Entrevista com Fabrício Carpinejar | Digestivo Cultural

busca | avançada
31843 visitas/dia
1,0 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
>>> Leminski, estações da poesia, por R. G. Lopes
>>> Crônica em sustenido
>>> Do inferno ao céu
>>> Meninos, eu vi o Bolsonaro aterrando
>>> Manual para revisores novatos
>>> A Copa, o Mundo, é das mulheres
Colunistas
Últimos Posts
>>> 100 nomes da edição no Brasil
>>> Eu ganhei tanta coisa perdendo
>>> Toda forma de amor
>>> Harvard: o que não se aprende
>>> Pedro Cardoso em #Provocações
>>> Homenagem a Paulo Francis
>>> Arte, cultura e democracia
>>> Mirage, um livro gratuito
>>> Lançamento de livro
>>> Jornada Escrita por Mulheres
Últimos Posts
>>> João Gilberto: o mito
>>> Alma em flor
>>> A mão & a luva
>>> Pesos & Contra-pesos
>>> Grito primal II
>>> Calcanhar de Aquiles
>>> O encanto literário da poesia
>>> Expressão básica II
>>> Expressão básica
>>> Minha terra, a natureza viva.
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O escritor pode
>>> Uma Receita de Bolo de Mel
>>> Os 60
>>> Tico-Tico de Lucía
>>> Abdominal terceirizado - a fronteira
>>> Cinema é filosofia
>>> Quem é (e o que faz) Julio Daio Borges
>>> Mulher no comando do país! E agora?
>>> YouTube, lá vou eu
>>> YouTube, lá vou eu
Mais Recentes
>>> Portoghese Dizionario essenzaiale Portoghese-Italiano - Italiano-Portoghese de Zanichelli pela Zanichelli (1997)
>>> Princípios de Organização Japoneses: Melhor Produtividade ... de Peter Engel pela Ediouro/ RJ. (1982)
>>> O Dom de Voar de Richard Bach pela Record/ RJ.
>>> O Dom de Voar de Richard Bach pela Record/ RJ.
>>> O Dom de Voar de Richard Bach pela Record/ RJ.
>>> Licença de Marca - Aspectos Jurídicos e Econômicos de Um Contrato ... de Thiago Jabur Carneiro pela Juruá (2012)
>>> O Aleijadinho Arquiteto e Outros Ensaios Sobre o Tema/ Inclui CD de André Guilherme Dornelles Dangelo (e outro) pela Ed. da Escola de Arquit. da UFMG./ Belo Hte. (2008)
>>> Concerto Carioca de Antonio Callado pela Nova Fronteira (1985)
>>> Imperialismo / Discutindo a História de Héctor H. Bruit pela Atual/ Sp. (2001)
>>> Imperialismo / Discutindo a História de Héctor H. Bruit pela Atual/ Sp. (1995)
>>> Imperialismo / Discutindo a História de Héctor H. Bruit pela Atual/ Sp. (1995)
>>> Prêmio FCW 2004 de Fotografia Publicitária Fundação Conrado Wessel de Diversos Autores pela Fcw (2005)
>>> A Questão do Livros - Passado Presente e Futuro de Robert Darton pela Companhia das Letras (2010)
>>> Mar de homens de Roberto Linsker pela Terra Virgem (2005)
>>> Arte de Perto - Volume Único de Maurílio Andrade Rocha e outros pela Leya (2016)
>>> Palco Paulistano. São Paulo Stage de Vânia Toledo pela Imprensa Oficial (2009)
>>> Todo Paciente Tem Uma Historia Para Contar - Mistérios médicos e a arte do diagnóstico de Dra. Lisa Sanders pela Zahar (2010)
>>> Da Ação direta de declaração de Inconstitucionalidade no Direito Brasileiro de Alfredo Buzaid pela Saraiva (1958)
>>> Ações Cominatórias no Direito Brasileiro de Moacyr Amarral Santos pela Max Limonad (1962)
>>> Do Mandado de Segurança e de Outros meios de Defesa Contra atos do poder público de Castro Nunes pela José Aguiar Dias (1967)
>>> Estudos e pareceres de direito processual Civil de Alfredo Buzaid pela Revista dos Tribunais (2002)
>>> Corinthians é preto no branco de Washington Olivetto e Nirlando Beirão pela Dba (2002)
>>> Do Mandado de Segurança Volume 1 de Alfredo Buzaid pela Saraiva (1989)
>>> Estudos de Direito de Alfredo Buzaid pela Saraiva (1972)
>>> Da Ação Renovatória de Alfredo Buzaid pela Saraiva (1981)
>>> Projeção do Corpo Astral de Sylvan J. Muldoon e Hereward Carrington pela Pensamento
>>> Atribuições dos juízes municipaes de Orphãos e Ausentes na Republica de José Tavares Bastos pela Livraria Garnier (1914)
>>> Novo Dicionário de Processo Civil de Eliézer Rosa pela Livraria Freitas Bastos S.A (1986)
>>> O Novo processo Civil Brasileiro de José Carlos Barbosa Moreira pela Forense (2005)
>>> Manual do Advogado de Valdemar P. da Luz pela Sagra (1999)
>>> Teoria e prática do Despacho Saneador de Jônatas Milhomens pela Forense (1952)
>>> Código de processo Civil Anotado de Sálvio de Figueiredo Teixeira pela Saraiva (1993)
>>> Novo processo Civil Brasileiro de José Carlos Barbosa Moreira pela Forense (1998)
>>> A Prova Civil de José Mendonça pela Livraria Jacintho (1940)
>>> A Morte de Rimbaud de Leandro Konder pela Companhia das Letras/SP. (2000)
>>> Prova Civil Legislação Doutrina Jurisprudência de Raphael Cirigliano pela Forense (1939)
>>> Código do Processo Civil e Commercial para Districto Federal de J. Miranda Valverde pela Impresa Nacional (1927)
>>> De Pessoa a Pessoa - Psicoterapia Dialógica de Richard Hycner pela Summus (1995)
>>> Perfiles Juridicos los Hombre de Toga en El Proceso de D. Rodrigo Calderon de Angel Ossorio pela Rosario
>>> Audiência de Instrução e Julgamento de Athos Gusmão Carneiro pela Forense (1995)
>>> Todos os Homens do Presidente de Carl Bernstein & Bb Woodward pela Franvcisco Alves (1977)
>>> Histórias De Vida E Cozinha Exclusiva Para Você de Ana Maria Braga pela Agir (2012)
>>> Projet de Révision Du Code de Procédure Civile de M. Hector de Rolland pela Imprimerie de Manaco (1893)
>>> O Nosso Processo Civil Brasileiro de José Carlos Barbosa Moreira pela Forense (1994)
>>> Luto - Uma dor perdida no tempo - Princípios básicos para se enfrentar de Rubem Olinto pela Vinde Comunicações (1993)
>>> Vade Mecum acadêmico de direito de Organização; Anne Joyce Angher pela Rideel (2004)
>>> Processo de Execução e Cumprimento de Sentença/ Encad. de Humberto Theorodo Júnior pela Leud (2009)
>>> Processo Civil Commercial de Manoel Aureliano de Gusmão pela Livraria Academica (1924)
>>> Dieta Mediterrânea com sabor brasileiro de Dr. Fernando Lucchese e Anonymus Gourmet pela L&PM Pocket (2005)
>>> Derecho Procesal Civil de Eduardo Pallares pela Porrua S.A Argentina (1961)
ENTREVISTAS

Segunda-feira, 6/11/2006
Fabrício Carpinejar
Julio Daio Borges

+ de 18900 Acessos
+ 4 Comentário(s)


Fabrício Carpinejar, em foto de Renata Stoduto

Fabrício Carpinejar, 34 anos, nasceu em Caxias do Sul (RS). Filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi, hoje separados, juntou seus sobrenomes em sua estréia poética, As Solas do Sol (1998). A partir de 2000, foram outros três livros anuais de poemas: Um Terno de Pássaros ao Sul, Terceira Sede e Biografia de uma árvore – até a antologia Caixa de sapatos (2003), que lhe conferiu notoriedade nacional, pela editora Companhia das Letras.

Desde 2004, é editado pela Bertrand Brasil por onde lançou
Cinco Marias (poemas), Como no céu/ Livro de Visitas (2005, poemas e prosa poética) e O Amor Esquece de Começar (2006, crônicas) – sendo este último uma compilação de textos a partir do seu blog na internet. Mantém ainda a coluna semanal Consultório Poético, no site da revista Superinteressante. Foi laureado pela Academia Brasileira de Letras (prêmio Olavo Bilac, 2003), pela União Brasileira dos Escritores (Cecília Meireles, 2002) e recebeu o Açorianos de Literatura já duas vezes, em 2001 e 2002. Desde o ano passado, coordena o Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

O mote para esta Entrevista foi o Prêmio Érico Veríssimo, concedido a Carpinejar pela câmara municipal de Porto Alegre, no último dia 23 de outubro, aniversário do poeta. Aqui, Fabrício conta como é fazer parte de uma família de poetas. Afirma que, ao contrário do que atualmente se acredita, é possível viver de literatura. Não se considera uma unanimidade e nem um autor precoce. Acha que a internet é o suporte ideal para a contundência e para a concisão do verso, mas lamenta que a Rede esteja infestada de pseudônimos. Sobre a crítica de Wilson Martins à sua poesia, pensa que ele jamais elogiará um poeta que pratique o verso livre e que tenha menos de 40 anos. Para aqueles que o acusam de “marqueteiro”, tem uma resposta na ponta da língua: “Parece que hoje é crime confiar no próprio trabalho”. Quanto ao assédio das fãs, brinca que quer ser “o Wando da poesia”. Carpinejar conclui, ainda, que é um “feio carismático” e alerta que “a literatura não substitui a vida”. – JDB


1. Fabrício, vamos começar pelo começo. Eu acho brilhante esse seu sobrenome e já li em algum lugar que, com ele, você junta seus pais que se separaram [Maria Carpi e Carlos Nejar, ambos poetas]... Sei que você tem já a sua família e que não discute poesia com seus genitores nas refeições de todo dia, mas discute nas datas comemorativas? Como é isso? Já li também que seus pais, quando te liam, só te "detonavam"... É verdade? Por último, o que você acha de um Leitor do Digestivo que falou que você é “melhor” do que a sua mãe mas “pior” do que o seu pai? Essas comparações ainda fazem algum sentido para você – ou poesia, em família, por ser trabalho, virou assunto tabu?

As comparações não fazem sentido para mim. Nem poderiam. Era o que faltava competição dentro de casa, já chega fora. Acho que ocorre uma provocação afetiva, que não é concorrência, ainda mais com três vozes bem diferentes. Um tenta desafiar o outro, isso é possível. Meus pais davam pitacos sobre minha produção no começo, agora ficaram preguiçosos ou viram que não tinha conserto. Meus palpites funcionam mais com o pai do que com a mãe. O pai é mais aberto. A mãe escuta, escuta e não me leva a sério. Meu medo é ser pior do que eu. Ou que meu sobrenome termine sendo o meu melhor verso (risos).

2. No embalo da pergunta anterior, como “se fez” poeta? No seu blog, há uma porção de epifanias, em prosa, sobre sua sensibilidade poética já na adolescência e na infância... Quando descobriu que faria poesia? “Poeta”, pra você, é profissão? É assim que você preenche a ficha cadastral do hotel? É assim que você se apresenta pras pessoas do mundo real? Resumindo o romance de formação: dá pra viver de direito autoral (a poesia é uma vocação que, pra você, valeu a pena)?

Não ponho datas nos poemas, muito menos sei precisamente o dia em que os pássaros escreveram e as árvores voaram. Eu me fiz poeta pelas deficiências. Como sofria muita gozação na escola, em função da feiúra e dos problemas de dicção, aprendi a me defender defendendo os outros. Nunca soube me defender, mas sempre consegui vencer o medo e o nervosismo para evitar ataques aos outros. Quando havia algum colega sendo discriminado, me tornava seu melhor amigo. Estar do lado mais fraco é poesia. Poesia não combina com o senso comum. Escrevia cartas de amor, mas sempre tive letra feia e não me apaixonei por mim. Eu assino mesmo “escritor” na ficha do hotel. Até porque, na maioria das vezes, estou ali como autor fazendo palestras ou participando de eventos. Seria um disparate colocar "jornalista" ou "professor". É possível viver de literatura. Já foi exclusividade de autores consagrados e maduros, no fim da trajetória, mas hoje há vários casos de jovens contemporâneos que se dedicam somente a escrever e largaram as demais atividades, como Luiz Ruffato, Marcelino Freire e Cíntia Moscovich. Digo: viver de literatura não é somente viver de direito autoral, porém do entorno, que inclui leituras públicas, saraus, debates, conferências e textos. Antes, no meu caso, o jornalista sustentava o escritor, agora o escritor sustenta o jornalista.

3. Vou ser bem pessoal agora (que me desculpem os Leitores...): eu gosto muito de você, do que você faz, mas tenho medo da sua consagração precoce... Você não tem medo, não? Agora, ganhou o Prêmio Erico Verissimo, pelo conjunto da obra... – embora tenha publicado quase um dezena de livros, você não tem nem 35 anos! ABL, UBE, Açorianos de Literatura... o que falta pra você, o Nobel de Literatura? Não tem mesmo medo de esgotar as possibilidades, de secar o poço da inspiração, de chegar do outro lado do arco-íris e não encontrar nenhum pote de ouro?

Se secar o poço da inspiração, paro de escrever. A literatura não é uma religião. Não vou amarrar um livro explosivo na cintura por uma causa. A literatura não substitui a vida, ela nos prende mais a ela. Não entendo quando um escritor se sente realizado ao escrever um livro. Eu me sinto cada vez mais irrealizado – aumenta a fome. O desejo não pretende se satisfazer para continuar desejando. Eu me realizo ao jogar futebol, namorar, ir a um show. Não é falando de amor que estarei amando. Um livro não vai justificar minha biografia. Nunca. Não vai me isentar da covardia de deixar o tempo passar. Não vou desprezar meu cotidiano porque escrevi alguma coisa que preste. Há uma tendência pela impunidade, que o escritor é capaz de fazer qualquer loucura porque é escritor. Que vale tudo para se conseguir uma obra-prima. Não vale tudo, posso lhe garantir. O escritor tem uma responsabilidade dobrada: de escrever para viver e de viver para ser escrito. O escritor não tem imunidade parlamentar. É sua falta de imunidade que o fortalece, porque não se verá pronto e sempre estará apto a receber o mundo como se fosse uma nova cicatriz. Em relação à precocidade, como definir qual é o meu tempo? E se eu viver até os 40 anos, estou recebendo prêmios tarde, no fim da vida. O talento não pode ser medido pela idade ou pela sua promessa. Não desejo concessões comigo, prefiro o rigor e a crítica. Não espero a complacência. Meu pior me melhora. O Nobel não deve ser uma ambição ou projeto de um escritor, porém um acidente.

4. Misturando sua carreira, que eu considero meteórica, com aquela história da sua formação, o que você ensina no seu Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários na Unisinos? Indo direto ao ponto: acha que talento é algo transmissível (DNA, idem, no seu caso)? Eu sei que a idéia do curso não é simplesmente "ensinar a escrever", mas encaminhar as pessoas que estão escrevendo atabalhoadamente sem direção... Ainda assim, penso que estamos todos – inclusive na internet – alimentando o mito de que “qualquer um consegue”... Queria ouvir sua opinião.

Verdade. Há uma facilidade para escrever, mas vejo a internet como uma extensão das cartas, não uma extensão da literatura. Pode vir a ser literatura, ou pode ser apenas comunicação. Escrever não torna alguém escritor. Ter vocação ainda não é suficiente – depende de trabalho, disciplina, dedicação. Não acredito que o talento venha de um “sangue azul”. Só se for da caneta Bic. Não se procura uma oficina sem ter sido provocado antes. Quem busca o curso, já tem uma disposição, uma vontade, um ânimo diferenciado para se entregar à leitura. Encontrará sua voz a partir do confronto com outras vozes. Aumentamos a voz quando alguém grita com a gente. Os livros gritam – raros notam. Os leitores que escutam e respondem serão os novos autores.

5. Pergunta inevitável: a internet, os blogs, as revistas todas (de novo)... Qual o seu palpite para essa geração? Eu juro que conheci você através do blog do Polzonoff – você acredita? Tem visto poesia que valha a pena na Rede? Acha que é um bom suporte? E as publicações – por que ainda têm pouco poder de aglutinação? Por que não surgiu uma revista de poesia de arrebentar? Não concorda que já temos quorum?

Acredito, Polzonoff foi um entusiasta da poesia de Terceira Sede e Biografia de uma árvore. Vejo prosa poética que vale a pena na internet. Exercícios líricos que já formam involuntariamente um livro. Um exemplo: Eduardo Baszczyn, de São Paulo, com Coisas da Gaveta. É um suporte ideal para a contundência e concisão do verso. O poema é a pré-história do cinema. Do desenho animado. Do clipe. Pensamento em disparada, música da respiração, imagens encadeadas. Sobre revista de poesia digital, Jussara Salazar organiza a bela La Gioconda. Dá uma conferida. Pipol e Edson Cruz também são capazes de realizar uma animação em alto nível, como foi provado em Mnemozine (ligado ao site Cronópios).

6. E a crítica, continua morta viva, como nas décadas anteriores, ou está atenta a esses fenômenos? Sei que, tirando um ou outro Wilson Martins, você é uma “unanimidade poética” como há muito não se via... Já ouvi também críticas a você no sentido de que é um incansável divulgador da própria obra – do tipo que fica tentando conquistar até os corações mais relutantes... A fortuna crítica, hoje, virou uma questão de ser, como o Nélson Rodrigues dizia, “o contínuo de si mesmo”?

Unanimidade? Todos temos índice de rejeição, inclusive na família. Valorizo a discordância, desde que com o cuidado e a elegância para não destruir e, sim, ajudar. Ler é se importar com o destino da linguagem. Uma das mazelas da internet são os laranjas. Se eu entro num blog e não gosto, não vou deixar comentário ali ofendendo o autor. Esqueço o link e sigo adiante. O silêncio é uma forma de crítica, bem mais educada. Lamento quem se julga dono da sabedoria literária a ponto de julgar, ameaçar com grosserias, sob o escudo do anonimato. Respeito muito o trabalho de Wilson Martins, pois ele acredita sinceramente no que diz. Mesmo que não tenha nada a ver com o que penso. Já percebi que ele dificilmente elogiará um poeta abaixo dos 40, que faça verso livre. Mas é um crítico puro, no sentido de que não é um ficcionista se servindo da crítica, suscetível às panelas e tribos. Acompanho autores escrevendo na imprensa, que procuram elogiar apenas quem escreve na linha deles. Isso é sectarismo. Ouvi – algumas vezes – que sou marqueteiro de minha obra. Adoto apenas uma postura profissional com a literatura e parece que é crime confiar no próprio trabalho. Tenho o interesse de que outros possam viver com mais folga da literatura depois de mim.

7. Aliás, são notórias as brigas da Geração 90 – de certo modo, a sua geração – com a crítica estabelecida (“Que crítica estabelecida?”, perguntaria Paulo Francis)... Enfim, não falo exatamente do seu caso, mas não acha que falta um belo puxão de orelha em certos escritores que ficam falando grosso mas que estão em todos os eventos de literatura, que são editados ano a ano e que infestam as revistas e os jornais? Ou seja: apesar de ter abertas para si as portas do mercado editorial, por que ainda um certo ramo da Geração 90 insiste em se comportar como “rebelde sem causa”?

Perfeito. Ser marginal é um status, assim como ser louco. E é possível perceber que a marginalidade é um modo bem rápido de ter sucesso. Não recomendo ser o que não se é, pois é duro ser louco ou marginal. Sinceridade não faz literatura, faz o escritor. A Geração 90, de muitos amigos, conseguiu seu espaço. Agora cada integrante tem que merecer a permanência em sua época e, depois, na história. Confesso que tenho ciúme de quem fala grosso. Minha voz é esganiçada.

8. Mudando para temas mais amenos, desde o lançamento do seu O Amor Esquece de Começar, eu olho pra você, para o seu “consultório sentimental”, e lembro do Neruda de O Carteiro e o Poeta... Sua esposa não reclama do assédio? Como você faz pra dar conta das cartas, hoje e-mails (e comentários), das fãs? Brincadeira: sei que você é pai de família extremoso, etc. e tal, mas não teme ficar com essa fama de titular da coluna Corações Solitários?

Não sou eu que seduzo, a verdade seduz. Assim como não sou a poesia, por mais que a escreva e interprete. Sou um feio carismático. Não apresento índole de galã. Careca e narigudo são as únicas semelhanças que guardo com Neruda. Eu não dou conta das cartas e e-mails, tento responder lentamente. Do Consultório Poético, escolho uma por semana para palpitar publicamente. Recebo cerca de quarenta em sete dias. Queria ser mais ágil, porém sei da importância do que digo e me envolvo na atmosfera de cada apelo. Não podemos esquecer que Nelson Rodrigues montou um consultório sentimental no Diário da Noite. Ele usava o pseudônimo de Myrna. A diferença é que sou meu próprio pseudônimo. É óbvio que minha mulher reclama do assédio. Brinco com ela de que meu sonho é ser o Wando da poesia brasileira e dizer: joguem as calcinhas (risos)! O humor alegra o casamento e diminui o ciúme, que também sinto dela.

9. Quando recebi seu primeiro press-release, li lá que o Brasil inteiro estava “carpinejando”... E o mundo? Portugal também está, neste momento, carpinejando? Como é recebida a sua mensagem no além-mar? França, Itália... Como é ser traduzido por Curt Meyer-Clason, o célebre tradutor de Guimarães Rosa? Você também confere as suas edições estrangeiras como o autor de Grande Sertão: Veredas? Ou concorda com aquela máxima de que poesia é justamente o que se perde na tradução?

Acompanho com admiração, como se não fosse comigo. Opino sem muita profundidade, com misto de curiosidade e intuição. Mas assino embaixo da máxima: o que se perde na tradução se ganha em ousadia. Traduzir é ler errado e escutar certo.

10. Para terminar: sempre quando falo com você, fico sabendo de um projeto novo, fora aqueles outros todos que você já toca... dá pra conciliar? Como é o seu dia-a-dia? Tenho curiosidade... Acorda, leva os filhos na escola, bloga, atende às solicitações da imprensa, almoça, dá aulas, escreve poesia, escreve matérias para revistas e jornais, responde aos telefonemas, aos e-mails, janta, dá palestra, conversa sobre o dia com a esposa, dorme... Está de acordo com Spinoza, que dizia que “intelecto” é também “vontade” (força de vontade)? (Às vezes eu acho que os escritores brasileiros – ao contrário de você – reclamam demais e fazem de menos...)

Vontade é uma senha. Sempre me agradou mais um time raçudo do que um time genial. O que é genial busca se exibir mais do que jogar. O que é genial procura ser visto mais do que olhar. Sim, amo o que faço. Demais. O que pode ser um problema: desconheço os limites para dar uma trégua. Como gosto, posso me esgotar fisicamente sem perceber. Desde pequeno, nunca adiantou espernear. Como tenho três irmãos, reclamar não fazia diferença. Ninguém da minha família esperava que fosse escritor. Para falar a verdade, nem eu. A ausência de expectativa me livrou da cobrança. Tive que chamar atenção de mim para somente assim chamar atenção dos outros. Eu me esforcei o dobro. Hoje não olho para baixo para evitar a vertigem. Me perco mais voltando do que indo para frente. Além de fazer tudo o que você antecipou, ainda vou ao cinema com o Vicente, adoro dançar e participar de baladas, passear de bicicleta amarela, freqüentar livrarias e cafés, namorar, jogar futebol, ir ao Beira-Rio no final de semana, descobrir algum restaurante escondido, me encontrar com os amigos, ler e não fazer nada. Minha normalidade é deliciosa. Não preciso impressionar para ser feliz.


Julio Daio Borges
São Paulo, 6/11/2006


Mais Entrevistas Recentes
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
6/11/2006
12h25min
Muito boa essa entrevista! Ouvir Fabrício Carpinejar, seja lá de que forma for, é um bálsamo para a alma. Mas não posso deixar de mencionar a condução inteligente do entrevistador. Parabéns aos dois.
[Leia outros Comentários de cissa lafayette]
22/7/2008
08h35min
A entrevista com Fabrício Carpinejar é uma prazerosa leitura. Comecei a ler por ler e, gostei de ser suavemente "arrastada" por um raro mundo de idéias e de confidências. Aliás, quanto ao entrevistador, já me manifestei outras vezes, apreciando o faro único, original e alentador.
[Leia outros Comentários de Lygia Dias de Toledo]
17/9/2008
18h00min
Carpinejar traduz-se com inteligência: entre idéias e confidências.
[Leia outros Comentários de regina lima]
12/5/2009
08h47min
Maravilhoso! Ler Carpinejar é sempre imprescindível! Descobri-o numa livraria através de um fã, que havia lido "O Canalha", daí comprei "O Amor esquece de começar" e apaixonei-me pela maneira espetacular que o autor externa suas idéias. Divino!
[Leia outros Comentários de Rozilene F. da Costa]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




JUSTIÇA SOCIAL - DESAFIO PARA A FORMAÇÃO DE PROFESSORES
JÚLIO EMÍLIO DINIZ-PEREIRA
AUTÊNTICA
(2008)
R$ 50,00



GUIA DO AGENTE DE PASTORAL DA AIDS
CNBB
CNBB
(2006)
R$ 8,40



CURSO PREPARATÓRIO ENEM E VESTIBULARES VOLUME 6 GEOGRAFIA 1
GUIA DO ESTUDANTE - VÁRIOS AUTORES
ABRIL
(2010)
R$ 10,00



MECÂNICA DA MOTO - TERCEIRO VOLUME
GEORGE LEAR
HEMUS
(1980)
R$ 20,00



CURURU CURURINHO
PATRÍCIA SENNA E EMERSON PONTES
PRAZER DE LER
(2011)
R$ 9,80



DOS LIED VUNEM OJSGEHARGETN JIDISCHN VOLK
WOLF BIERMANN
KIEPENHEUER
(1994)
R$ 75,00
+ frete grátis



FACES - STUDENTS BOOK 3 - FREE STUDENTS CD
JEANNE PERRETT
MACMILLAN
(2009)
R$ 40,00



DIREITO E PSICANÁLISE - INTERSEÇÕES E INTERLOCUÇÕES A PARTIR... (LACR)
JACINTO NELSON DE MIRANDA COUTINHO
LUMEN JURIS
(2015)
R$ 73,00



PRAZERES DA MESA 55 EDIÇÃO ESPECIAL FEITA AO VIVO POR 53 CHEFS
VÁRIOS AUTORES - REVISTA
4 CAPAS EDIT
(2007)
R$ 13,00



UMA NUVEM SOBRE A CAMA
NORBERTO ÁVILA
COLIBRI
(1997)
R$ 16,52





busca | avançada
31843 visitas/dia
1,0 milhão/mês