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COLUNAS

Quarta-feira, 13/5/2009
Os beats e a tradição romântica
Guilherme Diniz

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Walt Whitman, com a grandiloquência que lhe é inerente, escreveu no seu Leaves of Grass: "Soltem as fechaduras das portas! Soltem as portas dos seus batentes!". E montado nesse motivo Allen Ginsberg inaugurou o canto dissonante de Howl. Diferentemente de Whitman, ele queria destituir o alicerce da casa. As portas estavam a apodrecer num universo já por ele ultrapassado.

Quando meia dúzia de jovens intelectuais começou a cultivar a rebeldia contra o establishment cultural que imperava na sociedade norte-americana, eles não estavam interessados em mudanças políticas. Estavam apenas de saco cheio, como disse Hal Chase. Queriam eles alcançar uma voz que fosse autenticamente americana, uma literatura que fosse o apogeu dos aspectos mais libertários de sua cultura.

Os jovens ficaram conhecidos por "beats". Jack Kerouac, William S. Burroughs e Allen Ginsberg, num primeiro momento, não se interessavam - nas décadas de 1940 e 1950 - por qualquer assunto que lembrasse política. Estavam mais interessados no que acontecia nas ruas e nos bares do que naquilo que era pensado nos gabinetes de ministérios.

Contudo, os anos de educação puritana marcaram profundamente a visão de mundo dos primeiros filhos advindos do Mayflower. Aos poucos o conservadorismo foi se apossando da política, da cultura, das artes - até tudo se tornar status quo; e como o existente legitima a si próprio pelo assentimento da tradição, nada evidenciava mudanças num horizonte provável.

A rua - para não dizer a estrada, ora como ente real, ora como metáfora - e a música eram as inspirações para aqueles rapazes alcançarem aquela tão sonhada identidade; e a literatura seria o veículo a propagá-la. Somente algumas décadas depois que essa rebeldia iria se espraiar para o terreno político. Toda aquela insubmissão que era apenas romanesca seria, a partir dos anos 60, uma verdadeira ferramenta contestação aos métodos políticos de então.

Fosse na Universidade de Berkley, Califórnia, ou em qualquer outra manifestação contra a guerra do Vietnã, lá provavelmente estaria um Ginsberg (ou Snyder) barbudo a cantar hinos pacifistas e recitar poemas que outrora chocaram a crítica conservadora (e mesmo reacionária), mas que as circunstâncias daquele momento os legitimavam e nada poderia impedir o anuncio daquelas mensagens.

E toda essa insubmissão se insere num panorama mais amplo, que é a tradição romântica, que dissolve-se, por sua vez, em duplo afluente: na unidade entre escritor, obra e vida, onde essas facetas compõem um monólito indissolúvel, rígido (porém não dogmático - como nos casos de poetas como Blake, Nerval, Rimbaud e Isidore Lucien Ducasse - mais conhecido como Conde de Lautréamont) -, e romantismo entendido como processo, não como período.

É humana a característica de explicar e catalogar fenômenos, não importando suas naturezas, e a literatura também se vê refém dessa sanha metodológica. Uma delas é dividi-la em períodos e datas, como se o universo da escrita pudesse ficar mais compreensível se revelado do mesmo modo que se explica o desabrochar de uma flor, quer dizer, de períodos em períodos.

Mesmo alegando que isso facilitaria a compreensão, as consequências indesejáveis são significativas o suficiente para que esse falso entendimento se sobreponha a outras formas mais plásticas e orgânicas de abordagem. Uma dessas seria entender o romantismo como continuidade, estado de constante evolução (e o mesmo poderia ser aplicado aos outros "movimentos", como classicismo, simbolismo, modernismo etc., num constante alternar de ação e reação).

Mostrar que o nascimento do romantismo foi pontuado entre publicações de Goethe, Blake, Edward Young ou da tríade composta por Samuel Taylor Coleridge, Robert Southey e William Wordsworth e mesmo depois por Percy Shelley, parece servir mais a um exercício de ilustração acadêmica do que propriamente para compreendê-lo nas suas verdadeiras razões e implicações mais íntimas.

Nesse sentido o romantismo é analisado pelo poeta Claudio Willer, amparado em Octavio Paz. O seu ensaio "Beat e a Tradição Romântica" é fundamental para entendê-lo dentro da herança da insurgência. Nos trabalhos do poeta mexicano O Arco e a Lira e Os filhos de barro, Willer identifica o que ele denomina de "tradição da ruptura".

O lírico paulista escreve que essa tradição "refere-se à sucessão de poetas e movimentos que se caracterizaram não só pela inovação, mas também pela ruptura com aquilo que os antecedia, ou seja, pela transgressão e rebelião no plano da criação literária e da relação com a sociedade na qual viviam".

E finaliza: "A história do Romantismo passa a se confundir então com a história dos poetas 'malditos', os rebeldes visionários e inovadores. Dentro dessa visão, passa a correr paralelamente outra grande vertente, de autores classicistas, formalistas e bem comportados, contemporâneos dos 'malditos' e aceitos - e às vezes aclamados como modelos e paradigmas - por sua sociedade".

No caso específico da literatura americana, essa tradição vem desde cedo - correndo em paralelo com a escrita mais cerebral, canônica, tradicionalista. Ela decorre em parte da herança inglesa e europeia, é inegável. Entretanto, autores como Walt Whitman, Henry David Thoreau, Ralph Waldo Emerson e depois Jack London, deram matizes próprios àquele espírito transgressor.

Walt Whitman conseguiu determinar a profundidade da libertação que o homem deve empreender, física e espiritualmente, contra a ordem, estabilidade, as castas e a tradição; ele cantou a música do confronto e do desassossego. Thoreau se refugiou à margem do Lago Walden porque tencionou sugar a seiva que alimenta a vida que há muito entre os homens das cidades secou.

Emerson louvou o não-conformismo e a independência com a mesma convicção de um pastor que tenta salvar seu rebanho da perdição. Entretanto, ele é homem secular, humanista - rechaça o gregarismo das religiões. Mostrou a hipocrisia existencial que nos une à sociedade. Escreveu ser a vida autêntica aquela vivida longe do falso sucesso, da fama e de fortuna. Disse apenas que "aqueles que desejam ser homens devem ser inconformistas". É o suficiente.

Chegou depois Jack London. Entre o descer de navios e trens de carga a cortar a América, proclamou o socialismo, a natureza, a liberdade. Desnudou as instituições; rebelou-se contra a opressão econômica e tomou o partido da classe trabalhadora. Escreveu ensaios, panfletos e brochuras. Foi o retrato perfeito do revolucionário europeu de 1848 em solo americano.

Contudo, no momento em que os beats se incluíram nessa tradição romântica, cada escritor, individualmente, procurou alcançar sua voz própria, exclusiva em perspectivas e aspirações, mas universal quanto aos motivos. Romperam eles assim com a falsa linearidade que usualmente é imputada aos movimentos literários - se é que ela existe.

Os interesses foram distintos porque os questionamentos foram diversos. O caminho foi pessoal, único. Todavia, o incitamento que impulsionou toda aquela rebeldia irrompeu daquela mesma inteligência que levou - e cada vez mais levará - certos homens a romperem com o comodismo e compreensão daqueles que querem obras capazes de mostrar a realidade existente como se universal e sadia fosse.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado em seu blog, O Rinoceronte Voador.


Guilherme Diniz
Belo Horizonte, 13/5/2009


Mais Guilherme Diniz
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



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