Um olhar sobre Múcio Teixeira | Celso A. Uequed Pitol | Digestivo Cultural

busca | avançada
84642 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Rosas Periféricas apresenta Labirinto Selvático e Ladeira das Crianças em novembro
>>> SESI-SP apresenta Filó Machado 60 Anos de Música em teatros de São Paulo e Piracicaba
>>> Clube do Conto outubro - Sesc Carmo - literatura infantojuvenil
>>> Projeto seleciona as melhores imagens de natureza produzida por fotógrafos de Norte a Sul do país
>>> Infantil com a Companhia de Danças de Diadema tem sessão presencial em Ilhabela e Caraguatatuba
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> Michael Dell on Play Nice But Win
>>> A história de José Galló
>>> Discoteca Básica por Ricardo Alexandre
>>> Marc Andreessen em 1995
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
>>> Uma história do Mosaic
>>> Uma história da Chilli Beans
>>> Depeche Mode no Kazagastão
>>> Uma história da Sambatech
>>> Uma história da Petz
Últimos Posts
>>> Mundo Brasil
>>> Anônimos
>>> Eu tu eles
>>> Brasileira muda paisagens de Veneza com exposição
>>> Os inocentes do crepúsculo
>>> Inação
>>> Fuga em concerto
>>> Unindo retalhos
>>> Gente sem direção
>>> Além do ontem
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Como no céu & Livro de visitas
>>> Drummond: Procura da Poesia
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> Preconceitos
>>> Quem é (e o que faz) Julio Daio Borges
>>> So much that was good but is gone
>>> Decálogo (Comentado) do Perfeito Contista, de Horacio Quiroga
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Patrícia Melo mergulha no ciúme e na loucura
>>> Sobre viver em qualquer lugar
Mais Recentes
>>> Economia da Consciência: Construindo Um Novo Paradigma Econômico a Partir dos Princípios da Física Quântica de Amit Goswami pela Goya (2015)
>>> A Plenitude Do Cosmos: A Revolução Akashica Na Ciência E Na Consciência Humana de Ervin Laszlo pela Cultrix (2018)
>>> A Revolução Mindfulness: Um guia para praticar a atenção plena e se libertar da ansiedade e do estresse de Sarah Silverton pela Alaúde (2018)
>>> Uma Amizade Com Deus - Um diálogo incomum de Neale Donald Walsch pela Sextante (2000)
>>> Teoria do conhecimento de Johannes Hessen pela Martins Fontes (2012)
>>> Introdução à epistemologia de Luiz Henrique de Araujo Dutra pela Unesp (2010)
>>> Exercícios d'alma: A Cabala como sabedoria em movimento de Nilton Bonder pela Rocco (2010)
>>> Tratado da Pedra Filosofal e a Arte da Alquimia de Santo Tomás de Aquino pela Isis (2015)
>>> Guia Prático para Redação Científica de Gilson L. Volpato pela Best Writing (2015)
>>> Emmanuel Bassoleil - Uma Cozinha sem Chef de J. A. Dias Lopes... et al. (Textos) pela DBA - Dórea Books and Art (1994)
>>> Psicologia da Evolução Possível ao Homem de P. D. Ouspensky pela Pensamento (2019)
>>> As Ciências das Religiões de Giovanni Filoramo pela Paulus (1999)
>>> Ordens do Executivo de Tom Clancy pela Record (1999)
>>> Airline Transport Pilot Test Prep 2019 de Asa Test Prep Board pela Aviation Supplies & Academics (2019)
>>> Enciclopédia Agrícola Brasileira - Vol 1 - A-B de Julio Sousa pela Edusp (1995)
>>> Rainbow de Tom Clancy pela Record (2000)
>>> Educação e Empreendedorismo de Carmen Luan de Castro Dias Coelho pela Clube De Autores (2018)
>>> Las Posturas Claves En El Hatha Yog - Vol 2 de Ray Long pela Blume-acanto-naturart (2009)
>>> Filosofia da ciência: Introdução ao jogo e a suas regras de Rubem Alves pela Loyola (2015)
>>> Coleção Rock’n’roll Hambúrguer, Sorvetes & Milk-shakes de Editora Melhoramentos pela Melhoramentos (2013)
>>> Carreiras Típicas de Estado de Regina Tamami Hirose pela Fórum (2019)
>>> Guia de Nutrição Desportiva de Nancy Clark pela Artmed (2015)
>>> The Accidental Universe: The World You Thought You Knew de Alan Lightman pela Vintage Books (2013)
>>> Menopausa - Alimentação Saudável de Wilson Maça Yuki Arie, Angela Maggio da Fonseca pela Atheneu (2018)
>>> Atendimento ao Trauma - Fundamentos, Condutas e Avanços de Átila Velho, Rafael Alencastro Ostermann pela Atheneu (2019)
COLUNAS

Terça-feira, 12/2/2019
Um olhar sobre Múcio Teixeira
Celso A. Uequed Pitol

+ de 16800 Acessos

Quem quiser falar sobre Múcio Teixeira para um portoalegrense não deve esperar grande reação. A única referência a ele mais ou menos conhecida da população da capital é a rua do bairro Menino Deus que leva o seu nome. Os conterrâneos do poeta não têm ideia de quem foi Múcio e nem do motivo pelo qual nomeia uma via de sua cidade natal. Sequer sabem, aliás, que era poeta; e, naturalmente, não sabem que foi um artista celebrado, considerado pelo crítico português Teixeira Bastos como “um dos primeiros poetas do Brasil” em seu tempo, dono de obra traduzida para vários idiomas e respeitada pelos pares e pelo público. Esses conterrâneos, que um dia o aplaudiram, parecem tê-lo esquecido. Mas eu, que também sou conterrâneo de Múcio, não o esqueci – e, se não posso exigir que os leitores de hoje o aplaudam, posso ao menos convida-los a lançar um olhar sobre ele. É o que pretendo fazer neste artigo.

Múcio Scevola Lopes Teixeira nasceu em Porto Alegre em 1857 (1858, segundo algumas fontes). Filho do militar e político Manuel Lopes Teixeira Júnior, passou a infância no Rio de Janeiro e voltou a Porto Alegre ainda muito jovem, a fim de estudar no prestigiado Colégio Gomes. A cidade tinha, então, apenas vinte mil habitantes. Durante a época de colégio, Múcio demonstra uma aptidão precoce para a poesia e, já aos quinze anos, publica seu primeiro livro, “Vozes trêmulas”. No ano seguinte, participa das reuniões da Sociedade Partenon Literário, associação fundada em 1867, sob a liderança de Apolinário Porto Alegre e José Antonio do Vale Caldre e Fião, para promover a literatura, as artes e as discussões sociais e políticas de relevo. Em 1875 publica “Violetas”; em 1877, “Sombras e Clarões”; e em 1880, “Novos Ideais”: até os vinte e dois anos somará dezesseis livros publicados. O currículo impressiona pelo tamanho e pela variedade: inclui, além de poesia, o romance, a crítica, o ensaio histórico, a biografia e a crônica. E a produção não para: em 1882 publica “Prismas e vibrações”, e em 1885 a coletânea “Hugonianas”, de traduções de poemas de seu mestre Victor Hugo. Ao mesmo tempo, escreve para jornais e revistas das cidades onde reside - Porto Alegre, Rio de Janeiro, Salvador e Caracas, na Venezuela, exercendo, nesta última, a função de cônsul-geral do Brasil. Em Caracas, publica volumes em castelhano – algo pouco frequente, na época, para autores brasileiros - e recebe a grã-cruz do Libertador Simón Bolivar.

Múcio foi muito celebrado em toda parte. Na sequência de suas primeiras publicações, o jornalista Karl Von Koseritz via no jovem poeta um "talento robusto", enquanto o Visconde de Taunay, autor de "Inocência", elogiava o artista "espontâneo, verdadeiro, cheio de inspirações subjetivas". E o artista ganhou fama: em 1888, um entusiasmado Carlos de Laet dizia que a reputação de Múcio como grande poeta já não podia ser posta em dúvida. Mesmo um parnasiano como Raimundo Correia, que recriminava a filiação de Múcio a certa poesia de cunho social (algo frequente, aliás, no Partenon Literário do qual fizera parte), foi obrigado a reconhecer em "Primas e vibrações" a presença de "poesias esplêndidas, de formosura e sonoridade estranhas". Sílvio Romero, o mais importante crítico brasileiro da época, elogiou a abordagem realista da vida pampeana em "Flores do pampa”, opondo-as aos excessos formalistas dos parnasianos e seus "alexandrinos cheios de párias, de crimes esverdeados, de alcouces e barregas". Múcio, segundo ele, estava acima de tudo isso. O julgamento do crítico potiguar é claro: "Seu talento promete ainda mais".

A avaliação de Silvio Romero trazia, contudo, um aviso a Múcio: "Seu temperamento é e será sempre o de um poeta. Dificilmente tomará outra direção. Nem ele deve fugir ao seu destino; no meio do nosso pavoroso epigonismo literário, está predestinado a representar um grande papel". E Múcio, como veremos em breve, não prestou a devida atenção nesse aviso. Mas parecia ciente do destino mencionado por Romero. É o que podemos ler em seu poema de juventude “Profissão de fé”:

Fruto do amor dum justo e duma santa,
Eu não podia ser senão poeta;
Doirou-me o berço a estrela do profeta
Por isso é que meu estro se alevanta

Logo a seguir, ele confessa:

Quando nos versos meus a Musa canta,
E arde a rima na estrofe predileta,
Muita emoção incógnita e secreta
Nas almas vibra....e os corações encanta!


Múcio guardou emoções incógnitas e secretas por muito tempo. Precisava conhece-las melhor; e, na poesia, não encontrou as respostas adequadas. Buscou-as, então, em outro caminho: o do ocultismo. Nessa altura, Múcio vive uma transformação: passa a chamar-se Barão Ergonte e dedica-se ao estudo da alquimia, da astrologia, das artes adivinhatórias e dos mistérios antigos e modernos. Em jornais e revistas já não publica contos, crônicas e poemas, mas sim colunas de adivinhação e artes mágicas: chega mesmo a lançar um almanaque sobre o tema. Em sua atuação como vidente, anuncia, por exemplo, a morte de Ruy Barbosa para 1911. Passa o ano, e mais outro, e mais outro: o jurista baiano só deixará este mundo em 1923. A profecia de Múcio não se realiza. A maioria de suas profecias não se realiza. Sob a capa de Barão Ergonte, cai primeiro em descrédito, e depois, no ridículo. Quem o conheceu como artista não escondia a amargura: o outrora entusiasmado Carlos de Laet, por exemplo, exorta o poeta recém-tornado profeta a deixar aquilo tudo e retornar aos versos: “Quando virdes uma profecia do Múcio, ride, a bom rir, porque será mais uma pilhéria. E fazeis comigo votos para que lhe passe a mania hierofântica. Nesse dia ganharíamos o brilhante poeta de outros tempos”.

Mas o riso dos outros não o incomoda. Em 1916, publica “Terra Incógnita”. Nesse livro, o poeta de outros tempos apresenta-se com um homem guiado pelos “espíritos imortais”, e a eles dedica os derradeiros versos que compõe. No texto de apresentação, intitulado “Gênese Espiritual”, retoma o itinerário percorrido a partir da infância e da juventude, quando descobre a vida de poeta, até a maturidade, quando a abandona: “E foi assim que eu, que tive os sonhos da poesia desde que saí do berço, tenho as visões do acordado, agora que vou me encaminhando para a cova”. Nesse caminho Múcio seguiu até o fim de sua vida, no dia 8 de agosto de 1926. O obituário do “Correio da Manhã” de 10 de agosto de 1926 noticiou o falecimento de um “vulto curioso” das letras brasileiras, dono de uma "vida incerta e irregular, cheia de altos e baixos", que "oferece uma sucessão de fatos pitorescos de tudo". Múcio, o poeta cujo talento tanto prometia, terminava seus dias como uma figura excêntrica, quase cômica. Seu enterro, de acordo com o jornal, “foi o mais pobre e modesto que se possa imaginar”.

O caminho escolhido por Múcio afastou-o dos leitores; afastou-o, também, da memória da posteridade. Mas essa não parece ser a única razão para o esquecimento de seu nome: alguns mencionam, por exemplo, a dificuldade em enquadra-lo fixamente dentro das correntes literárias de sua época. Outros falam em um problema político: sendo amigo de Dom Pedro II, permaneceu fiel ao imperador após a proclamação da República e não gozou da simpatia dos novos donos do poder. Os motivos são muitos; nenhum deles, razoável. Por isso, ao finalizar este breve percurso, renovo o convite para que o leitor lance um olhar, compreensivo e crítico, sobre a obra de Múcio Teixeira – e espero que, na memória de seus conterrâneos, ele passe a ser algo mais do que um nome de rua em Porto Alegre.


Celso A. Uequed Pitol
Canoas, 12/2/2019


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Lisboa obscura de Elisa Andrade Buzzo
02. Cinemateca, Cinemateca Brasileira nossa de Elisa Andrade Buzzo
03. Filmes de guerra, de outro jeito de Ana Elisa Ribeiro
04. Arte sem limites de Fabio Gomes
05. Leminski, estações da poesia, por R. G. Lopes de Jardel Dias Cavalcanti


Mais Celso A. Uequed Pitol
Mais Acessadas de Celso A. Uequed Pitol
01. O ensaísta Machado de Assis - 8/9/2006
02. Um olhar sobre Múcio Teixeira - 12/2/2019
03. Dom Quixote, matriz de releituras - 8/3/2005
04. O Orkut é coisa nossa - 16/2/2006
05. A profecia de Os Demônios - 6/1/2005


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Das confusões desse Mundo de águas
Adelson José Fontes Santos
Angellara
(1996)



Terapia magnetica imas e campos magneticos para a saude
marcio bontempo
Alaúde
(2008)



Monsenhor Frederico Costa
João Santos
Conselho Estadual de Cultura
(1978)



The Faber Book Of Modern Fairy Tales
Sara Corrin
Faber And Faber Ltd
(1981)



X-Men Extra Nº131
Mike Carey
Panini Comics
(2013)



Acolhimentos em Pernambuco - A Situação de Crianças e Adolescentes
Beatriz Guimarães Organizadora
Inst Bras Pró-cidadania
(2011)



Revista Força Aérea Nº 20
Diversos Autores
Action
(2000)



Reforma Econômica para o Brasil
Abílio de Diniz - Coordenação
Nobel
(1990)



Depressão: Causas, Consequências e Tratamentos
Izaias Claro
O Clarim
(2005)



Ouvindo Vozes
Edmar Oliveira
Vieira & Lent
(2009)





busca | avançada
84642 visitas/dia
1,8 milhão/mês