Ensaio.Hamlet e a arte de se desconstruir quimeras | Thiago Herzog | Digestivo Cultural

busca | avançada
74045 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Férias de Julho: Museu Catavento e Teatro Sérgio Cardoso recebem a Cia. BuZum!
>>> Neos firma parceria com Unicamp e oferece bolsas de estudo na área de inteligência artificial
>>> EcoPonte apresenta exposição Conexões a partir de 16 de julho em Niterói
>>> Centro em Concerto - Palestras
>>> Crônicas do Não Tempo – lançamento de livro sobre jovem que vê o passado ao tocar nos objetos
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> As fezes da esperança
>>> Quem vem lá?
>>> 80 anos do Paul McCartney
>>> Gramática da reprodução sexual: uma crônica
>>> Sexo, cinema-verdade e Pasolini
>>> O canteiro de poesia de Adriano Menezes
>>> As maravilhas do modo avião
>>> A suíte melancólica de Joan Brossa
>>> Lá onde brotam grandes autores da literatura
>>> Ser e fenecer: poesia de Maurício Arruda Mendonça
Colunistas
Últimos Posts
>>> Oye Como Va com Carlos e Cindy Blackman Santana
>>> Villa candidato a deputado federal (2022)
>>> A história do Meli, por Stelleo Tolda (2022)
>>> Fabio Massari sobre Um Álbum Italiano
>>> The Number of the Beast by Sophie Burrell
>>> Terra... Luna... E o Bitcoin?
>>> 500 Maiores Álbuns Brasileiros
>>> Albert King e Stevie Ray Vaughan (1983)
>>> Rush (1984)
>>> Luiz Maurício da Silva, autor de Mercado de Opções
Últimos Posts
>>> PANFLETO AMAZÔNICO
>>> Coruja de papel
>>> Sou feliz, sou Samuel
>>> Andarilhos
>>> Melhores filme da semana em Cartaz no Cinema
>>> Casa ou Hotel: Entenda qual a melhor opção
>>> A lantejoula
>>> Armas da Primeira Guerra Mundial.
>>> Você está em um loop e não pode escapar
>>> A vida depende do ambiente, o ambiente depende de
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Entrevista com Chico Pinheiro
>>> Lá onde brotam grandes autores da literatura
>>> Efeitos periféricos da tempestade de areia do Sara
>>> Era uma casa nada engraçada
>>> Entrevista da Camille Paglia
>>> Vamos sentir saudades
>>> Sexo virtual
>>> The more you ignore me, the closer I get
>>> Padre chicoteia coquetes e dândies
>>> A poesia afiada de Thais Guimarães
Mais Recentes
>>> Nação e Trono - Páginas de História de Antonio Lobo Vilela pela Movimento (1964)
>>> Erros e Dúvidas de Linguagem de Vittorio Bergo pela Lar Católico (1959)
>>> Gabriels Ghost de Linnea Sinclair pela Bantam (2005)
>>> Reforma Agrária - Volume 13 - Nº 1 e 2 de Jacques Chonchol e Outros pela Abra (1983)
>>> Desculpem - Me, foi por Engano...! de Carlos Henrique da Cruz Lima pela Do Autor (2016)
>>> Passos na Eternidade de Norália de Mello Castro pela Rebra (2010)
>>> Porque é Importante Sonhar de Clóvis Tavares pela Gente (1999)
>>> É Tudo tão Simples de Danuza Leão pela Harper Collins Br (2011)
>>> O Papagaio Cibernético de Eduardo Almeida Reis pela Record (1984)
>>> Vertigo N. 18 de Vários pela Panini (2011)
>>> Uma Vida pelo Seguro - a Trajetoria de Helio Opipari de Ricardo Viveiros pela Azulsol (2015)
>>> A Espada na Pedra de White pela Hamelin (2013)
>>> Chan Tao de Jou Eel Jia; Norvan Martino Leite pela Plexus (1998)
>>> Carnavalescos e Suas Criações de Arte de Maria Apparecida Urbano pela Clube do Bem Estar (2017)
>>> Dueto / Duet de Vera Mazzieri / Gemiann Augustus pela Do Autor (1982)
>>> Fuel Testing - Laboratory Methods in Fuel Technology de Godfrey W. Himus pela Leonard Hill (1954)
>>> Código Zero Magazine - Ano 1 - Nº 5 de William H. Fear pela Ediex
>>> Juca Mulato de Menotti del Picchia pela Martins (1972)
>>> Imaginário de Labi pela N/d
>>> Simplesmente Helena de Carolina Kotscho pela Planeta (2007)
>>> Viabilidade Econômico - Financeira de Projetos de Outros; Ricardo Bordeaux Rêgo pela Fgv (2007)
>>> Os Fabulosos X-men - Revista Mensal - Numero 45 de Varios pela Abril (1999)
>>> Sociologia para o Ensino Médio - Terceira Parte de Nelson Dácio Tomaz pela Saraiva (2014)
>>> Perguntar Ofende ! Perguntas Cretinas Que Jornalistas Não Podem Fazer de José Nello Marques pela Disal (2003)
>>> Bad Blood de L. A. Banks pela St. Martins (2008)
COLUNAS >>> Especial Melhores de 2004

Quinta-feira, 30/12/2004
Ensaio.Hamlet e a arte de se desconstruir quimeras
Thiago Herzog

+ de 9500 Acessos
+ 1 Comentário(s)

Pro Walter Daguerre,
autor, teórico e diretor que gosta de desconstruir quimeras


Escrever, ler, roçar, apalpar, comer, cozer, trepar, fazer poesia, pesquisar, amar, odiar, se atirar, se retirar, pensar, se pensar, jogar, se jogar... Fazer experiências, jogar no caldeirão e mexer com uma colher de pau e esquentar com ferro quente. Errar e acertar ao mesmo tempo, indo ao âmago, indo à lama, ao fundo d'água. Isso é arte experimental, isso é a essência do teatro experimental ou contemporâneo ou de pesquisa (a nomeclatura que o senhor ou senhora desejar).

O foco neste teatro é a cena. A cena como resultado ou como processo das pesquisas que foram feitas na tentativa de compreensão do texto, da vida, dos valores, da própria cena e das relações feitas entre esses pontos. A cena é o lugar independente e a pedra fundamental da construção e da pesquisa de perguntas e respostas. É nela que se encontra a gênese das discussões colocadas.

Obviamente, isso a torna um caldeirão de imagens pensadas esteticamente, em que os valores de construção estética são propostos pelo próprio artista criador.

A cena preenche, lota, mas não encerra a discussão. Ela brinca, ensaia e desvia de certos pontos que estão presentes dentro dela mesma, tentando alcançar as várias possibilidades de pensamento e de realização.

Isto é teatro de pesquisa, é a cena, é a pesquisa cênica. É a arte que é criada de forma a alterar o texto, o projeto e o espectador em seus sensores e em sua consciência.

Pra tanto mudam-se os valores, não é de certo e errado, mesmo dentro do próprio espetáculo, que uma análise sobre ele deve tratar, mas sim da quantidade e da qualidade de jogo. Do grau de chafurdamento, de desvios, de erros pela busca incessante e insaciável de algo na cena. O erro é parte importante, é parte da experiência.

"Ensaio.Hamlet é uma aproximação. É mais uma série de perguntas e experiências do que uma montagem da peça-quimera, da peça desafio" (Enrique Diaz no texto do programa de Ensaio.Hamlet).

A Cia. dos Atores, dirigida por Enrique Diaz, comemorou este ano 15 anos de chafurdamento em teatro, com o grande acontecimento da temporada teatral (pelo menos carioca, um a priori que me deixa mais à vontade): o espetáculo Ensaio.Hamlet.

Na arena do espaço Sesc-Copacabana o que se viu foi a mais pura tentativa de, a partir de um texto considerado um dos maiores escritos na história da humanidade - uma "peça-quimera" - realizar a experiência da qual estamos tratando. Pensar e discutir vida, morte, religião... e principalmente teatro e as relações teatro-vida, teatro-emoção, teatro-cotidiano eram os objetivos da montagem.

Tendo estreado no dia 7 de abril de 2004, tinha no elenco Bel Garcia, César Augusto, Felipe Rocha, Fernando Eiras, Malu Galli e Marcelo Olinto. O espetáculo também cumpriu temporada em São Paulo.

Em cena víamos experimentações imagéticas de certas questões apontadas por Shakespeare e, a partir dele, apontadas pela própria companhia.

A encenação era composta por uma série de construções estéticas que permitiam a inclusão de discussões em cena: televisões e câmeras se misturavam a um turbilhão de objetos, como ventiladores, que eram levados de lugar pro outro quase o tempo todo, criando assim pequenos jogos, pequenos enredos; cenas projetadas em televisões criavam vários planos; um bife era "passado à ferro quente" etc.

Uma das questões centrais colocadas pela Cia. é o que seria a idéia de herói pra Shakespeare e pra eles mesmos. Assim, a interpretação de Hamlet era alternada por um ou mais atores em diferentes momentos, o que geraria e poria em cena as várias possibilidades do que isso significa. E o mesmo era feito com a idéia de personagem.

Na montagem havia também uma busca pela verdade muito comum à arte contemporânea. Ela não passa pela tentativa de iludir a platéia através da "imitação da vida" naturalista, mas por buscar a vida, assumindo a própria verdade e buscando uma verdade estética. A partir daí, encher a cena de vida, ou seja, de presença cênica.

O maior exemplo disso acontecia em uma das cenas mais importantes do espetáculo e do texto: o suicídio de Ofélia, que, louca e apaixonada por Hamlet, se joga no mar. A moça que faz Ofélia, naquele momento, é banhada de água por um balde de vidro, e a saída da água gerava um ruído que lembrava o som da respiração (ou da falta dela) pela boca cheia de uma pessoa que se afoga. O tradicional "glump, glump, glump" potencializando e poetizando a cena. Chegando a uma verdade cênica, a uma verdade estética.

As pesquisas cênicas o tempo todo tangenciavam uma investigação sobre o ser humano, o seu cotidiano, o seu emocional e a sua alma, trazendo de volta um pilar fundamental presente no teatro grego, a utilização do teatro pra transformação humana. Pros gregos, a tragédia provocava a catarse retirando o excesso de terror e piedade do homem presente e a comédia o excesso de ridículo e de escroto que há no homem.

Isto, em Ensaio.Hamlet, se dava de forma atualizada e muito mais complexa, como é comum e necessário à nossa era. Não sabemos mais quais são os pontos que queremos modificar diretamente e o espetáculo se torna também o momento da busca destes pontos que nos incomodam como humanos, ou dos pontos que inquietam nossa alma.

A montagem, assim, se tornava um ensaio no sentido literário e no sentido teatral, a experimentação anterior à forma final.

* * *

No caso do Rio de Janeiro, cidade em que moro, há outro detalhe em jogo, a quase total carência de espetáculos experimentais nos últimos cinco anos. Assim, a encenação tornou-se uma das poucas possibilidades deste tipo de trabalho ser visto aqui.

Uma exceção citável e bastante importante também é a direção artística de Bia Lessa no Teatro Dulcina. Bia apresentou, neste teatro, dois grandes espetáculos dirigidos por ela, que tinham o mesmo intuito investigativo e talvez a mesma importância de Ensaio.Hamlet: Medéia, de Eurípides, onde a pesquisa cênica da diretora recai sobre uma visão ou uma geração de importância à bruxa Medeia, à Medeia que é senhora dos quatro elementos, à Média que é mulher; e, em uma reestréia em grande estilo após 15 anos, Orlando, de Sergio Sant'Anna, uma adaptação do original de Vírginia Wolf.

Além disso, ela abriu o espaço pra outros espetáculos e criou o evento multimídia Inventário do Tempo, onde, nos últimos meses, se apresentaram experiências contemporâneas de outras áreas da arte, ou, pelo menos, não reconhecidas e não resumidas em experiências teatrais por excelência.

Outro caso que pode ser citado como fundamental para este tipo de trabalho de pesquisa, no ano de 2004, é o espetáculo Deve haver algum sentido em mim que basta, da Cia. Teatro Autônomo, também em comemoração aos 15 anos de sua existência. Na montagem dirigida por Jefferson Miranda, a Cia. partiu de improvisações sobre o ser humano e a vida e suas possibilidades para a construção de uma cena que acabava por implodir com a narrativa linear, explorando a intertextualidade e o simbolismo.

Essa maneira de trabalhar em arte, dita contemporânea ou experimental ou de pesquisa, é necessária pela própria renovação da arte e pra retomada do papel transformador da vida e do homem inerente a ela.

Precisamos em 2005 de muito mais experiências deste tipo, que pensem em fazer um teatro ou uma arte (como quiserem) que realmente diga, sinta e reflita. Roubando um termo de Denise Stoklos: que nos próximos 15 anos o teatro, pelo menos o carioca, deixe de ter uma série de passatempos e tenha uma outra série de "ganha-tempos" desse tipo.


Thiago Herzog
Rio de Janeiro, 30/12/2004


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A situação atual da poesia e seu possível futuro de Luis Dolhnikoff
02. Moro no Morumbi, mas voto em Moema de Julio Daio Borges
03. Teatro sem Tamires de Elisa Andrade Buzzo
04. Leminski, estações da poesia, por R. G. Lopes de Jardel Dias Cavalcanti
05. A Copa, o Mundo, é das mulheres de Luís Fernando Amâncio


Mais Thiago Herzog
Mais Especial Melhores de 2004
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
3/1/2005
10h45min
Achei muito interessante o seu texto, a sua posição, o seu entusiasmo. Precisamos de mais textos assim, claros, celebrativos! Bom ano de ganha-tempos!
[Leia outros Comentários de André Grabois]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Tragédia no Mar
Paul Gallico
Expressão e cultura
(1973)



A Lei do Triunfo - 16 Lições Práticas para o Sucesso - 42ª Edição
Napoleon Hill
José Olympio
(2016)



Uma Longa Viagem
Eric Lomax
Planeta do Brasil
(2014)



The Wake of Imagination
Richard Kearney
Routledge
(1988)



Contos e Lendas Orientais - Texto Integral
Malba Tahan
Pocket Ouro
(2011)



Impariamo Litaliano
Anita Salmoni
Orlandini
(1974)



O Senhor do Bem e do Mal
Richard Condon
Civilização Brasileira
(1970)



O Demônio e a Srta. Prym
Paulo Coelho
Objetiva
(2000)



Revista Subversa Literatura Luso-brasileira #02
Eduardo Lacerda
Patuá
(2016)



Volume 9: Meio Ambiente
Coletânea Gestão Pública Municipal
Cnm
(2004)





busca | avançada
74045 visitas/dia
1,8 milhão/mês