A alma boa de Setsuan e a bondade | Milena Carasso | Digestivo Cultural

busca | avançada
67107 visitas/dia
2,1 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Filó Machado encerra circulação do concerto 60 Anos de Música com apresentação no MIS
>>> Mundo Suassuna, no Sesc Bom Retiro, apresenta o universo da cultura popular na obra do autor paraiba
>>> Liberdade Só - A Sombra da Montanha é a Montanha”: A Reflexão de Marisa Nunes na ART LAB Gallery
>>> Evento beneficente celebra as memórias de pais e filhos com menu de Neka M. Barreto e Martin Casilli
>>> Tião Carvalho participa de Terreiros Nômades Encontro com a Comunidade que reúne escola, família e c
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Marcelo Mirisola e o açougue virtual do Tinder
>>> A pulsão Oblómov
>>> O Big Brother e a legião de Trumans
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
Colunistas
Últimos Posts
>>> A melhor análise da Nucoin (2024)
>>> Dario Amodei da Anthropic no In Good Company
>>> A história do PyTorch
>>> Leif Ove Andsnes na casa de Mozart em Viena
>>> O passado e o futuro da inteligência artificial
>>> Marcio Appel no Stock Pickers (2024)
>>> Jensen Huang aos formandos do Caltech
>>> Jensen Huang, da Nvidia, na Computex
>>> André Barcinski no YouTube
>>> Inteligência Artificial Física
Últimos Posts
>>> Cortando despesas
>>> O mais longo dos dias, 80 anos do Dia D
>>> Paes Loureiro, poesia é quando a linguagem sonha
>>> O Cachorro e a maleta
>>> A ESTAGIÁRIA
>>> A insanidade tem regras
>>> Uma coisa não é a outra
>>> AUSÊNCIA
>>> Mestres do ar, a esperança nos céus da II Guerra
>>> O Mal necessário
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O fim da inocêcia blogueira
>>> Allen Stewart Konigsberg
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Os Quatro Cavaleiros do Apocalipse
>>> Escrevendo com o inimigo
>>> FLAP! Uma bofetada na indiferença*
>>> Eles – os artistas medíocres
>>> Meu beijo gay
>>> A história de Rogério Xavier e da SPX (2023)
>>> Waldstein por Andsnes
Mais Recentes
>>> Livro Revista Jurídica De Jure VOL 12 nº 21 de Vários pela Del Rey / Ministério Público (2013)
>>> Livro Energia. As Razões Da Crise E Como Sair Dela de Ernesto Moreira Guedes Filho, Jose Marcio. Camargo, Juan Gabriel Perez Ferres pela Gente (2002)
>>> Livro Água Salobra de Bernadette Lyra pela Cousa (2017)
>>> Livro Sonata Ao Amor - Romance Esírita de Christina Nunes pelo Espírito Iohan pela Lumen (2012)
>>> Pra cima e pra baixo de Carla Irusta pela Palavras projetos (2021)
>>> Pelos olhos de minha mãe: Diários, memórias e outras lembranças de Laura Huzak Andreato pela Palavras projetos (2021)
>>> Para onde me levam os meus pés? de Cibele Lopresti Costa pela Palavras projetos (2021)
>>> Oswaldo Treinador Esportivo de Fernando A. Pires pela Palavras projetos (2023)
>>> Oswaaaaaldo! de Fernando A. Pires pela Palavras projetos (2023)
>>> Os pães de ouro da velhinha de Annamaria Gozzi pela Palavras projetos (2024)
>>> Ooobbaaaa! de pela Palavras projetos (2019)
>>> O Reciclador de Palavras de Barbara Parente pela Palavras projetos (2021)
>>> O gato que não parava de crescer de Fernando A. Pires pela Palavras projetos (2023)
>>> O dragão da Maldade e a Donzela Guerreira de Marco Haurélio pela Palavras projetos (2022)
>>> O almanaque de Lia de Luís Dill pela Palavras projetos (2022)
>>> No Museu de Susanna Mattiangeli pela Palavras projetos (2023)
>>> Nig-Nig de Andréia Vieira pela Palavras projetos (2023)
>>> Li M'in: uma criança de Chimel de Dante Rigoberta; Liano pela Palavras projetos (2018)
>>> Lábaro: O enigma da bandeira brasileira de Elifas Andreato pela Palavras projetos (2022)
>>> 80 Degraus de Luís Dill pela Palavras projetos (2018)
>>> Estamos Todas Bem de Ana Penyas pela Palavras projetos (2022)
>>> Duas asas de Cristina Bellemo pela Palavras projetos (2024)
>>> Divisão Azul: Um agente infiltrado de Fran Jaraba pela Palavras projetos (2021)
>>> Campos de concentração de Narcís Molins i Fábrega pela Palavras projetos (2023)
>>> Ave do Paraíso de Georgina martins pela Palavras projetos (2018)
COLUNAS

Terça-feira, 30/3/2010
A alma boa de Setsuan e a bondade
Milena Carasso
+ de 23300 Acessos
+ 1 Comentário(s)

A alma boa de Setsuan trata-se de um texto de Brecht escrito nos anos 40 e que agora toma lugar em uma montagem de Marco Antônio Braz, em temporada popular, no Teatro Tuca.

O enredo começa quando os deuses vêm à Terra a fim de encontrar uma alma boa. Acreditam eles que no nosso mundo isto está tornando-se cada vez mais raro, o que é, logicamente (?), preocupante.

Na montagem em questão os deuses são apresentados de forma cômica e descompromissada de uma figura religiosa no sentido institucional.

Ao chegarem à província de Setsuan, procuram um lugar para pernoitar e não encontram, a princípio, ninguém que os acolha, confirmando suas suspeitas iniciais de que os homens tornaram-se egoístas e incapazes de dividir. Já quase desistindo, porém, deparam-se com Chen Tê, a prostituta da cidade, que lhes dá um lugar para dormir deixando assim, para isto, de atender a um cliente. Convencidos de que se trata este de um inquestionável e incomum caso de generosidade desinteressada, os deuses oferecem à moça uma alta quantia em dinheiro. Feliz com seu prêmio, Chen Tê deixa de ser prostituta e abre uma tabacaria, no intento de mudar de vida.

Aí começam os conflitos. O povo da cidade, antes acostumado a vê-la como uma mulher pouco digna de respeito, agora quer sua ajuda. Vendo que ela se encontra numa situação diferenciada, em que está provida de uma série de recursos, vão até ela pedindo abrigo, comida, favores. A índole boa de Chen Tê a impede de negar. Sempre disponível, ela atende a todos que a solicitam, metendo, assim, em palavras simples, os pés pelas mãos.

Numa situação limite, decide então compor uma persona falsa. Inventa um primo, veste-se de homem, engrossa a voz, e reveza-se entre este personagem e ela mesma. Como o primo Chui Tá, a ex-prostituta consegue, disfarçada, ter a dureza que em sua forma tradicional é incapaz de demonstrar. Nega, exige direitos, e, em último caso, torna-se mesmo antiética e revela capacidade para os atos maus.

A partir daí a peça se desenrola com muitas situações e uma evolução interessante, incluindo um elemento literário precioso, o amor. Entretanto, este motivo inicial é já suficiente para levantar uma reflexão que requer tempo e, por que não, coragem.

A questão ética que o belíssimo texto de Brecht levanta é a da bondade e generosidade, não em seu aspecto mais óbvio e clichê, mas sim discutindo a liberdade que se tem ou não em ser bom e generoso e a viabilidade destas virtudes no mundo real e moderno. Será possível ser bom num mundo em que se passa fome? E, acima de tudo, qual é o tamanho da fome que justifica cruzar o limite da ética? A resposta pretendida por Brecht, ao que parece, é positiva, mas não ingênua.

A generosidade, embora um valor indiscutivelmente louvável, deve ser acrescida de firmeza. Sim, a gentileza deve ser firme para que possa sustentar-se e, em ação, promover produtos e não perdas.

Aquele que é gentil e que compromete assim sua própria integridade, acaba por desistir da bondade ou perder sua capacidade material e psicológica de exercê-la. Dando tudo e ficando, consequentemente, desprovido de recursos, o gentil torna-se inútil até para si mesmo, além de promover a manutenção perversa das relações de ingratidão e abuso. O que consegue ser gentil, porém firme, pode, no entanto, continuar exercendo generosidade sem que para isso precise dar mais do que tem, ou ainda, o que é importante, do que quer dar.

Falar em alguém bom, ou pior, bonzinho, é quase um desrespeito. A bondade perdeu seu valor social há muito tempo, quando em lugar do gentil passou a ser valorizado o truculento. Aquele que se apresenta socialmente como bom é frequentemente visto como fraco, quando não bobo. A ele não se defere respeito, porque, em detrimento da bondade, prefere-se respeitar o que desperta medo, o que ameaça.

Assim, um empregador, por exemplo, quando conhece sua equipe de trabalho, seus funcionários, terá mais chance de êxito, aparentemente, se demonstrar dureza em vez de docilidade.

A dúvida que fica é: precisa ser assim? Será que não seríamos todos coniventes com isso, no movimento de respeitar quem ameaça e abusar do que oferece, tornando a bondade quase impraticável?

É possível que seja simplesmente uma escolha. De exercício diário e difícil, é verdade, mas exequível e real quando intencionado. O segredo talvez resida em não ter medo de ser gentil e, em consequência, ser abusado. O medo da velha história de estender a mão e ver arrancado o braço. Não será possível estender a mão, firme, sólida, generosa, e, ao mesmo tempo, se necessário for, impor sua necessidade de respeito e a integridade do tal braço, que, neste momento, não pode ser doado?

É provável que o limite seja tênue e que um elemento imponha-se no caminho; o narcisismo do bom. É comum que aquele que faz bondades não possa aceitar ser rejeitado, decepcionar e, assim, quem sabe, despertar ódio e frustração. Mais comum ainda é que esta necessidade de prover ao outro e ser pelo outro visto como um verdadeiro redentor implique em uma falta de capacidade de prover a si mesmo.

A resposta para a pergunta de "o que justifica a falta de ética?" pode ser tudo ou nada. Por isso, pensar diariamente nas escolhas, sobretudo naquelas que concernem às relações, é uma prática de caráter e sabedoria.

Deve haver, acredito, um equilíbrio saudável. O que não parece possível é dar sequência a um estilo de vida, aparentemente o vigente, em que a bondade torna-se rara e desvalorizada, e não seja mais pretensão de ninguém. "O mundo é dos espertos". Será?

Por último, é interessante lembrar que ser bom não consiste em atos grandiloquentes de esforços homéricos. Trata-se apenas, muitas vezes, de disponibilidade. Estar disponível para o outro é já uma ação coerente com o fato de que vivemos num mesmo espaço e tempo.

"Prefiro ser otimista e estar errado a ser pessimista e estar certo."

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pela autora. Originalmente publicado em seu blog, Sobre mentiras e fatos.


Milena Carasso
São Paulo, 30/3/2010

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Intervenção militar constitucional de Gian Danton
02. Ivanhoé de Gian Danton
03. Kardec, A Biografia, de Marcel Souto Maior de Ricardo de Mattos
04. A literatura infanto-juvenil que vem de longe de Marcelo Spalding
05. A arquitetura poética da pintura de Fabricius Nery de Jardel Dias Cavalcanti


Mais Milena Carasso
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
5/4/2010
03h39min
Todo o texto que apresenta-se muito cômico é bem mais sério do que espera-se, pois por tras do riso da ficção, está o desejo de uma realidade bem diferente de um presente.Encabule isto.
[Leia outros Comentários de Manoel Messias Perei]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Julieta
Anne Fortier
Sextante
(2010)



Barbie veerinária - junte o verso dos livros e tenha uma linda ilustração
Ciranda Cultural
Ciranda Cultural
(2013)



Ramses O Filho Da Luz
Christian Jacq
Bertrand Brasil
(1999)



German Grammar
Peter Meech
Harraps
(1988)



Dashiell Hammett - Uma Vida
Diane Johnson
Companhia das Letras
(1986)



A Cidade e As Serras
Eça de Queiroz
Ática
(2011)



Inquebravel - a Legião (lacrado)
Kami Garcia
Galera
(2014)



Revista de Letras - V. 37/38 - 1997/1998
Unesp
Unesp
(1998)



Coleção Vovô Felício 6 Livros
Vicente Guimarães
Companhia Brasileira



Sociologia. Introdução A Ciência Da Sociedade
Cristina Costa
Moderna
(2005)





busca | avançada
67107 visitas/dia
2,1 milhões/mês