A vida sexual da mulher feia | Fabrício Carpinejar | Digestivo Cultural

busca | avançada
104 mil/dia
2,5 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Maíra Lour apresenta leitura dramática audiovisual “Insensatez'
>>> Exposição do MAB FAAP conta com novas obras
>>> Projeto Camerata Filarmônica Brasileira apresenta concerto comemorativo no dia 15 de maio em Indaiat
>>> Ação Urgente Contra a Fome - SescSP
>>> 3ª Mostra de Teatro de Heliópolis recebe inscrições até 31 de maio
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
>>> Cem encontros ilustrados de Dirce Waltrick
>>> Poética e política no Pântano de Dolhnikoff
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgård
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
Colunistas
Últimos Posts
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> Cultura ou culturas brasileiras?
>>> DevOps e o método ágil, por Pedro Doria
>>> Spectreman
>>> Contardo Calligaris e Pedro Herz
>>> Keith Haring em São Paulo
>>> Kevin Rose by Jason Calacanis
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
Últimos Posts
>>> Acentuado
>>> Mãe, na luz dos olhos teus
>>> PoloAC retoma temporada de Os Doidivanas
>>> Em um tempo, sem tempo
>>> Eu, tu e eles
>>> Mãos que colhem
>>> Cia. ODU conclui apresentações de Geração#
>>> Geração#: reapresentação será neste sábado, 24
>>> Geração# terá estreia no feriado de 21 de abril
>>> Patrulheiros Campinas recebem a Geração#
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Irredentismo
>>> A situação atual da poesia e seu possível futuro
>>> O assassinato de Herzog na arte
>>> Hitler, de Ian Kershaw, pela Companhia das Letras
>>> Livrarias em tempos modernos
>>> O que é a memética?
>>> O dinossauro de Augusto Monterroso
>>> Sobre o Jabá
>>> Você viveria sua vida de novo?
>>> Suicídio, parte 2
Mais Recentes
>>> Robot Dreams de Isaac Asimov pela Ace Books (1996)
>>> O Dramaturgo como Pensador de Eric Bentley pela Civilização Brasileira (1991)
>>> O Conclave de Malachi Martin pela Novo Tempo (1978)
>>> A Nova Ciência da Política de Eric Voegelin pela Universidade de Brasília (1982)
>>> Gestión del Conocimiento de Agustí Canals pela Gestión (2003)
>>> Brasil:a Arte de Hoje de Jocob Klintoeitz pela Sao Paulo (1983)
>>> A Conquista do Rio Grande Volume 1 de Jose Netto pela Rio Cell (1989)
>>> Rui Barbosa:tentativa de Compreenção e de Síntese de Luiz Delgado pela Jose Olympio (1945)
>>> T. E. C. Tecnologia Estelar Complementável de Marcelo Santana pela Anthology (2010)
>>> O Pensamento de Platão de Antonio Freire pela Livraria Cruz - Braga (1967)
>>> O Circo de Lucca de Zugliani Jorge Otávio pela Devir (2007)
>>> Far Eastern Ceramics - Marks and Decoration de Maria Penkala pela Mouton (1963)
>>> Tesoros del Arte Japones:periodo Edo(1615-1868) de Museo Fuji - Tokio pela Fundacion Juan March (1995)
>>> Ferrari-the Sports and Gran Turismo Cars de Warren W Fitzgerald / Richard F Merrittn e Outros pela Norton Company (1979)
>>> Cómo Evaluar y Mejorar Sus Capacidades Personales de Gareth Lewis pela Gestión (2000)
>>> Noções Básicas de Importação de João dos Santos Bizelli e Ricardo Barbosa pela Aduaneiras (1993)
>>> Dinheiro Dinheiro Dinheiro... Como Ganhar Rapidamente de Mathias Gonzalez pela Ediouro (1987)
>>> Organizacion del Almacen de Michele Calimeri pela Hispano Europea (1961)
>>> Mestres do Marketing de Gene Walden pela Ediouro (1994)
>>> O Poder do Marketing Direto de Ray Jutkins pela Makron (1994)
>>> Dinheiro Dinheiro Dinheiro... Como Ganhar Rapidamente de Mathias Gonzalez pela Ediouro (1987)
>>> Dinheiro Dinheiro Dinheiro... Como Ganhar Rapidamente de Mathias Gonzalez pela Ediouro (1987)
>>> Como Negociar Aumento de Salário de George M. Hartman pela Ediouro (1995)
>>> Karoshi o Jogo da Qualidade - Completo de Paulo Sandroni e Luis Alberto Sandroni pela Best Seller (1995)
>>> O Monstro Embaixo da Cama de Stan Davis pela Futura (1996)
COLUNAS

Sexta-feira, 17/2/2006
A vida sexual da mulher feia
Fabrício Carpinejar

+ de 36000 Acessos

O título gruda no ouvido como letra de axé. Mas no bom sentido. É também nonsense, divertido e surpreendente, Campos de Carvalho (de A Lua Vem da Ásia e O Púcaro Búlgaro) iria gostar.

A Vida Sexual da Mulher Feia (2005, Agir, 136 págs.) já provocou gafes em algumas livrarias. Algumas pensaram que era auto-ajuda, um manual prático para as mulheres pouco abençoadas fisicamente. Outras acreditaram que se tratava de uma biografia. Difícil conciliar a estante biográfica com a fotografia de Claudia Tajes, publicitária gaúcha, bela morena de 42 anos e autora de outros quatro livros de ficção, Dez quase Amores; Dores, Amores e Assemelhados; As Pernas de Úrsula e Vida Dura.

Confusão por confusão, o livro vendeu sua primeira tiragem em semanas e já alcançou a marca de 15 mil exemplares. Mérito para a qualidade da ficção, que traz - em primeira pessoa - as agruras de Jucianara, uma mulher, diga-se, literalmente feia. É uma sátira ao romance de formação, seguindo a trilha de sucessos franceses tal Como me Tornei Estúpido, de Martin Page (que conta a história de um jovem que não consegue adquirir nenhum vício, muito menos se matar) e Mamíferos, de Pierre Merot (que flagra as mazelas de um tio fracassado diante da família). Dois parâmetros brasileiros de sua escrita ágil, fluente e leve é Fernando Sabino, da primeira safra como O Grande Mentecapto, e Luis Fernando Verissimo, numa versão Maitena.

Claudia Tajes tem um humor coloquial, pop e acachapante. A força está nos comentários espirituosos das cenas de humilhação de Jucianara, que já começa torta a vida no cartório. "Nas vezes em que reclamei com a minha mãe por me chamar assim, ela respondeu: - Não poderia haver nome que combinasse mais com você". É inviável não rir à toa e alto durante a leitura, como se houvesse um megafone embutido na garganta. Não se trata da risada sádica, que segrega as formosas das horríveis e aponta o dedo para torturar. Tajes alcança a proeza da risada generosa e solidária, imbuída da reflexão e do combate aos condicionamentos.

Apresenta um viés de conversa séria em um fundo cômico. Até se assemelha a um guia de etiqueta e dicas de revistas femininas - porém no tom de paródia. Os ensinamentos e as ilustrações reproduzem o hábito de privilegiar as más notícias. Até porque a boa notícia sempre é contada rapidamente. Por sua vez, a má notícia é lenta e cinematográfica.

Em A Vida Sexual da Mulher Feia, o trágico se torna patético e ganha Ibope de carisma. Da forma como a trajetória é pontuada, acompanhada de uma pedagogia da resistência, evoca o Big Brother. A autora-narradora tem um quê de Pedro Bial, abrindo caminho para a pobretona ganhar o prêmio.

Nenhuma mulher ou homem ficará imune à insegurança da personagem. Afinal, quanto mais se olha no espelho, mais imperfeições aparecem, independente se o tamanho é P ou G. Cada capítulo do livro, em um crescente, acaba se transformando em provador de roupa insuportavelmente apertado e estreito. Alheio à loteria genética, qualquer um se imaginará nas saias justas, seja perante o esforço de não dançar sozinha em uma balada, seja no papel que sobra de confidente. Tajes cria uma protagonista sem rosto, não define qual é o motivo da fealdade, não esmiúça descrições físicas, não impõe uma caracterização isolada. No máximo, sabe-se que Jucianara é gorda e só. O recurso facilita a identificação ampla e abrangente do público.

Esta é a principal virtude do livro: não se propagar como um conto de fadas às avessas. (Aviso de antemão:) O final feliz, com um príncipe encantado, não acontecerá sob hipótese alguma. Uma mulher feia não tem tempo para as distrações. Vai se esforçar o dobro para se considerar normal. E não mudará de condição, mesmo nas mãos de Pitanguy. Já que a mulher feia não é uma aparência, como explica Tajes, é um "estado de espírito".

Ju, como é conhecida para disfarçar seu batismo, goza de uma autocrítica impagável. Não perde um momento de se indispor à ditadura da magreza. Apresenta suas fases com requintes de crueldade. Como é a própria que se goza, não fica politicamente incorreto. Com uma crueza de consultório de terapeuta, é possível acompanhar desde o primeiro beijo, passando pela primeira transa e primeiro abandono até as relações maduras e - nem por isso - estáveis.

Suas aventuras amorosas começam com um colega do terceiro ano, Marcos, o único que parava para conversar. A transa rápida ainda era custeada pela divisão de um pacote de balas de jujuba. "Mulheres costumam esconder sua primeira vez no sexo. Com as mulheres feias a tendência é acontecer o mesmo, com uma diferença: no caso delas, é o deflorador quem prefere evitar a divulgação dos fatos". O histórico afetivo ainda inclui relacionamentos, entre outros, com um cobrador, um pintor frustrado e um porteiro.

No formato de teses, a escritora define e exemplifica os horrores vividos por Jucianara, que sempre sofrerá a companhia de eufemismos como "prestativa, simpática, confiável, boa-praça, exemplar e grande companheira".

O único pecado (venial) da novela é a quebra de ritmo no final. Tajes parece que apressou o passo, arrematou o que merecia um maior fôlego, lentidão e cuidado. O livro ficou assimétrico, as tensões envolventes e didáticas do início e do meio não encontram um desaguadouro merecido ao término. O sucesso de Ju como locutora na rádio Baticum FM e a inclusão de cartas dos leitores esfriam o conjunto, porém não sacrificam a revelação da autora como uma das mais bem-humoradas e peculiares ficcionistas brasileiras.

A Vida Sexual da Mulher Feia refaz a "Receita de Mulher", do poeta Vinicius de Moraes: "As muito bonitas que me perdoem, mas feiúra é fundamental."

Nota do Editor
Fabrício Carpinejar é poeta, autor de sete livros: entre eles, Como no céu/Livro de visitas (2005), Cinco Marias (2004) e Caixa de Sapatos (2003). Esta resenha, gentilmente cedida pelo autor, foi publicada originalmente no "Caderno2", de O Estado de S.Paulo, em 15 de janeiro de 2006.

Para ir além






Fabrício Carpinejar
São Leopoldo, 17/2/2006


Mais Fabrício Carpinejar
Mais Acessadas de Fabrício Carpinejar
01. A vida sexual da mulher feia - 17/2/2006
02. A Invenção de Orfeu de Jorge de Lima - 14/7/2005
03. Manoel de Barros: poesia para reciclar - 17/8/2006
04. Separar-se, a separação e os conselhos - 18/1/2005
05. Sobre a mulher que se faz de vítima - 18/1/2007


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Elogio da Leitura
Gabriel Perissé
Manole
(2006)



A Queda da Monarquia Francesa - Luis XVI, Maria Antonieta e O Barão de Breteuil
Munro Price
Record
(2007)



A Boca no Mundo - 100 Crônicas de Fernando Bonassi
Fernando Bonassi
Novo Século
(2007)



Comece Hoje a Esquentar a Relação
Joyce e Clifford Penner
Thomas Nelson Brasil
(2012)



Um Novo Espírito Santo Onde a Corrupção Veste Toga
Rogério Medeiros e Stenka do Amaral Calado
Capital Cultural
(2010)



Educação Em Astronomia
Rodolfo Langhi - Roberto Nardi
Escrituras
(2013)



Contar Com Deus - Estudos de Teologia Moral
Xavier Thevenot
Loyola
(2008)



Riso Rimado - Autografado
Oswaldo Gomes
Taba Cultural
(2006)



Fairy Tail Vol. 57
Hiro Mashima
Jbc
(2016)



Urbanidade e Violência
Dados Revista Ciências Sociais Nº 2 de 1988
Vértice
(1988)





busca | avançada
104 mil/dia
2,5 milhões/mês