O poeta, a pedra e o caminho | Wellington Machado | Digestivo Cultural

busca | avançada
114 mil/dia
2,3 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Valéria Chociai é uma das coautoras do novo livro Metamorfoses da Maturidade
>>> Edital seleciona 30 participantes do país para produção de vídeos sobre a infância
>>> Joca Andreazza dirige leitura de Auto da Barca de Camiri na série 8X HILDA
>>> Concerto Sinos da Primavera
>>> Aulas on-line percorrem os caminhos da produção editorial
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
>>> Pobre rua do Vale Formoso
>>> O que fazer com este corpo?
Colunistas
Últimos Posts
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
>>> Mehmari, Salmaso e Milton Nascimento
>>> Gente feliz não escreve humor?
>>> A profissão de fé de um Livreiro
>>> O ar de uma teimosia
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
Últimos Posts
>>> Janelário
>>> A vida é
>>> (...!)
>>> Notívagos
>>> Sou rosa do deserto
>>> Os Doidivanas: temporada começa com “O Protesto”
>>> Zé ninguém
>>> Também no Rio - Ao Pe. Júlio Lancellotti
>>> Sementinas
>>> Lima nova da velha fome
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Carnaval só ano que vem, da Orquestra Imperial
>>> Os tataravôs da filosofia
>>> Sexo, drogas e rock’n’roll
>>> Dostoiévski era um observador da alma humana
>>> Matisse e Picasso, lado a lado
>>> Nélson e Otto #Clássico
>>> 2021, o ano da inveja
>>> Escritor: uma ambição
>>> O Rei Roberto Carlos e a Ditadura
>>> Uma leitura jornalística
Mais Recentes
>>> O Trílio Negro de Marion Zimmer Bradley; Julian May; Andre Norton pela Rocco (1992)
>>> Opus Dei - Análise e Depoimentos de David Fernandes pela Alley (2006)
>>> Atlas de Astronomia de S. J. I. Puig pela Lial (1985)
>>> Pau Brasil - Fac-similie (1ª Edição) de Oswald de Andrade pela Universidade de São Paulo (2003)
>>> Ansiedade 2 - Autocontrole de Augusto Cury pela Benvirá (2016)
>>> Ansiedade 2 - Autocontrole de Augusto Cury pela Benvirá (2016)
>>> Sin City - a Dama Fatal, V. 2 de Frank Miller pela Devir (2005)
>>> Carnaval Carioca 100 Anos - Acompanha Cd de Caras pela Caras (2000)
>>> Os Senhores do Norte - Crônicas Saxônicas - Livro 3 de Bernard Cornwell pela Record (2007)
>>> Elite da Tropa 2 - o Inimigo Agora é Outro de Luiz Eduardo Soares / Cláudio Ferraz / André Ba... pela Nova Fronteira (2010)
>>> Processo Penal de Alexandre Reis pela Saraiva (2004)
>>> Para tão Longo Amor de Álvaro Cardoso Gomes pela Moderna (2003)
>>> A Batalha dos Mortos de Rodrigo de Oliveira pela Faro Editorial (2013)
>>> Tudo Que Você Precisa Saber Sobre Arqueologia de Paul Bahn pela Ediouro (1993)
>>> Uma voz diferente de Carol Gilligan pela Rosa dos Tempos (1990)
>>> Teoria Geral Processo de Carlos Barroso pela Saraiva (2003)
>>> Uma voz diferente de Carol Gilligan pela Rosa dos Tempos (1990)
>>> A Semente da Vitória 32º Edição de Nuno Cobra pela Senac Sp (2002)
>>> Canto General de Pablo Neruda pela Ediciones Oceano (1952)
>>> História de Mariquinha e José de Souza Leão de João Ferreira de Lima pela Não informado
>>> O Tempo das Catedrais a Arte e a Sociedade 980-1420 de Georges Duby pela Editorial Estampa (1979)
>>> Ingenuo? Nem Tanto... de Bariani Ortencio pela Saraiva (2007)
>>> Nietzsche - Volume III - o Filósofo e a Educação de Coleção Guias de Filosofia pela Escala (2013)
>>> Mitos Hindus e Budistas de Irmã Nivedita; Ananda Kentish Coomaraswamy pela Landy (2002)
>>> Grip de Kennedy Ryan pela Kennedy Ryan
COLUNAS

Quarta-feira, 5/8/2015
O poeta, a pedra e o caminho
Wellington Machado

+ de 16000 Acessos


Imagem: Jak Lins



Alguém foi tomado de um espanto: tinha uma pedra! Ela sempre foi uma pedra qualquer, em meio a outras, e foi percebida como obstáculo naquele momento? Ou ela sempre esteve ali, isolada, imperceptível até então?

De que tamanho era a pedra? Se era grande, do tamanho de uma bola de futebol, por exemplo, seria impossível que ela não pudesse ser notada anteriormente. Se alguém a visse, certamente a removeria dali, sob pena de um outro se machucar.

E se até aquele exato momento ninguém tivesse passado por ali e percebido que aquela grande pedra incomodava? Teria sido este o primeiro encontro entre o homem e a pedra, desde o surgimento da Terra e da humanidade? E se, ao contrário, alguém tivesse, sim, passado por ali, mas não desse a mínima para aquela pedra, nem para a possibilidade de alguém tropeçar nela e se machucar no futuro? Apesar do encontro entre o homem e pedra, portanto, ela continuava ali, sem ser notada.

Como ou por que a pedra chegou ali, no meio do caminho? Seria ela a resultante de um vulcão pré-histórico, que fez pedras de variados tamanhos se deslocarem até atingirem o estado estático? Ou: alguém teria posto aquela pedra ali, num ato intencional?

Consideremos, então, que a tal pedra não fosse tão grande como uma bola de futebol, mas do tamanho de uma batata. Não seria em princípio, convenhamos, um obstáculo em si, a ponto de exigir grandes esforços do poeta para transpô-la. O mais provável era ele ter um primeiro impulso de lançá-la longe, o mais longe possível mirando o horizonte, como se quisesse imitar um atleta olímpico lançando um dardo - ele tomaria o cuidado de imitar os movimentos do atleta para conseguir o maior êxito possível.

Mas, sorte que as retinas fatigadas não estavam tão esgotadas assim a ponto de o poeta ignorar ou não enxergar a pedra. Se assim fosse, ou o poeta transporia distraidamente a pedra - como alguém que por sorte não pisa numa casca de banana - ou iria pisar nela, causando-lhe uma dor incômoda (ele iria xingar mentalmente a pedra, soletrando palavrões horrendos). Ou: na hipótese de a pedra ser arredondada (não sabemos que formato ela tinha), poderia o poeta derrapar e cair sentado. Em ambos os casos - pisando ou transpondo a pedra - não haveria poema.

De outra forma, se a pedra fosse do tamanho de um grão de feijão, já seria um grande mérito as retinas fatigadas terem-na percebido ali. Ora, se as retinas eram fatigadas, supõe-se que o transeunte já tinha uma certa idade. E o fato dele ter se atido a uma pedrinha num caminho (hipoteticamente longo), poderíamos considerar que este fora um ato intencional: o poeta praticamente procurava uma pedra (ou outra coisa qualquer) enquanto percorria o caminho. Mas a impressão que se tem é a de que a pedra era mesmo um pouco maior, do tamanho de uma batata média.

Mas quem estava diante da pedra: o poeta ou um personagem? Se foi o primeiro, muito provavelmente ele tivesse mesmo se deparado com a tal pedra motivadora do poema, dando a ela uma importância inédita. Quem haveria até então relevado um objeto comumente ignorado, quase vil? A pedra foi, com o poeta, alçada a mesma importância do amor, dos aromas, das flores, borboletas e estrelas, exaltados por outros notáveis. Se foi o poeta quem se deparou com a pedra, o cerne do poema é o acaso que se tornou relevante. A pedra é um mote para uma condição fenomenológica, uma intencionalidade do homem [o poeta] em reconhecer a existência de um objeto [a pedra] por alguns instantes.

Agora, se considerarmos que quem se deparou com a pedra foi um personagem, a pedra é tão ficcional como o próprio. Pedra e personagem estão em pé de igualdade e são joguetes nas mãos do poeta para ilustrar possíveis questões existenciais: a pedra foi "colocada" no caminho do personagem, a fim de ilustrar um momento de espanto, de auto-questionamento do poeta (não do personagem) no sentido de "estar-em-si", consciente daquele recorte (a percepção da pedra). O espanto do "tempo perdido", da vida que se esvaiu até ali, com a percepção da sua decadência física (retinas) sem que ele tivesse se atentado devidamente aos momentos sublimes da vida, presentes na simplicidade cotidiana. Personagem e pedra são a metáfora de uma descoberta tardia.

Há indícios de que não foi o poeta quem se deparou com a pedra, mas o personagem. Partindo do pressuposto de que o poema é de 1930, ano em que o poeta tinha 28 anos - jovem, portanto -, dificilmente ele teria retinas fatigadas.

E que caminho? Se o poema é já quase centenário, podemos inferir que na sua época havia vários caminhos, digamos, rurais - tipo aqueles que desenhávamos nos cadernos sem pauta e coloríamos de amarelo ou bege a terra desgastada pelo caminhar das pessoas, e de verde, a vegetação lindeira. A palavra "caminho" remete a campo, algo primaveril. Nas cidades não há caminhos; há ruas. Quem se depara com uma pedra, inevitavelmente está a pé. O poema seria impossível ser composto por um citadino, pois quase não há pedras nas metrópoles e por ali anda-se muito de carro, ônibus, metrô ou bicicleta.

O fato de as retinas estarem fatigadas nos leva a crer que o poeta tinha visto muita vida, e percorreu o mesmo traçado durante anos, sem notar a tal pedra. Provavelmente não só as retinas estavam cansadas, mas os pés rachados. O que ele sentiu ao fitar a pedra naquela altura da vida? Culpa - por ter perdido outras coisas na vida pelo fato de não estar permanentemente atento? Compaixão - por considerar aquela pedra um ser da mesma importância de uma formiga, ainda que a pedra seja inanimada e dura?

Aparentemente o poeta/personagem deixou a pedra pra trás, sem nela tocar. A pedra virou passado, memória, pois dela ele nunca se esqueceria, como prometeu. O "obstáculo", palavra que carrega um sentido negativo intrínseco, tornou-se uma espécie de epifania, um congelamento de um instante único, fotografia de um sentimento.

Pelo visto o poeta respeitou o estado da pedra: una, dura, estática. Estaria ela lá neste exato momento?

Nota do Editor
Leia também "No meio do caminho: 80 anos"


Wellington Machado
Belo Horizonte, 5/8/2015


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Nouvelle Vague: os jovens turcos de Marília Almeida
02. A cidade e as serras de Ana Elisa Ribeiro
03. Bubble: uma nova revolução no cinema. Será? de Marcelo Miranda


Mais Wellington Machado
Mais Acessadas de Wellington Machado
01. O poeta, a pedra e o caminho - 5/8/2015
02. A ilusão da alma, de Eduardo Giannetti - 31/8/2010
03. Enquanto agonizo, de William Faulkner - 18/1/2010
04. As pedras de Estevão Azevedo - 10/10/2018
05. Meu cinema em 2010 ― 1/2 - 28/12/2010


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Papai!
Philippe Corentin; Cassia Silveira
Cosac & Naify
(2014)
R$ 5,00



Violão: acompanhamento com ou sem mestre
Victor Hugo Thozeski
Rígel
(2000)
R$ 5,00



O Gato Que Conhecia Shakespeare
Lilian Jackson Braun
Marco Zero
(1995)
R$ 12,00



Jogos e Enganos
Sebastião Uchoa Leite
34
(1995)
R$ 9,30



Revista Náutica Nº 279 - um a Um, 75 Barcos Que Foram Destaques
Editora Revista Náutica
Revista Náutica
(2011)
R$ 9,96



Jesus A Dor E A Origem De Sua Autoridade - Vol. 1
Paiva Neto
Elevação
R$ 16,00



Cozinha Prática - Sobremesas
Cristian Muniz
Pae
(2015)
R$ 39,00
+ frete grátis



Seguindo Juntos
Francisco Cândido Xavier
GEEM
(1983)
R$ 10,00



Os Desenraizados da Baixa do Caroá
Rubem Ivo
Edite
(2019)
R$ 100,00



Narrativa de serviços no libertar-se o Brasil da dominação portuguesa
Lorde Thomas Cochrane
Senado
(2003)
R$ 150,00





busca | avançada
114 mil/dia
2,3 milhões/mês