Um olhar sobre Múcio Teixeira | Celso A. Uequed Pitol | Digestivo Cultural

busca | avançada
28946 visitas/dia
1,0 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Sesc Belenzinho recebe show de Zé Guilherme que lança quarto disco e comemora 20 anos de carreira
>>> Compositor Murray Schafer cria exercícios para melhorar audição e produção musical
>>> Cientistas políticos debatem reforma e crise política no Brasil
>>> Universidade do Livro abre duas turmas para Oficina de revisão de provas
>>> Primeiros escritos filosóficos de Adorno ganham tradução inédita em português
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Cidadão Samba: Sílvio Pereira da Silva
>>> No palco da vida, o feitiço do escritor
>>> Um olhar sobre Múcio Teixeira
>>> Algo de sublime numa cabeça pendida entre letras
>>> estar onde eu não estou
>>> Nos escuros dos caminhos noturnos
>>> As Lavadeiras, duas pinturas de Elias Layon
>>> T.É.D.I.O. (com um T bem grande pra você)
>>> As palmeiras da Politécnica
>>> Como eu escrevo
Colunistas
Últimos Posts
>>> Por que ler poesia?
>>> O Livro e o Mercado Editorial
>>> Mon coeur s'ouvre à ta voix
>>> Palestra e lançamento em BH
>>> Eleições 2018 - Afif na JP
>>> Lançamentos em BH
>>> Lançamento paulistano do Álbum
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 2
>>> Ana Elisa Ribeiro lança Álbum
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
Últimos Posts
>>> Flauta Sincera
>>> Ciência & Realidade
>>> Amor
>>> Cágado
>>> Sonhos & Raízes
>>> É premente reinventar-se
>>> Contraponto
>>> Aparições
>>> Palavra final
>>> Direções da véspera I
Blogueiros
Mais Recentes
>>> movimento respiratório
>>> Sobre a leitura dos clássicos
>>> UM VENTO ERRANTE
>>> O enigma de Michael Jackson
>>> Drummond: o mundo como provocação
>>> Cânticos à Rainha do Céu, por Walter Weiszflog
>>> O Capital no Século XXI, de Thomas Piketty, o livro do ano
>>> Entrevista com Jaime Pinsky
>>> Nos escuros dos caminhos noturnos
>>> Nos escuros dos caminhos noturnos
Mais Recentes
>>> A Gravidade e a Graça de Simone Weil pela Ece (1986)
>>> Trabalhismo e Socialismo no Brasil de Moniz Bandeira pela Global (1985)
>>> Ensaios Imprudentes de Roberto Campos pela Record (1986)
>>> Pedagogia da Autonomia de Paulo Freire pela Paz e Terra (2007)
>>> A ditadura Escancarada de Elio Gaspari pela Companhia das letras (2004)
>>> Revista Matraga 29 - Estudos Linguísticos e Literários de Ana Lucia de Souza Henriques (edição) pela Instituto de Filosofia e Letras - UERJ (1986)
>>> Planeta--177--curas-o avanço da radiestesia. de Editora tres pela Tres (1987)
>>> Planeta--405--atletas da mente. de Editora tres pela Tres (2006)
>>> A Civilização do Espetáculo de Mario Vargas Llosa pela Objetiva (2013)
>>> Planeta--261--o budismo conquista o ocidente. de Editora tres pela Tres (1994)
>>> Planeta--320--explorando a quarta dimensao. de Editora tres pela Tres (1999)
>>> Até Eu Te Encontrar de Graciela Mayrink Rold pela Aa (2011)
>>> O Temor do Sábio de Patrick Rothfuss pela Arqueiro (2011)
>>> O Jogador Nº 1 de Ernest Cline pela Leya (2015)
>>> Planeta--122--presidios naturalistas. de Editora tres pela Tres (1982)
>>> Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley pela Biblioteca Azul (2014)
>>> Os Pilares da Terra de Ken Follett pela Rocco (2012)
>>> Me Chame Pelo Seu Nome de André Aciman pela Intrínseca (2018)
>>> A Cabana de William P. Young pela Arqueiro (2008)
>>> Morte e Vida de Charlie St. Cloud de Ben Sherwood pela Novo Conceito (2011)
>>> O Guardião de Memórias de Kim Edwards pela Arqueiro (2007)
>>> O camarote vazio de Josué Montello pela Nova Fronteira (1990)
>>> Planeta--321--sabedoria eterna-a mensagem universal de jesus. de Editora tres pela Tres (1999)
>>> Os Crimes da Luz de Giulio Leoni pela Planeta (2007)
>>> Premiers Dialogues de Platon pela Flammarion
>>> Significação, Revista de Cultura Audiovisual No. 27 outono-inverno 2007 de A. J. Greimas, Ana Amado et alli pela Usp (2007)
>>> No Caminho de Swann de Marcel Proust pela Abril (1979)
>>> Cleopatra de Christian-georges e schwentzel pela L&pm
>>> Rêde de Dormir, Uma Pesquisa Etnográfica de Luís da Câmara Cascudo pela Ministério da Educação e Cultura (1959)
>>> Acabou-se o que era doce. de Gepp e maia pela Jornal da tarde
>>> O assassinato de idi amin de Leslie watkins pela Edibolso s.a
>>> Os grandes atentados--3. de Editora tres pela Tres
>>> Uma História de Rabos Presos de Ruth Rocha pela Salamandra (1989)
>>> Histórias do Amor Maldito de Vários Autores pela Record (1967)
>>> A História de Vivant Lanon de Marc Cholodenko pela Brasiliense (1986)
>>> Oposição Operária -1920/1921 de Alexandra Kollontai pela Global (1980)
>>> Amar, Verbo Intransitivo de Mário de Andrade pela Villa Rica
>>> O Tiro Perfeito de Alfred Hitchcock pela Nova Época
>>> Tocaia Grande de Jorge Amado pela Record
>>> O Caminho da Tranquilidade de Dalai-Lama pela Sextante (2000)
>>> Ícone de Frederick Forsyth pela Record (1999)
>>> Mais que Amigos de Barbara Delinsky pela Bertrand Brasil (2002)
>>> T. N. T. Nossa Força Interior de Claude M. Bristol e Harold Sherman pela Ibrasa (1980)
>>> Ana Karênina de Leão Tolstói pela Abril Cultural (1971)
>>> O Senhor do Mundo de Julio Verne pela Matos Peixoto (1965)
>>> O Alquimista de Paulo Coelho pela Klick
>>> Diário de Giovanni Papini pela Nacional (1966)
>>> O Estoicismo Romano - Sêneca, Epicteto, Marco Aurélio de Reinholdo Aloysio Ullmann pela Edipucrs (1996)
>>> Complexo de Cinderela de Colette Dowling pela Melhoramentos (1995)
>>> Nada de Novo no Front de Erich Maria Remarque pela Abril Cultural (1981)
COLUNAS

Terça-feira, 12/2/2019
Um olhar sobre Múcio Teixeira
Celso A. Uequed Pitol

+ de 500 Acessos

Quem quiser falar sobre Múcio Teixeira para um portoalegrense não deve esperar grande reação. A única referência a ele mais ou menos conhecida da população da capital é a rua do bairro Menino Deus que leva o seu nome. Os conterrâneos do poeta não têm ideia de quem foi Múcio e nem do motivo pelo qual nomeia uma via de sua cidade natal. Sequer sabem, aliás, que era poeta; e, naturalmente, não sabem que foi um artista celebrado, considerado pelo crítico português Teixeira Bastos como “um dos primeiros poetas do Brasil” em seu tempo, dono de obra traduzida para vários idiomas e respeitada pelos pares e pelo público. Esses conterrâneos, que um dia o aplaudiram, parecem tê-lo esquecido. Mas eu, que também sou conterrâneo de Múcio, não o esqueci – e, se não posso exigir que os leitores de hoje o aplaudam, posso ao menos convida-los a lançar um olhar sobre ele. É o que pretendo fazer neste artigo.

Múcio Scevola Lopes Teixeira nasceu em Porto Alegre em 1857 (1858, segundo algumas fontes). Filho do militar e político Manuel Lopes Teixeira Júnior, passou a infância no Rio de Janeiro e voltou a Porto Alegre ainda muito jovem, a fim de estudar no prestigiado Colégio Gomes. A cidade tinha, então, apenas vinte mil habitantes. Durante a época de colégio, Múcio demonstra uma aptidão precoce para a poesia e, já aos quinze anos, publica seu primeiro livro, “Vozes trêmulas”. No ano seguinte, participa das reuniões da Sociedade Partenon Literário, associação fundada em 1867, sob a liderança de Apolinário Porto Alegre e José Antonio do Vale Caldre e Fião, para promover a literatura, as artes e as discussões sociais e políticas de relevo. Em 1875 publica “Violetas”; em 1877, “Sombras e Clarões”; e em 1880, “Novos Ideais”: até os vinte e dois anos somará dezesseis livros publicados. O currículo impressiona pelo tamanho e pela variedade: inclui, além de poesia, o romance, a crítica, o ensaio histórico, a biografia e a crônica. E a produção não para: em 1882 publica “Prismas e vibrações”, e em 1885 a coletânea “Hugonianas”, de traduções de poemas de seu mestre Victor Hugo. Ao mesmo tempo, escreve para jornais e revistas das cidades onde reside - Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador e Caracas, na Venezuela, exercendo, nesta última, a função de cônsul-geral do Brasil. Em Caracas, publica volumes em castelhano – algo pouco frequente, na época, para autores brasileiros - e recebe a grã-cruz do Libertador Simón Bolivar.

Múcio foi muito celebrado em toda parte. Na sequência de suas primeiras publicações, o jornalista Karl Von Koseritz via no jovem poeta um "talento robusto", enquanto o Visconde de Taunay, autor de "Inocência", elogiava o artista "espontâneo, verdadeiro, cheio de inspirações subjetivas". E o artista ganhou fama: em 1888, um entusiasmado Carlos de Laet dizia que a reputação de Múcio como grande poeta já não podia ser posta em dúvida. Mesmo um parnasiano como Raimundo Correia, que recriminava a filiação de Múcio a certa poesia de cunho social (algo frequente, aliás, no Partenon Literário do qual fizera parte), foi obrigado a reconhecer em "Primas e vibrações" a presença de "poesias esplêndidas, de formosura e sonoridade estranhas". Sílvio Romero, o mais importante crítico brasileiro da época, elogiou a abordagem realista da vida pampeana em "Flores do pampa”, opondo-as aos excessos formalistas dos parnasianos e seus "alexandrinos cheios de párias, de crimes esverdeados, de alcouces e barregas". Múcio, segundo ele, estava acima de tudo isso. O julgamento do crítico potiguar é claro: "Seu talento promete ainda mais".

A avaliação de Silvio Romero trazia, contudo, um aviso a Múcio: "Seu temperamento é e será sempre o de um poeta. Dificilmente tomará outra direção. Nem ele deve fugir ao seu destino; no meio do nosso pavoroso epigonismo literário, está predestinado a representar um grande papel". E Múcio, como veremos em breve, não prestou a devida atenção nesse aviso. Mas parecia ciente do destino mencionado por Romero. É o que podemos ler em seu poema de juventude “Profissão de fé”:

Fruto do amor dum justo e duma santa, Eu não podia ser senão poeta; Doirou-me o berço a estrela do profeta Por isso é que meu estro se alevanta

Logo a seguir, ele confessa: Quando nos versos meus a Musa canta, E arde a rima na estrofe predileta, Muita emoção incógnita e secreta Nas almas vibra....e os corações encanta!

Múcio guardou emoções incógnitas e secretas por muito tempo. Precisava conhece-las melhor; e, na poesia, não encontrou as respostas adequadas. Buscou-as, então, em outro caminho: o do ocultismo. Nessa altura, Múcio vive uma transformação: passa a chamar-se Barão Ergonte e dedica-se ao estudo da alquimia, da astrologia, das artes adivinhatórias e dos mistérios antigos e modernos. Em jornais e revistas já não publica contos, crônicas e poemas, mas sim colunas de adivinhação e artes mágicas: chega mesmo a lançar um almanaque sobre o tema. Em sua atuação como vidente, anuncia, por exemplo, a morte de Ruy Barbosa para 1911. Passa o ano, e mais outro, e mais outro: o jurista baiano só deixará este mundo em 1923. A profecia de Múcio não se realiza. A maioria de suas profecias não se realiza. Sob a capa de Barão Ergonte, cai primeiro em descrédito, e depois, no ridículo. Quem o conheceu como artista não escondia a amargura: o outrora entusiasmado Carlos de Laet, por exemplo, exorta o poeta recém-tornado profeta a deixar aquilo tudo e retornar aos versos: “Quando virdes uma profecia do Múcio, ride, a bom rir, porque será mais uma pilhéria. E fazeis comigo votos para que lhe passe a mania hierofântica. Nesse dia ganharíamos o brilhante poeta de outros tempos”.

Mas o riso dos outros não o incomoda. Em 1916, publica “Terra Incógnita”. Nesse livro, o poeta de outros tempos apresenta-se com um homem guiado pelos “espíritos imortais”, e a eles dedica os derradeiros versos que compõe. No texto de apresentação, intitulado “Gênese Espiritual”, retoma o itinerário percorrido a partir da infância e da juventude, quando descobre a vida de poeta, até a maturidade, quando a abandona: “E foi assim que eu, que tive os sonhos da poesia desde que saí do berço, tenho as visões do acordado, agora que vou me encaminhando para a cova”. Nesse caminho Múcio seguiu até o fim de sua vida, no dia 8 de agosto de 1926. O obituário do “Correio da Manhã” de 10 de agosto de 1926 noticiou o falecimento de um “vulto curioso” das letras brasileiras, dono de uma "vida incerta e irregular, cheia de altos e baixos", que "oferece uma sucessão de fatos pitorescos de tudo". Múcio, o poeta cujo talento tanto prometia, terminava seus dias como uma figura excêntrica, quase cômica. Seu enterro, de acordo com o jornal, “foi o mais pobre e modesto que se possa imaginar”.

O caminho escolhido por Múcio afastou-o dos leitores; afastou-o, também, da memória da posteridade. Mas essa não parece ser a única razão para o esquecimento de seu nome: alguns mencionam, por exemplo, a dificuldade em enquadra-lo fixamente dentro das correntes literárias de sua época. Outros falam em um problema político: sendo amigo de Dom Pedro II, permaneceu fiel ao imperador após a proclamação da República e não gozou da simpatia dos novos donos do poder. Os motivos são muitos; nenhum deles, razoável. Por isso, ao finalizar este breve percurso, renovo o convite para que o leitor lance um olhar, compreensivo e crítico, sobre a obra de Múcio Teixeira – e espero que, na memória de seus conterrâneos, ele passe a ser algo mais do que um nome de rua em Porto Alegre.


Celso A. Uequed Pitol
Canoas, 12/2/2019


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Cidadão Samba: Sílvio Pereira da Silva de Renato Alessandro dos Santos
02. No palco da vida, o feitiço do escritor de Cassionei Niches Petry
03. As Lavadeiras, duas pinturas de Elias Layon de Jardel Dias Cavalcanti
04. T.É.D.I.O. (com um T bem grande pra você) de Renato Alessandro dos Santos
05. As palmeiras da Politécnica de Elisa Andrade Buzzo


Mais Celso A. Uequed Pitol
Mais Acessadas de Celso A. Uequed Pitol
01. Dom Quixote, matriz de releituras - 8/3/2005
02. O Orkut é coisa nossa - 16/2/2006
03. A profecia de Os Demônios - 6/1/2005
04. Reflexões sobre a Liga Hanseática e a integração - 29/5/2018
05. O ensaísta Machado de Assis - 8/9/2006


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




GEOGRAFIA: O MUNDO EM TRANSIÇÃO - VOLUME ÚNICO - ENSINO MÉDIO
JOSÉ WILLIAM VESENTINI
ÁTICA
(2014)
R$ 39,91



O SONHO DE EVA
CHICO ANES
NOVO CONCEITO JOVEM
(2012)
R$ 23,28



O VAMPIRO LESTAT
ANNE RICE
ROCCO
(1999)
R$ 17,90



O MONGE E O EXECUTIVO
JAMES C. HUNTER
SEXTANTE/ GMT
(2018)
R$ 32,00
+ frete grátis



A NOITE DA MEMÓRIA
PÉRICLES EUGÊNIO DA SILVA RAMOS
ART
(1988)
R$ 30,00



O ENCONTRO DE LAMPIÃO COM SATURNINO NO INFERNO
LUIZ GONZAGA DE LIMA
LUZEIRO LTDA
(2016)
R$ 7,00



STRESS - VOCÊ PODE SER O PRÓXIMO - PREVINA-SE
JOÃO VILAS BOAS
PARADIGMA
(2010)
R$ 6,90



ENCONTROS, DESENCONTROS & REENCONTROS
MARIA HELENA MATARAZZO
GENTE
(1996)
R$ 25,00



LUZ E SOMBRAS
LUDWING WITTGWNATEIN
MARTINS FONTES - MARTINS
(2018)
R$ 15,00



A SELEÇÃO
KIERA CASS
SEGUINTE
(2014)
R$ 29,13





busca | avançada
28946 visitas/dia
1,0 milhão/mês