29ª Bienal de São Paulo: a politica da arte | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 12/10/2010
29ª Bienal de São Paulo: a politica da arte
Jardel Dias Cavalcanti
+ de 18600 Acessos
+ 1 Comentário(s)


LIANA TIMM© (http://timm.art.br/)

A Petrobrás, através de seu blog, me convidou para visitar a 29ª Bienal de Arte de São Paulo. Além do passeio entre as obras, fui convidado para debater nos "Terreiros" da Bienal com Vânia Rall, pesquisadora do Laboratório de Estudos sobre a Intolerância da USP, o tema "Arte e ética: o uso de animais nas obras de arte". O convite foi estendido a um grupo de artistas e produtores culturais de várias partes do Brasil que têm uma significativa inserção na internet.

Parte das reflexões que vão se seguir são pessoais, mas devo registrar a contribuição das responsáveis pelo site e dos outros convidados da Petrobrás que debateram, desde o jantar na noite anterior em um hotel de São Paulo até durante a visita, algumas das questões relativas à 29ª Bienal.

A Bienal deste ano tem como tema a relação entre arte e política, e seu título reproduz um belo verso do poeta Jorge de Lima: "Há sempre um corpo de mar para o homem navegar". Embora o título possa sugerir uma relação imediata entre arte e política, não é bem o conceito tradicional e caquético de arte engajada que está em jogo. Isso, de per si, já é uma novidade. Desligar a arte da visão tradicional do que seja uma reflexão política já é apontar para uma interpretação mais radical do que seja o valor da arte na sociedade.

Liberar a arte de seu caráter puramente panfletário e apontar a sua natureza incômoda pelo simples fato de ser arte, por seu desejo de revisar criticamente a própria realidade, refazê-la, reinventá-la, poetizá-la, introduzindo contradições, abismos, inclusive chamando atenção, mesmo que de forma extrema, para aspectos de seus limites éticos ou não, eis o verdadeiro caráter político da arte.

Baudelaire, ao comentar Os Miseráveis, de Victor Hugo, dizia que o artista, por vezes, deveria enfiar o nariz do espectador na lama. Ou seja, revelar para ele as injustiças do mundo, a desumanidade da sociedade. Foi o que Picasso fez com Guernica, não de uma forma panfletária, mas mostrando no próprio dilaceramento da forma da arte o dilaceramento de um mundo violento. Ali talvez estivesse contida a ideia mais radical de uma dialética entre forma e conteúdo na arte, ou aquilo que T. W. Adorno dizia: na grande obra de arte a forma é o próprio conteúdo.

Nesta Bienal podemos perceber, desde a sua forma de organização labiríntica, cheia de meandros serpentinados por onde facilmente nos perdemos, e por seus artistas, com propostas vertiginosas e de alta voltagem crítica e emocional, que vivemos num mundo desorganizado, contraditório, paradoxal, difícil de entender, conflituoso e ao mesmo tempo rico de sugestões de morte, desalento, desespero, mas também de vida, poesia e possibilidades de enfrentamento da realidade.

Esse delicioso perder-se dentro de uma labiríntica Bienal é resultado do projeto de expografia da arquiteta Marta Borgéa e alude àquilo que Beckett definiu muito bem como "um soberano desprezo dostoievskiano pela trivialidade de um encadeamento plausível", que é típico na arte desde a ideia de um "barco bêbado" de Rimbaud até as ousadias da arte contemporânea.

A rede de significados também é ampla nas obras, desde o singelo e doloroso coração sentido de Leonilson ao impactante vídeo Je vous salue Saravejo, de Jean-Luc Godard, tudo nos leva a vertigens incontestes e talvez à verdadeira definição dessa Bienal na seguinte frase estampada no vídeo do cineasta francês: "A cultura é a regra, a arte a exceção".

E pelo fato de a arte ser exceção é que sua condição política deve ser pensada de forma ampliada. Os termos colocados por Albert Camus nos indica essa posição: "Em arte, a revolta se completa e perpetua na verdadeira criação, não apenas na crítica ou no comentário".

A ideia de estranhamento expande nessa Bienal o conceito de política, pois tirar o espectador de suas zonas de conforto acaba por surpreender seu repertório em relação inclusive com a própria arte. O curador Moacir dos Anjos diz que o que interessou foi a ideia de política como o encontro com o desentendimento. Claro e acertado, pois se alguém quer uma postura político-ideológica clara que procure panfletos políticos, e não arte.

O próprio uso do verso de "Invenção de Orfeu", de Jorge de Lima, como tema escolhido, aponta a possibilidade utópica da arte como possibilidade de um outro entendimento do mundo, mais complexo, mais sensível, mais paradoxal. Por isso a própria indeterminação de caminhos no percurso às obras já é em si uma posição política da Bienal, que leva os espectadores a experimentarem a sensação do barco sem leme do já citado Rimbaud.

Os espaços de descanso, chamados nessa Bienal de "terreiros" também é outra forma de dar à Bienal uma nova qualidade. Ali se discute a própria Bienal, se apresenta performances, vídeos, dança, teatro, filmes e espetáculos de música.

Esta Bienal retoma também suportes e práticas antes bastante negligenciadas, como o desenho, a pintura, a escultura e a fotografia (esta menos). Dentre as obras, a polêmica série de desenhos em nanquim ou carvão do artista plástico Gil Vicente. Inimigos é um conjunto de desenhos onde aparecem retratos de personalidades do mundo da política tendo uma arma apontada para si. Dentre elas, George Bush, o Papa, a rainha Elizabeth II e o nosso presidente Lula, que tem sua cabeça sendo decepada por uma faca. A OAB se pronunciou contra a exposição das obras, pois, segundo a entidade, o trabalho do artista despertaria o desejo de violência nos espectadores. Mas a OAB não parece ter percebido em que direção o ódio dos espectadores seria direcionado: na dos políticos falastrões, os dominadores da política que tanto fizeram para piorar o mundo. E não é esse mesmo o interesse da obra, já que se trata de odiar os inimigos? Pelo que percebi no grande número de escolares que param imediatamente frente ao trabalho de Vicente, a obra virou um fetiche na Bienal, uma espécie de Mona Lisa do evento.

Diversão é o que não falta nessa Bienal, e uma delas é a obra de Henrique Oliveira. A origem do terceiro mundo remete à vagina pintada por Gustave Courbet e que se chamou A origem do mundo, hoje exposta no Museu D'Orsay, em Paris. A instalação de Oliveira é a reconstituição em tamanho gigante de uma vagina, feita com materiais nada nobres como tapumes e madeira compensada, geralmente materiais recolhidos pelas ruas da cidade. A diversão é garantida, como eu disse, pois a sensação de entrar dentro da vagina e percorrer seus corredores labirínticos tem garantido uma animada participação das crianças e dos jovens. Os mais maduros, já complexados moralmente, relutam à primeira vista, mas depois se entregam ao prazer desta penetração. É divertido ver a criançada saindo da vagina e gritando: "estou nascendo de novo", como pude presenciar em minha visita.

Umas das obras surpreendentes é com certeza a instalação Bandeira branca, do artista Nuno Ramos, que praticamente reconstitui gravuras de Oswald Goeldi onde aparecem urubus (também apresentadas nesta Bienal). Para além da polêmica ambientalista de maltrato a animais usados em obras de arte, o que nos interessa é perceber esse caráter de indeterminação que a obra causa, seu tamanho gigante nos lembrando a ideia do sublime, de algo que não podemos alcançar com a mente e nos leva à sensação de imprevisibilidade diante da impossibilidade de termos o conjunto da obra, de chofre, à nossa frente, predisposta ao nosso entendimento.

Outra instalação interessante é a do músico Livio Tragtenberg, que construiu um estúdio-jaula onde maneja sons colhidos da participação dos visitantes ou que podem ser enviados diretamente ao artista por e-mail. Livio se transforma em Dr. Estranho e compõe sua sinfonia com cacos de sons variados, tão estranhos quanto o mundo em que vivemos e tão estranhos quanto a paisagem sonora que nos rodeia hoje.

Retomando a história da intervenção, também em um sentido mais amplo de participação política, a Bienal apresenta artistas já consagrados pela nossa história da arte. Dentre eles Helio Oiticica e o multiartista Flávio de Carvalho. São expostos registros de suas experiências, na forma de fotografias e documentos, como, por exemplo, a Experiência n. 2, onde Flávio de Carvalho invade uma procissão de Corpus Christi no centro de São Paulo, andando em direção contrária aos fiéis e vestindo um boné verde, deixando claro sua crítica ao catolicismo, religião que ele abominava. Na ocasião, ele quase foi linchado.

Ainda vale registrar a obra O que é arte? Para que serve?, do artista Paulo Bruscky, que faz uma crítica ao sistema das galerias de arte e museus como instituições duvidosas. A própria arte mostrando que a arte pode estar em outros lugares que não apenas nos espaços institucionalizados.

Nosso espaço é pequeno para discutir tão ampla Bienal. Ao contrário da exposição anterior, que ficou marcada pela alcunha de "Bienal do vazio", esta é repleta de sugestões visuais, táteis, sonoras. Um encontro fecundo com o projeto contemporâneo da arte como um mundo flutuante, irreverente, mas pleno de sugestões. Ao contrário do mundo ordinário, da razão instrumental, a arte possibilita vivências de uma outra ordem, a ordem do sensível, e é este conhecimento, esta experiência, que a Bienal decidiu chamar corretamente de arte política.

Para ir além
29ª Bienal de São Paulo.


Jardel Dias Cavalcanti
Londrina, 12/10/2010

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
15/10/2010
12h12min
Jardel, gostei inteiramente de sua crítica positiva à Bienal, concordo em quase tudo, só achei que a frase de Adorno fica deslocada, talvez coubesse na discussão com Godard.
[Leia outros Comentários de Marcos Aulicino]
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