O Orkut é coisa nossa | Celso A. Uequed Pitol | Digestivo Cultural

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Quinta-feira, 16/2/2006
O Orkut é coisa nossa
Celso A. Uequed Pitol

+ de 11100 Acessos
+ 2 Comentário(s)

A farta divulgação que a mídia brasileira tem dedicado ao Orkut faz parecer que estamos diante de um fenômeno mundial. Quem lê matérias dos nossos jornais sobre as facilidades que o site criado por um webmaster turco trouxe para quem quer encontrar amigos, arranjar namorada ou até mesmo emprego acredita que o mesmo acontece no mundo inteiro, especialmente na Europa e nos EUA, onde a internet é muito mais difundida do que entre nós. Por essa via, pensa também que estamos diante de uma ferramenta capaz de mudar até mesmo o conceito atual de internet e, conseqüentemente, toda a comunicação entre seres humanos.

Antes de fazer qualquer afirmação comparativa como esta devemos elencar dados sobre o mesmo objeto e relacioná-los de modo a extrair uma conclusão. Isto é, devemos comparar. Tomemos então uma estatística, a da porcentagem de usuários do Orkut por nacionalidade. Os brasileiros lideram a lista, com 73%. Logo vêm os americanos, com 11%, seguidos dos iranianos, com 2,7%, dos paquistaneses, com 2,4% e dos indianos, com 2,16%. Do sexto lugar para baixo os percentuais são inexpressivos, mesmo em se tratando de países populosos como Inglaterra ou Japão. Notem ainda que, dos cinco primeiros, há apenas um país do chamado Primeiro Mundo, e este é um dado importante para quem quer avaliar a importância mundial de qualquer coisa. O país em questão são os Estados Unidos, e seria estranho se não estivesse na lista, afinal, 160 milhões de americanos têm acesso à internet; ou seja, os milhões de orkuteiros de lá não têm grande peso dentro de seu próprio país. Os quatro países restantes não têm grande inserção econômica e cultural no mundo - à exceção da Índia, que, neste campo, praticamente empata conosco -, além de estarem longe dos dois primeiros. É muito pouco, portanto, para se falar em febre internacional. Mas é mais do que suficiente para afirmarmos, desta vez categoricamente, que o Orkut é um fenômeno brasileiro. Ou que só é um fenômeno no Brasil.

Não faltam razões para tentar explicá-lo. Para ficarmos no campo das estatísticas, podemos começar citando a do tempo de uso da internet. Nesse quesito, os brasileiros são líderes mundiais, e os americanos, ficam, novamente, com o segundo lugar. Quanto maior o tempo de uso, maior é, naturalmente, a quantidade de sites acessados. A questão é que, apesar de permanecerem diante do computador praticamente o mesmo tempo dos brasileiros e contarem com grande parte dos usuários de internet em todo o mundo, os americanos continuam atrás de nós. E isso não é tudo. Nos perfis de estrangeiros, na seção onde aparecem os contatos, há quase sempre um brasileiro, não raro o que o convidou para fazer parte do serviço. Somos, além de tudo, grandes embaixadores do Orkut.

O que não ajuda a nos fazer populares lá dentro. Na mesma razão em que cresce o número de brasileiros dentro do Orkut aumentam as reclamações dos usuários de outros países contra a nossa presença por lá. São, em sua maior parte, europeus e americanos, cansados de criar comunidades sobre seus assuntos preferidos e serem surpreendidos por interessados brasileiros que insistem em escrever em português e, impondo-se pelo número, acabam por deixar o inglês de fora. Como vingança, criam comunidades contra nós. Uma delas, chamada "WTF, A Crazy Brazilian Invasion?", moderada pelo americano de origem russa Gera Dikarev, tem nada menos do que 1500 membros. Há outras menores, e muitas delas francamente ofensivas e até racistas. As reclamações variam de tom, mas se reduzem a alguns pontos básicos. Em resumo, dizem que somos desordeiros, que insistimos em falar em português mesmo quando educadamente alguém pede que usemos o inglês - e que, quando falamos, falamos mal -, que roubamos perfis de usuário, que tratamos mal aos outros e, por fim, que somos exibicionistas, falsos e nossas mulheres são fáceis. Essa última, feita por mulheres estrangeiras, deve derivar dos flertes orkutianos entre europeus casados e brasileiras, cada vez mais comuns.

Um observador atento notará que as críticas que os gringos do Orkut nos fazem são exatamente as mesmas feitas pelos gringos que nos conhecem em carne e osso, e aí está a razão pela qual essa tal "invasão louca de brasileiros", de que fala Dikarev, não se explica pelos números. Nossos vícios - e também as nossas virtudes - se encaixam perfeitamente nos espaços em branco que o Orkut destina para serem preenchidos. A ferramenta que se apresenta como "um ambiente de confraternização, onde é possível fazer novos amigos e conhecer pessoas que têm os mesmos interesses" atende aos anseios do "homem cordial", de Sérgio Buarque de Holanda. "Cordial" vem do latim "cors", "coração". É o homem que reage com o coração, e não com a razão, às circunstâncias da vida. É incapaz de manter relações sociais impessoais, como as que mantém com o Estado e a lei, e, por isso, qualquer infração é relativizada. Por outro lado, ele dá tapinhas nas costas, sorri facilmente, abraça, ama, mas quer que esperem dele qualquer ato heróico ou sacrifical: prefere a simpática superficialidade aos conflitos das relações profundas. Incomoda-lhe a solidão, a introspecção, a análise lenta dos acontecimentos; gosta da presença de amigos, da casa cheia, das festas, do ato impensado, da esperteza em detrimento da análise em profundidade e da originalidade, de mostrar-se bom, simpático, inteligente e bonito - de mostrar-se, enfim. Por isso enchemos nosso perfil de usuário de fotos com decotes e roupas coladas, criamos comunidades do tipo "eu sou..." ou "eu tenho..." e convidamos pessoas para entrar no Orkut e serem nossos amigos com a mesma facilidade com que abrimos a porta de nossa casa para recém-conhecidos. E, aqui fora como lá dentro, desrespeitamos leis, relativizamos todo comportamento equivocado e nos achamos o máximo por isso.

Não que isso seja próprio somente dos brasileiros. A diferença é que tais características não se constituem, pelo menos nos europeus e nos americanos do Norte, em um ethos nacional próprio, e muito menos na imagem idealizada de um herói coletivo, como a do malandro entre nós. A facilidade com que o Orkut nos conquistou e se tornou um fenômeno brasileiro deu-se justamente porque ele fornece os canais para que tudo isso se manifeste, para desespero dos recatados europeus e americanos, que queriam apenas um meio de conversar amigavelmente. O mesmo aconteceu com o futebol, o carnaval ou qualquer outra coisa criada por gringos cintura-dura que o brasileiro tenha contaminado com sua inimitável batucada.


Celso A. Uequed Pitol
Canoas, 16/2/2006


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
15/2/2006
14h40min
De tudo que você escreveu o que me pareceu ser a grande sacada é dizer que o Orkut é um fenômeno BRASILEIRO. É curioso como muitas pessoas tentaram o Multiply e outros similares, desistiram e sempre a explicação dada para a desistência era a mesma: "não tem ninguém lá". Ou seja, uma das maiores razões do Orkut ser um "fenômeno" é porque, aparentemente, "todo mundo está lá" - todos os brasileiros on-line do país. É também impressionante como os piores defeitos do brasileiro se destacam - e muito - no Orkut. São esses mesmos defeitos que encheram o Orkut de brasileiros que estão agora, ironicamente, causando a evasão de brasileiros do Orkut.
[Leia outros Comentários de Daniela Castilho]
16/2/2006
00h12min
Eu, particularmente, vejo o ORKUT com muita reserva. Sim, vi muitos brasileiros agredindo outros sem razão e principalmente pq brasileiro chama qualquer um e não somente gente conhecida. Tem até um site que faz isso pelo usuário, sem que ele precise conhecer alguém no ORKUT prá ser chamado. Meu trabalho principal no ORKUT hoje é treinar meu inglês, lidar contra o SPAM e sair de comunidades sem função além de joguinhos. No fundo o ORKUT "brasileiro" tem que ser muito peneirado por quem quiser encontrar conteúdo. Talvez a única comunidade que realmente me faça entrar lá seja um clube de leitura e comentários.
[Leia outros Comentários de Eurandi Corvello]
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