Adaptação: direito ou dever da criança? | Marina Marcondes Machado | Digestivo Cultural

busca | avançada
24629 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Red Bull Station estreia exposições de letrista e de coletivo feminino em julho
>>> Alaíde Costa e Toninho Horta mostram CD em parceria na CAIXA Cultural São Paulo
>>> O Julgamento Secreto de Joana D'Arc com Silmara Deon estreia no Teatro Oficina
>>> Novo app conecta, de graça, clientes a profissionais e prestadores de serviço
>>> Inauguração da Spazeo com show do Circuladô de Fulô - 28/07
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Entrevista com a tradutora Denise Bottmann
>>> O Brasil que eu quero
>>> O dia em que não conheci Chico Buarque
>>> Um Furto
>>> Mais outro cais
>>> A falta que Tom Wolfe fará
>>> O massacre da primavera
>>> Reflexões sobre a Liga Hanseática e a integração
>>> A Fera na Selva, filme de Paulo Betti
>>> Raio-X do imperialismo
Colunistas
Últimos Posts
>>> Eleições 2018 - Afif na JP
>>> Lançamentos em BH
>>> Lançamento paulistano do Álbum
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 2
>>> Ana Elisa Ribeiro lança Álbum
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
>>> Conceição Evaristo em BH
>>> Regina Dalcastagné em BH
>>> Leitores e cibercultura
>>> Sarau Libertário em BH
Últimos Posts
>>> Tempo & Espaço
>>> Mão única
>>> A passos de peregrinos ll
>>> PRESSÁGIOS. E CHAVES IV
>>> Shomin-Geki, vidas comuns no cinema japonês
>>> Con(fusões)
>>> A passos de peregrinos l
>>> Ocaso
>>> PRESSÁGIOS. E CHAVES I
>>> Sob o mesmo teto
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Raio-X do imperialismo
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> O Brasil que eu quero
>>> Pensar sem memória
>>> A Fera na Selva, filme de Paulo Betti
>>> O Digestivo e o texto do Francisco Escorsim
>>> Restos, por Mário Araújo
>>> A maçã de Isaac Newton
>>> O que é um livro?
>>> Cisne Negro: por uma inversão na ditadura do gozar
Mais Recentes
>>> O livro das grandes reportagens
>>> Deixe os homens aos seus pés
>>> Quem mexeu no meu queijo?
>>> O príncipe
>>> A mulher de trinta anos
>>> O texto Argumentativo
>>> Fernão Capelo Gaivota
>>> Tudo valeu a pena
>>> Tudo tem seu preço
>>> O poder dos quietos
>>> Despedindo-se da Terra
>>> Despertar para a vida
>>> É preciso Algo Mais
>>> Marcas da Vida
>>> Novamente Juntos
>>> Reviver por Amor
>>> Vivendo no Mundo dos Espíritos
>>> Estatística Indutiva: Teoria e Aplicação
>>> Macro e Micro Cosmos: Visão Filosófica do Taoísmo e Conceitos de Medicina Tradicional Chinesa
>>> Inside Out - Student's Book - Intermediate
>>> Inside Out - Workbook - Intermediate
>>> Le Français Est À La Mode
>>> A Cabana
>>> O vendedor de Sonhos e a Revolução dos Anônimos
>>> Marketing de Ação
>>> Na Moda
>>> Comunicação Organizacional - Gestão de Relações Públicas
>>> As mentiras que os homens contam
>>> Seja líder de si mesmo
>>> Superdicas para Falar bem em conversas e apresentações
>>> Manual de Umbanda para Chefes de Terreiros
>>> As Cartas do Caminho Sagrado - Sem as Cartas
>>> Saravá Seu Tranca Ruas
>>> Saravá Oxóce
>>> A Face Oculta da Mente - 25ª Edição
>>> As Fôrças Físicas da Mente - Tomo 2
>>> A Identidade Bourne
>>> A Missão 60 - Memórias de Um Pilôto de Guerra Brasileiro
>>> Problemas de Aprendizagem
>>> Eu Nas Entrelinhas - Extratos e Retratos de Minha Vida
>>> Os Mais Extraordinários Contos de Suspense
>>> Subsidios Para Uma Reformulação Política
>>> Pequenas Histórias, Grandes Lições - Volume 2
>>> Pequenas Histórias, Grandes Lições - Volume 1
>>> A Canção do Arrozal em Flor - Romance
>>> Tancredo Neves A Realidade e o Mito - Estudo de Sociologia Política
>>> Os Donos do Poder - Formação do Patronato Político Brasileiro - Vol. 1
>>> O Espelho Mágico - Um Fenômeno Social Chamado Corpo e Alma
>>> Ciência do Comportamento na Indústria - 1977
>>> Diálogo com a América Latina: Panorama de Uma Literatura...
COLUNAS >>> Especial Volta às Aulas

Sexta-feira, 15/3/2002
Adaptação: direito ou dever da criança?
Marina Marcondes Machado

+ de 5900 Acessos

Quem foi criança durante a década de sessenta, ou antes, talvez só conheça o jargão educacional da palavra “Adaptação” como uma vivência de pai e mãe, avô ou avó de crianças pequenas; e quem nasceu durante a década de setenta, e adiante, talvez não se lembre (pode ter ido para a escola muito pequeno), mas pais ou mães ou avós estiveram presentes nos primeiros dias de aulas para “fazer a adaptação” deles, como se diz. “Fazer a adaptação” foi um cuidado que o saber da psico-pedagogia passou a introduzir nas rotinas das escolas, especialmente nas de crianças muito pequenas (de zero a seis anos, as pré-escolas e creches). Faz parte de um cuidado com a experiência emocional e afetiva de separar-se de um tipo de vida para adentrar noutro tipo. Trata-se de um modo equivalente a um novo “desmame”: o adulto entrega sua criança aos cuidados de um sistema (professora, coordenadora, orientadora, cozinheira, vigia, etc etc) e a criança passa a viver a rotina daquele sistema, o que se contrapõe ao vivido até então -- usualmente um cotidiano caseiro, mais baseado no ritmo próprio da criança e da sua família. A “adaptação” serve, portanto, para que tanto a criança quanto o adulto se acostumem paulatinamente e se entreguem a esse modo de viver.

É preciso estar bem preparado para “fazer a adaptação”. Trata-se de um procedimento mútuo: estão se adaptando a uma nova realidade tanto a criança quanto seus pais... Por mais bem pensada e elaborada a decisão de levar um filho pequeno para a escola, o fato dele espernear, não querer ir, chorar muito e gritar na hora de dizer...”tchau”, são vividos pelos pais de maneira dolorosa (e muitas vezes até contraditória ou ambígua). O choro e a dificuldade inerente para se separar do modo antigo de viver questiona até o fundo do poço as nossas escolhas urbanas: a necessidade concreta de deixar as crianças em algum lugar propício ao seu desenvolvimento, culturalmente aceito e bem visto, e na maior parte das vezes, também caro prá chuchu. E há logo de cara, ainda em casa, o sufoco de tirar o pequeno da cama, impingindo a ele a rotina dura dos horários do relógio (“Que hora fecha o portão?”), sendo que a criança pequena vive talvez numa outra temporalidade, aquela do sol e da lua, do antes, do durante e do depois da chuva, da duração de uma onda do mar, e tirá-la dessa sintonia muitas vezes significa uma intromissão enorme.

Mas depois a criança se acostuma; ela se mostra mais maleável que nós, e quer ser grande e ter mochila e lancheira, mas quando volta com uma mordida marcada no braço ou um dentinho lascado por uma queda do escorregador... são os pais que não se adaptaram ainda! Pois cada pessoalidade tem seu grau de tolerância/intolerância, cada pai e cada mãe suportam bem ou mal, num grau maior ou menor, a separação de seus filhos pequenos e a distância dos cuidados durante o conflito ou a queda. É fato que deixá-los na escola, por mais bem escolhida que seja a opção educacional que o adulto fez, implicará sempre num grau de institucionalização da vida. E talvez esse seja o fato mais doloroso, do ponto de vista do adulto.

Do ponto de vista da criança, o que dói talvez seja a dúvida colocada no que já foi, no vivido até então: não estava tudo bem ficar em casa com a mãe ou a avó, passear com o cachorro e a empregada, passar um tempinho no primo e voltar para almoçar e dormir?? E se a adaptação está ocorrendo depois de um período de férias dos adultos, quanto pior! Não era uma maravilhosa vida, e para todos!, morar numa casa na beira da praia, fazer buracos na areia e boiar no mar? Como compreender esta opção dos pais de lhe imprimirem a vida urbana e institucional de uma hora para outra e de uma vez por todas? Como aceitar a mão e o colo de uma desconhecida, a professora? Pagando uma mensalidade salgada nós acreditamos garantir uma mão segura e um colo aconchegante para nossos filhos pequenos. Ainda assim, sofremos.

Cabe lembrar que poder fazer essa opção é possível apenas para uma minoria das crianças brasileiras. A maioria delas está em adaptação, no sentido darwiniano da sobrevivência (ou morte) por toda sua primeira infância. Muitas estarão institucionalizadas desde seu nascimento, e uma das coisas mais tristes de se ver nesse mundo é um bebê institucionalizado. Outras crianças estão ficando oito horas por dia em creches, muitas das quais com estrutura frágil, com dificuldades básicas de manutenção, sendo a principal delas: poucos adultos para grande número de crianças. Isso faz ser preciso considerar sempre “o Grupo” de modo a dar conta dos cuidados e de todas as atividades previstas. Estarão essas crianças, então, em adaptação à falta de “Pessoalidade” que tende a ser negada desde o primeiro dia de freqüência, no entanto negada para que todos tenham de fato o direito de serem atendidos. Da mesma forma que para os pais que podem pagar uma boa pré-escola, o serviço prestado tem um custo financeiro alto, também para o Estado boas creches devem implicar em investimento quantitativo e qualitativo: dinheiro e recurso humano. Porque, se todas as crianças pudessem ter um bom começo, superariam as inúmeras fases de adaptação que se apresentassem a elas, e diante da experiência relacional da mão segura e do colo aconchegante, se tornariam aptos a dar um salto, digno, à categoria de cidadãos. Para que, anos depois, sejam eles mesmos pais e educadores conscientes de suas opções, deveres e direitos em relação às crianças ao seu redor.


Marina Marcondes Machado
São Paulo, 15/3/2002


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Cães, a fúria da pintura de Egas Francisco de Jardel Dias Cavalcanti
02. Primavera para iniciantes de Elisa Andrade Buzzo
03. O pai da menina morta, romance de Tiago Ferro de Jardel Dias Cavalcanti
04. Joan Brossa, inéditos em tradução de Jardel Dias Cavalcanti
05. Uma suposta I.C. de Elisa Andrade Buzzo


Mais Marina Marcondes Machado
Mais Especial Volta às Aulas
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




HERMANN Y DOROTEA - JOHANN W. GOETHE (LITERATURA ALEMÃ)
JOHANN W. GOETHE
ESPASA
(2000)
R$ 7,00



REGISTRANDO DESCOBERTAS - LÍNGUA PORTUGUESA 4ª SÉRIE
AMÁLIA ORCHIS E ANGELINA CHU E VERA SIMONCELLO
FTD
(2005)
R$ 28,00



RE-NASCER
DOMINIQUE LEVADOUX
ICOBÉ
(1987)
R$ 119,80
+ frete grátis



VIAGEM AO MUNDO DOS VINHOS
ED MOTTA
ABRIL
(2018)
R$ 30,00



ARTE RETÓRICA E ARTE POÉTICA
ARISTÓTELES
DIFEL
(1964)
R$ 38,00



BRÁS, BEXIGA E BARRA FUNDA - NOTÍCIAS DE SÃO PAULO
ALCÂNTARA MACHADO - APRESENTAÇÃO: FRANCISCO ACHCAR
CERAD/OBJETIVO
(1998)
R$ 6,00



A GÊNESE (OS MILAGRES E AS PREDIÇÕES SEGUNDO O ESPIRITISMO)
ALLAN KARDEC
LAKE
(2003)
R$ 12,00



TEATRO MEXICANO: RICARDO DÍAS MUÑOZ
RICARDO DÍAS MUÑOZ
EDITORIALES UNIDAS
(1966)
R$ 10,00



ÂNCORAS FLUTUANTES - PROSOEMAS
GABRIEL BICALHO
MARIANA - ALDRAVA LETRAS
(2011)
R$ 19,00



BAILEI NA CURVA
JÚLIO CONTE ET AL.
MERCADO ABERTO
(1994)
R$ 12,00





busca | avançada
24629 visitas/dia
1,1 milhão/mês