O poeta, a pedra e o caminho | Wellington Machado | Digestivo Cultural

busca | avançada
57428 visitas/dia
2,1 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Zé Guilherme recebe o pianista Matheus Ferreira na série EntreMeios
>>> Chamada Vale recebe cadastro de cerca de 3 mil projetos
>>> Lançamento do Mini Doc Tempo dell'Anima
>>> Cinema in Concert com João Carlos Martins une o cinema à música sinfônica em espetáculo audiovisual
>>> Editora Unesp lança 20 livros para download gratuito
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A redoma de vidro de Sylvia Plath
>>> Mas se não é um coração vivo essa linha
>>> Zuza Homem de Mello (1933-2020)
>>> Eddie Van Halen (1955-2020)
>>> Prêmio Nobel de Literatura para um brasileiro - II
>>> Vandalizar e destituir uma imagem de estátua
>>> Partilha do Enigma: poesia de Rodrigo Garcia Lopes
>>> Meu malvado favorito
>>> A pintura do caos, de Kate Manhães
>>> Nem morta!
Colunistas
Últimos Posts
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
>>> Metallica tocando Van Halen
>>> Van Halen ao vivo em 2015
>>> Van Halen ao vivo em 1984
>>> Chico Buarque em bate-papo com o MPB4
>>> Como elas publicavam?
>>> Van Halen no Rock 'n' Roll Hall of Fame
>>> A última performance gravada de Jimmi Hendrix
Últimos Posts
>>> Normal!
>>> Os bons companheiros, 30 anos
>>> Briga de foice no escuro
>>> Alma nua
>>> Perplexo!
>>> Orgulho da minha terra
>>> Assim ainda caminha a humanidade
>>> Três tempos
>>> Matéria subtil
>>> Poder & Tensão
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Nem tudo é pessoal
>>> Jeff Beck em Big Block
>>> 10 de Fevereiro #digestivo10anos
>>> Chama Atenção
>>> 9 de Fevereiro #digestivo10anos
>>> Scott Weiland (1967-2015)
>>> 7 de Setembro
>>> Sobre jabutis, o amor, a entrega
>>> Hiperbóreo nos trópicos: a poesia de Oleg Almeida
>>> Imagens do Grande Sertão de Guimarães Rosa
Mais Recentes
>>> Império de Michael - Antonio Negri pela REcord (2003)
>>> Oxford Advanced Learnes Dictionary of Current English de A. S. Hornby pela Oxford University Press (1988)
>>> O Matuto de Zibia Gasparetto pela Vida & Consciência (1997)
>>> The Secret - O Segredo de Rhonda Byrne pela Ediouro (2007)
>>> Semideuses e Monstros de Rick Riordan pela Intrínseca (2014)
>>> 5 Lições Sobre Império de Antonio Negri pela DP&a (2003)
>>> Peter Lawford - O Homem que Guardava o Segredo dos Kennedys de James Spada pela Record (1993)
>>> Os Irmãos Karamázovi de Dostoiévski pela Nova Cultural (1995)
>>> Tequila Vermelha de Rick Riordan pela Record (2011)
>>> A Dança do Viúvo de Rick Riordan pela Record (2014)
>>> O Ladrão de Raios - Percy Jackson e os Olimpianos 1 de Rick Riordan pela Intrínseca (2010)
>>> Vá Em Frente! Não Deixe Nada Pra Depois de Zibia Gasparetto pela Evd/ Vida e Consciência (2016)
>>> O Último Olimpiano - Percy Jackson e os Olimpianos 5 de Rick Riordan pela Intrínseca (2010)
>>> A Criança e Seus Jogos de Arminda Aberastury pela Artes Médicas (1992)
>>> A Batalha do Labirinto - Percy Jackson e os Olimpianos 4 de Rick Riordan pela Intrínseca (2010)
>>> O Construtivismo na Sala de Aula de Vários Autores pela Ática (2001)
>>> A Função do Filho – Espelhos e Labirintos da Infância de Esteban Levin pela Vozes (2001)
>>> A Infância em Cena – Constituição do Sujeito e Desenvolvimento Psicomotor de Esteban Levin pela Vozes (2002)
>>> Psicologias – Uma Introdução ao Estudo de Psicologia de Ana M. Bahia Bock, Odair Furtado e Maria de Lourdes T. Teixeira pela Saraiva (1999)
>>> Vigiar e Punir - História da Violência nas Prisões de Michel Foucault pela Vozes (1998)
>>> Psicanálise & Pedagogia de Lino de Macedo e Bernadete Amêndoa de Assis (Orgs.) pela Casa do Psicólogo (2002)
>>> Os Segredos da Mente Milionária de T. Harv Eker pela Sextante (Gmt) (1992)
>>> Ensaio sobre a cegueira de Jose Sarmago pela Companhia Das Letras (2004)
>>> Poesia na varanda de Sonia junqueira pela Autentica
>>> O Ano da Morte de Ricardo Reis de José Saramago pela Caminho (1984)
>>> Dorme,menino,dorme de Laura herrera pela Lm
>>> A culpa e da pipoca de Dayse torres pela Papirus
>>> Talisma do tibet de Anna flora pela Ftd
>>> Quinho e o seu caozinho,um caozinho especial de Lae de souza pela Eco arte
>>> O umbigo do mar de Lucia martinez pela Brasil s.a
>>> O trem e o maquinista nos trilhos da fantasia de Sandra zeni carli pela Giordani (2012)
>>> Lino de Andre neves pela Callis
>>> A terra vista do alto de Fernando carraro pela Ftd
>>> Menino gato de Pablo david sanches pela Aletria
>>> Super fotos especiaç--as grandes fotos publicadas em superinteressante de Abril pela Abril
>>> Vida boa de Fabio zimbres pela Zarabatana
>>> As máscaras de Deus - Volume 3 - Mitologia ocidental de Joseph Campbell pela Palas Athena (2004)
>>> As máscaras de Deus - Volume 2 - Mitologia oriental de Joseph Campbell pela Palas Athena (1994)
>>> As máscaras de Deus - Volume 1 - Mitologia primitiva de Joseph Campbell pela Palas Athena (2010)
>>> Pulsão - Tempo Psicanalítico Nº 25 de Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle pela Spid (1991)
>>> Educação Biocêntrica: um movimento de construção dialógica de Ruth Cavalcante; Cezar Wagner; Fatima Diógenes; Cristiane Arraes; Cássia Regina pela Cdh (2007)
>>> Mamória de minhas putas tristes de Gabriel Garcia Marques pela Record (2007)
>>> Emmanuel Levinas: Um estudo sobre a ética da alteridade de Abimael Francisco do Nascimento pela Brazil Publishing (2020)
>>> Coleção folha grandes vozes Tom Jobim - Wave nº 5 de Folha de São Paulo pela Mediafashion (2012)
>>> A Colonização - uma Mancha no Espaço de Felippe Siciliano pela Multifoco (2017)
>>> Uma História do Capitalismo: das origens até a primeira guerra mundial de Osvaldo Coggiola pela Brazil Publishing (2020)
>>> A questão social e a cidadania no neocapitalismo de Evandro Prestes Guerreiro pela Brazil Publishing (2020)
>>> Coleção folha grandes vozes Dean Martin nº 24 de Folha de São Paulo pela Mediafashion (2012)
>>> Fortaleza Avançada - Uma Mancha no Espaço II de Felippe Siciliano pela Anthology (2017)
>>> Um dia: vinte anos, duas pessoas de David Nicholls pela Intrínseca (2011)
COLUNAS

Quarta-feira, 5/8/2015
O poeta, a pedra e o caminho
Wellington Machado

+ de 15800 Acessos


Imagem: Jak Lins



Alguém foi tomado de um espanto: tinha uma pedra! Ela sempre foi uma pedra qualquer, em meio a outras, e foi percebida como obstáculo naquele momento? Ou ela sempre esteve ali, isolada, imperceptível até então?

De que tamanho era a pedra? Se era grande, do tamanho de uma bola de futebol, por exemplo, seria impossível que ela não pudesse ser notada anteriormente. Se alguém a visse, certamente a removeria dali, sob pena de um outro se machucar.

E se até aquele exato momento ninguém tivesse passado por ali e percebido que aquela grande pedra incomodava? Teria sido este o primeiro encontro entre o homem e a pedra, desde o surgimento da Terra e da humanidade? E se, ao contrário, alguém tivesse, sim, passado por ali, mas não desse a mínima para aquela pedra, nem para a possibilidade de alguém tropeçar nela e se machucar no futuro? Apesar do encontro entre o homem e pedra, portanto, ela continuava ali, sem ser notada.

Como ou por que a pedra chegou ali, no meio do caminho? Seria ela a resultante de um vulcão pré-histórico, que fez pedras de variados tamanhos se deslocarem até atingirem o estado estático? Ou: alguém teria posto aquela pedra ali, num ato intencional?

Consideremos, então, que a tal pedra não fosse tão grande como uma bola de futebol, mas do tamanho de uma batata. Não seria em princípio, convenhamos, um obstáculo em si, a ponto de exigir grandes esforços do poeta para transpô-la. O mais provável era ele ter um primeiro impulso de lançá-la longe, o mais longe possível mirando o horizonte, como se quisesse imitar um atleta olímpico lançando um dardo - ele tomaria o cuidado de imitar os movimentos do atleta para conseguir o maior êxito possível.

Mas, sorte que as retinas fatigadas não estavam tão esgotadas assim a ponto de o poeta ignorar ou não enxergar a pedra. Se assim fosse, ou o poeta transporia distraidamente a pedra - como alguém que por sorte não pisa numa casca de banana - ou iria pisar nela, causando-lhe uma dor incômoda (ele iria xingar mentalmente a pedra, soletrando palavrões horrendos). Ou: na hipótese de a pedra ser arredondada (não sabemos que formato ela tinha), poderia o poeta derrapar e cair sentado. Em ambos os casos - pisando ou transpondo a pedra - não haveria poema.

De outra forma, se a pedra fosse do tamanho de um grão de feijão, já seria um grande mérito as retinas fatigadas terem-na percebido ali. Ora, se as retinas eram fatigadas, supõe-se que o transeunte já tinha uma certa idade. E o fato dele ter se atido a uma pedrinha num caminho (hipoteticamente longo), poderíamos considerar que este fora um ato intencional: o poeta praticamente procurava uma pedra (ou outra coisa qualquer) enquanto percorria o caminho. Mas a impressão que se tem é a de que a pedra era mesmo um pouco maior, do tamanho de uma batata média.

Mas quem estava diante da pedra: o poeta ou um personagem? Se foi o primeiro, muito provavelmente ele tivesse mesmo se deparado com a tal pedra motivadora do poema, dando a ela uma importância inédita. Quem haveria até então relevado um objeto comumente ignorado, quase vil? A pedra foi, com o poeta, alçada a mesma importância do amor, dos aromas, das flores, borboletas e estrelas, exaltados por outros notáveis. Se foi o poeta quem se deparou com a pedra, o cerne do poema é o acaso que se tornou relevante. A pedra é um mote para uma condição fenomenológica, uma intencionalidade do homem [o poeta] em reconhecer a existência de um objeto [a pedra] por alguns instantes.

Agora, se considerarmos que quem se deparou com a pedra foi um personagem, a pedra é tão ficcional como o próprio. Pedra e personagem estão em pé de igualdade e são joguetes nas mãos do poeta para ilustrar possíveis questões existenciais: a pedra foi "colocada" no caminho do personagem, a fim de ilustrar um momento de espanto, de auto-questionamento do poeta (não do personagem) no sentido de "estar-em-si", consciente daquele recorte (a percepção da pedra). O espanto do "tempo perdido", da vida que se esvaiu até ali, com a percepção da sua decadência física (retinas) sem que ele tivesse se atentado devidamente aos momentos sublimes da vida, presentes na simplicidade cotidiana. Personagem e pedra são a metáfora de uma descoberta tardia.

Há indícios de que não foi o poeta quem se deparou com a pedra, mas o personagem. Partindo do pressuposto de que o poema é de 1930, ano em que o poeta tinha 28 anos - jovem, portanto -, dificilmente ele teria retinas fatigadas.

E que caminho? Se o poema é já quase centenário, podemos inferir que na sua época havia vários caminhos, digamos, rurais - tipo aqueles que desenhávamos nos cadernos sem pauta e coloríamos de amarelo ou bege a terra desgastada pelo caminhar das pessoas, e de verde, a vegetação lindeira. A palavra "caminho" remete a campo, algo primaveril. Nas cidades não há caminhos; há ruas. Quem se depara com uma pedra, inevitavelmente está a pé. O poema seria impossível ser composto por um citadino, pois quase não há pedras nas metrópoles e por ali anda-se muito de carro, ônibus, metrô ou bicicleta.

O fato de as retinas estarem fatigadas nos leva a crer que o poeta tinha visto muita vida, e percorreu o mesmo traçado durante anos, sem notar a tal pedra. Provavelmente não só as retinas estavam cansadas, mas os pés rachados. O que ele sentiu ao fitar a pedra naquela altura da vida? Culpa - por ter perdido outras coisas na vida pelo fato de não estar permanentemente atento? Compaixão - por considerar aquela pedra um ser da mesma importância de uma formiga, ainda que a pedra seja inanimada e dura?

Aparentemente o poeta/personagem deixou a pedra pra trás, sem nela tocar. A pedra virou passado, memória, pois dela ele nunca se esqueceria, como prometeu. O "obstáculo", palavra que carrega um sentido negativo intrínseco, tornou-se uma espécie de epifania, um congelamento de um instante único, fotografia de um sentimento.

Pelo visto o poeta respeitou o estado da pedra: una, dura, estática. Estaria ela lá neste exato momento?

Nota do Editor
Leia também "No meio do caminho: 80 anos"


Wellington Machado
Belo Horizonte, 5/8/2015


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A medida do sucesso de Fabio Gomes
02. Mais outro cais de Elisa Andrade Buzzo
03. Piada pronta de Luís Fernando Amâncio
04. Casa Arrumada de Ricardo de Mattos
05. Antes que seque de Guilherme Pontes Coelho


Mais Wellington Machado
Mais Acessadas de Wellington Machado
01. O poeta, a pedra e o caminho - 5/8/2015
02. A ilusão da alma, de Eduardo Giannetti - 31/8/2010
03. Enquanto agonizo, de William Faulkner - 18/1/2010
04. As pedras de Estevão Azevedo - 10/10/2018
05. Meu cinema em 2010 ― 1/2 - 28/12/2010


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




NOSTRADAMUS E O INQUIENTANTE FUTURO
EITORE CHEYNET
PENSAMENTO
(1976)
R$ 12,00



FESTA SOB AS BOMBAS - OS ANOS INGLESES
ELIAS CANETTI
ESTAÇÃO LIBERDADE
(2009)
R$ 18,00



NO EXPLODIR DA INSPIRAÇÃO
LAURA S PORPINO
N/D
R$ 19,90



ESTE LADO DA VIDA
HERMANN HESSE
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
(1971)
R$ 15,00
+ frete grátis



COLETÂNEA - CLÁSSICOS DA POESIA BRASILEIRA
FREDERICO BARBOSA (ORG)
ESTADÃO
(1997)
R$ 5,00



JONAS E A BALEIA
CEDIC
CEDIC
(2013)
R$ 9,42



HISTÓRIA UNIVERSAL HISTÓRIA DA CIVILIZAÇÃO VOLUME 2
OLIVEIRA LIMA
MELHORAMENTOS
R$ 15,00



ZUMBIZINHO
JOÃO PEREIRA DE ABREU
SALESIANAS
(2000)
R$ 5,00



O SONHO DE UM VENCEDOR (ROMANCE MEDIÚNICO)
ZÉLIA CARNEIRO BARUFFI
EME
(2005)
R$ 7,00



FOGOS CRUZADOS - OS DEUSES RIEM
A J CRONIN
JOSE OLYMPIO
(1959)
R$ 6,90





busca | avançada
57428 visitas/dia
2,1 milhões/mês