Ayn Rand ou o primado da razão | J.C. Ismael

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Segunda-feira, 25/1/2010
Ayn Rand ou o primado da razão
J.C. Ismael

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Trinta anos atrás, Biblioteca do Congresso e o Book of the Month Club divulgaram o resultado de uma pesquisa para saber qual o livro que exercera mais influência no público americano nos últimos cinquenta anos. O primeiro lugar ficou, sem surpresa, com a Bíblia. O segundo coube a Atlas Shrugged, de Ayn Rand, com cerca de dois milhões de exemplares vendidos só nos EUA. Na verdade, Atlas..., desde a publicação, em 1957, ganhou os principais prêmios literários de lá. Aqui saiu uma tradução capenga com o título inexplicável de Quem é John Galt?. Além desta, outros dois foram publicados no Brasil: o romance A Nascente (The Fountainhead, de 1943), que teve nova edição publicada recentemente, e a antologia de dezenove ensaios (com cinco assinados por Nathaniel Branden) intitulada A Virtude do Egoísmo (The virtue of selfishness, de 1964), que só pode ser encontrada em bons sebos. Ayn Rand não é, portanto, inédita entre nós, mas não caiu "no gosto" das editoras que relutam em traduzir outras obras suas como For the new intelectual (1961), Capitalism ― The unknown ideal (1966), Introduction to objectivist epistemology (1967), The Romantic Manifesto (1969), The new left: The anti-industrial revolution (1971) e Philosophy ― Who needs it? (1982). Sua extensa fortuna crítica acaba de ser enriquecida pela americana Anne C. Heller com a publicação de Ayn Rand and the world she made, exaltada pelos críticos devido à abordagem desapaixonada (ao contrário do que fizeram muitos biógrafos) da vida e obra de Rand. O brasileiro Rodrigo Constantino assinou Egoísmo Racional ― O individualismo de Ayn Rand (2007), um estudo conciso e faiscante dessa que foi, sem dúvida, uma das mais originais pensadoras do século passado. Quem se interessar por uma iniciação ao pensamento da biografada não pode deixar de ler este pequeno e indispensável livro.

O cinema atraiu fortemente a adolescente Alissa Zinovievna Rosenbaum, nascida em São Petersburgo em 2 de fevereiro de 1905. Filmes mudos americanos eram o único acesso dos russos da época à cultura popular do Ocidente, arte que a revolução comunista transformaria em propaganda hipócrita do regime. Em fins de 1925, graduada em filosofia e história, Alissa consegue um visto para os EUA, país cuja cultura social e a ideologia da direita (ninguém é perfeito) a fascinavam, e onde viveria até a sua morte, em 6 de março de 1982, em Nova York. Chegando em Hollywood, no início dos anos 1930, seu primeiro emprego é de figurante no filme Rei dos Reis, de Cecil B. De Mille, de quem se torna amiga. Impressionado com a sua erudição, o cineasta a contrata como consultora de scripts. No estúdio, conhece o ator Frank O'Connor, com quem se casa. Os dois permanecem juntos até a morte de O'Connor, em 1979, apesar dos relacionamentos extraconjugais públicos de Rand. A história de um deles está contada em Passion of Ayn Rand, filme para a televisão com a extraordinária Helen Mirren no papel da escritora.

Em 1932, Rand vende seu primeiro roteiro, Red Pawn, para a RKO, ofício que lhe propicia a subsistência enquanto trabalha em We the living, romance de estreia e autobiográfico publicado em 1936, seguido por Anthem, de 1938, uma distopia sobre o massacre da individualidade, onde narra as atrocidades do regime bolchevista. Levado às telas em 1942, o filme foi um fracasso que se repetiria sete anos depois: nem a direção do grande King Vidor salvou The Fountainhead (aqui batizado de Vontade Indômita) do roteiro confuso assinado pela própria escritora.

Ao voltar (definitivamente) para Nova York, em 1951, Rand já era respeitada pelo público e crítica devido ao sucesso de The Fountainhead, uma espécie de ensaio para Atlas Shrugged, e base do seu pensamento sistêmico, batizado de Objetivismo. O protagonista, o arquiteto Howard Roark (leia-se Rand) representa o que a autora chama de "homem ideal", o que luta pelo primado da razão nas relações humanas. É o profissional que, com um propósito produtivo definido, leva o egoísmo e a dignidade às últimas consequências, não relutando em dinamitar um conjunto habitacional por causa das mutilações feitas no seu projeto, as quais afetariam a qualidade de vida dos moradores, atitude que lhe causa enfrentamento com uma imprensa parcial e com toda espécie de vicissitudes. Roark pertence à minoria constituída por pessoas que reagem a qualquer tentativa de dominação e abominam qualquer forma de conhecimento que não seja alcançado apenas por meio da razão. E, para ele, a razão é a verdadeira ferramenta do conhecimento, e só ela permite conhecer os fatos da realidade, a qual, longe de ser inventada, criada ou desvirtuada pela emoção, deve ser percebida.

Uma das frases favoritas de Rand traduz a essência da ética Objetivista: "o homem é um fim em si mesmo". Isto é, ele nada deve sacrificar pelos outros e muito menos querer que os outros se sacrifiquem por ele. Os únicos e autênticos objetivos desse homem (personificado por Roark e, depois, por John Galt) deve ser o exercício da liberdade e a busca da própria felicidade, inatingíveis se ele não abandonar o altruísmo, sentimento que ela considera uma das principais causas das mazelas humanas. Para ela, a pessoa que coloca não a si própria mas os outros em primeiro lugar, não passa de uma "parasita emocional". É fácil imaginar o impacto dessa cartilha de colorido liberal entre os conservadores de qualquer segmento da sociedade americana, construída a partir da execração do egoísmo, visto como antítese do ideal democrático de convivência. Mas, para Rand, a democracia e o capitalismo laissez-faire, o único sistema econômico que pode ser defendido e validado pela razão, só podem ser concebidos com a valorização do primado da individualidade, o oposto do que ocorre nos regimes totalitários, nos quais as massas são manipuladas em nome de uma pretensa solidariedade altruísta entre pessoas que pensam e agem como um todo, sem um objetivo racionalmente definido.

Rand trabalhou uma década nos originais de Atlas Shrugged. Um dos grandes romances de ideias do século passado, é pretexto para a autora expor, ou melhor, dramatizar a sua filosofia. A história gira em torno da greve feita pelas lideranças empresariais e intelectuais dos EUA, os "atlas" cujos ombros sustentam o país, que se vê por causa disso entregue à própria sorte (daí o título do livro). Galt, inspirador e porta voz daquelas lideranças, é o herói raivoso que expõe as mazelas "altruístas" e injustas de uma sociedade dominada pelos "místicos" e parasitas sociais. Sua utopia de uma sociedade justa é a que oferece igualdade de oportunidade para todos, ou seja, o capitalismo. Nesta parábola sobre a luta entre as classes produtivas e criativas e a dos que vivem de corrupção, Rand pinta o painel de uma América que adia o quanto pode o encontro consigo mesma, temerosa de enfrentar um questionamento sobre os seus verdadeiros ideais, além dos atingidos pelo seu furor consumista. A saga de Galt expõe as vísceras de uma sociedade desorientada, para a qual o hedonismo é a causa primeira e única.

Rand gostava de repetir a frase de Francis Bacon "a natureza, para ser comandada, tem de ser obedecida" com o propósito de mostrar que nenhum tipo de processo mental pode alterar as leis da natureza, uma vez que o universo existe independentemente da consciência, isto é, a realidade não depende dela para existir e impor as suas leis. As implicações desta tese, cuja origem está em Aristóteles, repercutem na negação da visão religiosa e social da consciência, pois as duas distorcem, cada uma a seu modo, a realidade que, por sua natureza, só pode ser autenticamente apreendida por meio da razão, a ferramenta básica da sobrevivência do homem, enquanto a racionalidade é a sua maior virtude. As emoções, diz ela, não se prestam à cognição, já que nada dizem a respeito dos fatos, mas apenas à maneira de como elas os apreendem. O mesmo ocorre no processo do envolvimento amoroso: a verdadeira paixão não é a de uma pessoa pela outra, é a de pessoas que partilham os mesmos valores e ideais.

À medida que envelhece, Rand torna-se uma crítica impiedosa dos romancistas contemporâneos. Relê principalmente Victor Hugo, mas sem abandonar as novelas policiais de Mickey Spillane porque "tratam o conflito entre o bem e o mal em termos de branco e preto": para ela, a tonalidade cinzenta simboliza a relutância dos atos humanos. Nos últimos anos de vida, semi-reclusa no modesto apartamento de Manhattan, seu grande prazer é contemplar o horizonte da amada Nova York: para quem, como ela, razão e fé se excluem, nada supera a imponência dos arranha-céus recortados pelo crepúsculo, metáforas do triunfo da razão e da racionalidade que passou a vida defendendo.

Por fim, deixo aos leitores a tradução que fiz de um trecho do romance Anthem. Ele sintetiza com perfeição o ideário filosófico de Ayn Rand.

"EU SOU. EU PENSO. EU DESEJO.

Minhas mãos... Meu espírito... Meu céu... Meu bosque... Esta terra minha...

Que mais ainda devo dizer? Estas são as palavras. Esta é a resposta.

Aqui estou, imóvel, no cume da montanha. Levanto a cabeça e estendo os braços. No meu corpo e no meu espírito termina a minha busca. Eu quis saber o significado das coisas. O significado sou eu. Eu desejei encontrar uma garantia para existir. Eu não preciso de garantia para existir e de nenhuma palavra que sancione minha existência.

São os meus olhos que veem, e o que veem conferem beleza ao mundo. É a minha mente que pensa e a escolha da minha mente é o único farol que pode encontrar a verdade. É a minha vontade que escolhe, e a sua escolha é o único mandamento que devo respeitar.

Muitas são as palavras que me ensinaram, algumas são falsas, mas só existem duas sagradas: 'Eu quero!'.

Qualquer que seja o caminho escolhido, a estrela-guia está dentro de mim; a estrela-guia e a bússola apontam numa só direção. Apontam para mim.

Eu não sei se o planeta em que estou é o centro do Universo, ou somente um grão de poeira perdido na eternidade. Eu não sei e não me importo. Porque sei que a felicidade é possível aqui na Terra. A minha felicidade não precisa de nenhum objetivo superior para justificar-se. A minha felicidade não tem nenhum objetivo. Ela é seu próprio fim. Ela é seu próprio objetivo. Ela é seu próprio propósito.

Tampouco sou meio para algum fim que os outros almejem. Não sou uma ferramenta para uso deles. Não sou um escravo das suas necessidades. Não sou uma bandagem para suas feridas. Não sou um sacrifício para seus altares.

Sou uma pessoa. Este milagre particular é meu para possuir e conservar, meu para guardar, meu para usar e meu para reverenciá-lo.

Não entrego meus tesouros, nem os compartilho. A fortuna do meu espírito não é para ser cunhada em moedas de latão e atirada ao vento como esmolas para os pobres de espírito. Eu preservo meus tesouros: meu pensamento, minha vontade, minha liberdade. E o maior deles é a liberdade.

Nada devo aos meus irmãos nem os quero como devedores. A ninguém peço que viva por mim, nem quero viver para os outros. Não cobiço a alma de ninguém, nem peço que a minha seja cobiçada. Não sou amigo nem inimigo de meus irmãos a não ser na medida em que mereçam. E para merecer o meu amor, meus irmãos devem fazer mais que simplesmente ter nascido. Não concedo meu amor sem que haja um motivo, nem a qualquer um que apareça e deseje pretendê-lo. Reverencio os indivíduos com amor. Mas tal reverência precisa ser conquistada.

Escolho meus amigos entre os homens, desde que não sejam escravos ou escravocratas. E os escolherei desde que me agradem, e os amarei e respeitarei, mas não os comandarei nem os obedecerei. E nos daremos as mãos quando quisermos, ou caminharemos sozinhos se este for nosso desejo. Porque no templo do seu espírito cada homem está sozinho. Que cada homem mantenha seu templo intocado e inviolado. Então, que dê a mão a quem quiser, mas apenas para além do seu umbral sagrado.

A palavra "Nós" jamais deve ser pronunciada, salvo se for por própria escolha e como reflexão secundária. Esta palavra jamais deve ocupar o primeiro lugar no espírito humano, pois pode transformar-se num monstro, na raiz da tortura do homem pelo homem, numa mentira impronunciável.

A palavra "Nós" é um cimento despejado sobre os homens que, escorrendo, endurece como pedra e a tudo paralisa abaixo de si, e o que é branco e o que é preto perdem suas identidades e se transformam numa única, cinzenta. É a palavra pela qual os depravados roubam a virtude dos bons, pela qual os fracos roubam a força dos fortes, pela qual os tolos roubam a sabedoria dos sábios.

Que seria da minha felicidade se todas as mãos, até as impuras, pudessem tocá-la? Que seria da minha sabedoria se até os tolos me pudessem ensiná-la? Que seria da minha liberdade se todas as pessoas, inclusive os incapazes e os fracos fossem meus amos? Que seria da minha vida se só devesse curvar-me, concordar e obedecer?

Mas eu repudio esse ideário de corrupção.

Eu repudio o monstro "Nós", palavra que significa servidão, pilhagem, infelicidade, falsidade e vergonha.

E agora vejo a face do deus, e anuncio esse deus para todos, esse deus que os homens buscam desde os tempos primevos, esse deus que nos concede alegria, paz e orgulho.

Este deus, esta palavra única:

'EU.'
"

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. J.C. Ismael, escritor e jornalista, é autor de, entre outros, O Médico e o Paciente ― Breve história de uma relação delicada e Sócrates e a arte de viver.


J.C. Ismael
São Paulo, 25/1/2010

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
18/4/2010
02h03min
Não sei quantas vezes já li esse texto. Cada leitura é um mergulho nas profundezas desse oceano chamado Ayn Rand. Somente na hora em que volto à superfície é que me dou conta de tanta beleza e honestidade, aliadas a um posicionamento firme e destoante do emaranhado de discursos eivados daquilo que se convencionou chamar de politicamente correto. Confesso que à primeira vista (ou lida) tal retidão de ideias atordoa. Passado o primeiro impacto, em mentes que são ferramentas ou se deixam se escravizar por terceiros, essa retidão fere de morte os que assim se acham. Aos que se mantêm fora do alcance de palavras envelhecidas em livros de conteúdo secular essa leitura cai como um bálsamo, libertando-os de amarras carcomidas. Posso não me encaixar na pureza do discurso randiano, mas encontrei em suas palavras mais do que motivos suficientes para acreditar cada vez mais no ser humano como causa e efeito de tudo o que acontece consigo e na natureza que o rodeia.
[Leia outros Comentários de Pepê Mattos]
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