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COLUNAS

Segunda-feira, 8/4/2002
A revista das revistas
Eduardo Carvalho

+ de 5900 Acessos

"O que a New Yorker publicou de bom é melhor do que qualquer coisa publicada na imprensa dos EUA neste século."
Paulo Francis

Dizer que a The New Yorker é a melhor revista do mundo talvez seja forçar a barra - ainda existem, entre outras, a "The New Republic", a "The Economist", a "The Spectator". Mas ela é, na minha opinião, a revista mais agradável de se ler. Pela qualidade do texto, pela elegância gráfica, pelos divertidos cartoons, pela variedade dos assuntos, pela fina ironia, pela inteligência dos colaboradores, pela criatividade das capas. E, sobretudo, pelo completo desprezo pelo chato e pelo vulgar, que, das revistas ao cinema, parecem dominar o ambiente cultural brasileiro. Que uma revista dessas tenha edições semanais é a prova mais evidente de que viver bem, apesar de tudo, ainda é possível - mesmo que seja longe daqui. Poder ler a "The New Yorker" é o maior reconforto ao desiludido, a melhor distração ao entediado. Se escolher a melhor é difícil, tanto Churchill como Nabokov concordariam: a "The New Yorker" é a revista mais inteligente e sofisticada do mundo.

A capa da revista é um capítulo à parte. Seus ilustradores são, sem dúvida, os melhores do mundo, e semanalmente surpreendem, provocam e agradam tanto os leitores da revista como os freqüentadores de banca. Se ainda há arte legítima sendo produzida no mundo, ela parece estar na capa da "TNY". Harold Ross, que fundou a revista em 1925, proibiu que as capas fizessem referência a qualquer pessoa que pudesse ser reconhecida. Nem a Hitler, durante a Segunda Guerra: quem saberia se na semana seguinte ele ainda seria importante? Não por outro motivo tanta gente a coleciona. Algumas podem valer um dinheirão, no futuro, ou, enquadradas, como é comum, enfeitar a parede de uma sala.

A revista oferece, naturalmente, um apropriado guia cultural da cidade, com o que acontece nos cinemas, teatros, casas de shows, museus, galerias, etc. Serve de orientação para quem mora na cidade ou como guia para quem está indo para lá - ou, ainda, como documento da mais abrangente e melhor produção cultural que, em uma cidade, a humanidade já conseguiu reunir.

Na seção permanente "The Talk of The Town", os colaboradores contam casos interessantes que acontecem no dia-a-dia de Nova York, de pequenas coincidências a curiosidades impressionantes. É o espaço em que os mais importantes acontecimentos - discurso do prefeito, jantares beneficentes, entrevistas com famosos - são reportados ao lado de impressões corriqueiras - conversas ouvidas em um café, o clima de um jogo de beisebol, uma situação no trânsito. As conveniências e os incômodos de se viver em Nova York são solidariamente compartilhados com os leitores de Manhattan a Hong Kong. A "TNY" sabe combinar sua elegância provinciana com um amplo interesse cosmopolita: os textos de "The Talk of The Town" são os bastidores do incansável espetáculo da civilização.

Em muitas edições sai a seção "Letter from..." - que pode ser do Canadá ao Camboja. Funciona como uma longa reportagem descrevendo a situação - econômica, política, social, etc. - do país em que está o correspondente, ou apenas uma mais longa e detalhada observação de um acontecimento especial (Olimpíadas, guerras, desastres, etc.). E segue a máxima imposta por Harold Ross: "Eu não quero saber o que você pensa sobre o que acontece em Paris. Quero saber o que os franceses pensam."

Há também normalmente um conto inédito, de autores famosos (de John Updike a Stephen King) ou desconhecidos - com o rigoroso critério, sempre, de que preste para ser publicado. Alcançar as páginas da "TNY" significa, para um escritor internacional de talento, o mesmo que um brasileiro medíocre conseguir agendar uma entrevista com o Jô Soares.

Analisando uma borboleta: a assumida postura arrogante e autocrítica

Entre críticas e ficções, já passaram por ali, entre muitos ilustres, Hemingway, H. L. Mencken, Edmund Wilson. E mesmos autores das ficções, como John Updike, de vez em quando publicam suas críticas de outros livros na própria revista. Um dos desenhos que ilustram a seção "The Critics", aliás, é engraçadíssimo, e revela a assumida postura da revista, ao mesmo tempo arrogante e autocrítica. Na praia, um menino está construindo um engenhoso castelinho de areia, feliz e sorridente; enquanto uma menina chata, provavelmente sua irmã, de braços cruzados, mão no queixo e cara emburrada, analisa a brincadeira. E a ilustração confirma, assim, a imprescindível necessidade da crítica, antecipando o preconceito do leitor e afastando, com bom humor, a ligação entre crítica e chatice. Porque, até quando precisa ser, a "TNY" consegue não ser chata.

É comum ouvir por aí gente que, talvez por não ter conseguido entender, respeite um filme como, por exemplo, "Vanilla Sky", como se fosse original ou ousado. Mas, se ele engana jornalistas ingênuos, não escapa do crítico da "TNY". Em minha arriscada tradução: "Esta refilmagem hollyhoodiana do filme espanhol de 1997 'Abre los Ojos' só pode ser chamada de un desastre(...) É um desses raros filmes que conseguem ser extremamente agitados e completamente entediantes. Cameron Crowe, que escreveu e dirigiu, precisa começar tudo de novo e descobrir por que quis ser diretor de cinema". Mas o tom das sinopses dos filmes não é, apesar desta, azedo. Os jornalistas sabem reconhecer um filme despretensioso, uma diversão honesta. Mas certas babaquices precisam ser apontadas - e o pessoal da "TNY", por mais que não seja educado, mete o dedo na cara. Sua honestidade não lhe permite ser politicamente correta.

Na academia que eu freqüentava em Vancouver, no Canadá, escolhia-se exemplares da "TNY" do mesmo modo que, em São Paulo, somos condenados às babaquices da Vejinha. Acabar de ler um artigo da seção "Shouts & Murmurs" pedalando uma bicicleta parada e, ao levantar a cabeça, poder apreciar, através de enormes janelas envidraçadas, a admirável criatividade da arquitetura canadense, é uma das vantagens de uma sociedade civilizada. Enquanto isso, é preciso tropeçar pelas sujas calçadas de São Paulo para, sabendo quais são as duas ou três bancas que vendem a revista, pagar 20 reais por exemplar. E depois dizem que estamos quase lá.

E revista no lixo

Desde quando, pelo impulso quase automático de acertar imediatamente as contas que chegam em casa, minha mãe pagou a última prestação da assinatura da "Veja", eu aguardo ansiosamente para que ela termine. Para nunca mais renovar. Estou cansado de, todo domingo, ao abrir a porta do meu apartamento, receber uma ardida bolachada na cara ao ver a capa da revista.

Há muito tempo eles já redefiniram a estratégia de vendas, e decidiram apelar, aumentando a tiragem e vendendo revistas para uma classe média baixa (cultural, social, econômica, o que seja) que, há dez anos, era analfabeta. E que, cedendo à pressão do "mundo moderno", em que todos precisamos estar bem informados, precisou comprar ou assinar uma revista supostamente informativa - e escolheu logo, como se fosse a melhor, a mais vendida.

Confesso que, aos 15 anos, o estilo dos ensaios do Roberto Pompeu de Toledo, o jornalista do Presidente, me parecia exemplar. Hoje, suas opiniões me parecem convencionais e comprometidas. Nada de mais. Nem seu estilo.

Já Diogo Mainardi, o único outro colunista que compreendo que alguém leia, desde os 15 anos me incomodou - não por suas provocações pueris, mas pela sua incompetência como aquilo mesmo que ele pretende ser: o polemista da "Veja". Antes de tudo, Mainardi escreve inaceitavelmente apressado e mal. Mas o pior é que ele se diverte: o nível de suas polêmicas é tão baixo quanto o do seus leitores. E repetindo uma verdade inegável, a de que o Brasil é uma droga, mas com um texto péssimo, consegue animar leitores tão ingênuos quanto furiosos a enviar cartas para a revista - apenas reafirmando, assim, o seu imerecido sucesso.

Enquanto isso, sem escala na sala, da porta de entrada os meus exemplares seguem diretamente para o lixo da cozinha. E daqui a alguns meses eu vou conferir alegremente, quando voltar ao consultório do dentista, que não perdi nada - a não ser tempo, quando tinha 15 anos.


Eduardo Carvalho
São Paulo, 8/4/2002



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