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Quinta-feira, 17/2/2005
Abel Sánchez, de Miguel de Unamuno
Ricardo de Mattos
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+ 1 Comentário(s)

"Mas sob ti está o teu desejo e tu o dominarás" (Gên. 4, 7)

"Não creio na liberdade humana, e aquele que não crê na liberdade não é livre. Não, não o sou! Ser livre é crer que se é livre!"
(Abel Sánchez
, pág. 105)

Miguel de Unamuno y Jugo nasceu no ano de 1.864 em Bilbao, cidade espanhola do País Basco. Teve por companheiras perpétuas a dedicação aos estudos e a Morte, o que lhe permitiu trilhar dois caminhos. Estudioso nato, progrediu no magistério desde a cátedra de grego até alcançar a reitoria da Universidade de Salamanca - a funcional e a honorária. Textos ficcionais, ensaísticos e poéticos saíam aos montes de sua pena. Prova da fecundidade da escrita é o rol de suas obras com mais de oitenta títulos. Passando ao articulismo político, sabia-se mais influente que deputados e senadores da Espanha. Apesar de apartidário, sofreu perseguições, foi destituído da reitoria, condenado e exilado. Já a Morte foi uma das provocadoras da crise religiosa sofrida por ele em 1.897. Aparta-se da linha de otimismo socialista que seguia e entrega-se à analise da oposição entre Racionalidade e Religiosidade. Se intimamente ansiava pela crença em Deus, sua formação impedia-o de aceitar uma Fé desamparada de sustentação racional. Tudo isso porque não conseguia deixar de atormentar-se com a idéia da morte física ser o fim definitivo da existência humana. Uma das conclusões a que chegou foi que cada indivíduo traz no íntimo um eterno campo de batalha entre Fé e Razão, pois a luta é um meio de associação entre elas e esta associação agressiva fornece o sustento mútuo. Certamente ele teria muito a meditar sobre uma das mais importantes cartas-encíclicas de João Paulo II, a Fides et Ratio, que anuncia: Fé e razão são como que duas asas que levam o homem ao conhecimento de Deus ... Este Kierkegaard espanhol e controverso faleceu no ano de 1.936, condenado à prisão domiciliar por peitar um general franquista.

Rilke, no Diário de Florença, e Valéry, em Degas Dança Desenho, são acordes n'uma conclusão acerca de certas obras de arte. Ambos afirmam que a reação inicial diante de algo muito belo é antes um silêncio do que alguma exclamação ou comentário. Por isso, apesar de ter lido nos primeiros dias do ano o romance Abel Sánchez - Uma História de Paixão, escrito por Unamuno, só agora reajo e comento-o. As 194 páginas de texto ficcional podem ser lidas n'uma tarde. Predominam os diálogos e n'eles as personagens revelam-se. Revelam-se no dito e no omitido, visto o grande número de frases reticentes. Poderia aproximar o autor a Dostoievski e a obra ao Memórias do Subsolo. Não o faço, porém, pois Unamuno tem grandeza própria e dispensa francamente o apoio d'uma comparação.

Todo o romance é um retrato da Inveja e a inspiração direta é a história bíblica de Caim e Abel. Não é uma simples reescrita da narrativa vetero-testamentária. Unamuno, no prefácio à segunda edição, afirma ser a Inveja o pecado próprio do povo espanhol de sua época e as personagens teriam sido retiradas da sociedade ao redor. Nem o escritor escapa, pois se as personagens são filhas naturais e legítimas do seu autor, os questionamentos existenciais e religiosos de um d'eles logo revela a paternidade. Inveja ou rivalidade, são mais comuns os relatos da influência destes sentimentos entre irmãos: Caim e Abel, Esaú e Jacó, os machadianos Pedro e Paulo. Unamuno agrava a situação ao estabelecer a questão entre os amigos Abel Sánchez e Joaquín Monegro. Irmãos são obrigados a suportarem-se até tomarem seus rumos individuais. Contudo, que dizer d'um par de indivíduos que seguem companheiros apesar da obsessão declarada e diariamente renovada por um d'eles? Estamos na época das respostas fáceis e a resposta fácil teria conotação sexual. O mérito de Unamuno, n'este romance, está em afastar a superficialidade e deixar o leitor perceber a angustia de Monegro em "ser o outro", ou seja, assumir a personalidade de Abel, possuir o que ele possui, relacionar-se com as pessoas da forma como ele relaciona-se.

Uma História de Paixão. Se o subtítulo sugere ao leitor um enredo romanesco, a falsa idéia é afastada pelo leitor atento no correr dos capítulos. Percebe-se logo que o vocábulo "paixão" é empregado no sentido de sofrimento, tormento, agitação anímica. Indica o estado emocional patológico de Joaquim Monegro, apaixonado pela idéia de ser o outro. "Paixão" já foi um termo empregado para significar reação. N'este sentido, seria a resposta dada pela personalidade psicopata da personagem à ação da Inveja em seu íntimo. O livro é apresentado como um diário de Monegro com acréscimos do narrador. Monegro, em certa altura da sua vida, resolve redigir sua Confissão com a intenção de ser compreendido no futuro por sua filha e demais parentes. A totalidade da sua vida foi moldada pela Inveja. A figura de Abel é o foco único: tudo fez para igualar-se a ele, ou superá-lo ou diminuí-lo.

Há cenas trágicas. Monegro formou-se médico e Abel pintor. Este recorria ao cientificismo na arte, aquele buscava exercer artisticamente a ciência. Várias pessoas retratadas por um são atendidas pelo outro. A fama do pintor supera a do médico. Por diversas que sejam as atividades, Monegro não deixa de sentir-se profundamente magoado ao perceber a supremacia do amigo. Sempre com sua idéia fixa, quando Monegro é chamado para atender um paciente já retratado por Abel, ele avalia o estado físico e psicológico da pessoa e não hesita em deixar morrer, ou mesmo auxiliar a tanto, aquele que assim preferir. Não passa d'um meio de tentar atingir Abel. Entretanto, se a Medicina deixou ou auxiliou a morrer, a Pintura eternizou a pessoa em sua melhor forma.

Inveja ou rivalidade, há sempre alguém que, voluntariamente ou não, faz acirrar a hostilidade pré-existente. Para Caim e Abel, este ser foi o próprio Deus. Se Esaú fez questão de obter a primogenitura, talvez tenha sido para obter com ela e seus direitos a preferência de Isaac. Os sentimentos de Pedro e Paulo convergiram para Flora. O ódio de Joaquim Monegro acentuou-se com a presença de sua prima Helena e a preferência d'esta pelo amigo. É visível o derramamento de bile de Monegro diante do rápido entrosamento entre ela e Abel. Sempre é bom lembrar que se Helena é apresentada pelo narrador, este baseia-se na Confissão. Monegro decide progredir na ciência apenas para um dia provar que ela fez a opção errada. Todos os beijos aplicados em sua esposa Antonia eram destinados à antiga pretendida. Quando Abel pinta o quadro da Virgem Maria com o menino e utiliza a esposa e filho como modelos, Monegro passa a realizar suas preces diante da imagem. Pessoas como ele amam uma vez na vida. Se este amor sofre um embaraço a conseqüência é incalculável.

Retrato V
Aurélia, Catequista


A escola dominical da paróquia de São Bartolomeu funciona nas dependências da igreja homônima. Todos os anos a catequista Aurélia prepara as crianças para a primeira comunhão. Esta jovem senhora de pouca estatura e muita religiosidade demonstra tal esmero que a dizem talhada especificamente para o mister. Possui em sua casa todos os livros de catecismo, manuais e cartilhas publicados no país, bem como alguns estrangeiros. Leu todos os roteiros de exame de consciência chancelados pela Igreja e reuniu-os n'um só. Depois da aprovação do bispo Dom Jerônimo, do aval do pároco e de seu auxiliar, montou uma apostila de cem folhas para distribuir aos pupilos. Aos sete anos em média, nem tiveram tempo hábil para cometimento de tantos pecados. Por via das dúvidas, Aurélia obriga-os a fazer o recolhimento íntimo e reconhecer se desviaram ou não dinheiro público, se meninas impúberes já abortaram e no geral, se há algum adúltero entre eles.

Pobre Aurélia de noites claras e dias escuros. Jamais teve força para suportar o olhar escrutador de almas do falecido Padre Benedictus. A devotada mulher teve a infelicidade de ser abandonada sem filhos pelo marido. Não obstante sua provável esterilidade, aconselha pais e mães como se matrona de grande prole. O problema está no tom professoral adotado diante dos pais. Antes dos quarenta anos recolheu-se ao estilo de vida que durará até o fim de seus dias sobre este mundo. Acorda cedo, reza, repassa os mandamentos e faz uma refeição frugalíssima. Dirige-se ao hospital onde trabalha e lá permanece até o meio-dia. Almoça na cidade, em companhia d'alguma amiga. Não podemos acusá-la de severidade, pois na escola recebe alegremente as crianças. A primeira pergunta é: estudou os mandamentos? Entretanto, o termo "mandamentos" e a entonação da pergunta vêm se tornando odiosos quando pronunciados por seus lábios finos e contraídos. A idiossincrasia supera a doutrina assustando os espíritos novos e impressionáveis.

Aurélia conhece de cor todos os mandamentos e por eles pauta sua vida. Jamais leu algum comentário dos antigos padres sobre estas regras para não se confundir. Demarca pragmaticamente a extensão e limite de cada um. Se São Paulo disse que a letra mata e o espírito vivifica, Aurélia usou demais o espírito e matou a letra. O mesmo curso que nas demais paróquias dura alguns dias, com ela dura meses. A aula estende-se pela manhã inteira. Crianças que brincaram e estudaram - por vezes trabalharam - a semana inteira esforçam-se em compreender sua elocução. Disserta longamente sobre o mandamento do dia e depois cuida de relacioná-lo aos demais. Apresenta exemplos. Escolhe um petiz e manda-o contar sobre seus dias. Escuta-o com extrema atenção até encontrar algo, um ato, uma conduta discordante de suas lições.

- Você foi à lavanderia buscar a roupa para sua mãe? pergunta serenamente com os olhos baixos e mãos cruzadas sobre a mesa.

- Não ... responde trêmula a criança.

- E por que não foi? continua, sempre olhando um ponto fixo.

- Porque eu tenho prova amanhã e fiquei estudando ...

Os olhos de Aurélia brilham

- Quer dizer que você acha mais importante gastar todo seu tempo consigo mesmo e não fazer o que a mamãe mandou? Não poderia reservar um tempinho para fazer apenas este favor a ela? Por que não buscou a roupa na saída do colégio, já que é tão ocupado? É isto que ensina o Quarto Mandamento, como é mesmo ...

- Honrarás pai e mãe ... balbucia o aluno.

- Então você sabe qual é... Por que insiste em não observar estas regras tão simples? Você realmente acredita que Deus está satisfeito com a sua conduta? Por que freqüentar a catequese, se ao sair pela porta você esquece tudo? Como fará a comunhão do corpo de Cristo com este corpo e este espírito repletos de pecados? Você pecou e pecou sabendo que não deveria pecar. Como amará a Deus sobre todas as coisas, se não é capaz nem de amar seus pais terrenos? E o Mandamento que ordena: "Não roubarás"? Sua consciência ficará tranqüila sabendo que você roubou para si um momento destinado a obedecer a mamãe? Pode sentar-se.

O moleque torna arrasado à carteira, sob o olhar sarcástico dos virtuosos colegas.

Terminada a lição do dia, Aurélia repassa com a classe a matéria. Encara sua vítima mais recente durante a ladainha. É raro alguém não chorar. Despede-se de todos, por cabeça, fazendo recomendações. O escolhido do dia aproxima-se fungando com promessa de maior atenção.

- Meu querido, não é a mim que você deve implorar perdão - ela coloca a mão sobre a cabeça do menino - mas ao Papai do Céu, que tudo vê e tudo anota para cobrar no dia do Juízo Final. Sua mão desce pela nuca do infante e seus dedos alojam-se sob a camiseta. Alisa suavemente as costinhas arrepiadas. Recolhe eventual lágrima com a outra mão, segura o fresco rosto e abaixa-se para beijá-lo. Quase encosta seus lábios nos d'ele. É a velha história.

Para ir além






Ricardo de Mattos
Taubaté, 17/2/2005

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
13/3/2005
08h29min
A Guerra Civil Espanhola, fracassada tentativa de Stalin de pôr os pés na península ibérica e controlar o continente europeu, foi pródiga em mitos. Um deles, alimentado e realimentado pela imprensa durante décadas, é o famoso episódio de Miguel de Unamuno, reitor da Universidade de Salamanca, sendo desafiado pelo general "franquista" Millán Astray, com a frase não menos famosa: Viva la muerte! Muera la inteligencia! Ponho franquista entre aspas, pois se havia algum franquista naquela cerimônia, realizada no dia 12 de outubro de 1936 - Día de la Raza - este era Unamuno, que naquele momento representava oficialmente o general Franco. O reitor foi salvo da ira de Astray e da vaia de muitos dos presentes por Doña Carmen Pollo, mulher de Franco, que o conduziu pelo braço até uma viatura do Quartel General. No entanto, ao referir-se ao episódio, não há redator que não se refira ao "intelectual anti-franquista Miguel de Unamuno".
[Leia outros Comentários de Cledson]
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