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Domingo, 6/1/2019
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Senhor do Corpo e da alma - poema

Estando eu, também angustiado,
Desolado com os haveres da vida.
Senhor onde estás que não respondes?
Te busquei em outros lugares,
Eu já nem me lembro aonde.

Uma voz veio, não vi de onde,
Por quem procuras nesse lugar?
Falava doce, tal qual o mel,
O caminho é longo e muito árido,
Pega o teu fardo e vás a Israel.

Chegando a Terra Santa,
Perguntei: aonde o Mestre encontrar?
Uma voz soprou em meu ouvido,
Segues o caminho de Nazaré,
É provável que Ele, lá tenha nascido.

Chegando a essa cidade,
Procurei-O sem descanso,
O meu corpo do normal já ia além,
Uma voz sussurra de mansinho,
Tomas o teu caminho no sentido de Belém.

Fui ao campo dos pastores,
Nas igrejas, cavernas e estábulos,
Busquei-O em todo o lugar,
Com fé esperança e caridade,
Mesmo assim, não O encontrei por lá.

Foi quando de um passante ouvi,
Jesus encontra-se no templo,
Na cidade de nome Jerusalém,
Tomei o caminho certo,
No templo, já não havia ninguém.

Procurei por toda a Jerusalém,
Lá, Ele também não estava,
Uma voz murmurava junto a mim,
Vai até a margem direita do Jordão,
Lá, a tua busca terá fim.

Andei rio acima, rio abaixo,
No cansaço do corpo, dormi uma noite vã,
Pela manhã cedinho, orei antes do desjejum,
A voz me falou novamente branda,
Segue o caminho, que leva a Cafarnaum.

Tomei as minhas sandálias,
Me pus na estrada a caminhar,
Uma longa Jornada, a cidade eu cheguei,
Indagava a uns e a outros,
Em Cafarnaum também não O encontrei.

Em conversa, escutei de pescadores,
Que ali se aglomeravam,
Eles discutiam, trocando suas ideias,
Sugeriam que Jesus pescava,
Nas águas do mar da Galileia.

Naveguei por sobre as águas,
Mas, Jesus não avistei,
Disse um velho pescador,
Segue a trilha de Emaús,
Lá Jesus prega o amor.

Mas lá naquela aldeia,
O Cristo não se encontrava,
A voz: prossiga a tua andança,
Segue pelos caminhos do deserto,
Ao monte das bem-aventuranças.

Uma multidão havia,
Mas o Mestre não encontrei.
Todos, entoavam um louvor,
Por entre os sons, a voz me sussurrava,
Toma as veredas, vai ao monte Tabor.

Quando o topo do monte eu alcancei,
Bem cansado e abatido,
Do peito um gemido e densas emoções,
No íntimo ouvi a voz dizendo,
Segue agora ao cume das tentações.

Como num passe de mágica,
No topo do monte eu me encontrei,
Muito procurei e muito chorei também,
A voz me foi muito incisiva,
Toma o caminho e volta a Jerusalém.

Percorri pelas vias dolorosas,
Até chegar ao monte do calvário,
Lá estava apenas uma cruz,
Mas alguém sussurrando me levava,
Para o tumulo do meu Senhor Jesus.

Adentrei por entre pedras,
Pensando encontrar o meu Senhor.
Senti em meu corpo um arrepio.
Olhei fundo ao sepulcro,
Mas ele já se encontrava vazio.

Senti na alma um calafrio,
Enquanto virava as costas,
Do tumulo ao pé da cruz ouvi o sim.
Te buscando em todos os lugares,
Enquanto estavas sempre em mim.

Daquela voz eu ouvia,
O Senhor Deus está em todas as partes,
Os atos perfeitos e imperfeitos são a cruz,
Para partilhar do amor conosco,
Ressuscitou o nosso Senhor Jesus.

Feitosa dos Santos

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Postado por Blog Feitosa dos Santos - Prosas & Poemas
6/1/2019 às 19h16

 
Fotogenia

Minha
formalidade,

mera
consequência
de

inalcançável
informalidade

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Postado por Metáforas do Zé
20/12/2018 às 12h34

 
É Natal

Mais um ano que passa, mais uma página virada, mais uma renovação de esperança e, cada um a caminhar o seu caminho.

- E você como vai? - Vou indo... - como Deus quer...

Assim, entra ano e sai ano como Deus quer. Não mudamos em nada. Não creio ajudarmos a ninguém mudar para melhor, sem antes mudar a nós mesmos.

Ajudar a virar a página do outro, incentivar na renovação de sua esperança e caminhar de mãos dadas em seus caminhares, faz parte da verdadeira mudança em cada um de nós.

Cobrar desse ou daquele, sem contribuir com nada, não ajuda a mudar coisa nenhuma. Não muda o outro e tão pouca a quem cobra a mudança.

Verdadeiramente o mundo só vai mudar, quando cada indivíduo reconhecer em si a necessidade de mudança, para só depois tentar mudar o mundo e consequentemente mudar o outro.

O Natal é uma reflexão interior, para o reconhecimento de si mesmo no outro. Assim fez o menino Jesus da sua infância até a sua vida adulta. Não vamos esquecer os exemplos deixado por Ele, na curta, mas intensa pregação a honestidade, comprometimento e amor para com o próximo e para consigo mesmo.

Um novo e feliz Natal para todos.

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Postado por Blog Feitosa dos Santos - Prosas & Poemas
19/12/2018 às 18h53

 
Canções de amor

Queridos amigos e leitores,
Será uma grande alegria encontrá-los
no lançamento do meu livro
CANÇÕES de AMOR
19 de dezembro
Livraria Prefácio
Rua Voluntários da Pátria, 39, Rio de Janeiro/ RJ
a partir das 19 horas

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Postado por Blog da Mirian
17/12/2018 às 21h50

 
Ser pai, sendo filho - poema

Todos nós envelhecemos,
Pais, filho e filha envelhecem,
Enquanto os filhos voam,
Os país rezam uma prece,
Um dia, rezem eles aos seus,
Como pai, rezo aos meus,
Porquanto o corpo obedece.

Que sabem os filhos dos pais?
Muito pouco creio eu,
Os pais sabem dos filhos,
Tudo o que aconteceu,
Dos choros às travessuras,
Dos aconchegos e ternuras,
Neles, isso tudo se perdeu.

É bom que os filhos saibam,
Que seus pais foram criança,
Embora em tempo passado,
Ficou preso à lembrança,
Como eles, também voaram,
Foram dinâmicos e cansaram,
Mas carregam a esperança.

Quando o filho, se faz filho atuante,
Preserva bem os seus pais,
Quando eles vão embora,
Partem para nunca mais,
Só resta aos filhos a saudade,
De quem pela eternidade,
Serão os seus ancestrais.

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Postado por Blog Feitosa dos Santos - Prosas & Poemas
5/12/2018 às 18h20

 
A massa não entende

Se a leitura de poesia, atualmente, é algo raro, o que dirá das suas análises? Mais do que raro, é tormentoso; e com razão. Especialistas pululam para lastimar a falta de interesse, ora acusando o capitalismo, ora o comunismo, ora a sociedade secreta dos reptilianos, pela responsabilidade. Entretanto, é importante não deixar fora de foco a própria produção artística, assim como o modo que seus estudiosos e críticos falam dessas obras. Como bem observa Rodrigo Gurgel, em “Reflexões no império dos filisteus” (Crítica, literatura e narratofobia):

“Se o espaço diminui cada vez mais – e o número de publicações dedicadas à literatura escasseia –, isso se deve não só a certas políticas editorias ou questões de ordem sociológica, mas também aos próprios críticos, que afastam os leitores ao incorporar a linguagem hermética da academia e evitar fazer julgamentos claros.

O crítico assinala o teor altamente especializado da crítica literária, que se tornou comum nos idos de 1970 em diante, e facilitou a fuga do público para outros setores, como a música pop ou produções mais digestivas. A crítica literária deixou de exercer sua função básica, criticar, julgar – escudada em discursos politicamente corretos –, para exibir um virtuosíssimo teórico agradável aos ouvidos áridos dos departamentos de teoria literária.

Contudo, a crítica literária responde a um outro fator, que é a especialização da própria arte. Como falei na abertura dessa crônica, a poesia – e as demais formas de arte – não estão na boca do público. Nesse sentido, o filósofo espanhol Ortega y Gasset, em “A desumanização da arte”, segue dessa premissa – de que a arte moderna é impopular e, mais do que isso, antipopular – dividindo o público entre os que a compreendem e os que não: “Não se trata de que a maioria do público não goste da arte moderna enquanto uma pequena parte, sim. O que acontece é que a maioria – a massa – não a compreende”. E isso ocorre porque a arte moderna passou por um processo de desumanização.

De acordo com o filósofo espanhol, a arte é uma forma de olhar para o mundo, como se olhássemos para uma paisagem através do vidro de uma janela. A paisagem é a própria realidade, que não se restringe à concretude, mas abrange o universo humano: pode representar a lida com sentimentos, valores, ações, representações do campo sagrado ou experiências místicas. O vidro, por sua vez, é o modo como o olhar é direcionado para percebê-la; é o análogo da técnica artística. Quanto mais límpido o vidro mais evidente é a paisagem, da mesma forma que por séculos os artistas empregaram técnicas que permitiam representar seus objetos com maior fidedignidade, ou torná-los mais claros.

Contudo, num determinado momento, a realidade deixou de ser o foco principal. “Não é que o pintor caminha torpemente em direção a realidade, mas vai contra ela”. Noutras palavras, a paisagem adquire uma importância menor, pois o vidro da janela – a técnica artística – tornou-se o fator preponderante. Isso foi apresentado como sendo a autonomia do campo artístico, que não depende mais de nenhuma realidade externa e pode sobreviver por si mesmo. O poeta francês Théophile Gautier sistematizou a proposta no conceito, hoje bastante conhecido, de “arte pela arte”. A poesia tornou-se “a álgebra superior das metáforas”, segundo Ortega y Gasset.

Por um lado, a conquista dessa autonomia foi compreendida como uma libertação da Arte, pois estava livre da realidade, livre de convenções, livre do universo humano e poderia voltar-se ao seu próprio. Por outro lado, isso acarretou numa excessiva atenção à técnica, culminando na “desumanização da arte”, da qual fala Ortega y Gasset e sua consequente incompreensão por parte do público. Isto é, como a arte tem a si mesma como referencial e faz isso por meio de técnicas profundamente especializadas, quem não possui esse domínio permanece excluído, ou tem mais dificuldade de compreensão.

Alguns filósofos marxistas celebraram essa característica interpretando-a como se fosse uma forma de resistência a uma sociedade capitalista, burguesa, “hostil à arte, pois não gera riqueza”. Contudo, há de se reconhecer que não apenas os opressores ficaram de fora, como também os oprimidos. “O que acontece é que a maioria – a massa – não a compreende”.

Os artistas se tornaram seus próprios críticos, muitos se dedicando à reflexão filosófica sobre o campo estético, criando sistemas teóricos para justificar suas obras – vide Paul Valery, na França – ou alguns poucos acólitos que passaram pelo processo de iniciação e aprenderam o vocabulário esotérico – como o próprio Paul Valery em relação a Stephane Mallarmé. A crítica tornou-se fechada em si mesma, munida de um arsenal teórico desconhecido por aquele que frui da Arte porque é, antes de tudo, humano:

“Ora, o leitor dos cadernos culturais não quer receber, a cada semana, pílulas estruturalistas ou conceitos derridianos. E não quer chegar ao ponto final do texto sem saber o que, exatamente, o articulista pensa. Quer e precisa de uma crítica que se disponha à tarefa de intermediar o diálogo entre a obra e ele, o leitor. Portanto, se a crítica deseja recuperar seu espaço, deve, antes de tudo, reaprender a respeitar o leitor” (Rodrigo Gurgel, “Reflexões no império dos filisteus”, p. 41)

Com isso, os artistas que esnobam tudo aquilo que “não é Arte”, mesmo que se apresentem como politicamente democráticos, são estilisticamente elitistas ao pressuporem um arsenal teórico para a fruição, além de facilitarem a fuga do público para outras instâncias.

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Postado por Ricardo Gessner
2/12/2018 às 17h31

 
ARCHITECTURA

Talvez por gosto talvez por teimosia

ergui neste deserto a moradia


Na casa um girassol alucinado

revive em flor delírios do passado


Neste porão oculta-se em degredo

uma finada infância com seus medos


Ali repousam agora as velhas musas

na tessitura dos véus que encobrem as rugas


Numa xícara de arte em porcelana

me fitam gueixas de longas pestanas


E na janela aberta para a rua

vejo São Jorge e seu dragão na lua


De tinta e de papel minha morada

ora aparece e logo se apaga


Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Impressões Digitais
1/12/2018 às 10h41

 
Os Efeitos Colaterais do Ano no Mundo


O mundo nasceu forjado no caus e na selvageria, onde os primeiros homens tiveram que travar lutas pela existência com animais vorazes e após sua extinção, iniciaram batalhas entre si por territórios, divergência de crenças, diferença de povos e todo tipo de motivo que sempre culminou em derramamento de sangue e maiores problemas que a bendita solução.

Claro que o planeta agora alcança melhores resultados com a sociedade moderna e uma diplomacia mais estabelecida entre as nações, porém nunca é o bastante pra sanar os atritos que surgem renovados por ideias que se perderam e não bastam na memória daqueles que não a viveram ao extremo.

Mas até que ponto algo é certo e cruzando a linha, passa a estar errado? Será que esse certo realmente já esteve correto um dia ou era só chamariz ganhando força pra se mostrar extremo mais adiante, no momento conveniente?

Tantas perguntas sem resposta e diferentes quadros que podem levar a diversos cenários entre a utopia e o caus completo. Quem sabe a Joia do Tempo no Olho de Agamotto tenha o resultado numa em milhões de possibilidades acontecendo aleatoriamente? kkk

Entretanto, é fato que uma ponta só existe porque há uma outra equivalente, uma balança, gangorra, que seja, equilibrando no meio os atos cometidos por ambas as partes. Dessa forma, a direita está mais forte porque a esquerda não soube dosar. Da mesma maneira que a guerra acontece porque quase ninguém tenta praticar a paz. Momentos em que tudo piora porque só assim pode melhorar, ressurgindo do fundo vingativos e violentos em forma de política, imigração em massa, terrorismo, catástrofes climáticas, guerras absurdas, modismos ensandecidos, etc.

As velhas lutas e batalhas morreram, esta é uma época velada. Porém, tão perigosa quanto a do início da Terra, há milhões de anos atrás. Cada vez mais a vista, dispersa e arriscada com os recursos tecnológicos, logística e poder de persuasão. Em praticamente todos os meios a propaganda é a alma do negócio e isso está mais que compreendido por aqueles que querem dominar.

Vivendo de novas armas, assim segue a humanidade. Ferindo como de costume pelos velhos objetivos de dominação. São só os efeitos colaterais desse ano no mundo, silenciosos e surreais devastando sorrateiramente até quando nem onde possa imaginar.



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Postado por Blog de Camila Oliveira Santos
30/11/2018 às 05h05

 
A Claustrofobia em Edgar Allan Poe - Parte I

Durante madrugadas ébrias, chuvosas e frias, passo a noite em claro e um livro aberto. Entre o clarão de um raio e estrondo de um trovão, não sei se o que aparece no vidro da janela é a silhueta de Edgar Allan Poe, com dentes assustadoramente alvos, rindo-se enquanto sobrepõe tijolos para fechar qualquer saída, ou se o livro que tenho nas mãos é de uma ave de rapina cuja assinatura é “Nunca mais”. Desperto. Era um pesadelo? Olho ao redor e vejo-me num quarto fechado, sem portas nem janelas...

Edgar Allan Poe é um dos meus autores de cabeceira. Chama-me a atenção em seus contos uma fixação pelos espaços interiores e pequenos. Por exemplo, em “O gato preto” o personagem principal, depois de assassinar sua esposa, para livrar-se do cadáver, empareda-o no porão de sua casa; em “O coração delator”, depois de assassinar o velho companheiro, esconde o corpo debaixo do assoalho. Em ambos os contos, diga-se de passagem, a estrutura é bastante parecida, sendo vários os elementos em comum: a fixação do personagem pelo olhar (do gato no primeiro, do velho no segundo); um estado de clara perturbação mental do narrador-personagem; sons perturbadores, ora provindos da mente perturbada do narrador (o bater do coração do velho), ora das próprias condições situacionais (o miado do gato, que o narrador emparedou sem perceber junto com o cadáver).

Tenho comigo uma hipótese: acredito que esse “espaço fechado” é uma espécie de personagem que circunda, ou melhor, assombra inúmeros dos contos de Poe, mas que não tem nome e muitas vezes é o responsável pelo tom – para utilizar conceito do próprio Poe – do texto, ou até mesmo por gerar sua unidade de efeito. De tão evidente, passa despercebido. Este personagem é o “claustro”. Digo aqui “claustro” por falta de termo melhor; na verdade, penso nas quatro paredes fechadas que, mais do que seu sentido literal, funciona como uma espécie de arquétipo.

Em “O barril de Amontillado”, Montresor – o narrador-personagem –, amargurado e rancoroso por certas injúrias cometidas por Fortunato, tece uma armadilha para abandoná-lo numa câmara subterrânea, supostamente um depósito de vinhos onde haveria um “barril de Amontillado”. Provavelmente o conto é a principal fonte – ou barril? – que Sir Arthur Conan Doyle bebeu para escrever “A nova catacumba” ou Lygia Fagundes Telles para escrever “Venha ver o pôr do sol”. Montresor numa emboscada acorrenta Fortunato nessa câmara, fecha-a e segue, satisfeito de sua vingança. Toda a ação de “O poço e o pêndulo”, como sugere o título, se passa numa espécie de poço – um espaço fechado e misterioso. E talvez o conto que chega ao mais extremo nesse sentido seja “O enterro prematuro”, que versa sobre a fobia do narrador em ser enterrado vivo.

Ora, diante desses poucos exemplos ensaio que, mais do que um recurso literário utilizado por Poe, é, como disse no início, uma espécie de personagem. Um fantasma que assombra manifestando-se sob as mais diversas formas. E o “claustro” não se restringe ao espaço em si, também é sua manifestação, ou melhor, sua influência ou ligação sobre os personagens, como em “A queda da casa de Usher” ou em “Ligeia”, uma espécie de Feng-Shui macabro. E mais ainda, o claustro nem mesmo precisa ser um espaço físico: pode se associar à mente perturbada do personagem.

Acredito que o “claustro”, agora transposto para a condição humana, é um arquétipo. Trata-se do horror em ser levado, sem perceber, por uma força misteriosa que oprime e não oferece nenhuma perspectiva de saída. Vivo, consciente e sem saída, num lugar para sempre desconhecido, sem saber como chegou ali. O medo da morte torna-se um afago. Sem portas, sem janelas. Sem passado nem futuro. Isso é o “claustro”. Também pode ser inferno, eterno-retorno, imutabilidade... Pode se dar num espaço literalmente claustrofóbico ou a céu aberto, nas circunstâncias aparentemente mais insignificantes, mas é onde o abismo se abre. Tudo depende das circunstâncias ou da fertilidade mental de quem (não) pensa. Poe, nesse sentido, expõe as entranhas da vida. Seguimos sem saber como ou para onde, sobre uma jangada que acreditamos existir, fixos em miragens que por nós mesmos se transmutam a cada momento. Quando acordamos, estamos ali, num lugar fechado, sem portas nem janelas. O último gesto é gritar para escutar a própria voz.

To be continued...

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Postado por Ricardo Gessner
25/11/2018 às 14h29

 
Casa de couro V

Mala grande? Era a casa imaginada navio.
Em águas do banho, eu imaginava oceanos.
Roteiros de ida-e-volta. Âncoras no quintal.
Na infância, a guerra era clarão. Fortalezas
de pedra (os quartos): minhas portas ao noviciado
das fábulas. Na cama desfeita, ficaram lágrimas
da despedida. No bolso do casaco,
o forro descosturado.

Casa de couro. Casa d’água.

Dentro da mala, eu construía balsas.
Minha morada flutuante.


(Do livro Travessias)

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Postado por Blog da Mirian
25/11/2018 às 11h00

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