Entrevista com Fabrício Carpinejar | Digestivo Cultural

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Segunda-feira, 6/11/2006
Fabrício Carpinejar
Julio Daio Borges

+ de 19100 Acessos
+ 4 Comentário(s)


Fabrício Carpinejar, em foto de Renata Stoduto

Fabrício Carpinejar, 34 anos, nasceu em Caxias do Sul (RS). Filho dos poetas Carlos Nejar e Maria Carpi, hoje separados, juntou seus sobrenomes em sua estréia poética, As Solas do Sol (1998). A partir de 2000, foram outros três livros anuais de poemas: Um Terno de Pássaros ao Sul, Terceira Sede e Biografia de uma árvore – até a antologia Caixa de sapatos (2003), que lhe conferiu notoriedade nacional, pela editora Companhia das Letras.

Desde 2004, é editado pela Bertrand Brasil por onde lançou
Cinco Marias (poemas), Como no céu/ Livro de Visitas (2005, poemas e prosa poética) e O Amor Esquece de Começar (2006, crônicas) – sendo este último uma compilação de textos a partir do seu blog na internet. Mantém ainda a coluna semanal Consultório Poético, no site da revista Superinteressante. Foi laureado pela Academia Brasileira de Letras (prêmio Olavo Bilac, 2003), pela União Brasileira dos Escritores (Cecília Meireles, 2002) e recebeu o Açorianos de Literatura já duas vezes, em 2001 e 2002. Desde o ano passado, coordena o Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários, na Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos).

O mote para esta Entrevista foi o Prêmio Érico Veríssimo, concedido a Carpinejar pela câmara municipal de Porto Alegre, no último dia 23 de outubro, aniversário do poeta. Aqui, Fabrício conta como é fazer parte de uma família de poetas. Afirma que, ao contrário do que atualmente se acredita, é possível viver de literatura. Não se considera uma unanimidade e nem um autor precoce. Acha que a internet é o suporte ideal para a contundência e para a concisão do verso, mas lamenta que a Rede esteja infestada de pseudônimos. Sobre a crítica de Wilson Martins à sua poesia, pensa que ele jamais elogiará um poeta que pratique o verso livre e que tenha menos de 40 anos. Para aqueles que o acusam de “marqueteiro”, tem uma resposta na ponta da língua: “Parece que hoje é crime confiar no próprio trabalho”. Quanto ao assédio das fãs, brinca que quer ser “o Wando da poesia”. Carpinejar conclui, ainda, que é um “feio carismático” e alerta que “a literatura não substitui a vida”. – JDB


1. Fabrício, vamos começar pelo começo. Eu acho brilhante esse seu sobrenome e já li em algum lugar que, com ele, você junta seus pais que se separaram [Maria Carpi e Carlos Nejar, ambos poetas]... Sei que você tem já a sua família e que não discute poesia com seus genitores nas refeições de todo dia, mas discute nas datas comemorativas? Como é isso? Já li também que seus pais, quando te liam, só te "detonavam"... É verdade? Por último, o que você acha de um Leitor do Digestivo que falou que você é “melhor” do que a sua mãe mas “pior” do que o seu pai? Essas comparações ainda fazem algum sentido para você – ou poesia, em família, por ser trabalho, virou assunto tabu?

As comparações não fazem sentido para mim. Nem poderiam. Era o que faltava competição dentro de casa, já chega fora. Acho que ocorre uma provocação afetiva, que não é concorrência, ainda mais com três vozes bem diferentes. Um tenta desafiar o outro, isso é possível. Meus pais davam pitacos sobre minha produção no começo, agora ficaram preguiçosos ou viram que não tinha conserto. Meus palpites funcionam mais com o pai do que com a mãe. O pai é mais aberto. A mãe escuta, escuta e não me leva a sério. Meu medo é ser pior do que eu. Ou que meu sobrenome termine sendo o meu melhor verso (risos).

2. No embalo da pergunta anterior, como “se fez” poeta? No seu blog, há uma porção de epifanias, em prosa, sobre sua sensibilidade poética já na adolescência e na infância... Quando descobriu que faria poesia? “Poeta”, pra você, é profissão? É assim que você preenche a ficha cadastral do hotel? É assim que você se apresenta pras pessoas do mundo real? Resumindo o romance de formação: dá pra viver de direito autoral (a poesia é uma vocação que, pra você, valeu a pena)?

Não ponho datas nos poemas, muito menos sei precisamente o dia em que os pássaros escreveram e as árvores voaram. Eu me fiz poeta pelas deficiências. Como sofria muita gozação na escola, em função da feiúra e dos problemas de dicção, aprendi a me defender defendendo os outros. Nunca soube me defender, mas sempre consegui vencer o medo e o nervosismo para evitar ataques aos outros. Quando havia algum colega sendo discriminado, me tornava seu melhor amigo. Estar do lado mais fraco é poesia. Poesia não combina com o senso comum. Escrevia cartas de amor, mas sempre tive letra feia e não me apaixonei por mim. Eu assino mesmo “escritor” na ficha do hotel. Até porque, na maioria das vezes, estou ali como autor fazendo palestras ou participando de eventos. Seria um disparate colocar "jornalista" ou "professor". É possível viver de literatura. Já foi exclusividade de autores consagrados e maduros, no fim da trajetória, mas hoje há vários casos de jovens contemporâneos que se dedicam somente a escrever e largaram as demais atividades, como Luiz Ruffato, Marcelino Freire e Cíntia Moscovich. Digo: viver de literatura não é somente viver de direito autoral, porém do entorno, que inclui leituras públicas, saraus, debates, conferências e textos. Antes, no meu caso, o jornalista sustentava o escritor, agora o escritor sustenta o jornalista.

3. Vou ser bem pessoal agora (que me desculpem os Leitores...): eu gosto muito de você, do que você faz, mas tenho medo da sua consagração precoce... Você não tem medo, não? Agora, ganhou o Prêmio Erico Verissimo, pelo conjunto da obra... – embora tenha publicado quase um dezena de livros, você não tem nem 35 anos! ABL, UBE, Açorianos de Literatura... o que falta pra você, o Nobel de Literatura? Não tem mesmo medo de esgotar as possibilidades, de secar o poço da inspiração, de chegar do outro lado do arco-íris e não encontrar nenhum pote de ouro?

Se secar o poço da inspiração, paro de escrever. A literatura não é uma religião. Não vou amarrar um livro explosivo na cintura por uma causa. A literatura não substitui a vida, ela nos prende mais a ela. Não entendo quando um escritor se sente realizado ao escrever um livro. Eu me sinto cada vez mais irrealizado – aumenta a fome. O desejo não pretende se satisfazer para continuar desejando. Eu me realizo ao jogar futebol, namorar, ir a um show. Não é falando de amor que estarei amando. Um livro não vai justificar minha biografia. Nunca. Não vai me isentar da covardia de deixar o tempo passar. Não vou desprezar meu cotidiano porque escrevi alguma coisa que preste. Há uma tendência pela impunidade, que o escritor é capaz de fazer qualquer loucura porque é escritor. Que vale tudo para se conseguir uma obra-prima. Não vale tudo, posso lhe garantir. O escritor tem uma responsabilidade dobrada: de escrever para viver e de viver para ser escrito. O escritor não tem imunidade parlamentar. É sua falta de imunidade que o fortalece, porque não se verá pronto e sempre estará apto a receber o mundo como se fosse uma nova cicatriz. Em relação à precocidade, como definir qual é o meu tempo? E se eu viver até os 40 anos, estou recebendo prêmios tarde, no fim da vida. O talento não pode ser medido pela idade ou pela sua promessa. Não desejo concessões comigo, prefiro o rigor e a crítica. Não espero a complacência. Meu pior me melhora. O Nobel não deve ser uma ambição ou projeto de um escritor, porém um acidente.

4. Misturando sua carreira, que eu considero meteórica, com aquela história da sua formação, o que você ensina no seu Curso de Formação de Escritores e Agentes Literários na Unisinos? Indo direto ao ponto: acha que talento é algo transmissível (DNA, idem, no seu caso)? Eu sei que a idéia do curso não é simplesmente "ensinar a escrever", mas encaminhar as pessoas que estão escrevendo atabalhoadamente sem direção... Ainda assim, penso que estamos todos – inclusive na internet – alimentando o mito de que “qualquer um consegue”... Queria ouvir sua opinião.

Verdade. Há uma facilidade para escrever, mas vejo a internet como uma extensão das cartas, não uma extensão da literatura. Pode vir a ser literatura, ou pode ser apenas comunicação. Escrever não torna alguém escritor. Ter vocação ainda não é suficiente – depende de trabalho, disciplina, dedicação. Não acredito que o talento venha de um “sangue azul”. Só se for da caneta Bic. Não se procura uma oficina sem ter sido provocado antes. Quem busca o curso, já tem uma disposição, uma vontade, um ânimo diferenciado para se entregar à leitura. Encontrará sua voz a partir do confronto com outras vozes. Aumentamos a voz quando alguém grita com a gente. Os livros gritam – raros notam. Os leitores que escutam e respondem serão os novos autores.

5. Pergunta inevitável: a internet, os blogs, as revistas todas (de novo)... Qual o seu palpite para essa geração? Eu juro que conheci você através do blog do Polzonoff – você acredita? Tem visto poesia que valha a pena na Rede? Acha que é um bom suporte? E as publicações – por que ainda têm pouco poder de aglutinação? Por que não surgiu uma revista de poesia de arrebentar? Não concorda que já temos quorum?

Acredito, Polzonoff foi um entusiasta da poesia de Terceira Sede e Biografia de uma árvore. Vejo prosa poética que vale a pena na internet. Exercícios líricos que já formam involuntariamente um livro. Um exemplo: Eduardo Baszczyn, de São Paulo, com Coisas da Gaveta. É um suporte ideal para a contundência e concisão do verso. O poema é a pré-história do cinema. Do desenho animado. Do clipe. Pensamento em disparada, música da respiração, imagens encadeadas. Sobre revista de poesia digital, Jussara Salazar organiza a bela La Gioconda. Dá uma conferida. Pipol e Edson Cruz também são capazes de realizar uma animação em alto nível, como foi provado em Mnemozine (ligado ao site Cronópios).

6. E a crítica, continua morta viva, como nas décadas anteriores, ou está atenta a esses fenômenos? Sei que, tirando um ou outro Wilson Martins, você é uma “unanimidade poética” como há muito não se via... Já ouvi também críticas a você no sentido de que é um incansável divulgador da própria obra – do tipo que fica tentando conquistar até os corações mais relutantes... A fortuna crítica, hoje, virou uma questão de ser, como o Nélson Rodrigues dizia, “o contínuo de si mesmo”?

Unanimidade? Todos temos índice de rejeição, inclusive na família. Valorizo a discordância, desde que com o cuidado e a elegância para não destruir e, sim, ajudar. Ler é se importar com o destino da linguagem. Uma das mazelas da internet são os laranjas. Se eu entro num blog e não gosto, não vou deixar comentário ali ofendendo o autor. Esqueço o link e sigo adiante. O silêncio é uma forma de crítica, bem mais educada. Lamento quem se julga dono da sabedoria literária a ponto de julgar, ameaçar com grosserias, sob o escudo do anonimato. Respeito muito o trabalho de Wilson Martins, pois ele acredita sinceramente no que diz. Mesmo que não tenha nada a ver com o que penso. Já percebi que ele dificilmente elogiará um poeta abaixo dos 40, que faça verso livre. Mas é um crítico puro, no sentido de que não é um ficcionista se servindo da crítica, suscetível às panelas e tribos. Acompanho autores escrevendo na imprensa, que procuram elogiar apenas quem escreve na linha deles. Isso é sectarismo. Ouvi – algumas vezes – que sou marqueteiro de minha obra. Adoto apenas uma postura profissional com a literatura e parece que é crime confiar no próprio trabalho. Tenho o interesse de que outros possam viver com mais folga da literatura depois de mim.

7. Aliás, são notórias as brigas da Geração 90 – de certo modo, a sua geração – com a crítica estabelecida (“Que crítica estabelecida?”, perguntaria Paulo Francis)... Enfim, não falo exatamente do seu caso, mas não acha que falta um belo puxão de orelha em certos escritores que ficam falando grosso mas que estão em todos os eventos de literatura, que são editados ano a ano e que infestam as revistas e os jornais? Ou seja: apesar de ter abertas para si as portas do mercado editorial, por que ainda um certo ramo da Geração 90 insiste em se comportar como “rebelde sem causa”?

Perfeito. Ser marginal é um status, assim como ser louco. E é possível perceber que a marginalidade é um modo bem rápido de ter sucesso. Não recomendo ser o que não se é, pois é duro ser louco ou marginal. Sinceridade não faz literatura, faz o escritor. A Geração 90, de muitos amigos, conseguiu seu espaço. Agora cada integrante tem que merecer a permanência em sua época e, depois, na história. Confesso que tenho ciúme de quem fala grosso. Minha voz é esganiçada.

8. Mudando para temas mais amenos, desde o lançamento do seu O Amor Esquece de Começar, eu olho pra você, para o seu “consultório sentimental”, e lembro do Neruda de O Carteiro e o Poeta... Sua esposa não reclama do assédio? Como você faz pra dar conta das cartas, hoje e-mails (e comentários), das fãs? Brincadeira: sei que você é pai de família extremoso, etc. e tal, mas não teme ficar com essa fama de titular da coluna Corações Solitários?

Não sou eu que seduzo, a verdade seduz. Assim como não sou a poesia, por mais que a escreva e interprete. Sou um feio carismático. Não apresento índole de galã. Careca e narigudo são as únicas semelhanças que guardo com Neruda. Eu não dou conta das cartas e e-mails, tento responder lentamente. Do Consultório Poético, escolho uma por semana para palpitar publicamente. Recebo cerca de quarenta em sete dias. Queria ser mais ágil, porém sei da importância do que digo e me envolvo na atmosfera de cada apelo. Não podemos esquecer que Nelson Rodrigues montou um consultório sentimental no Diário da Noite. Ele usava o pseudônimo de Myrna. A diferença é que sou meu próprio pseudônimo. É óbvio que minha mulher reclama do assédio. Brinco com ela de que meu sonho é ser o Wando da poesia brasileira e dizer: joguem as calcinhas (risos)! O humor alegra o casamento e diminui o ciúme, que também sinto dela.

9. Quando recebi seu primeiro press-release, li lá que o Brasil inteiro estava “carpinejando”... E o mundo? Portugal também está, neste momento, carpinejando? Como é recebida a sua mensagem no além-mar? França, Itália... Como é ser traduzido por Curt Meyer-Clason, o célebre tradutor de Guimarães Rosa? Você também confere as suas edições estrangeiras como o autor de Grande Sertão: Veredas? Ou concorda com aquela máxima de que poesia é justamente o que se perde na tradução?

Acompanho com admiração, como se não fosse comigo. Opino sem muita profundidade, com misto de curiosidade e intuição. Mas assino embaixo da máxima: o que se perde na tradução se ganha em ousadia. Traduzir é ler errado e escutar certo.

10. Para terminar: sempre quando falo com você, fico sabendo de um projeto novo, fora aqueles outros todos que você já toca... dá pra conciliar? Como é o seu dia-a-dia? Tenho curiosidade... Acorda, leva os filhos na escola, bloga, atende às solicitações da imprensa, almoça, dá aulas, escreve poesia, escreve matérias para revistas e jornais, responde aos telefonemas, aos e-mails, janta, dá palestra, conversa sobre o dia com a esposa, dorme... Está de acordo com Spinoza, que dizia que “intelecto” é também “vontade” (força de vontade)? (Às vezes eu acho que os escritores brasileiros – ao contrário de você – reclamam demais e fazem de menos...)

Vontade é uma senha. Sempre me agradou mais um time raçudo do que um time genial. O que é genial busca se exibir mais do que jogar. O que é genial procura ser visto mais do que olhar. Sim, amo o que faço. Demais. O que pode ser um problema: desconheço os limites para dar uma trégua. Como gosto, posso me esgotar fisicamente sem perceber. Desde pequeno, nunca adiantou espernear. Como tenho três irmãos, reclamar não fazia diferença. Ninguém da minha família esperava que fosse escritor. Para falar a verdade, nem eu. A ausência de expectativa me livrou da cobrança. Tive que chamar atenção de mim para somente assim chamar atenção dos outros. Eu me esforcei o dobro. Hoje não olho para baixo para evitar a vertigem. Me perco mais voltando do que indo para frente. Além de fazer tudo o que você antecipou, ainda vou ao cinema com o Vicente, adoro dançar e participar de baladas, passear de bicicleta amarela, freqüentar livrarias e cafés, namorar, jogar futebol, ir ao Beira-Rio no final de semana, descobrir algum restaurante escondido, me encontrar com os amigos, ler e não fazer nada. Minha normalidade é deliciosa. Não preciso impressionar para ser feliz.


Julio Daio Borges
São Paulo, 6/11/2006


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01. Diogo Mainardi por Julio Daio Borges


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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
6/11/2006
12h25min
Muito boa essa entrevista! Ouvir Fabrício Carpinejar, seja lá de que forma for, é um bálsamo para a alma. Mas não posso deixar de mencionar a condução inteligente do entrevistador. Parabéns aos dois.
[Leia outros Comentários de cissa lafayette]
22/7/2008
08h35min
A entrevista com Fabrício Carpinejar é uma prazerosa leitura. Comecei a ler por ler e, gostei de ser suavemente "arrastada" por um raro mundo de idéias e de confidências. Aliás, quanto ao entrevistador, já me manifestei outras vezes, apreciando o faro único, original e alentador.
[Leia outros Comentários de Lygia Dias de Toledo]
17/9/2008
18h00min
Carpinejar traduz-se com inteligência: entre idéias e confidências.
[Leia outros Comentários de regina lima]
12/5/2009
08h47min
Maravilhoso! Ler Carpinejar é sempre imprescindível! Descobri-o numa livraria através de um fã, que havia lido "O Canalha", daí comprei "O Amor esquece de começar" e apaixonei-me pela maneira espetacular que o autor externa suas idéias. Divino!
[Leia outros Comentários de Rozilene F. da Costa]
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