Wilson Martins (1921-2010) | Miguel Sanches Neto

busca | avançada
59441 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> MONSTRA exibe filmes feitos por e com crianças nos dias 25 e 26/5
>>> Tão Somente Meninos
>>> Festa junina no Teatro do Incêndio busca continuidade do projeto SOL.TE
>>> Céu se apresenta no Sesc Guarulhos
>>> Projetos culturais e acessibilidade em arte-educação em cursos gratuitos
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A suíte melancólica de Joan Brossa
>>> Lá onde brotam grandes autores da literatura
>>> Ser e fenecer: poesia de Maurício Arruda Mendonça
>>> A compra do Twitter por Elon Musk
>>> Epitáfio do que não partiu
>>> Efeitos periféricos da tempestade de areia do Sara
>>> Mamãe falhei
>>> Sobre a literatura de Evando Nascimento
>>> Velha amiga, ainda tão menina em minha cabeça...
>>> G.A.L.A. no coquetel molotov de Gerald Thomas
Colunistas
Últimos Posts
>>> The Number of the Beast by Sophie Burrell
>>> Terra... Luna... E o Bitcoin?
>>> 500 Maiores Álbuns Brasileiros
>>> Albert King e Stevie Ray Vaughan (1983)
>>> Rush (1984)
>>> Luiz Maurício da Silva, autor de Mercado de Opções
>>> Trader, investidor ou buy and hold?
>>> Slayer no Monsters of Rock (1998)
>>> Por que investir no Twitter (TWTR34)
>>> Como declarar ações no IR
Últimos Posts
>>> Asas de Ícaro
>>> Auto estima
>>> Jazz: 10 músicas para começar
>>> THE END
>>> Somos todos venturosos
>>> Por que eu?
>>> Dizer, não é ser
>>> A Caixa de Brinquedos
>>> Nosferatu 100 anos e o infamiliar em nós*
>>> Sexta-feira santa de Jesus Cristo.
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Sabemos pensar o diferente?
>>> Do Surrealismo
>>> Milagres não existem
>>> Valsinha
>>> Sobre o caso Idelber Avelar
>>> Uma gafieira, pintura digital
>>> As drogas fazem você virar os seus pais
>>> Dave Brubeck Quartet 1964
>>> O Conto do Amor, de Contardo Calligaris
>>> Videogame também é cultura
Mais Recentes
>>> Os Imortais da Literatura - Viagens de Gulliver - Volume 22 de Jonathan Swift pela Abril Cultural (1971)
>>> Free - the Past and Future of a Radical Price de Chris Anderson pela Hyperion (2009)
>>> Por Que os Homens Amam as Mulheres Poderosas? de Sherry Argov; Simone Reisner pela Sextante (2009)
>>> O Que São Empregos e Salários de Paulo Renato Souza pela Brasiliense (1989)
>>> Também Sou Teu Povo, Senhor - Coleção Deus Conosco de Lydia das Dores Defilippo pela Vozes (2006)
>>> Guia de Tintos & Brancos de Saul Galvão pela Códex (2004)
>>> O Poder Erótico: Diário e Cartas de Cristina Vasa , Rainha da Suécia, e do Padre Antônio Vieira de Gloria Kaiser pela Reler (2012)
>>> Filho Teu Não Foge a Luta de Fellipe Awi pela Intrínseca (2012)
>>> Casamento - Término e Rescontrução de Maria Tereza Moldonado pela Vozes (1987)
>>> O Poder Erótico: Diário e Cartas de Cristina Vasa , Rainha da Suécia, e do Padre Antônio Vieira de Gloria Kaiser pela Reler (2012)
>>> O Poder do Pensamento de Emmet Fox pela Pensamento
>>> Contabilidade de Custos - um Enfoque Direto e Objetivo de Silvério das Neves pela Saraiva (2013)
>>> Moderna Plus Literatura - Aprova Enem de José Gabriel Arroio e Outros pela Moderna (2015)
>>> Pele de Alessio Di Pascucci 1ª Ed. pela Sabep (2007)
>>> Ser Protagonista - Biologia - Caderno de Revisão de Edições Sm pela Edições Sm (2014)
>>> O Livro dos Amores de Gabriel Chalita pela Companhia nacional (2006)
>>> O Novo Brasil de Albert Fishlow pela Saint Paul (2011)
>>> Manual da Redação de Folha de S. Paulo pela Publifolha (2007)
>>> O Homem Mais Procurado de John Le Carré pela Record (2010)
>>> Sob o Olhar de Deus de Malba Tahan pela Conquista
>>> A Conexão Casa Branca de Jack Higgins pela Record (2001)
>>> Homeopatia - Ciência e Cura de George Vithoulkas pela Círculo do Livro (1981)
>>> Estresse Livre Se Dele de Vera Peiffer pela Butterfly (2007)
>>> A Viagem Marítima da Família Real: A transferência da corte portuguesa para o Brasil de Kenneth Light pela Zahar (2008)
>>> Principio da Administração Financeira de Lowrence J Gitman pela Harbra (1987)
ENSAIOS

Segunda-feira, 12/4/2010
Wilson Martins (1921-2010)
Miguel Sanches Neto

+ de 8200 Acessos

Do ponto de vista técnico, Wilson Martins (1921-2010) faz parte da escola francesa de crítica, e teve em Albert Thibaudet (1874-1936) o seu mestre. Na esteira desta tradição, Wilson valorizava a historicidade do pensamento nacional, aí incluída a literatura. O espaço de tal prática era o jornal, onde Wilson Martins, à maneira de seus antecessores, como um Sérgio Milliet (1898-1966) ou um Álvaro Lins (1912-1970), exerceu uma forma de pensar intimamente relacionada com o movimento editorial do país. O crítico, neste formato, assumiu-se como um leitor seletivo da produção contemporânea, uma espécie de bibliotecário que arquivava nos anais da história um conjunto válido de títulos. E este é um outro aspecto que deve ser ressaltado na atuação deste paranaense: todos os livros lidos e comentados, mesmo quando sofriam as avaliações mais rigorosas, eram tidos pelo crítico como obras relevantes, que mereciam figurar entre as produções da inteligência nacional. Pois mais importante do que a sentença expedida pelo crítico era o seu papel de salvar da produção cada vez mais massificada um coletivo de obras que se destacaram.

O crítico assim visto dialogava com o passado, fazendo apostas em contemporâneos. Esta perspectiva histórica exigia dele uma disposição para ler o máximo da produção atual, sem deixar de considerar nosso patrimônio intelectual. Era em confronto com a tradição, que ele tão bem conhecia, e com os contemporâneos já na categoria de mestres, que Wilson Martins avaliava os lançamentos. Esta foi a regra da crítica literária nacional até meados do século XX, quando a Nova Crítica toma corpo entre nós, com o aumento da influência norte-americana. O pensamento nacional vai se deslocar de uma gramática de jornal para uma gramática universitária, e a análise de obras passa a se dar dentro de correntes de teorias (literárias, filosóficas, linguísticas etc.), e não mais a partir da leitura extensiva das obras de criação.

Professor da Universidade Federal do Paraná (1952-1962), da Universidade de Kansas (1962), da Universidade de Wisconsin-Madison (1963-1965) e da Universidade de Nova York (1965-1991), Wilson Martins nunca se afastou da crítica de jornal nem de seu tema-maior, a inteligência brasileira. Seguiu sendo um crítico arquivista, interessado em acompanhar o fluxo das ideias no país.

Este modelo de crítico que nunca deixou a trincheira do jornal rendeu a Wilson Martins muita incompreensão. Foi acusado de conservador (e de fato o era, pois conservava a produção do país em suas coletâneas críticas), de ultrapassado (por dilatar uma influência francesa aposentada pelas escolas norte-americanas e por outras mais recentes da Europa), de pouco profundo (por não estender seus artigos breves e lapidares sobre os livros), de violento (por não medir palavras na hora de escancarar defeitos que ele julgava ver numa obra) e de obscurantista (por não reconhecer as sumidades construídas pelo marketing). Não obstante toda a fúria recair sobre ele, manteve-se inabalável em seu propósito inicial de ler toda a produção válida do país e tentar pensá-la como conjunto. Era isso a crítica semanal de Wilson Martins, uma ampliação de seu grande ensaio sobre o Brasil, a História da inteligência brasileira ― onde ele acompanha a produção editorial do país ou sobre o país de 1500 a 1960. Seus volumes de crítica continuam este projeto até a sua morte. Por incrível que pareça, embora plagiados (principalmente em dissertações e teses), seus pontos de vista ainda não tiveram influência nos estudos universitários.

E isso é plenamente explicável. Nosso modelo de pensamento continua mantendo uma relação de dependência com os centros culturais, e boa parte da universidade brasileira paga royalties aos nomes estabilizados internacionalmente. O próprio método de estudo é contrário ao da crítica militante. O sentido de trânsito que prevalece na universidade é da teoria crítica para a produção criativa, enquanto Wilson Martins, fiel ao velho método francês, trabalhava numa perspectiva diametralmente inversa: partia da produção concreta do país para construir um painel, sem valorizar a ideia de progresso. Somos este país desde sempre. Mudaram-se os aspectos externos, mas nossa imagem de fundo continua paralisada. Sua crítica era focada na identidade nacional, uma identidade macunaímica, como Mário de Andrade tão bem representou ― escancarar isso era algo muito incômodo.

Nesta dimensão exercida por Wilson Martins, prevaleciam alguns aspectos. Um deles é o deslocamento do crítico. Morando sempre fora dos centros nacionais do campo de poder (ou em Curitiba ou nos Estados Unidos), Wilson pôde manter uma independência bastante grande ― claro que ela não era total. Como não precisava dos ganhos como crítico, pôde externar opiniões que eram altamente impopulares e perigosas, assumindo todos os riscos. Esta é outra imagem do crítico, a de alguém que está sempre na corda bamba, não apenas por não referendar as unanimidades da hora, mas principalmente por se expor em seus julgamentos, considerando obras e autores desconhecidos como valores literários e decretando como irrelevantes as vozes mais poderosas.

A sua coluna de crítica (iniciada em 1942) foi, portanto, um território independente da cultura brasileira, onde os autores se agigantavam ou se apequenavam. Muitos querem saber quais foram os grandes nomes descobertos pelo crítico, mas este método não estava voltado para a descoberta de talentos em botão. Buscava, isso sim, uma compreensão abrangente da cultura do país.

Assim, para o autor que ocupava a periferia do campo literário, Wilson Martins era uma oportunidade de atenção e de ter seu nome anexado à inteligência nacional. Sua coluna de crítica raramente refletia as posturas do jornal ou do editor, eram sempre intelectualmente assinadas por um crítico de vasta leitura e com idiossincrasias muito nítidas, como a valorização da legibilidade do texto. O fato é que a lógica da mídia não funcionava ali. Aquele era um espaço próprio, que ninguém conseguia pautar.

Toda a grandeza deste projeto vem de uma energia imensa, o que lhe permitiu ser o maior leitor da cultura nacional, e de uma adequação total ao ofício: ele era e queria ser unicamente crítico. Nunca se imaginou em outro papel, e mesmo o magistério foi para ele uma forma de independência financeira que patrocinou o seu projeto matinal: ler o maior número de obras de autores brasileiros. Não queria ser ficcionista ou poeta. Era crítico. Era o crítico.

A pergunta que se faz agora, quando ele infelizmente concluiu o seu trabalho, é: qual o nível de acerto de seus julgamentos? A resposta deverá ser dada pelas gerações de amanhã. A nós, resta apenas concluir que, com sua morte, aumentam os consensos sobre a produção contemporânea. Findou a voz que mais ousava discordar. E que mais discordou ao longo dos últimos 60 anos.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado na edição de março de 2010 do jornal Rascunho, na qual foram publicados vários textos em homenagem a Wilson Martins.

Para ir além






Miguel Sanches Neto
Ponta Grossa, 12/4/2010

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Harold Ramis (1944-2014) de Marcel Plasse
02. Vivendo de brisa de João Ubaldo Ribeiro
03. Encontro com Kurt Cobain de André Forastieri
04. Palhaços e candidatos de Luís Antônio Giron
05. Um kadish para Tony Judt de Sérgio Augusto


Mais Miguel Sanches Neto
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Mad Nº 28
Vários Autores
Record
(1987)



Alimentos Congelados - Procesado y Distribuición
Vários autores
Acribia
(1990)



A Dogmática Jurídica - 1ª Edição - Coleção Fundamentos do Direito
Rudolf Von Jhering
Ícone
(2013)



Dicionário de Termos Técnicos Português Inglês - Tomo III
Luiz Mendes
Traço
(1983)



Seis Razões para Amar a Natureza
Silmara Rascalha Casadei - Nílson José Machado
Escritinha
(2011)



Cavaleiros da Ordem
Ortiz Belo de Souza
Nova Palavra



Best Seller - o Melhor da Literatura
Diversos Autores
Litteris
(1997)



Projeto Buriti 1 Ensino Fundamental
Editora Moderna
Moderna
(2007)



Agora é Que São Eles
Jayme Akstein
Garamond
(2006)



Almayers Folly
Joseph Conrad
Wordsworth Editions
(1996)





busca | avançada
59441 visitas/dia
1,8 milhão/mês