente.

Isso – se a minha viagem aqui ainda comporta – vai induzir os produtores de conteúdo a trabalhar uma “forma” mais perene. Justamente ao contrário da mídia hoje estabelecida: apoiada em releases descartáveis, em informações que estão velhas já no outro dia, em nada que prenda a atenção por mais de... 24 horas. E vai obrigar todo mundo a organizar melhor o conteúdo que disponibiliza – para que ele sempre seja “encontrável” por quem realmente interessa. Caso contrário, terá sido inútil – e nem merecerá registro.

Eu, como convivi muito com ficção científica, gosto bastante da metáfora do “fim do mundo”, depois de uma guerra nuclear. Aquele monte de escombros da civilização, e os sobreviventes caminhando, pisando, tropeçando... à procura de vestígios que expliquem o que houve antes da hecatombe, quem eram aquelas pessoas, como elas viviam? Às vezes penso que podemos estar produzindo informação para esse leitor completamente perdido lá no infinito... Informação que vai ter de parar em pé sozinha; informação que vai ter de se encadear não só numa seqüência de “leituras horizontais”, mas numa série de “leituras verticais” também!

Alô, leitor do futuro: “Você consegue me ouvir?”.


Julio Daio Borges
São Paulo, 26/5/2006

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
27/5/2006
13h51min
Antigamente, para se montar uma cena era preciso passar 4 folhas explicando como era uma esquina em Lion, já que as pessoas não tinham como saber senão por fotos e que não ajudavam muito. Quando ouvimos falar da Estátua da Liberdade, parece uma coisa óbvia graças ao nivel de informação de hoje (basta procurar fotos no Google, digamos), mas a idéia de uma mulher gigante segurando uma tocha não parece muito coerente. Sem dúvida a informação modificou a literatura. Não sei se para melhor ou pior. Sem precisar ser detalhista, o escritor pode se aprofundar no tema, mas talvez, como você disse, um dia esses detalhes podem ser necessários.
[Leia outros Comentários de Edward Bloom]
13/2/2007
16h04min
julio, sem querer me repetir muito mas vc é fera, rapah. uma profundida e visão de longa distância raras. megatexto! pati
[Leia outros Comentários de pati ]
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