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ENSAIOS

Segunda-feira, 11/8/2008
Duas cartas
Luís Henrique Pellanda

+ de 5100 Acessos

Ninguém me segura, meu bem. Acordei com a disposição de um atleta paraolímpico. Corri descalço e sem roupa por todo o apartamento, as janelas da sala escancaradas. Um paraíso envidraçado, nosso oásis ergonômico, lembra? Decoramos tudo sozinhos. Com rigor, sem excessos, de acordo com a tua vontade. Perdi, sim, a batalha da cozinha. Os tijolos de vidro, admito, foram uma ótima escolha. A parede invisível, aquela luz de geleira. Você está de parabéns. Ficou mesmo lindo.

Também adoro nossa cafeteira italiana. Tão charmosa. A cara da dona, eu diria, se fosse um ignorante. Você acertou na compra: ela sempre nos foi muito útil. E vai durar mais dez, doze anos, aproveite. Eu aproveitei. Tanto que, hoje cedo, ao ligar a maquininha, já me senti um pouco nostálgico, saudoso de tudo.

Difícil me ver assim, sentimental. Ainda mais com a fome que sempre sinto quando acordo. Fome negra. Até matei aquele salame polonês que você trouxe da feira das nações. Comi tudo, ao som da água fervendo, do café pingando na jarra suada. Adoro o vapor. Adoro o chiado dos eletrodomésticos. Adoro embutidos. São coisas boas que a vida nos oferece. A vida em si é boa, ninguém precisa me convencer disso. Meu problema é outro. É nosso. Nada relacionado com comida, meu doce.

Mas comi bem, como sempre comi. Mastiguei de boca aberta, sim, daquele jeito que você sempre critica. Eu estava distraído. Me olhando na porta espelhada da geladeira. Meu reflexo seminu parecia o de um macaco espantoso, esguio. E aquilo me chateou um pouco. O Narciso sinuoso ali, brilhando. Eu, metálico e barbudo, descabelado, mas ainda apresentável. Me desperdicei, não nego. Nos desperdicei, você vai enfatizar. É o que vai dizer aos outros no futuro ― amanhã mesmo, aposto.

Engraçado. Até parece que faz dias que não nos falamos.

Meu banheiro ainda deve estar úmido, vá checar. O maldito patchuli dominando tudo, minhas unhas no assoalho. Experimente o piso, a toalha esticada: tudo molhado. Sei, sei que é estranho.

Ah, meu toalete privativo, meu éden azulejado, adeus.

Há quanto tempo você não entra no meu banheiro? Nem sabe das novidades. Mandei reformar, você nem notou. Troquei a fórmica do balcão. Botei um tampo de madeira clarinha, cem vezes mais elegante, impermeabilizado por camadas bem finas de verniz náutico. A pia ficou deslumbrante. Mas de que adiantou? Você nem viu. Dê uma olhada no meu banheiro, mais tarde. Dê, se tiver coragem. É onde meu fantasma vai baixar, todas as noites.

Também mijei sentado, hoje cedo. Como sempre. Sinal de indolência, você diria. Descaso com minha própria masculinidade. A infância que não me larga, o menino frágil, enojado das coisas da vida. Pode ser. Não ligo para o que você acha. Os teus diagnósticos não me interessam mais.

Não me importo com quase nada. Nunca me importei. Hoje, por exemplo, decidi que nem faria a barba. Não sei por que, apenas não fiz. Só não resisti às carícias do meu banho quentinho de quarenta minutos. Frescura minha, não? Mas não te incomodei, você deve ter reparado. Hoje não: tomei o cuidado de não cantar no box, minha melhor mania. Abri mão do meu toque de alvorada, da minha canção de todas as manhãs. Você nunca se interessou por ela, não? Me magoou, viu? Nunca perguntou o que era. Pois hoje eu te conto: era uma modinha do Carlos Gomes. Uma modinha que, em respeito ao teu sono, deixei de cantar, hoje cedo.

Já eram oito e meia quando entrei no nosso quarto, bem quieto. Você nem percebeu. Fui dar uma última olhada na bela adormecida, nas últimas curvas agradáveis do teu corpo. Mas você estava coberta, o efeito não foi o mesmo. Mais uma decepção para a nossa lista.

Resgatei algumas coisas no closet, saí com as roupas emboladas no colo. E você dormindo, minha jibóia, numa boa. Nem se mexeu, soterrada pelo edredom de penas de ganso. Achei um exagero, não estava tão frio assim. Deve ter acordado depois do meio-dia, acertei?

Mas vou pegar leve, meu bem. Não quero reclamar demais. Apenas na medida do necessário. Antes de te conhecer, tudo ia muito mal para mim. Só que eu achava que iria melhorar. Sério. Acreditava nisso. E talvez até tenha melhorado um pouco. Mas a que preço?

Você é uma chata, Marion.

Um cadáver semi-animado. Nunca estava aqui e nunca me deixava sozinho. Nunca esteve e nunca me deixou. Não está e não me deixa.

Chata. Com que isca eu podia te apanhar?

Sim, eu sei que há coisas de que você gosta, que te dão prazer.

Sei que você gosta de saldar as dívidas que eu faço. Nunca vi mal nisso, claro. Também sei que você sempre gostou de me vestir conforme o teu bom gosto. Você adora roupas, não é nenhuma extravagância da tua parte. Mas sempre alimentou o mais absoluto desdém pelo meu corpo ou pelo corpo de qualquer outra criatura despida.

Só peço que me perdoe. Posso estar sendo injusto com você, eu sei. Você sempre foi decente em relação à tua frigidez. Desde a universidade. Desde quando a gente ainda namorava. Foi a princípio austera e posteriormente passiva. Me desculpe, mas tenho que registrar isso, sem piedade.

Foi duro, você sabe. No começo, eu tinha dificuldades até para descruzar os teus bracinhos no sofá. Eu fui um guerreiro, meu bem. Eu poderia ter recuado. Mas demonstrei coragem. Perseverei. E você? Nem bebida nem maconha te relaxavam. Você era assustadora, Marion. Assustadora. E eu te enfrentei. Ah, você resistia como uma amazona de pedra.

E me pedia paciência, lembra? Eu tive, não tive? Ou melhor, fingi que tinha. Tive mesmo foi dó. Lembra de todas as vezes em que você me pediu perdão por ser desanimada? Eu te desculpava sempre, compreensivo demais. Hoje, ambos pagamos pela minha tolerância. Você, em dinheiro.

De certa forma, o culpado fui eu. Acreditei no sonho de uma união pacífica e terapêutica, de um casamento estético. Mas, no fundo, de que adianta ser um casal bonito? Porque é isso que nós fomos, não?

Sim, só isso, só um casal bonito.

Você nunca me provocou ciúme algum, essa é a verdade. Você nunca olhou para outro homem. Nem percebia quando a olhavam. Simplesmente estava sempre pensando em outra coisa. Talvez nas fazendas do teu pai, que tanto nos encantavam. Lembra da vista do helicóptero? O pasto salpicado de vacas brancas em fuga, as flores graúdas, os cupinzeiros duros, tumores na terra vermelha.

Quer saber qual é o problema, Marion? Ser amado por uma menina linda, rica, casta e complacente deveria ser ótimo. Mas não é. Não foi. Na real, castidade e complacência são sintomas atemporais de maluquice. A Idade Média estava cheia de santas da tua laia.

Você me aborrece, não vou mentir. Já menti demais.

Eu passei esses últimos três meses trancado em casa. Pintando, não é mesmo? Não. Não pintei nada. Não estava trabalhando na minha nova exposição. Surpresa? Pode averiguar, pode vasculhar meu ateliê, a chave está na mesa da cozinha. Veja lá, corra: você não vai encontrar uma tela que preste. Nada. Passei três meses dormindo, à tarde. Ressonando lá dentro. Só saía para buscar cervejas no freezer. Você nunca estava em casa para me ver vadiando. Uma pena. Nunca me viu invadir a área de serviço de cueca, polvilhado de tinta, a cavalo numa vassoura. Eu apavorava a psicótica da Cristiana. Ela protestava, aos berros. E depois ria, ria. Uma louca, pior que você. Eu agarrava ela por trás, arrancava a sua touca com os dentes. Eu lambuzava aqueles babados, atirava seus chinelos pela sacada. Manchava de roxo, verde e laranja o preto-e-branco do uniforme dela. De propósito. Você nunca notou? Os dedos coloridos no avental da moça? Se fez de cega, a vida toda.

Quer saber? Se deixassem, eu desfilaria de cueca suja por todo o condomínio. Sempre gostei do calor, sempre relacionei a sua chegada anual ao revigoramento do meu bem-estar mental e físico. Sempre gostei de andar imundo, pelado. Mas você me traumatizou, Marion. Falou mal das minhas pernas finas. Zombou do meu peito fundo. Você, que sempre abominou os dias quentes, parida dos bafos pantanosos do sertão, sob o signo da cobra. Esnobe da selva, você. Filha do brejo, cria ruiva de uma capivara.

A eterna recusa a usar saias e sandálias. Infeliz, nunca mostrou os pés e as canelas em público. Grudenta demais para se perfumar? Muito suada para trepar comigo? E quem é que agüenta uma mulher que toma três, quatro banhos diários? Pelo menos, você me diria, a tua higiene nunca foi medieval. Conheço o teu humor. Mas de que adianta tanta água, tanto sabonete, meu bem? Termina de se enxugar e já está suada de novo. Ah, a ineficiência das toalhas baratas, a arbitrariedade das translações da Terra. As estações do ano, os ventos que vêm do mar, as frentes que vêm do sul, os veranicos de maio, as inversões térmicas, as chuvas de granizo, os redemoinhos de pó. Que inverno glacial vai deter as tuas glândulas? Por que você não se arremessa no espaço, por que não vai morrer em Netuno? Por que não se deita numa tumba de criogênio?

Pior foi anteontem de madrugada, Marion.

Você acordou gritando. Ensopada, minha sucuri. Eram quatro horas. No banheiro da suíte, você chorou alto debaixo da ducha. Foi um saco. Voltou em quinze minutos, nervosa, cheirando a lanolina. Vestia uma camisola nova ― eu sei, sempre reparo em você. Se sentou na cama, querendo conforto ou conversa. Fez tudo isso e nem sabe que fez.

Me disse que havia sido vítima de uma alucinação pirética. Tinha algo a ver com os teus poros. Cada um deles, um poço transbordante de óleo fervendo. Um ácaro, eu marchava pelo deserto da tua pele, entre crateras descobertas. Um planeta imenso, vulcânico, você. Eu saltitava e atirava pequenas moedas de ouro naquelas tuas fendas e falhas abertas, nas fogueiras acesas pelo descampado do teu corpo; eu dançava ali, saltava e emitia um tipo semi-articulado de balido cuja tradução se perdera durante o banho. O sonho, então, se tornava nebuloso, mas uma mudança inesperada de cenário devolvia a ele uma seqüência lógica.

De repente, você se via, a si própria, limpa e seca, estirada sobre um estrado. Você, Marion, dura, uma tábua recém-saída da serraria. A Cristiana te abanava com a asa de um avestruz; varejeiras te vigiavam, empoleiradas na corrente do lustre. Você dormia nua sobre um colchão sem lençóis, as mãos sem jóias cruzadas sobre os seios pequenos, o púbis sem pêlos à mostra. Sem aviso, eu aparecia de novo, furtivo, no quarto iluminado. Uma luz leitosa nos lavava, chapava as paredes de gelo da nossa casa.

As moedinhas no meu bolso, tilintando.

Ao pé da cama, duas patas peludas pousaram no meu tórax. Era a Cristiana, cadela atenta, mal domesticada, me barrando a passagem, me intimando.

― O que você prefere, cara: a necrofilia ou o celibato?

Frente àquele dilema, eu balia. Apenas balia, cheio de dor. E tudo se sublimava, em meio a vapores suspeitos.

Você tentou decifrar o sonho, sabe? Somente a morte poderia cessar a produção de suor no teu corpo, a morte seria a ausência de umidade, me garantiu. Absurda, absurda. Só quando vi que você vestia não mais a camisola, mas o uniforme da empregada, fosforescente de tintas, percebi que era eu quem estava sonhando.

Sorri e segurei os teus pulsos.

― Você é louca ― eu te disse.

E aquilo foi uma libertação, meu doce.

― Deve ter ocorrido algum caso grave de sífilis na tua família.

A sífilis era muito comum entre os pecuaristas de antigamente, sabia? O próprio Sífilo era um pastor, assim como o teu pai e o teu deus são pastores.

Novos gases surgiam e, sem mais, encerravam meu sonho.

Eu nunca havia me sentido tão livre, Marion. Todas aquelas discussões a respeito da interpretação dos sonhos, sabe? Quanta inocência, quanta arrogância a nossa.

O sonho, meu bem, é o terreno baldio das nossas vontades. É o lixão das liberdades pessoais. É o berço dos vira-latas, o motel dos urubus.

Eu não te amo. Nunca amei. Apenas fui com a tua cara.

Depois deste café gostoso, me mato. Tchau.

***

Você venceu, cara. O que me faltava era diversão. Você passou anos me cobrando aventuras, lembra? Me pedindo constância e coragem. Bom, de certa forma, você estava certo, eu sei. Mas não totalmente. Porque você subestimou as minhas carências. Eu, pobre de alegrias? É isso mesmo que você pensa? Que a felicidade é a nossa maior riqueza? Pois eu te acho um humilde, meu camarada. Nada mais que um humilde. Coitado daquele que carece só de divertimento, Décio. Esse, sim, é um louco: quer fazer do nosso vale de lágrimas o seu parque aquático.

Pois classificar os meus problemas demanda alguma especialização. Não pense que é para o teu bico. É fácil dar palpites, planejar o futuro ― principalmente o futuro dos outros. Mas eu te entendo. Você sempre esteve aqui, do meu lado, ouvindo as minhas arengas. Não esteve? Acabou se achando no direito de se meter comigo. Agora agüente.

Veja bem, eu não estou reclamando. Nunca me queixei de você. Não de barriga cheia. E eu até que fui longe. Consegui montar a minha exposição, por exemplo. Graças a você e a Marion, é o que todo mundo acha, é o que vivem me dizendo. E é verdade, não posso negar. Vocês sempre foram bons conselheiros, bons motivadores. Você, o meu braço direito, a minha musculatura. Ela, a minha tesoureira, o meu iglu.

Mas quanto sangue frio, cara, quantos cálculos e cuidados. Quanta experiência e quanto desperdício. Você sempre soube o que fazer, como agir, a quem recorrer. Sempre antecipou tudo. Ao teu lado, nunca fui pego desprevenido. Mas de onde viria esse teu poder divinatório, meu xamã? Você é mesmo um mistério, Décio, um animal iluminado.

Como você previu, minha vernissage foi um sucesso. Minha insegurança só nos fez perder tempo. Foram quantas as minhas noites de choro e de conversa mole? Você contou? Eu sim: seis meses de cantilenas, de chatices gratuitas. No fim das contas, era tudo bobagem minha. Todo mundo apareceu. Todos beberam do meu vinho, comeram meus canapés. Todos elogiaram o meu trabalho. Todos me abraçaram e beijaram.

Menos você.

Não que eu tenha ficado surpreso com a tua ausência. Apenas levemente contrariado. Para mim, aquilo foi uma derrota histórica. Perdi, eu sei. E nunca gostei de perder. Te perdi e, admito, você ganhou.

Você, que sequer disputou comigo.

Sei que você não gosta das coisas que eu faço, que sempre desaprovou minhas escolhas. Você sempre foi mais honesto, mais íntegro que os outros caras. Desde criança, Décio. Você nunca me engoliu. Nunca engoliu minha pintura suja, minha pincelada frenética. Sempre evitou olhar diretamente para os meus desenhos. Nunca percorreu, a pé, qualquer uma das minhas instalações. Nunca examinou nenhuma das minhas telas por mais de dez segundos. E você estava certo. Com isso, você preservava nossa amizade. Não perdeu tempo com aquela tralha. Eram esboços de nada, estruturas falidas. Carvão e óleo, madeira e ferro a serviço da farsa, da afronta.

Para você, eu sempre fui um idiota querido. O companheiro lamentável. Quantas vezes precisei do teu socorro? Lembra de quando caí da mimoseira gigante, no jardim da tua avó? Você me escorou até o posto de saúde, teu ombro e meu sovaco encaixados, um abraço perfeito. Quando me acidentei na tua bicicleta, você nem se incomodou com os pedais tortos, o guidão destruído, o dinheiro gasto no conserto. Nunca me cobrou. Quando vomitei no nosso primeiro baile de carnaval, você passou a noite comigo, do lado de fora do clube. Lá dentro, todas aquelas gurias te esperavam, debutantes quase nuas, vestindo apenas miçangas, biquínis, serpentinas derretidas. Lembra? Vimos o sol nascer na praia, juntos. Eu não podia caminhar, eu não conseguia endireitar meu corpo, meu abdome rígido, inchado de gases, o fígado intumescido. Pois eu e você deixamos o carnaval passar, a festa morrer, a minha cólica e o mar rugindo entre a gente. Eu te disse que estava enjoado, que precisava de ar puro. E você não acendeu um cigarro. Nosso maço amanheceu lacrado no bolso da tua bermuda.

Atrapalhei teus planos e tuas conquistas, não? Quantas vezes você perdeu no futebol porque eu estava no teu time? Mesmo assim, nunca deixou de me escolher para a tua zaga. Nunca me sentei no banquinho de cimento da cancha de areia, lugar cativo das meninas, dos veadinhos. Quantas vezes foi meu parceiro de baralho, você, a metade furiosa de uma dupla perdedora? Quantas vezes deixou de ganhar na sinuca graças à minha falta de coordenação motora, à minha pouca inclinação para a disputa? Quantas bolas brancas me viu derrubar, resignado?

Você fez de tudo por mim, não? Até parece que me protegeu de algum perigo. Você, meu campo magnético, minha santa redoma, me pôs a salvo de quê? De que feras me isolou? Ah, a vida toda você assobiou a melodia errada. Porque fui eu quem te pôs numa gaiola, quem te pendurou num galho florido de goiabeira. Duvida de mim? Pois diga: quem mais te ouviu cantar, curió? Só eu, Décio, só eu e mais ninguém.

Pense na tua vida sem a minha. Você não consegue. Você não a vê, ela não existe. Porque a tua vida sempre foi a piedade que sentiu de mim. A dor de me ver desamparado.

Quer um presente, cara? Hoje, te libero dessa carga. Hoje, teu fardo fica mais leve. E você? Vai sentir saudade do meu peso? Do sagüi que te mordia a nuca? Da bola de chumbo no teu tornozelo? Minta para mim, pode mentir, língua de caramelo. Não me importo mais. E, francamente, espero que você tenha tirado algum proveito da nossa convivência, da companhia que te fiz. Porque, vou te dizer, meu amigo: você nunca foi grande coisa.

Me desculpe. Mas tenho verdades a registrar.

Gostar de você foi, sim, a minha maior fraqueza. Eu me sacrifiquei por você. Sem mim, sem a minha fragilidade, você nunca teria a quem se comparar e sair vitorioso. Eu fui a tua referência abaixo da média. A pedra de toque que melhor serviu à tua ilusão de poder e fortaleza, que melhor escondeu a tua insuficiência. Amigos servem para isso, Décio. Eu sou teu amigo. Eu fui teu amigo. Para te dar a vitória, me tornei, eu mesmo, o derrotado. Deixei de lutar, meu cavaleiro, para te manter comigo, para me manter contigo, sempre. Errei, quem sabe? Pode ser. Hoje, vejo as coisas de outro ângulo. Sei que você nunca me deixou. Mas, na real? Você nunca esteve aqui.

Estamos quites, portanto. Vivemos assim, pau a pau.

Não peço que me agradeça. Nem mesmo por toda a emoção que te proporcionei. Eu não mereço. Ninguém aqui merece nada.

Quer saber? Acho que tudo que fiz por você, pela Marion e por mim mesmo foi um pouco inútil. Não sou sequer um artista talentoso. Não fui um artista talentoso ― já me corrijo, como se eu estivesse escrevendo da posteridade, do século que vem. Ridículo, não? Daqui a cem anos, ninguém vai saber da minha vida. Da tua, muito menos. Ninguém vai querer saber da gente. Minha arte não vai sobreviver nem ressuscitar. Sempre foi uma ofensa, sempre foi o fingimento. Uma imitação daquilo que eu, um dia, imaginei que existisse de bom na humanidade. Um sonho parodiado. A caricatura de um desejo. O retrato de um poço envenenado.

Ah, as minhas ambições também sempre foram modestas, Décio. Essa é a verdade. Desculpe se isso te decepciona. Quem te mandou ter fé em mim, apostar no meu azarão? Eu te pedi isso, por acaso? Sugeri algo parecido? Nunca te disse antes, mas sempre quis abandonar tudo. Sempre quis ser funcionário de uma loja de cosméticos, sempre quis morrer jovem sobre um balcão de bijuterias furta-cor, vender tapeçaria persa, milagres ortopédicos, colares de ametista e processadores de alimento, comandar leilões na televisão, de colete e gravata-borboleta, apitar jogos de vôlei. Adoro cores e bichos. Adoro transparências e luzes. Adoro o escuro e a lua cheia. Adoro dormir. São coisas boas que a vida nos oferece. Você não precisa me lembrar que elas existem. Eu nunca deixei de desejar a simplicidade.

Também adoro as pessoas, todas elas. Seria muito bom ter convivido com gente de verdade, autêntica, vulgar. Não pude fazer isso, você sabe. Nunca levei jeito para a vida comum, puramente social ou biológica. Não tive filhos nem filhas. Apenas imaginei uma descendência brilhante, sonhei com ela todas as noites da minha vida. Mas imaginar não é conceber. Sonhar é o oposto de agir. Não que eu veja algo de errado nisso. Muito pelo contrário.

Aliás, quero te contar que tive um sonho.

Anteontem, uma mulher linda, muito branca e muito forte, acordou na minha cama. A Marion tinha sumido, sem explicações. E aquela moça havia tomado o lugar dela. Ombros largos, asas mal tatuadas nas costas. Um anjo, claro. A imagem é óbvia. Mas era uma espécie suburbana de anjo. Um querubim desarmado, carnavalesco. Cada pena de suas asas tinha uma cor diferente; e cada asa, cinco mil penas pontudas, algumas em forma de facas, outras em forma de espadas.

Ela se sentou sobre as pernas cruzadas, a coluna reta, os cabelos pretos, curtos, penteados para trás. Mãos e dedos longos, sem anéis, os braços de esqueleto para o alto. Se espreguiçava, estralando os ossos. Arranhou o teto com as suas unhas de diamante. Ferido, o forro se desfez em lascas de tinta fosca, fagulhas prateadas. Eu me sentia muito pequeno naquela cena, vulnerável, pronto para ser pulverizado. Ou acalentado. Eu, um inseto. Ou uma criança de colo.

Decidi acender a luz e desfazer de uma vez a ilusão. Busquei o interruptor e, na minha cabeceira, encontrei somente um velho abajur, que pertencera à minha mãe. Simplesmente surgira ali, uma planta germinada à toa, ao acaso, na madeira nobre do criado-mudo.

Era um abajur grotesco, cafona. Lembra dele? Um anjo nu, de mármore, enrolado em duas guirlandas de rosas brancas? Ele se espichava para o céu, na ponta dos pés, as costas e a bunda bem à mostra, o lombo de felino alongado, as mãozinhas nervosas na tentativa de tocar a lâmpada sobre elas, a cúpula de penduricalhos cintilantes. O anjo era um menino ― uma menina? ― ainda muito jovem. Você lembra, sim. Passava horas acariciando aquele anjo de pedra, um gato irresistível ao teu alcance, teu brinquedo proibido.

Surpreso, não acendi a luz. Apenas toquei, como você tocava, o corpo gelado daquela estatueta. Uma sensação mortificante de frio logo me arrepiou os dedos. Ao meu toque, a cúpula do abajur faiscou e, em dois segundos, incendiou-se completamente.

O fogo me acordou. O calor sempre me acorda.

Quer saber? Pena eu nunca ter sonhado com você, Décio. Isso, sim, teria sido divertido.

Mas encerro, enfim, a tua carta de alforria. O teu melhor presente de aniversário. Parabéns, meu amigo. Me sacrifico no teu dia votivo.

Te amo, pomba innocente. Tchau.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no jornal Rascunho, na edição de julho de 2008.


Luís Henrique Pellanda
Curitiba, 11/8/2008

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