Noturno para os notívagos | Ana Elisa Ribeiro | Digestivo Cultural

busca | avançada
55418 visitas/dia
1,9 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Abertas as Inscrições para a Oficina Conteúdo Audiovisual Infantil e Infantojuvenil
>>> Lançamento da Ubook, 'Desditas Cariocas' traz contos inspirados nas temáticas rodriguianas
>>> Balé de repertório, D. Quixote estará no Teatro Alfa dia 27/1
>>> Show de Zé Guilherme no Teatro da Rotina marca lançamento do EP ZÉ
>>> Baianas da Vai-Vai são convidadas de roda de conversa no Teatro do Incêndio
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Olavo de Carvalho (1947-2022)
>>> Maradona, a série
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
Colunistas
Últimos Posts
>>> O melhor da Deutsche Grammophon em 2021
>>> A história de Claudio Galeazzi
>>> Naval, Dixon e Ferriss sobre a Web3
>>> Max Chafkin sobre Peter Thiel
>>> Jimmy Page no Brasil
>>> Michael Dell on Play Nice But Win
>>> A história de José Galló
>>> Discoteca Básica por Ricardo Alexandre
>>> Marc Andreessen em 1995
>>> Cris Correa, empreendedores e empreendedorismo
Últimos Posts
>>> Brega Night Dance Club e o afrofuturismo amazônico
>>> Fazer o que?
>>> Olhar para longe
>>> Talvez assim
>>> Subversão da alma
>>> Bons e Maus
>>> Sempre há uma próxima vez
>>> Iguais sempre
>>> Entre outros
>>> Corpo e alma
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A indigência do rock e a volta dos dinossauros
>>> A terra das oportunidades
>>> Acordo Internetês Ortográfico
>>> Trágico e Cômico, o livro, de Diogo Salles
>>> Equipe econômica
>>> Literatura Falada (ou: Ora, direis, ouvir poetas)
>>> Jornais: conteúdo pago?
>>> Assum Preto, Me Responde?
>>> Assum Preto, Me Responde?
>>> Noturno para os notívagos
Mais Recentes
>>> Superdicas para Empreender Seu Próprio Negócio de Ruy Leal pela Saraiva (2008)
>>> Paulo o 13º Apóstolo de Ernest Renan pela Martin Claret (2008)
>>> Cadenos Puc 11- Psicologia - Reflexões sobre a Psicologia de Pontificia Universidade Católica pela Cortez (2000)
>>> Era dos Extremos - O breve século XX 1914-1991 de Eric Hobsbawm pela Companhia Das Letras (1996)
>>> O Livro dos Médius de Allan Kardec pela Lake (2007)
>>> O Homem no Cotidiano - Alicerce do Paraíso de Meishu-sama pela Fundação Mokiti Okada (2010)
>>> O Racismo na História do Brasil - Mito e Realidade - Coleção História em Movimento de Maria Luiza Tucci Caneiro pela Ática (2003)
>>> Sobrevivente - Edição Slim de Chuck Palahniuk pela Leya (2020)
>>> O Reencontro de uma Família de Adriana Gumz pela Educarte (1998)
>>> A Ditadura Acabada de Elio Gaspari pela Intrinseca (2016)
>>> Memórias do Trabalho: depoimentos sobre profissões em extinção de Luiz A. Egypto de Cerqueira pela Confederação Nacional dos Metalúrgicos (1999)
>>> Quem esta escondido? - Estegossauro de Susie Brooks pela Ciranda Cultural (2017)
>>> A Mesa do Mestre-Cervejeiro - Descobrindo os prazeres das cervejas e das comidas verdadeiras de Garrett Oliver pela Senac (2012)
>>> Mistérios de Lygia Fagundes Telles pela Nova Fronteira (1981)
>>> Jesus, O Maior Psicólogo Que Já Existiu de Mark W. Baker pela Sextante (2009)
>>> A Cabana de William P. Young pela Arqueiro (2012)
>>> Como Calar o Acusador de David Alsobrook pela Atos (2010)
>>> A Mágica de Pensar Grande de David J. Schwartz pela Pro Net (1996)
>>> Eu escolho ser Feliz de Susana Naspolini pela Agir (2019)
>>> Eneida (Capa dura) de Virgílio pela Nova Cultural (2003)
>>> Windows on the World de Frédéric Beigbeder pela Record (2005)
>>> A Linguagem das Cores de René-Lucien Rousseau pela Pensamento (1991)
>>> As Sete Chaves da Cura pela Cor de Roland Hunt pela Pensamento (1993)
>>> Renovando Atitudes de Francisco do Espirito Santo Neto pela Boa Nova (1997)
>>> Anjos e Demônios de Dan BrownS pela Sextante (2009)
COLUNAS

Sexta-feira, 10/6/2016
Noturno para os notívagos
Ana Elisa Ribeiro

+ de 4000 Acessos

Eu sei que nem todo mundo janta. Esta é uma generalização só para ser didática. Não é para se transformar em caso de luta de classes. Mas vejamos: dos que preferem o lanchinho com pão na chapa aos que não têm o que comer à noite, todos estão fora do grupo que quero descrever aqui: os que trabalham à noite.
É que eu trabalho à noite. Muito. E sempre. E mais: eu gosto de trabalhar à noite. Toda vez que penso nisso, me vem a lembrança de uma música do Kid Abelha, alguém recorda? Não lembro o disco, mas é fácil de achar. "Trabalhador da noite, meu serviço é seu prazer... sempre em casa depois do amanhecer". Eu achava bonitinha a homenagem, mas não me enquadrava bem nisso. Tá certo que a canção é para os profissionais do sexo, provavelmente, o que não é meu caso.

Os deslocados
Eu me senti meio deslocada por isso, por trabalhar à noite. Faça aí uma listinha, para além das prostitutas e assemelhados: guarda noturno, vigia, porteiro, padeiro (?), motorista, médico (os de plantão, geralmente os mais jovens), enfermeira (e assistentes e técnicos), coveiro, jornaleiro, jornalista também, garçom, balconista de todo tipo, caixa e... professor. Veja que uma enormidade de pessoas executa profissões de turno noturno. Pegam depois das seis, largam no dia seguinte, chegam em casa ao contrário de todo mundo, cumprimentam o ascensorista do elevador com cara de quem ainda vai dormir, lancham em turnos trocados, dormem até meio dia e levam má fama injustamente.
Ah, os padrões. Como me enchiam a paciência! A começar pelas minhas preferências na escola. Sempre tive muita dificuldade de me concentrar de dia, então preferia fazer tudo da tarde para a noite. Aproveitar a madrugada e dormir de manhã eram minhas especialidades. E sempre me dei bem com o que eu tinha de cumprir, mas não com os outros, os olhares dos outros e as regras predeterminadinhas dos outros. Ouvi muita palestra dispensável sobre por que eu deveria gostar das manhãs. Minha cabeça estaria descansada, minha inteligência estaria mais arguta, minha vida seria melhor, meu futuro seria muito mais promissor. (Bocejos incontroláveis).

Não atendo!
Minha dificuldade era visível. Eu preferia então turnos vespertinos, estudar à tarde ou à noite, descansar enquanto todos dormiam. Na adolescência, já tinham em casa minha ordem expressa: não atendo telefone antes das 12h. Combinado. Mas jamais digam que estou dormindo. O comando era dizerem que eu "saí". Volto logo. Porque o mundo jamais entendeu que enquanto dormiam, eu trabalhava ou estudava, à luz do abajur. (Abajur e lâmpada são objetos da minha enorme estima). Já diziam logo, com tom de condenação: "dorminhoca, hein?" E era injustiça.
Mas tinha regra para tudo, e eu não estava dentro da regra. Não me daria bem nos estudos nem no trabalho. Não conseguiria sobreviver se não acordasse todos dia às 6h. Era meu terror. E durante muito tempo, fiz isso, é claro. Até ir conquistando a vida que me parecia de mais qualidade: obedecer o que pediam meu corpo e minha atenção.

Professora
Ser professora tem destas. Todo mundo quer pegar as aulas da manhã, as da tarde já soam como castigo. Pois eu quero tudo depois das 16h. Alegria. Com a vantagem incomensurável de andar sempre na contramão do trânsito. Eu vou. Eu quero. Pego aula, pego orientação, pego serviço administrativo. Mas só quando as pessoas estiverem retornando para seus lares. Enquanto esquentam a janta ou abrem o pão de forma, eu dou aulas para trinta ou quarenta alunos (e nem todos satisfeitos com o horário).
Mas é tudo tão feito para quem vive no horário comercial! Tão difícil fazer de outro modo ou enxergar os outros. Trabalhar à noite não tem prestígio, afinal. Talvez apenas para os veneráveis médicos, que dão plantão e soam como heróis. Para os demais, é como se fosse um limbo, falta de opção, desgraça recaída. Para mim não era, não.

Nutricionista do dia
Há uns doze anos, lembro de frequentar um nutricionista. Era uma clínica-laboratório, dessas dentro de faculdades, movidas a professores e estudantes. Ótimo. Fui lá iniciar minha reeducação alimentar. E recebi minha lista de substituição de alimentos, empolgada, a fim de mudar tudo. Menos uma coisa: os horários possíveis para me alimentar à noite. Conversei com o nutricionista-chefe, expliquei que não havia a menor chance de eu jantar naquele horário X, quando eu sempre estaria em sala de aula. Ele me olhou assim meio lamentoso, disse qualquer coisa, pediu que eu me adaptasse. OK. Vamos aprender a comer barrinha de cereal entre uma frase e outra. E assim foi minha reeducação alimentar: fora do horário comercial, dos almoços e jantares das pessoas que trabalham de oito às dezoito e podem cumprir horários de lanche.
Uma lástima mesmo: nem mesmo nas escolas, onde tanta gente trabalha à noite, as cantinas ficam abertas até o encerramento da batalha diária. Quando saio da sala de aula, topo com corredores vazios, quase escuros, estacionamentos silenciosos, portas fechadas, nada para comer e perigos insinuantes. Um horror. O mundo não é feito para nós, embora algumas cidades se gabem - hiopócritas! - de serem 24h.

Vendedora de colchas
Certa vez, uma mulher veio vender colchas e cobre-leitos à porta de casa, bem na hora em que eu saía para trabalhar. Tentei me desvencilhar dela para não me atrasar. Ela era insistente, agressiva. Eu fechei o portão, disse que precisava sair. Ela me questionava, por que não poderia atendê-la, seria rápido, e fazia menção de tirar uns produtos de dentro do porta-malas do carro. Eu entrei no meu e não dei chance. Tinha mesmo de chegar. E eram quase cinco da tarde. Quando ela se irritou de vez e disse: "pensa que me engana? Quem é que pega serviço a esta hora?" Não, não perdi tempo explicando que professores, por exemplo. Saí pela esquina atrás dela.

Uma vida perfeita depende de turno
Regras, regras. Dia desses, li um texto que falava de pais e filhos, receitas para ter e manter a família perfeita. Quanto clichê e quanto discurso científico. E que amargor na boca, meu Deus. Estarei condenada à infelicidade eterna e a ter filhos problemáticos? Insanos, incuráveis? Que terror me veio enquanto lia aquelas linhas sobre pais (geralmente pais) que chegam às 18h30 em casa e vão brincar com seus rebentos saudáveis; mães que vêm do emprego de meio horário e fazem, elas mesmas, a sopinha nutritiva. E então vão fazer programas em família, num lar com jeito de aconchego, TV de led, Netflix, filmes edificantes ou os deveres da escola. Perfeição. Mas só para quem trabalha em horário comercial. Tudo ali era padrão. E eu cá... com meus horários ao contrário, filho que estuda à tarde, dorme tarde da noite, faz dever em outro horário e está muito bem, obrigada. Lá pelas tantas, esse tal desse texto dedicava um ou meio parágrafo a dizer que existem aquelas pessoas que trabalham em outros horários e para as quais a vida precisa ser adaptada. Aleluia! Alguém se lembrou de nós.

Noturna sim
Sem vitimismo. Alguém precisa trabalhar à noite, para que as escolas tenham turnos estendidos ou para que os bares funcionem à noite ou para que haja diversão, segurança, transporte, saúde. Minha riqueza foi perceber minhas dificuldades desde cedo e ir desenhando minha vida para que ela me parecesse menos árida, mais possível, mesmo que na contramão da maioria. Há quem odeie trabalhar à noite e sonhe com um "emprego normal". Há quem não. Há. E por que não?


Ana Elisa Ribeiro
Belo Horizonte, 10/6/2016


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Olavo de Carvalho (1947-2022) de Julio Daio Borges
02. Maradona, a série de Julio Daio Borges
03. Assum Preto, Me Responde? de Duanne Ribeiro
04. Píramo e Tisbe de Ricardo de Mattos
05. Sobre o ensaio de Gao Xingjian de Ricardo de Mattos


Mais Ana Elisa Ribeiro
Mais Acessadas de Ana Elisa Ribeiro em 2016
01. 12 tipos de cliente do revisor de textos - 26/2/2016
02. O que vai ser das minhas fotos? - 29/7/2016
03. Que tal fingir-se de céu? - 4/11/2016
04. Noturno para os notívagos - 10/6/2016
05. Com quantos eventos literários se faz uma canoa? - 15/1/2016


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Amores Possíveis
Paulo Halm
Objetiva
(2001)



O Menino Que Acordou o Rio
Claudia Lins
Cortez
(2012)



Folhetins: A semana Lírica - Martins Pena
Martins Pena
Mec/Inl
(1965)



Illustrated Young Readers English Dictionary
John Grisewood
Nova Fronteira
(1988)



Crescer Em Comunhão - Pela Força do Espírito Santo Volume V
Pe. José Geeurickx e Outros
Vozes
(1982)



Ven Espiritu Santo Renueva Toda La Creacion
Emilio Castro
La Aurora
(1990)



Pequena Abelha
Chris Cleave
Intrinseca
(2010)



Ser Mãe
Miraglia Orlandino Micheletti
Círculo do Livro
(1975)



O avesso do retrato
Angela Dutra de Menezes
Record
(1999)



Escola da Fama - Alcancando as Estrelas
Cindy Jefferies
Ciranda Cultural
(2009)





busca | avançada
55418 visitas/dia
1,9 milhão/mês