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Segunda-feira, 15/4/2013
O Palácio de Highclere
Ricardo de Mattos

+ de 4200 Acessos

"Uma casa é uma máquina de morar"(Le Corbusier)

O que primeiro chamou-nos a atenção foi a série Downton Abbey, escrita por Julian Fellowes e produzida pela Carnival Films. Lançadas em DVD as duas primeiras temporadas, aguardamos impacientemente a chegada de nossa encomenda. Pretendíamos desfrutá-la aos poucos no mês de férias. Porém, como a competência da loja virtual deixou a desejar ao não entregar antes de três meses o pedido feito em dezesseis de dezembro passado (sic), restou-nos conter a expectativa e contentarmo-nos com um aperitivo.

Por ocasião do pedido, encontramos no mesmo site dois livros referentes a Downton Abbey. O primeiro respeitava ao setting das filmagens e não nos despertou maior interesse. O segundo, sim, foi incluído no pacote e sua leitura acabou servindo como degustação. Chegamos a torcer para que não se convertesse em prato principal. Trata-se de Lady Almina e a verdadeira Downton Abbey — O legado perdido do castelo de Highclere, escrito por Lady Fiona, a atual Condessa de Carnarvon. Dada a pesquisa e o resgate da história familiar, Lady Almina... poderá agradar ao mesmo público que se encantou com A lebre com olhos de âmbar do inglês Edmund de Waal. Inclusive, há menção à presença dos Ephrusi no casamento de Lady Almina com George Herbert, o quinto Conde de Carnarvon. O conde contemporâneo é o oitavo na linha dinástica.

Ler o livro antes de assistir a minissérie proporcionou-nos um prazer mais completo. Downton Abbey mereceria sozinha uma coluna, tal a riqueza dos detalhes e a caracterização dos personagens. São tipos que se repetem e repetem, guardadas as devidas proporções geográficas e históricas. Thomas, o antipático e inescrupuloso criado pronto a prejudicar quem for de raciocínio mais lento; Bates, leal e íntegro até à autopunição; o mordomo Carson, surpreendente em certas atitudes; a rebelde Lady Sybil e sua instável irmã Mary, ora vítima, ora vilã; o motorista socialista e previsivelmente irlandês; a relação histérica entre Miss Patmore e sua tola auxiliar Dayse; a Condessa-viúva interpretada por Maggie Smith, e suas colocações ferinas. Enfim, toda uma coleção que distrai a cabeça de outros assuntos mas alerta para o que podemos encontrar.

Embora os criados fossem realmente requisitados no trabalho doméstico, algo com detalhes inimagináveis nos tempos burgueses de hoje, suas vidas não parecem de todo ruins. Ninguém opôs-se à camareira Gwen tentar a carreira de secretária. O inquérito doméstico conduzido por Carson e envolvendo Thomas e Bates teve cuidados que nem nossos processos judiciais têm. Lady Fiona reconheceu que os senhores chegam e vão, ao passo que a casa e o corpo de criados permanecem, o que justifica a epígrafe. Toda uma estrutura aristocrática e hierárquica define-se e mantém-se. Não se sabe quanto tempo ainda, mas mantém-se.


Lady Almina

Highclere é o palácio verdadeiro que serviu de cenário para a ficção. A propósito: palácio ou castelo? Segundo aprendemos, palácio. Seu ancestral é o castelo, mais rústico e preparado para defender seu senhor em caso de guerra. Os castelos são próprios do belicoso período que ficou conhecido como "Idade das Trevas". Da Renascença em diante, houve o resgate da villa romana e as construções passaram a corresponder a novos e variados ideais. Ainda que o uso comum empregue os termos como sinônimos, é mais correto falar em palácio (palais) de Versailles que em castelo (chateau) de Versailles, mormente pela sua comprovada fragilidade diante da Revolução de 1789. Mais patente a distinção si pensarmos num "Palácio do Catete" e não num "Castelo do Catete".

A base de Highclere é uma mansão elisabetana. Reformulada no final do século XVIII, chegou à feição hodierna após outra reforma concluída em 1854. Duas guerras mundiais vieram depois, mas novas tecnologias afastaram definitivamente a figura do senhor acastelado atrás de muralhas transponíveis apenas mediante pontes levadiças. "Primeiro a eletricidade e depois o telefone: sinto-me como num romance de H. G. Wells", reclamou a Condessa-viúva. A respeito da primeira das guerras mundiais, adiantemos, Lady Fiona demonstrou competência na pesquisa não só do destino de empregados de Highclere que foram para o combate, como de soldados que nele hospedaram-se e, enfim, sobre o cotidiano do conflito. Não é um texto histórico para especialistas, mas limitando-se ao âmbito ao qual se propôs, é substancial.

Almina nasceu da união extraconjugal de sua mãe, Marie Wombwell, com Alfred de Rothschild, rico dentre os ricos banqueiros e financistas. Sua paternidade foi um daqueles segredos hipócritas, por todos conhecido e por ninguém mencionado. Além do considerável dote e do atendimento constante a novas solicitações da "afilhada", Alfred deixou um leve sinal da paternidade no seu próprio nome. "Almina" e formado por "Al", de Alfred, adicionado a "Mina", apelido íntimo da mãe. Fica-nos a sugestão de que, para Almina, foi vantagem não ter reconhecida a paternidade.


George Herbert, 5.º Conde de Carnarvon

Neste livro temos a escrita clara de fatos bem sequenciados. Indisfarçável o deslumbramento da autora com o modo de vida de sua antecessora. Ou tomamos por deslumbramento o que para ela não passa de naturalidade? De qualquer forma, a adjetivação é marcante, e tudo que Almina fez, segundo ela, foi "grandioso", "esplêndido", "o melhor", "maravilhoso". Realmente, foram e são pessoas com conhecimento, gosto e dinheiro suficientes para adquirir o melhor e rejeitar improvisos ou aceitar serviços mal feitos. Almina, por exemplo, é retratada como alguém que, definido um objetivo, só aquietava-se quando plenamente — e não satisfatoriamente - alcançado.

Assim foi na deflagração da primeira guerra mundial. A exemplo de outras mulheres da nobreza, Almina adaptou diversos cômodos de Highclere para servir de hospital a soldados feridos. Recebia 25 soldados por vez. Poderia ter recebido mais caso tivesse usado os salões do palácio para enfermarias, mas fez questão que a cada soldado correspondesse um quarto e uma enfermeira. Os gastos foram cobertos praticamente por seu pai, já envolvido em atividades filantrópicas. Recursos alimentares eram obtidos nas terras do próprio palácio, pois residências de tal porte são autossuficientes em muitas coisas. Decisões que hoje parecem impraticáveis foram tomadas sem questionamento, como o desenho do uniforme das enfermeiras por um estilista. Tal conforto holístico foi proporcionado aos combatentes que, no decorrer da luta, passou a ser necessário apadrinhamento para ser atendido no palácio. De qualquer forma, o empenho direto de Almina como enfermeira e coordenadora de enfermagem permitiu que algumas vitórias médicas fossem alcançadas, como a dispensa da amputação de membros. Necessário lembrar que o gesto de Almina, não foi um gesto isolado entre a nobreza inglesa.

Da leitura emerge a percepção de um estilo de vida hoje inimaginável para muitos. As reuniões sociais eram constantes e extrapolavam — sem excluí-lo, todavia - o mero passamento ostensivo. Políticos, artistas e escritores — como Evelyn Waugh — encontravam-se para algo mais que o usufruto de um clube aristocrático. Também podemos descobrir personagens e situações que parecem calhar mais à ficção que à realidade. Dois casos são ilustrativos. O primeiro, o do guarda-caça do conde, funcionário encarregado da criação e guarda de aves para as temporadas de caça, como faisões e perdizes. Em certa manhã de caça, o funcionário aconselha o conde a manter-se em determinada posição em relação ao vento durante a caminhada, a fim de não ser atingido por seu mau hálito. O segundo é Aubrey Herbert, meio-irmão do conde. Diplomata a serviço da Inglaterra no Oriente Médio, Egito e leste europeu, envolveu-se de tal forma em movimentos políticos da Albânia que chegou a ser convidado para reinar neste país. Telegrafou para o irmão perguntando se poderia aceitar o trono, recebendo um simples "não" como resposta.

O nome de Carnarvon não é de todo estranho a quem se interessa pela história egípcia. Foi o último financiador particular de escavações arqueológicas, habito que disputava sua predileção pela descoberta de novas tecnologias. Do mesmo modo que se encantou com o automóvel, sendo diversas vezes multado por dirigir a absurdos quarenta quilômetros horários pelas estradas inglesas, não negava dinheiro nem presença pessoal quando o assunto era escavação e aquisição de peças. Ao lado de Howard Carter, foi o responsável pela escavação, descoberta e abertura do túmulo do faraó Tutankamon. Desencarnou logo depois, devido à inflamação e septicemia decorrentes da picada de um mosquito, fato que alimentou a lenda a respeito de maldição lançada sobre quem violasse a tumba.


Ricardo de Mattos
Taubaté, 15/4/2013


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