Ser mãe | Lélia Almeida

busca | avançada
75243 visitas/dia
2,2 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Conto HAYEK, de Maurício Limeira, é selecionado em coletânea da Editora Persona
>>> Os Três Mosqueteiros - Um por Todos e Todos por Um
>>> Sesc 24 de Maio recebe o projeto Parlavratório - Conversas sobre escrita na arte
>>> Cia Caravana Tapioca faz 10 anos e comemora com programação gratuita
>>> Eugênio Lima dirige Cia O GRITO em novas intervenções urbanas
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eleições na quinta série
>>> Mãos de veludo: Toda terça, de Carola Saavedra
>>> A ostra, o Algarve e o vento
>>> O abalo sísmico de Luiz Vilela
>>> A poesia com outras palavras, Ana Martins Marques
>>> Lourival, Dorival, assim como você e eu
>>> O idiota do rebanho, romance de José Carlos Reis
>>> LSD 3 - uma entrevista com Bento Araujo
>>> Errando por Nomadland
>>> É um brinquedo inofensivo...
Colunistas
Últimos Posts
>>> Uma história da Chilli Beans
>>> Depeche Mode no Kazagastão
>>> Uma história da Sambatech
>>> Uma história da Petz
>>> A história de Chieko Aoki
>>> Uma história do Fogo de Chão
>>> BDRs, um guia
>>> Iggor Cavalera por André Barcinski
>>> Dave Brubeck Quartet 1964
>>> Conrado Hubner fala a Pedro Doria
Últimos Posts
>>> Inação
>>> Fuga em concerto
>>> Unindo retalhos
>>> Gente sem direção
>>> Além do ontem
>>> Indistinto
>>> Mais fácil? Talvez
>>> Riacho da cacimba
>>> Mimético
>>> Cinema: Curtíssimas terá estreia neste sábado (28)
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Literatura e cinema na obra de Skármeta
>>> Literatura e cinema na obra de Skármeta
>>> A todos que passem por aqui
>>> João Paulo Cuenca e seu Corpo Presente
>>> Neruda, oportunista fantasiado de santo
>>> VTEX e Black & Decker sobre transformação digital
>>> Apresentação
>>> Fetiches de segunda mão
>>> Em busca do vampiro de Curitiba
>>> Millennials
Mais Recentes
>>> Marcas de Nascença de Nancy Huston pela L&Pm (2007)
>>> A Reportagem de Danillo Nunes pela do Autor (1980)
>>> Eu Fico Loko de Christian Figueiredo de Caldas pela Novas Paginas (2015)
>>> A Cidade de Melanie Wallace pela Benvira (2012)
>>> As Belas Coisas, Que é do Céu Contê-las de Dinaw Mengestu pela Nova Fronteira (2008)
>>> O Beijo das Sombras de Richelle Mead pela Rocco (2021)
>>> O Beijo das Sombras de Richelle Mead pela Rocco (2021)
>>> Pesadelos e Paisagens Noturnas - Vol.I de Stephen King pela Objetiva (2011)
>>> Temas de Psicologia Juridica de Leila Maria Torraca de Brito pela Relume Dumará (2005)
>>> Evangelho por Emmanuel - Comentários ao Evangelho Segundo Mateus de Francisco Cândido Xavier pela Feb (2015)
>>> A Casa do Califa de Tahir Shah pela Roça Nova (2008)
>>> Personagens da Boa Nova de Federação Espírita do Paraná pela Fep (2010)
>>> Personagens da Boa Nova de Federação Espírita do Paraná pela Fep (2010)
>>> Francisco - o Sol de Assis de Divaldo Franco e Cezar Braga Said pela Leal (2014)
>>> Salomé - o Encanto das Mulheres Que Surgem do Céu de Sandra Carneiro pela Vivaluz (2014)
>>> Eight early tantras of the great perfection - elixir ambrosia de Christopher wilkinson pela Christopher wilkinson (2016)
>>> O Homem Que Amava os Cachorros de Leonardo Padura pela Boitempo (2014)
>>> O fogo invisível: O segredo mais importante da humanidade está prestes a ser revelado de Javier Sierra pela Planeta (2018)
>>> Moreira da Silva: O último dos malandros de Alexandre Augusto pela Sonora (2013)
>>> O Bairro: Viva a Nossa Turma - Geografia e História de Aracy do R. Antunes; Maria de L. de A. Trindade pela Access (2013)
>>> Antes de Nascer o Mundo de Mia Couto pela Companhia das Letras (2016)
>>> Teogonia: A Origem dos Deuses- edição revisada e acrescida do original grego de Hesíodo pela Iluminuras (1995)
>>> Bíblia de Jerusalém - Média Encadernada de Deus e Vários autores pela Paulus (2004)
>>> Madame Bovary de Gustave Flaubert pela Abril Cultural (1979)
>>> Gente pequena também tem direitos de Malô Carvalho pela Autêntica (2012)
ENSAIOS

Segunda-feira, 16/5/2011
Ser mãe
Lélia Almeida

+ de 7000 Acessos
+ 2 Comentário(s)

Têm dois dias no ano em que eu invariavelmente choro. É quase como um choro com data marcada. Apesar dos choros outros do resto do ano, têm dois dias do ano em que eu sempre choro e da mesma dor. Dor de ver o meu menino crescer: quando eu compro o material escolar no início do ano e no dia do aniversário dele. Ele, o meu menino, faz anos e eu me lembro daquela frase da Elizabeth Stone: "Tomar a decisão de ter um filho é grave. É decidir, para sempre, ter o seu coração andando por aí, fora do seu corpo".

Nós, as pobres mães, passamos uma vida inteira sendo chamadas de castradoras, relapsas, superprotetoras, onipotentes e adjetivos mais ou menos nesse padrão de qualidade e que terminam sempre por comprovar a nossa total ineficiência no que se refere a alcançar o ideal materno absurdo traçado por essa sociedade patriarcal, cheia de filhos homens exigentes e mimados que esperam das mães o impossível e um pouco mais.

Mas eu tenho me perguntado algumas coisas, assim, de vez em quando, passando uma roupa, fazendo uma comida, coisas dessas que devem passar pela cabeça das mães do mundo inteiro, em qualquer lugar e qualquer tempo.

Como não se sentir onipotente depois de passar anos, noites em claro, cada vez que começa o inverno, cuidando da otite do menino, que só se acalma depois de uma velada daquelas, de panos quentes, remédios e uma paciência sem fim, para que o pequeno possa desmaiar de cansaço no nosso colo?

É mais ou menos como sentir-se uma deusa ilegítima, mas a dor passou e ele dorme, finalmente.

Quando o menino nasceu, e, uns dias depois, quando dei o primeiro banho nele, fiquei aterrorizada. Meu Deus, pro resto da minha vida, a esta hora eu vou fazer o mesmo movimento, o mesmo gesto, dar banho no menino, todos os dias, pra sempre!

Não é pra sempre, mas tem muita coisa que uma mãe não sabe quando os filhos nascem, ou esquecem de se lembrar: eles vão crescer um dia e vão tomar banho sozinhos, só que até isso acontecer, somos verdadeiras craques em movimentos mecânicos em determinadas horas do dia.

Como não se sentir onipotente vendo que ele aprendeu a amarrar os sapatos? Já ensinou uma criança a amarrar os sapatos?, naquela idade que é a mesma em que elas não têm paciência para absolutamente nada, menos ainda para aprender a amarrar os sapatos? Tente, é outra vã vitória materna que a criatura vai carregar para sempre, sapatos bem amarrados nos pés, independentes das nossas rugas.

E a primeira excursão sozinho, e a primeira vez na escola nova, a primeira bicicleta, e aqueles desenhos lindos onde eu, a mãe, apareço sempre como uma verdadeira perua, de vestido vermelho, colares, pulseiras e bolsas que jamais usaria na vida, com a legenda embaixo: A mãe!

Sim, esta sou eu, esse monstro repressor, essa santa de paciência que leva a metade da vida tentando socializar um menino que vai passar a vida inteira sendo elogiadíssimo porque é igual ao pai.

Vida complicada a das mães, para quem não sabe.

Assim mesmo eu choro. Quando compro o material escolar, primeiro pelo preço, depois porque sempre aparecem novos ítens naquela infindável lista onde eu termino por supor que o menino já está quase aprendendo a ler, a escrever e isso quase me mata de alegria, orgulho e emoção, tudo junto, misturado. E quando ele faz aniversário.

Começo uns dias antes com uma melancolia meio sem explicação e no dia da festa, quer dizer, um dia antes, é inevitável, o choro vem, e então eu lembro porque estou chorando e lembro que é assim, todos os anos, afinal.

É na hora de enrolar os negrinhos, sabe, vou enrolando aquela quantidade enorme de negrinhos, que vão ser consumidos em cinco rápidos minutos por boquinhas ávidas e sujas de chocolate, e vou chorando.

Os meus negrinhos, os que eu faço para o dia do aniversário do meu filho, têm, no fundo, um gosto meio salgado, só apreciável para quem tem um paladar muito apurado, que é o sal diluído das minhas lágrimas anuais, aquelas que eu contei antes.

Porque eu vou enrolando os negrinhos e vou pensando: o menino vingou, mais um ano e o menino está vingando.

E é como se me surgissem todos os dias da nossa pequena e simples vida em comum e eu me sentisse uma mulher enorme, vitoriosa, porque depois de tantos dias difíceis, de tantas noites sem dormir, das tantas vezes sem dinheiro, do enorme medo e da responsabilidade de ter de cuidar do bem-estar e da saúde do menino, ele está ali, se lambuzando com os restos da lata de leite condensado, do meu lado, ele vingou e eu me sinto uma deusa, uma deusa que chora como um rato, mas uma deusa.

E eu me sinto pequena, igual a todas as mães do mundo que enrolam negrinhos no dia do aniversário dos seus filhos e que tem as mesmas preocupações. Eu me sinto pequena e com o coração quente, amolecido, porque este menino que vingou é o menino do meu coração, aquele com quem eu brigo todos os dias de manhã para acordar e ir para o colégio (e ele tem um mau humor horrível como o meu!), aquele que me ensinou que as relações de amor na vida das pessoas são uma construção diária, vida inteira, que filho a gente não gosta só porque pariu, mas porque aprende a gostar no meio da guerra doméstica, todo dia um pouquinho, aprende a conhecer, a ver o jeito, a entender, se surpreender, porque filho vem pra ensinar o nosso tamanho, a resistência do nosso coração, o olhar para o outro, a ter paciência com o que cresce ali, do lado, perto, é filho que ensina a gente a ser mãe.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no blog Mujer de Palabras. (Leia também "A hora certa para ser mãe".)


Lélia Almeida
Brasília, 16/5/2011

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Vida e morte do Correio da Manhã de Ruy Castro
02. O dia em que a música rachou de Ana Maria Bahiana
03. Fragmentos de um Paulo Francis amoroso de Daniel Piza


Mais Lélia Almeida
Mais Acessados de Lélia Almeida
01. Meu filho e minha mãe - 21/2/2011
02. Sexo virtual - 27/12/2010
03. Ser mãe - 16/5/2011
04. Ninho vazio - 18/7/2011
05. Homenagem a Pilar del Río - 21/3/2011


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
16/5/2011
14h45min
Como me identifiquei com este texto. A minha já vai fazer um ano e eu fico aqui me preparando psicologicamente para quando ela crescer. Já é difícil aguentar como ela aceita ir no colo de todo mundo, fica de boa com a babá... e ama ficar no chão brincando. Mas quando decidi ter um filho, fiz isso depois de pensar muito que gostaria de ter alguém para esperar no Natal. E só.
[Leia outros Comentários de Débora Carvalho]
11/6/2011
11h59min
Adorei o texto. Sou pai, meus dois filhos já estão crescidos, participei intensamente dessa fase narrada no texto (o primeiro banho foi meu, noites em claro curando otites, brigadeiros mil nos aniversários, etc.). Ando, ultimamente, refletindo sobre a importância fundamental da mãe na formação do filho, na relação especial do filho com a mãe durante a infância, importância não valorizada na sociedade, que, injustamente, puxa mais pelo pai. Vale muito a mãe investir em seu filho, a vida depois recompensará.
[Leia outros Comentários de José Frid]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O Leitor de Almas
Paul Harper
Paralela
(2012)
+ frete grátis



Psicologia do Desenvolvimento
Ercília Maria Angeli Teixeira de Paula e Outro
Iesde
(2010)



Casamento , Término & Reconstrução - 8ª Ed - Revista e Atualizada
Maria Tereza Maldonado
Integrare
(2009)



Febem, Família e Identidade - o Lugar do Outro - 1ª Edição
Isabel da Silva Kahn Marin
Escuta
(1999)



O Morador de Ipanema e Outros Contos Cariocas
Elieser e Borba
Do Autor
(2014)



O Poço do Calabouço
Carlos Nejar
Record
(1983)



Ven Espiritu Santo Renueva Toda La Creacion
Emilio Castro
La Aurora
(1990)



Cidade Dos Ossos - Os Instrumentos Mortais - Vol. 1
Clare,Cassandra
Galera
(2013)



@ pra Ser Feliz
Lisete Frohlich
Sermais
(2016)



Diário de Zuma
Tiago de Melo Andrade
Ao Livro Técnico
(2004)





busca | avançada
75243 visitas/dia
2,2 milhões/mês