Cuba e O Direito de Amar (3) | Marilia Mota Silva | Digestivo Cultural

busca | avançada
59441 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Clube do Disco - Clube da Esquina
>>> MONSTRA exibe filmes feitos por e com crianças nos dias 25 e 26/5
>>> Tão Somente Meninos
>>> Festa junina no Teatro do Incêndio busca continuidade do projeto SOL.TE
>>> Céu se apresenta no Sesc Guarulhos
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A suíte melancólica de Joan Brossa
>>> Lá onde brotam grandes autores da literatura
>>> Ser e fenecer: poesia de Maurício Arruda Mendonça
>>> A compra do Twitter por Elon Musk
>>> Epitáfio do que não partiu
>>> Efeitos periféricos da tempestade de areia do Sara
>>> Mamãe falhei
>>> Sobre a literatura de Evando Nascimento
>>> Velha amiga, ainda tão menina em minha cabeça...
>>> G.A.L.A. no coquetel molotov de Gerald Thomas
Colunistas
Últimos Posts
>>> The Number of the Beast by Sophie Burrell
>>> Terra... Luna... E o Bitcoin?
>>> 500 Maiores Álbuns Brasileiros
>>> Albert King e Stevie Ray Vaughan (1983)
>>> Rush (1984)
>>> Luiz Maurício da Silva, autor de Mercado de Opções
>>> Trader, investidor ou buy and hold?
>>> Slayer no Monsters of Rock (1998)
>>> Por que investir no Twitter (TWTR34)
>>> Como declarar ações no IR
Últimos Posts
>>> Asas de Ícaro
>>> Auto estima
>>> Jazz: 10 músicas para começar
>>> THE END
>>> Somos todos venturosos
>>> Por que eu?
>>> Dizer, não é ser
>>> A Caixa de Brinquedos
>>> Nosferatu 100 anos e o infamiliar em nós*
>>> Sexta-feira santa de Jesus Cristo.
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Tecnologia de Minority Report
>>> Sabemos pensar o diferente?
>>> Do Surrealismo
>>> Milagres não existem
>>> Valsinha
>>> Sobre o caso Idelber Avelar
>>> Uma gafieira, pintura digital
>>> As drogas fazem você virar os seus pais
>>> Dave Brubeck Quartet 1964
>>> O Conto do Amor, de Contardo Calligaris
Mais Recentes
>>> Guia do Estressado de Rosana Ferrão pela Aeroplano
>>> A Arte da Guerra de James Clavel pela Record (2002)
>>> Poesia na Varanda de Sonia Junqueira; Flavio Fargas pela Autêntica (2012)
>>> A Falta Que Ela Me Faz de Fernando Sabino pela Record
>>> Quem Manda na Minha Boca Sou Eu! de Ruth Rocha pela Ática (2007)
>>> Propósito - a Coragem de Ser Quem Samos de Sri Prem Baba pela Sextante (2016)
>>> O Inglês; Tal Qual Se Fala no Presente sem Auxílio de Professor de M. Oliveira Malta pela Cia. Brasil (1960)
>>> Medicina Alternativa de A a Z de Carlos Nascimento Spethmann pela Natureza (2004)
>>> Administração Estratégica 2 Edição de Varios pela Pearson (2005)
>>> O Vaqueano de Apolinário Porto Alegre pela Três (1973)
>>> A Casa Iluminada de Alessandro Thomé pela Benvira (2012)
>>> Medicina Alternativa de a a Z - 6ª Edição de Carlos Nascimento Spethmann pela Natureza (2004)
>>> O Poder de Mau Humor de Ruy Castro pela Companhia das Letras (1993)
>>> O Amanha Começa Hoje de Alf Lohne; Charlote F. Lessa; Eduardo Olszewski pela Cpb Didaticos (2013)
>>> 21 Days to the Perfect Dog de Karen Wild pela Hamlyn (2014)
>>> Ligados. Com Ciencias - 3º Ano de Maira Rosa Carnevalle pela Saraiva Didáticos (2015)
>>> Depois Que Vim a Saber... de Elifas Alves pela Teatro Espírita (1983)
>>> Sherlock Holmes - O Vale do Medo de Arthur Conan Doyle pela Principis (2019)
>>> Instalações Elétricas de Hélio Crede pela Ltc (1986)
>>> Mensagens do Vento de Aldo Saettone pela Clio (2008)
>>> O Gerente Que Veio do Céu de Floriano Serra pela Gente (2000)
>>> Gramática Texto Análise e Construção de Sentido Caderno de Estudo de Maria Luiza M. Abaurre pela Moderna (2011)
>>> O Sentido da Vida na Catequese de Isabel Cristina a Siqueira pela Paulus (2014)
>>> Quando é Preciso Ser Forte de De Rose pela Egrégora (2005)
>>> Flores de Kalocsa de Vários Autores pela GyÖrgyi (1984)
COLUNAS

Quinta-feira, 21/1/2021
Cuba e O Direito de Amar (3)
Marilia Mota Silva

+ de 11200 Acessos

Nas conversas que tive com cubanos, quando andava por Habana Vieja, curiosa para saber o que significavam as braçadeiras vermelhas que via por toda a parte, inclusive em crianças com uniforme escolar, aprendi o que era CDR - Comitê de Defesa da Revolução: um sistema de controle absoluto da população. A vigilância do Estado dentro de cada casa. Vigiar e denunciar: o que faz cada um, quais suas amizades, o que pensa, quem o visita, quantas vezes, onde vai, com quem conversa.

Vigiar e denunciar são valores que as crianças aprendem desde pequenas. Isso destrói o que é mais essencial na nossa vida: a confiança em família, entre pais e filhos, irmãos e amigos, disse isso ao velho garçom de boa-vontade, e ele respondeu que o CDR tinha também outras atividades importantes na vida comunitária: organizavam as festas como a que aconteceria hoje. Cuidavam que os bairros estivessem sempre limpos. Atendiam os que precisavam de ajuda. Ajudavam nas campanhas de vacinação.

Difícil entender como um país pode ser administrado com ingerência de um poder central nos mínimos detalhes: do pensamento dos cidadãos até o abastecimento de ítens básicos. Por exemplo, não espere encontrar papel higiênico nos banheiros dos bancos, bares, restaurantes. Nem mesmo no aeroporto. Só se encontra nos lugares exclusivos para turistas. Se economia é a arte de administrar a escassez, a administração cubana merece o Nobel.

Jantamos no hotel com os companheiros do México e da Argentina. Planes falou da conversa que teve com o motorista de táxi que o trouxe do aeroporto: cada cubano tem direito a 750 gramas de carne por mês, toda a alimentação é racionada. Existe muita prostituição, mas o pagamento é feito com comida ou roupa.

*****

28, quinta.
Fui à catedral. Entrei com uma turma de canadenses, o zelador logo me viu, fez sinal com a cabeça e o segui até a sacristia. Devolvi-lhe as cédulas, pedi desculpas. Ele retirou um bloco de pedra da parede e guardou lá o dinheiro, sem me olhar. Ainda hoje me arrependo por não ter comprado nada para ele ou para a filha.

Lamentei também estar tão mal informada antes da viagem. Poderia ter trazido a mala cheia de roupas, qualquer coisa seria útil para eles.

Na entrada da igreja, o mesmo homem rígido, assustava. Juntei-me a um grupo de canadenses que apreciava a arquitetura da catedral, as paredes de pedra, quando o mexicano Mazotti me encontrou. Passamos juntos o resto da manhã, transpirando no calor úmido e abafado. Os museus só abririam no dia seguinte. Vimos de fora a Academia de Ciências, uma réplica do Capitólio de Washington, o teatro Garcia Lorca, o prédio onde funcionava a Bolsa de Valores de Havana que agora era um restaurante para os funcionários do Banco Nacional de Cuba.

Entramos sem ser barrados, Mazzotti torceu o nariz olhando a comida nos bandejões, mas as pessoas comiam animadamente, embora sem ruído, e sem conversa que pudéssemos ouvir.

Saímos às pressas quando surgiram uns caras com expressão raivosa, andando em nossa direção, como se fossem nos interpelar ou pôr pra fora.

Queríamos tomar um drinque porque já estava na hora do almoço e mais uma vez pedi piña-colada. Não tinham. Só Morritos, o drinque preferido de ... .

Perguntei qual ingrediente estava em falta, porque eu não encontrava esse drinque em lugar nenhum. O garçon respondeu que não havia côco, nem piña, nem rum. Só rindo. Côco e abacaxi tinham que ser abundantes numa ilha cheia de praias e calor. E rum é sua bebida mais tradicional. Enfim...só morritos.

*****

À tarde, resolvi descansar meus pés. No Canal de Sol estava passando um filme em que Paul Newman ensina a um rapaz a ser um vencedor na sinuca. É um típico filme americano: o mais velho derrotado ensina o mais jovem a ser o melhor, e isso inclui dar-lhe uma lição decisiva, a de não ter pena de ninguém, a ser sério, profissional, duro: que use trapaça para forçar apostas mais altas, que o que importa é vencer. O objetivo maior deles é jogar em Atlantic City. Quando chegam lá, o salão de sinuca é filmado como um templo. Suntuoso, sublime. Começam pela parede dos fundos, que surge como se fosse um altar, a música lembra música religiosa. A câmera vai baixando até mostrar a série de mesas de jogo, alternando com o sempre lindo rosto de Paul Newman. É um hino ao individualismo, à competitividade, ao dinheiro, ao sucesso a qualquer preço. Uma escolha bem pensada para lembrar aos turistas a pobreza, o vazio dos valores no sistema capitalista.

À noite tivemos jantar com Santiago e Marta, diretores do BNC, no La Zaragozana, genuína cozinha cubana. Foi um jantar com vários pratos, como um menu de degustação. Aperitivos, bons vinhos, sobremesa e licor. E charutos. Eu suava frio, o cheiro piorava meu mal-estar. Mas a conversa foi animada. Santiago falou com ardor do regime socialista. Disse que seus pais eram gente humilde e ele nunca poderia ter chegado onde chegou em outro regime. Marta falou da saúde, com o mesmo entusiasmo. Perguntei sobre planejamento familiar e fiquei surpresa com a resposta. Eles não têm, ao contrário. Disse que os mais pobres têm muitos filhos porque a mulher fica de licença durante toda a gravidez e mais um ano depois do parto. Aí volta a trabalhar, mas pode tirar nova licença de um ano, depois de um mês de trabalho. Marta disse que estão estudando esse sistema que significa um grande peso para a sociedade.

Chegaram muitos brasileiros no hotel. No restaurante, no elevador, no saguão, na piscina, de cada dois grupos conversando, um é de brasileiros. Alguns vieram em voo charter da Vasp. Tem um grupo grande de empresários gaúchos e um grupo de mulheres; devem ter chegado ontem porque ainda não sabiam como funcionava o restaurante. *****

29, sexta.
Fiquei no hotel de manhã. A piscina é de água do mar, muito salgada. Havia poucos hóspedes nas espreguiçadeiras e o sol estava ameno. Acabei de ler o livro de Zuenir Ventura, "1968, o Ano Que Não Terminou". Um livro importante para conhecermos nossa história. Costa e Silva é mostrado como quase uma vítima das forças da direita O autor se baseou em pesquisas, mas fiquei me perguntando se o general teria tido mesmo tanto escrúpulo ao editar o AI-5. Almoçamos no hotel mesmo, no Restaurante L'Aiglon, com música cubana ao vivo.

À tarde, Pedro, que substituiu Ismael, nos levou para conhecer as praias do leste. O argentino perguntou se qualquer um podia passar as férias ali. Sim, claro, o motorista respondeu. É só reservar. As pessoas economizam durante o ano e depois gastam tudo nas férias.
Economizam como? Planes estava realmente interessado no sistema cubano. Se só recebem cupons de racionamento. Pedro ignorou a pergunta, e ficamos sem resposta. Continuamos apreciando a paisagem que passava à distância, velozmente: uma extensão de conjuntos habitacionais, uma escola para chefes do exército, uma West Point, disse Pedro, com o que há de melhor e mais moderno.

Nosso destino estava mais à frente. Descemos, pisamos descalços na areia grossa, apreciamos a linda praia, o mar e os coqueiros fustigados por um vento muito forte. Tudo limpo e bem organizado.

Havia grandes caixas d'água atrás dos coqueiros, com torneiras para que as pessoas pudessem se lavar na saída. Fui lavar os pés e as mãos antes de voltar para o carro, mas nenhuma delas funcionava. Havia grandes buracos de ferrugem e estavam vazias. A maresia corroera tudo.

Éramos só os quatro em toda a praia, tiramos fotos uns dos outros e seguimos em frente. Da estrada vimos um bairro com casas modernas, bonitas, e o argentino perguntou se podíamos parar ali para um café e água. Havia uma guarita na entrada, e o motorista saiu do carro para conversar com o guarda. Depois de longa negociação, em voz muito baixa, Pedro voltou sem dizer nada.

O guarda, com uma carranca de assustar, levantou a barra que bloqueava a passagem. Demos uma volta no bairro - na verdade fizemos um retorno, e saímos. A atmosfera era tensa e nem o argentino disse nada. Fomos `a outra praia, cheia de pedrinhas. Não dava para ir descalço, e o vento continuava muito forte. Estava quente, úmido e abafado, ninguém quis descer.

O motorista encontrou uma loja da Intur e pudemos comprar refrigerante e água. Depois de muita insistência, Pedro aceitou uma latinha de refrigerante. É contra a lei, disse, preocupado. O argentino comprou camisetas para seus chicos e niña.

À noite nossos anfitriões nos levaram ao Tropicana, um cabaret instalado entre árvores, com a "decoração tropical" esperada. Vimos os shows com plumas e lamês, típicos para turistas. Depois dos shows, dois, com pequeno intervalo, fomos bailar. Os músicos tocavam duas músicas e descansavam por dez a quinze minutos. Talvez para ninguém se animar demais. Mesmo assim bailamos, esperando pacientemente as longas pausas.

*****

30, sábado.
Saímos cedo para o aeroporto. Pedro ficou conosco até o embarque. Voo tranquilo em um velho Topolev, duas horas e dez minutos até o México.

Penso nos meus amigos que esperam com ansiedade meu relato, que reverenciam a Ilha e invejam suas conquistas.

Hoje, mais de trinta anos passados, gostaria de saber como está o país, como estão as pessoas que conheci brevemente, mas me ficaram na memória.


Marilia Mota Silva
Washington, 21/1/2021


Quem leu este, também leu esse(s):
01. A pós-modernidade de Michel Maffesoli de Guilherme Carvalhal
02. Esquerda x Direita de Marta Barcellos
03. FLIPS de Elisa Andrade Buzzo
04. Bibliotecas públicas, escolares e particulares de Ana Elisa Ribeiro
05. Cultura, gelo e limão de Marta Barcellos


Mais Marilia Mota Silva
Mais Acessadas de Marilia Mota Silva
01. Contra um Mundo Melhor, de Luiz Felipe Pondé - 21/10/2011
02. O Vendedor de Passados - 9/5/2018
03. Cuba e O Direito de Amar (3) - 21/1/2021
04. Memorial de Berlim - 23/12/2015
05. Nuvem Negra* - 8/2/2017


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Um Vestido Perigoso
Julia Holden
Arx
(2007)



Guerreiros de Roma - Rei dos Reis - Vol 2
Harry Sidebottom
Record
(2016)



Talassoterapia Em Casa
Angelika Eder
Pensamento
(2010)



Resumo da Doutrina Cristã
Pe. Oswaldo Baldan
Franciscana
(1973)



El Alma y las Formas y La Teoría de La Novela
Georg Lukács
Grijalbo
(1975)



Como Fazer Inimigos e Alienar Pessoas
Toby Young
Record
(2004)



Paço Imperial - roteiro para visita histórica
Diversos colaboradores
Revista do Patrimônio histórico
(1995)



Friends Forever
Friends Forever (pvt) Ltd
Call & Service Center



El Bosque de Espadas
Eric Lustbader
Atlantida
(1994)



Os últimos lagídios
Helaine Coutinho Sabbadini
Boa Nova
(2006)





busca | avançada
59441 visitas/dia
1,8 milhão/mês