O Presépio e o Artesanato Figureiro de Taubaté | Ricardo de Mattos | Digestivo Cultural

busca | avançada
74501 visitas/dia
2,0 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Espetáculo “Canções Para Pequenos Ouvidos” chega ao Teatro Clara Nunes, em Diadema
>>> Escrever outros Corpos - Criar outras Margens || BELIZARIO Galeria
>>> SESC 24 DE MAIO RECEBE EVENTO DE LANÇAMENTO DA COLEÇÃO ARQUITETOS DA CIDADE
>>> Dramaturgo Ed Anderson lança livro com textos de espetáculos
>>> Encomenda De Livro On-Line É Disparo Para Novo Espetáculo Do Grupo Pano
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rodolfo Felipe Neder (1935-2022)
>>> A pior crônica do mundo
>>> O que lembro, tenho (Grande sertão: veredas)
>>> Neste Momento, poesia de André Dick
>>> Jô Soares (1938-2022)
>>> Casos de vestidos
>>> Elvis, o genial filme de Baz Luhrmann
>>> As fezes da esperança
>>> Quem vem lá?
>>> 80 anos do Paul McCartney
Colunistas
Últimos Posts
>>> Agnaldo Farias sobre Millôr Fernandes
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
>>> Oye Como Va com Carlos e Cindy Blackman Santana
>>> Villa candidato a deputado federal (2022)
>>> A história do Meli, por Stelleo Tolda (2022)
Últimos Posts
>>> Universos paralelos
>>> Deseduquei
>>> Cuidado com a mentira!
>>> E agora? Vai ter pesquisa novamente?
>>> Cabelos brancos
>>> Liberdade
>>> Idênticos
>>> Bizarro ou sem noção
>>> Sete Belo
>>> Baby, a chuva deve cair. Blade Runner, 40 anos
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Trailer do Fim do Mundo
>>> Uísque ruim, degustador incompetente
>>> O bom e velho jornalismo de sempre
>>> Apresentação
>>> Sabemos pensar o diferente?
>>> A fragilidade dos laços humanos
>>> Anomailas, por Gauguin
>>> Felicidade
>>> Ano novo, vida nova.
>>> 31 de Maio #digestivo10anos
Mais Recentes
>>> Magistratura do trabalho (ótimo estado) de Lucas dos Santos Pavione / André Araújo Molina / Januário Justino Ferreira e outros pela Saraiva (2014)
>>> Fundamentos de Estratigrafia Moderna de Jorge C. Della Fávera pela EdUerj (2001)
>>> Livro - O Estranho Caso do Cachorro Morto de Mark Haddon pela Record (2012)
>>> Livro - Pomba-gira Cigana de Maria Helena Farelli pela Pallas (2004)
>>> Tex Nº 234 de Bonelli pela Globo (1989)
>>> Matemática - Vol. Único de Facchini pela Saraiva (1997)
>>> Livro - Temqueliques: Limeriques do Poderoso e Perigoso de Tatiana Belinky pela Panda Books (2008)
>>> Mais Forte do Que Nunca de Eliana Machado Coelho pela Lúmen (2011)
>>> Personagens ao Redor da Cruz de Tom Houston pela Encontro (2007)
>>> Livro de bolso - Carta ao Pai de Franz Kafka pela L&pm Editores (2004)
>>> Livro - A Formigadinha de Rossana Ramos pela Cortez (2010)
>>> Aniversário da II Guerra Mundial - 30 volumes de Abril Coleções pela Abril
>>> Tex Nº 291 - Terror na Cripta de Bonelli pela Globo (1994)
>>> O Rosto Materno de Deus de Leonardo Boff pela Vozes (2003)
>>> Livro - Bastard 9 de Kazushi Hagiwara pela Kazushi Hagiwara
>>> Livro de bolso - O Que É Física - Coleção Primeiros Passos 131 de Ernst W Hamburger pela Brasiliense (2001)
>>> Tex Nº 325 de Bonelli pela Globo (1996)
>>> Livro - O Menino e o Pardal de Daniel Munduruku pela Callis (2010)
>>> Diálogos com Cientistas e Sábios: A Busca da Unidade de Renée Weber pela Círculo do Livro (1990)
>>> Língua grega Volume 1: teoria de Henrique Murachco pela Vozes (2003)
>>> Livro de bolso - Agosto de Rubem Fonseca pela Companhia de Bolso (2006)
>>> Para Sempre Comigo de Marcelo Cezar pela Vida e Consciência (2007)
>>> Mulheres que correm com os lobos (muito bom) de Clarissa Pinkola Estés pela Rocco (2014)
>>> Lógica do sentido de Gilles Deleuze pela Perspectiva (2009)
>>> Tex Nº 303 de Bonelli pela Globo (1995)
COLUNAS

Sexta-feira, 23/12/2005
O Presépio e o Artesanato Figureiro de Taubaté
Ricardo de Mattos

+ de 30200 Acessos

"Ora, estando ali, aconteceu completarem-se os dias em que devia dar à luz, e deu à luz o seu filho primogênito. Enfaixou-o e o reclinou numa manjedoura, porque não havia lugar para eles na estalagem" (São Lucas: 2,6-7)

As primeiras peregrinações à Jerusalém com o intuito de celebrar o nascimento de Jesus deram-se por volta do século III. Se não demorou muito para que ganhassem vulto as homenagens ao tema específico, através da pintura, do mosaico e da escultura, a forma mais difundida de expressão do grande acontecimento precisou esperar até o século XIII para surgir. Todos sabemos que São Francisco de Assis, em 1.223, organizou o primeiro presépio, constituído meio por imagens, meio por figuras reais. O santo resolveu trocar a missa na igreja por uma celebração ao natural, reunindo animais, imagens e pessoas numa gruta da floresta de Greccio. Calcule-se para a época o impacto da novidade: as pessoas voltaram no tempo e "presenciaram" o fato narrado no evangelho de São Lucas. Uma idéia tão impressionante não merecia ser esquecida. Por isso a repetição do feito através dos séculos.

Fala-se que o termo "presépio" origina-se o hebraico praesepium, o que é um engano evidente visto o termo ser latino. Seria mais exato afirmar que praesepium seria a latinização dum termo hebraico. Enfim, praesepe, praesaepe, praeseps, praesaeps, praesepium, praesaepium: o significado é estábulo, curral, redil, cavalariça, estrebaria. Por extensão, manjedoura - ou manjadoura, como querem os portugueses. No sentido figurado, o lugar onde se come ou janta, provavelmente caracterizado pela extrema rusticidade. Os autores neo-testamentais podem ter querido dizer que o Santo Casal, não encontrando melhor hospedagem, conformou-se com um albergue imundo. A tradução latina e depois a transposição para o idioma de cada país é que podem ter desconsiderado o sentido pejorativo, empurrando São José e a Virgem Maria para o estábulo, onde a tradição católica instalou-os definitivamente para melhor caracterizar a humildade do nascimento do Cristo. Quanto ao significado de lugar fechado, cercado, guardado, praesepium e praesidium aparentam-se. Não esquecer do taubateanês presépi: "'Bora armá o presépi, lerdeza!".

Uma das primeiras construções taubateanas é o Convento de Santa Clara, fundado no século XVII pelo franciscano Frei Jerônimo de São Brás. Por doação do século XIX, o conjunto foi entregue aos capuchinhos. Entretanto, foram os franciscanos quem trouxeram aos da terra a tradição de armar o presépio na véspera de Natal. As primeiras peças eram italianas e sabe-se lá por onde andam. Seja para repor peças danificadas, seja para atrair o interesse dos fiéis e fazer com que se entrosassem nos assuntos da religião, seja até para aumentar o número das peças, os frades encomendavam a alguns moradores mais hábeis imagens dos santos, anjos pastores e animais. Ao lado dos primeiros artesãos - os santeiros - que buscavam seguir os modelos europeus, surgiram os encarregados de fazer as demais figuras: os figureiros. A ocupação inicial limitava-se à confecção, inclusive para adorno particular, de carneiros, burricos, vacas e outros animais. Logo outras figuras foram sendo inventadas e adicionadas: trabalhadores, aves locais, gatos, raposas, cavalos. Em pouco tempo os figureiros passaram a criar presépios inteiros, do Menino Jesus aos animais. O que era fabricado para uso próprio e doméstico, passou a ser objeto de presente e finalmente de venda. Até a classificação predominou, pois atualmente tanto o que se ocupa de imagens de santos quanto os que se especializam nas demais são igualmente chamados figureiros. No começo o ofício era próprio das mulheres, por isso é mais comum referir-se às figureiras.

As figuras são feitas com a argila recolhida na beira dos rios ou comprada de fornecedores. São moldadas por mãos treinadas e logo verifica-se a intenção da figureira. Não há um equipamento adrede destinado, o auxílio vem de pedaços de madeira, palitos, canivetes ou facas. Recorre-se ao arame para a sustentação das peças maiores e mesmo como parte delas, a exemplo das "chuvas" (primeira imagem). Quando a figura está pronta, é colocada pra secar ao Sol durante um mínimo de 24 horas. Se o clima está nublado ou frio, a secagem dá-se na beirada de fogões a lenha. Já existe na "Casa do Figureiro" um forno elétrico para trabalhos maiores, que podem exigir secagem mais rápida e garantida. Finalizada esta fase, vem a pintura. As peças mais antigas que eu já vi tinham a policromia mais simples e com predomínio de cores primárias. Hoje o recurso pictórico é maior, assim como a atenção aos detalhes. Tenho uma dupla de dançarinos de moçambique cuja fisionomia foi delineada com esmero. Antes e agora, o predomínio é da vivacidade. Há artesãos que, além de pintar suas figuras, enfeitam-nas com penas, fitas, palha e o que mais considerar conveniente. É necessário esclarecer que a habilidade destas pessoas não se traduz em facilidade.

Como todo trabalho humano, há obras de principiantes e obras praticamente barrocas, de tão ricas e esmeradas. Visitando o local onde concentra-se a produção para a venda, encontrei figuras que eu mesmo poderia ter feito. Outras deixam o apreciador boquiaberto. Todos seguem as mesmas características, mas não há um padrão - que beira o normativo. Tanto que os conhecedores sabem identificar a autoria desta ou daquela figura pelos detalhes pessoais que o artesão adiciona. Além da citada dupla de moçambiques, possuo um pavão grande no escritório e um menor em casa, no presépio.

Pode-se dizer ilimitado o acervo de figuras. Os de maior evidência são o presépio - quer de peças soltas, quer de peça única (segunda imagem) - as chuvas, São Francisco de Assis, e o pavão. Tudo iniciou-se com o presépio. A "chuva" parece ter sido inspirada numa árvore cheia de pássaros: tirou-se a árvore, mas conservaram-se as aves em suspenso. Muitos outros animais podem formar a chuva, como galinhas d'angola, pombos, tucanos, galos e galinhas, bois, boi-bumbá. Não sei dizer se a presença de São Francisco é uma homenagem consciente ou não ao criador do presépio pelo qual eles ficaram conhecidos e de onde muitas vezes tiram seu sustento. Com o nome de São Francisco das Chagas, é o padroeiro da cidade. Quando nomeado "de Assis", é representado com pombos. O pavão, chamado também de "galinho do céu", é uma das figuras mais bonitas e tão conhecida que tornou-se símbolo do folclore taubateano. A maioria tem a cauda em leque; quando está com ela abaixada, é chamado "pavoa". Este pavão é nosso produto de exportação. Já foi localizado no Louvre e antiquários de Paris. Além de correr todo o país, há registros de que tenha sido levado para a Itália, Argentina, China, Japão, Inglaterra, Alemanha e Estados Unidos.

[Pavão da autoria de Eduardo Leite Santos, figureiro taubateano]


Fora as quatro figuras destacadas, podemos encontrar animais variados: cães, gatos, cavalos, burros, vacas, bois, carneiros, galinhas, pássaros, onças e aves nativas. Num entrosamento valioso, surgiram as figuras extraídas da literatura infantil de Monteiro Lobato: Emília, o Saci, Visconde de Sabugosa, Tia Nastácia, Dona Benta, Pedrinho, Narizinho. Peças do folclore, como o lobisomem e o curupira. Todas as profissões são encontradas, desde as mais antigas e próprias das cidades coloniais, até as mais modernas: lavadeiras, lenhadores, vendedores de galinhas, médicos, engenheiros, advogados e dentistas. Podem ser acrescidos palhaços, cenas domésticas, danças folclóricas - moçambique, quadrilha, congado, bumba-meu-boi -, sanfoneiros e outros músicos, a Sagrada Família, procissões e orixás. O que a pessoa interessada procurar e não encontrar, pode ser encomendado.

As figuras começaram a ser vendidas no mercado municipal. Os figureiros armavam suas barracas ao lado das que vendiam alimentos, ou contentavam-se em estender uma toalha no chão. Isso ainda existe por aqui e em São Luiz do Paraitinga. Como as artesãs moravam todas no bairro onde situa-se a capela de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, a referência local prevaleceu: as figureiras da Imaculada. Ainda hoje é possível correr a Rua da Imaculada Conceição e entrar em contato direto com elas em suas casas. Há alguns anos a municipalidade teve a feliz idéia de concentrar os trabalhos num local mais amplo, a Casa do Figureiro. Cerca de quarenta figureiros lá expõem e vendem seu trabalho. A loja possui estantes com prateleiras reservadas para cada um deles, prateleiras estas identificadas com a foto, nome e contato do expoente. Anexo à loja, um pátio onde elas podem reunir-se para trabalhar "ao vivo" e uma oficina onde encontram-se as peças nos diferentes estágios de produção.

Reparo que uma forma de homenagem acabou virando o tema principal. Se primeiro recorria-se ao presépio para celebrar o advento do Cristo, o alvo atual do engenho humano é o presépio em si, desprovido do carácter celebratório inicial. A imaginação desvincula-se da Fé e tenta criar o presépio mais criativo, original, surpreendente e até polêmico. Vale tudo, de papel, sarrafos, plástico, copos descartáveis e sucata até mulheres nuas, como recentemente na Itália, si lembro-me bem. Por isso admiro o trabalho das figureiras. Vendem peças e aceitam encomendas por haver demanda e por viverem disso. Entretanto, seus trabalhos são sustentados pelo benigno orgulho de bem continuar a tradição de suas avós e pela crença, no caso dos presépios, de não estarem a modelar meros enfeites.

Para ir além

Casa do Figureiro "Maria da Conceição Frutuoso Barbosa": Rua dos Girassóis, número 60, Campos Elíseos, CEP 12.090-290, Taubaté, Estado de São Paulo. Telefone: (12) 3625-5154


Ricardo de Mattos
Taubaté, 23/12/2005


Mais Ricardo de Mattos
Mais Acessadas de Ricardo de Mattos em 2005
01. O Presépio e o Artesanato Figureiro de Taubaté - 23/12/2005
02. Como E Por Que Ler O Romance Brasileiro - 20/1/2005
03. Cultura e Democracia Na Constituição Federal - 17/3/2005
04. Anotações do Jardineiro - 10/11/2005
05. Anjos Caídos, de Tracy Chevalier - 31/3/2005


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O pequeno Príncipe
Antoine de Saint Exupéry
Agir
(2006)



Trabalho Infância - Exercícios Tensos de Ser Criança - Haverá Espaço..
Miguel G. Arroyo & Maria dos Anjos Lopes Viella ..
Vozes
(2015)



Por Dentro do Trabalho - Ergonomia: Método & Técnica
Alain Wisner
Ftd/oboré
(1987)



Livro - O Silêncio das Missões de Paz
Reginaldo Mattar Nasser
Educ
(2012)



A Luz Que Não Se Apaga
Carlos Alberto de Nóbrega
Novo Século
(2004)



Planejamento Estratégico e Operacional
Luís Moretto
Dca
(2012)



Wolverine N° 86
Marvel
Panini Comics
(2012)



Livro - Querido Bebê: um Romance Sobre ~planos~ Imprevistos e Encontros
Julia Braga
Mapa. Lab
(2020)



O Código Da Vinci
Dan Brown
Sextante
(2004)



Perspectiva 19 (espanhol)(1999)
Equipo Parramon
Paramón
(1999)





busca | avançada
74501 visitas/dia
2,0 milhão/mês