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Quarta-feira, 28/9/2016
Blog
Redação

 
Diego Reeberg, do Catarse



No #MitA (porque o Digestivo foi um dos primeiros a entrevistar a turma do Catarse, em 2011)

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Postado por Julio Daio Borges
28/9/2016 às 14h30

 
MARINHA

3

... e pois seguimos nós no mar brumoso

galgando ora montanhas liquefeitas

ou descaindo em socavões profundos

nesta casca de noz

escaler de papel

de velhas folhas de um jornal extinto

de um incerto dia onde se lia

em tipos garrafais

letras que agora não se leem mais.

5

porque a água em vagas salitradas

solapa letras sílabas palavras

a água lava apaga

mesmo a memória dos mais nefandos fastos

mas deixa um rasto enlutado

de borrão sépia

tinta de polvo

inventando ao acaso outro alfabeto.

6

esse mar de palavras revoltoso

é um mar de marés imprevisíveis

a que presidem lunações perversas

é um mar de profundas reticências

que volta e meia

circunflexo relampeja

e agudamente craseia.

9

essas palavras de mar viram oceano

são palavras demais

e aderem ao casco das naus

às quais retiram o sentimento das águas

o que é um risco

pois uma quilha sem corte

não enxerga

os perigos das sintaxes nas pedras

nem percebe

o cântico enganoso das semânticas.

13

semiótico enxergo claro o tempo

das palavras concretas em bom porto.

há de chegar o tempo, marinheiro,

de fundear o barco bonançoso.

“há de chegar o tempo

o tempo o tempo”...

repete a gaivota em pleno voo.

15

D. Giovanni:

“a esta hora os mortos retornam

à sua tumba de bravos marujos”.

era um crepúsculo

de brônzeos reflexos

um amarelo-magma

um ocre ígneo.

“não são de Deus esses marujos mortos

sem sepultura cristã”.

não são de Deus talvez

mas são de Posseidon.

... e esses peixes que devoram os olhos

dos náufragos são de Deus talvez?

ou essas aves que nada fazem

e mereceram citação supina?

D. Giovanni não responde, cala.

assim é ele: um velho marinheiro italiano

afeito às calmarias às bonanças

ao fogo de Santelmo e às borrascas.

18

um marinista melhor que um marinheiro

deve aos que chegam deixar esse registro

do cemitério naval onde carcaças jazem

as ossaturas de ferro velho expostas

à ferrugem do sal e à maresia.

num outro quadro a este justaposto

com essas mesmas tintas

misturadas de modo diferente

pinte-as de novo o marinista anônimo

para mostrar a todos que como Flebas

um dia essas carcaças foram belas.

21

...e no entanto esse mar emoldurado

pelas janelas francesas da varanda

é um mar sem magia, não espanta.

não é o mar de Homero

ou dos fenícios

é um mar sem história nem prestígios.

é um pedaço de mar

um mar urbano

exposto ao olhar profano dessas gentes

que desconhecem trirremes e tridentes

e só por isso não temem sua fúria

quando os tritões assopram as grossas nuvens

desatando os nós dos ventos e das chuvas.

Ayrton Pereira da Silva

(in Umbrais, Sette Letras, 1997)



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Postado por Impressões Digitais
25/9/2016 às 15h52

 
Sobre a Filosofia (obrigatória) no ensino médio

Tive Filosofia no ensino médio. Professor Beto. Meus colegas de Pueri Domus devem se lembrar

Era quase um estudo de figuras da linguagem. Pegávamos um discurso qualquer (poderia ser uma notícia de jornal) e ficávamos procurando coisas como "generalização apressada", por exemplo

Depois, no final da Poli, acompanhava as aulas do professor Roberto Bolzani Filho, que dava um curso sobre a "Metafísica", de Aristóteles. Começava com os pré-socráticos Heráclito e Parmênides e passava, claro, por Sócrates e Platão

Por causa desse curso, prestei Filosofia, no ano em que me formava na Poli, e passei, de novo, na USP. Mas nem cheguei a fazer um semestre, porque era à noite, eu trabalhava longe, fazia o Proficiency na Cultura, começava a escrever e a publicar na internet e começava a namorar a Carol ;-)

Mas li Filosofia o resto da vida. E, algumas vezes, escrevi sobre. Schopenhauer, Nietzsche, Heidegger e Wittgenstein. Cícero, Sêneca, Marco Aurélio. Maquiavel. Montaigne...

"A História da Filosofia Ocidental", do Bertrand Russell, é um dos meus livros de cabeceira. Às vezes pego um capítulo qualquer e leio

Até na Casa do Saber, eu aprendi Filosofia. Professor Pondé, que dava um curso de Filosofia da Religião, alguém conhece? ;-)

Mas não é coisa pra adolescente. Eu sei que Machado de Assis também não é. E tantas outras coisas - que são "ensinadas" - também não são

Acontece que ensinar Filosofia na escola é como ensinar Cálculo na escola. Estou lendo um livro que diz que Cálculo exige o domínio de quase toda a Matemática da escola. E é verdade. Eu gostava de Cálculo, na Poli, mas exige que você saiba álgebra, geometria, trigonometria, logaritmos...

Filosofia pode ser Lógica, o estudo dos discursos (como eu tive no ensino médio). Mas pode ser Ética. Pode ser Estética. Pode ser Política. Pode ser Epistemologia, o estudo dos "limites" do conhecimento. Pode ser História da Filosofia. Pode ser a Antiga, a Medieval, a Moderna...

Por mais que hoje as pessoas citem Nietzsche como quem cita Clarice Lispector (quase sempre erroneamente), Filosofia não é um assunto corriqueiro

Assim como não devemos obrigar ninguém a ter Cálculo ou Teoria da Relatividade no ensino médio, não acho que a Filosofia deva ser obrigatória no ensino médio

Seria como tentar ensinar Derivativos, para quem não vai seguir carreira em Finanças. Fisiologia, para quem não vai fazer Biológicas. Ou Buracos Negros, para quem não vai ser físico...

Quem tiver interesse, vai ter na faculdade, depois. Ou vai estudar por conta própria

Eu acho a discussão sobre "currículo" fascinante - e todo mundo tem uma opinião a respeito... (É quase como futebol, política e religião)

Mas, ao mesmo tempo, acho que nunca estamos "prontos", formados, "acabados". Evoluímos até a hora da morte

Fora que o mundo se transforma e nenhum "currículo" - por melhor que seja - consegue acompanhar

Também acho que esperamos demais da escola, da faculdade, dos professores, até dos "treinamentos" nas empresas (eu fui "trainee" do Itaú) - só que, hoje, acho que depende muito mais de nós...

A educação que a Catarina tem em casa é tão importante quanto a que ela tem na escola. Ou mais. Ou *muito* mais

Por fim, acho que esperamos demais do governo. Uns porque querem "mais" governo. Outros porque querem "menos" governo

Estamos sempre raciocinando em termos de "governo". O que é um problema até mais grave que o da educação - é um problema de *mentalidade*. E esta, para ser "reformada", custa muito mais...

Subdesenvolvimento, já dizia Tom Jobim, não é coisa que se improvisa - é obra de séculos...

Para ir além
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Postado por Julio Daio Bløg
23/9/2016 às 11h06

 
Ed Catmull por Jason Calacanis



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Postado por Julio Daio Borges
21/9/2016 às 12h49

 
10.049 km pelo Brasil

Em novembro passado, publiquei um texto com titulo semelhante ao deste (foi o 11.920 km pelo Brasil), relatando a viagem que eu fizera por Pará, Tocantins, Bahia, Goiás, Mato Grosso, Rondônia e Amazonas divulgando os curtas e a exposição de fotos do projeto As Tias do Marabaixo. Consegui exibir os filmes em três desses estados, e expor as fotos em dois, além de criar a Oficina de Cinema Independente (e por criar entendam ter a ideia, organizar o conteúdo, vender e realizar a primeira edição, filmar um curta durante a Oficina e lançá-lo no YouTube, tudo isso ainda durante a viagem!). Também aproveitei para apresentar meus projetos culturais (e também os de artistas que represento) a Secretarias de Cultura municipais e estaduais e a unidades da rede SESC (este aspecto já não posso considerar bem-sucedido, pois nos 10 meses que se seguiram à viagem nenhuma das entidades que visitei entrou em contato, nem ao menos para dizer que receberam meu e-mail e estariam "analisando" as propostas - risos. Vivemos uma época sem disfarces).


A viagem deste ano foi menos épica, pode-se dizer, embora a princípio seus planos fossem mais ambiciosos do que os de 2015. Este ano o roteiro não foi definido por mim, e sim traçado pelas inscrições que recebi entre fevereiro e abril durante o lançamento da Campanha #VamosSonharJuntos, visando levantar fundos para a edição do livro de fotos d'As Tias do Marabaixo. A princípio, eu iria para 30 cidades em 16 estados, totalizando quatro regiões brasileiras (apenas do Sul ninguém se manifestou). Digo a princípio porque eu sabia que em casos assim é comum ter alguma desistência. O que eu não esperava é que fossem tantas, e praticamente em sequência! Isso até já contei num texto publicado aqui no blog, intitulado Ajustando o Rumo, então me limito aqui a dizer que, após fazer o último ensaio em Macapá em 7 de maio, apenas no começo de agosto, já em Rondonópolis (Mato Grosso), é que voltei a fazer ensaios da campanha. Fui até o Pará, Maranhão, Paraíba e Alagoas sem que nenhuma das pessoas inscritas tenha feito o ensaio ou ao menos me comunicado previamente da desistência (ou, no caso, da impossibilidade) de cumprir com o combinado. Não é preciso ser um Nobel de Economia para concluir que se as despesas continuam mesmo com inexistência de receita, não se poderá chegar a um bom resultado financeiro. 

Enfim, em Alagoas resolvi suspender a viagem, aguardando o momento de ir para Mato Grosso participar de um evento e realizar ensaios na capital e no interior - de toda essa programação, o único item que se confirmou foi o ensaio com a modelo Bruna Xavier, em Rondonópolis (que você já apareceu em dois posts do meu novo blog, como Modelo da Semana e também no Ensaio de Agosto). 

Mesmo que o objetivo principal da viagem - financiar a edição do livro - não tenha sido atingido, de modo algum creio que deva lamentar esse novo "rolezão". Vejamos:

1) Em Belém, ministrei a segunda Oficina de Cinema Independente; 

2) Em São Luís, fui entrevistado por uma equipe da TV UFMA para um documentário sobre os 100 anos do Samba (contados a partir do lançamento de "Pelo Telefone"); também irão participar do doc figuras do porte de Paulinho da Viola e Beth Carvalho;

3) Ainda em São Luís, encomendei e recebi meu primeiro equipamento fotográfico adquirido via internet, a nova câmera Nikon L330; 

4) Já em Maceió, pude enfim lançar um novo blog, o Fabio Gomes Foto & Cinema, uma ideia que tive em São Luís - e que, como já contei aqui e aqui, vinha de certa forma perseguindo há algum tempo.

Além disso, mais como uma curiosidade & satisfação pessoal, agora são apenas dois Estados do Brasil onde ainda não estive: Rio Grande do Norte e Espírito Santo (já que estamos desviando para curiosidades, acrescento que, dos 25 estados que conheço, em apenas um não estive na capital: Sergipe). 

Enfim, de volta a Macapá, onde cheguei há alguns dias, vou ainda atender algumas inscrições feitas para a Campanha aqui no começo do ano, e no mais é seguir a vida, buscando outras alternativas para a edição do livro. Sim, ele será publicado, embora agora eu não tenha como precisar uma data para isto. De todo modo, já na segunda-feira retomo o trabalho de edição da obra. 




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Postado por Cinema Independente na Estrada
18/9/2016 às 19h29

 
Yo no quiero más

Escorado na mesa de sinuca, que hoje tenho na varanda de casa, um pensamento me ocorre: sinuca de verdade é aquela de bar, desses que ficam nas esquinas dos bairros.

Eu gostava de jogar, mas gostar não significa saber, é preciso destreza e concentração.

A pouca habilidade, eu tentava compensar me concentrando ao máximo, mas nem sempre dava certo.

Lembro da última vez, do exato instante que passei o giz no taco e me preparei para a primeira tacada, quando ouvi uma voz que saía do outro canto do bar - “Yo no quiero más!” voz tão amargurada que acabou com a minha concentração.

Ergui o corpo e passei mais giz na ponta do taco, dessa vez fazendo um barulho irritante.

Enxuguei da testa o suor nervoso e busquei nova concentração, agachei até que meus olhos ficassem no mesmo nível da mesa de sinuca e mirei a bola sete ao mesmo tempo em que ele falou novamente “Yo no quiero más!”.

Incomodado, joguei de qualquer jeito, ao invés da bola sete, matei a quinze.

Era a vez do adversário jogar e só então resolvi encarar o sujeito extremamente magro, dos cabelos sebosos repartidos ao meio e dono de um fino bigode, que na beira do balcão, bebericava um copo de cachaça.

Era um paraguaio solitário, das mãos calejadas, que deixava escapar aquele lamento profundo.

Olhei mais atentamente enquanto as bolas se chocavam violentamente e corriam nervosas na mesa do bilhar.

Ele parecia vagar por outro mundo, nem se incomodou com meu olhar curioso, “no quiero, no quiero”, mais um gole de cachaça, uma tragada no cigarro e de volta a voz embargada “ya sufrido mucho, no quiero más!”.

Eu já não me importava tanto com o jogo, queria desvendar segredos, contei-lhe a idade, devia ter menos de sessenta anos, embora os olhos caídos e as pontas dos cabelos totalmente brancas sugerissem mais.

Bebi um gole de cerveja e me preparei para matar a bola cinco, oferecida, perto da caçapa, jogada fácil que se tornou complicada quando ouvi novamente ”yo no quiero más!”.

Mas que diabos será que ele não queria mais?

Imaginei hipóteses, a dor de uma doença, saudades, ausências?

Incontinente encostei meu corpo no balcão, bem próximo dele e do seu mundo, novas frases, outras interrogações, “me há gustado”, breve pausa, outro gole na cachaça que escorreu por seus lábios, antes de completar com os olhos mirados no vazio,” pero no quiero más!”.

E no final, quando eu já desistia, ouvi claramente de seus lábios sofridos a frase completa, que me comoveu: “Yo no quiero más saber de mulher bonita”, disse, misturando o castelhano com o português e eu ri um riso profundo: era evidente que no eixo de tantos lamentos, trafegava em rodas tortas, as desilusões do amor.

Ele bebeu o resto da cachaça, testemunha solitária de seus sofrimentos e eu nem me incomodei com a tacada final do colega na outra ponta da mesa, pancada certeira na bola oito, que ricocheteou entre as duas quinas, rodopiou feito um peão e caiu mansamente na caçapa, levando junto todas as desilusões amorosas daquele sofrido senhor.

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Postado por Blog de ANDRÉ LUIZ ALVEZ
17/9/2016 às 19h55

 
Trecho do livro Jakob Von Gunten - Um diário



"Aqui se aprende muito pouco, faltam professores, e nós, rapazes do Instituto Benjamenta, vamos dar em nada, ou seja, seremos, todos, coisa muito pequena e secundária em nossa vida futura. As aulas a que assistimos visam sobretudo a inculcar-nos paciência e obediência, duas qualidades que ensejam pouco ou mesmo nenhum sucesso. Sucessos interiores, sim. Mas o que se ganha com eles? Conquistas interiores porventura nos dão de comer? Eu gostaria muito de ser rico, andar por aí em caleches e gastar um bocado de dinheiro. Conversei sobre isso com Kraus, meu colega de instituto, mas ele só fez encolher os ombros com desdém, não se dignando dirigir-me sequer uma única palavra. Kraus é possuidor de princípios; firme na sela, cavalga a satisfação, montaria inadequada a quem deseja galopar. Tão logo cheguei aqui, ao Instituto Benjamenta, consegui transformar-me num enigma para mim mesmo. Também a mim contagiou certa satisfação, bastante curiosa e, no meu caso, inédita. Obedeço razoavelmente bem, não tão bem quanto Kraus, que é mestre em precipitar-se de cabeça ao encontro de ordens, pronto a servir. Num ponto, nós todos - Kraus, Schacht, Schilinski, Fuchs, o grandão do Peter, e eu etc., alunos do Instituto Benjamenta - nos igualamos, a saber: em nossa total pobreza e dependência. Somos pequenos, pequenos até a insignificância. Quem quer que possua uma nota de um marco é já considerado um príncipe favorecido. Quem fuma cigarros, como eu, desperta preocupação em virtude do dinheiro que esbanja. Vestimos uniformes. Usar uniforme é algo que, a um só tempo, nos humilha e enobrece. Parecemos pessoas privadas de liberdade, o que talvez constitua humilhação, mas ficamos bem de uniforme, e isso nos distancia da vergonha profunda dos que andam por aí em trajes mais que próprios e no entanto sujos e esfarrapados. Para mim, por exemplo, vestir uniforme é muito agradável, porque nunca soube ao certo que roupa usar. Também nisso, porém, sou, por enquanto, um enigma para mim mesmo. Talvez abrigue um ser humano bastante vulgar. Ou talvez corra sangue aristocrático em minhas veias. Não sei. De uma coisa tenho certeza: no futuro, o que vou ser é um zero à esquerda, muito redondo e encantador. Na velhice, terei de servir a jovens grosseirões, arrogantes e mal-educados; do contrário, vou precisar mendigar para não perecer."

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Postado por O Equilibrista
17/9/2016 às 08h15

 
Comunicação: conselhos para (jovens) pesquisadores



O Intercom Nacional ocorreu de 5 a 9 de setembro, na Universidade de São Paulo (USP). Imagem: Divulgação.


De 2008 até este ano, tive mais de dez trabalhos publicados nos anais das reuniões da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação, a Intercom. Por “chatice” (discernimento?), não gosto de nenhum deles. Ou melhor: só de alguns, em parte. “E olhe lá”. Na verdade nem sei o que penso sobre, não os leio depois de publicados. No máximo “consulto” vez ou outra; o texto tem vida própria e, após escrito, não se sabe o que pode ocorrer e prefiro não percorrê-los novamente.
Também não os leio porque até então considerava o Intercom um espaço menor de discussões, com temas repetitivos (pesquise, brevemente, por exemplo, “análise de capas de jornais policiais” ou filmes como “Clube da Luta” ou “Amélie Poulain” – a repetição parece ser agendada e é assustadora) e cujas análises e provocações (ora, academia é isto!) eram/são, em sua maioria, rasteiras ou inexistentes, não por incompetência dos autores, mas também pelas necessidades do mercado e pelas demandas quantitativas de instituições de financiamento e incentivo à pesquisa.
Admito, no entanto, que talvez esta visão tenha mudado nos últimos dias durante a edição nacional realizada na Universidade de São Paulo (USP) ou mesmo eu tenha “dado uma chance” para o Intercom de conhecê-lo de fato – ou “algo mudou”, minha hipótese preferida, pelo que ouvi de professores e outros membros do público. Em poucos Grupos de Pesquisa (GPs), alguns “Intercons Júnior” (IJs) e nenhuma mesa (bate-papos pops em que a preocupação central é fazer selfie com os debatedores não me interessam) pude perceber maior cobrança, poder de análise, provocações e respeito com a pesquisa em comunicação. Produtos, reconfigurações, temas instigantes e maior percepção da cidade como espaço de comunicação e interações foram pontos que mais me chamaram a atenção. E isto é ótimo, mostra crescimento e melhorias no evento.
Em uma leitura apressada e/ou mesmo geertziana (perdoe este autor pela referência atravessada, Geertz!), tais observações de alguns pontos talvez sirvam principalmente como reflexão para nós pesquisadores que temos certa trajetória e, especialmente, para jovens estudantes que começam a trilhar (n)este caminho da academia.
Levando tudo isto em conta, abaixo então listo e discuto alguns pontos que acredito merecerem destaque na “análise” do Intercom Nacional deste ano e que podem ser considerados “inspirações” (diagnósticos?) para as próximas edições regionais e nacionais, outros eventos e revistas. Na verdade, são observações e “sugestões” ("conselhos"?) para a pesquisa em Comunicação, em especial para quem vai começar na área.

01. Conheça (?) sua cidade
“Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perder numa floresta requer instrução”, escreveu Walter Benjamin em Tiergarten (Obras escolhidas II, 1985). Mais que isso: encontrar na própria cidade temas e possibilidades de estranhamento são difíceis, desafiadores e, obviamente, estimulantes.
Seja como local de trocas, seja de passagem, seja até mesmo como paisagem, objeto comunicacional de propagandas ou algo do tipo. Ela é importante e deve ser melhor observada, conhecida, “estranhada” e analisada. O aspecto turístico, midiático, redes de relações, atenção à produção cultural, imagens e imaginários despertam muito interesse. Apostemos nisso, mas sem sermos ufanistas e não fiquemos totalmente presos a ela.

02. É hora de (re)criar!
No país dos concursos públicos (muitos possuem como meta de vida a tal estabilidade financeira proporcionada pela aprovação em algum certame), sindicatos, greves anuais, falta de incentivo à iniciativa privada, visão equivocada de empresas (pense na novela ou filme que você acompanha ou já assistiu: o empresário era uma boa pessoa? Provavelmente não…), empreender é um desafio praticamente quixotesco. Ainda bem.
Atualmente é possível pensar e produzir aplicativos, sites, cursos, oficinas e criar startups que fujam de lugares comuns, que lidem com outros públicos e que não sirvam unicamente ao ego do seu criador, mas também como novas alternativas e melhorias à sociedade (Expocom sempre é uma oportunidade…). Não se faz revolução (no sentido real, não de livro de auto-ajuda ou frase de tatuagem clichê) de cima para baixo. Este é e sempre será um bom caminho, ainda que os passos no tal caminho das pedras sejam escorregadios.

03. Trocas são fundamentais
Meses atrás ouvi de uma pessoa que ministra aulas em uma instituição de ensino que temia convidar docentes de fora da faculdade para avaliar os trabalhos de seus orientandos. A frase, que pode ser interpretada como falta de confiança no próprio trabalho e na própria capacidade intelectual, aponta exatamente para o contrário do que é ciência: troca, inovação, recebimento de críticas que provoquem evoluções e melhorias e que, assim, se fuja do comodismo que muitas vezes domina a academia e mesmo a vida na urbe belenense. É preciso se expor, expor trabalhos, saber dialogar, comentar, estranhar-se, desafiar-se e receber críticas. Assim crescemos como pessoas e a produção acadêmica também se desenvolve. Todos ganham.

04. Não se deixe cair na tentação dos objetos…
Minha trajetória é repleta de análises e discussões sobre alguns produtos, principalmente (ou em sua totalidade) estéticos, culturais de Belém, Amazônia, onde nasci e ainda resido. Isto é bom? É. É estilo? Talvez. E daí? Pode ser algo bem melhor. Ora, não raramente observamos objetos que já conhecemos muito e em que o distanciamento e poder de análise ficam comprometidos por relações de afeto e mesmo de proximidade. Isto embaça a visão e torna o texto um panfleto ou release.
É necessário também fazer discussões maiores. A realidade está em movimento (frase clichê) e a maioria das cidades são repletas de alternativas e sujeitos que (res)significam espaços e processos culturais e comunicacionais e que precisam de uma atenção maior. Observar isto é observar não somente a comunicação, mas os sujeitos que a produzem. Não esqueçamos que comunicar é humano. Somos nós mesmos que devemos, mais que notar e debater paradigmas, conceitos e categorias, nos observar e tentar compreender-nos e isso não se dá somente através da análise de alguns objetos, mas sim de panoramas mais amplos que podem ser (re)visitados.

05. Região não define “nível”
Infelizmente ainda há em alguns casos a impressão ou "crença" de alunos e instituições de ensino de cidades do "eixo Centro-Sul" estão avançadas, há anos-luz, em relação a outras, como da Amazônia, e que não é possível chegar em um nível próximo. Ledo engano, acredito.
Que há investimentos e toda uma rede de incentivos, pesquisas, bibliotecas, maiores possibilidades de viagens e demais estruturas em grandes centros é claro. No entanto, tomando por base as discussões do Intercom, afirmo convicto o óbvio: a diferença de região não define “níveis”. Vi apresentações de pessoas de grandes universidades da região Sudeste que leram a base do trabalho (o que é inaceitável, ainda que seja de estudantes de graduação), tornando a apresentação enfadonha e sem sentido; apresentações inseguras de mestres e doutores; estudantes e professores “fora do eixo Sul-Sudeste” que conseguiram segurar a plateia com apresentação envolvente e segura e outros diálogos que mostram que basta querer, se dedicar e ter um bom acompanhamento que se alcança não somente bons resultados, mas modificações no modo de se pensar e produzir comunicação e a certeza e tranquilidade de ter feito um bom trabalho.
É isso que irá diferenciar oportunistas de pessoas que se debruçam sobre temas e possibilidades, sejam os “sérios”, sejam temas mais “malucos” e nem por isso menos importantes. É isso que fará nossa pesquisa (em comunicação) sair de lugares comuns como análise do próprio empreendimento só pela proximidade e pressa, de páginas de jornais policiais e outros clichês. É isso que poderá fortalecer outras iniciativas, trabalhos e toda uma rede que permita, em especial na Amazônia e em Belém, a comunicação ter grandes pesquisadores e exemplos. Sonhemos forte. Pensemos grande!

P.S.: Em 2017 o Intercom Nacional será realizado em Curitiba-PR. É uma grande chance para colocar estas ideias em prática e, ao longo dos processos, descobrir outras possibilidades também.

Por Enderson Oliveira

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Postado por Blog de Enderson Oliveira
14/9/2016 às 11h19

 
ROMANÇA

Ana partiu tão cedo.

Ana tão cedo partiu.

Ela que tanto doou,

outro tanto mais levou.

Saiu sem me dar adeus,

porta afora de repente.

Fiquei sozinho e ausente.

Hoje à procura de mim,

nem sei quem sou ou não sou.

Ana ao partir me levou.

E assim fiquei duplamente

órfão de Ana e de mim,

de um modo súbito, frio.

Sobrevivo no hiato

de um tempo morto, apagado.

Ana me deletou.

Ayrton Pereira da Silva



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Postado por Impressões Digitais
12/9/2016 às 18h16

 
Alguns posts no blog antigo

Às vezes escrevo aqui, às vezes quando é sobre a USP ou em língua estrangeira escrevo lá. Há mais gente escrevendo do que lendo, não sei que diferença faz. Seja como for, alguns links para posts desse ano estão abaixo.
Bolsas e bombas
Two half days in Mexico City
Todos à USP!
O pré-mestrado da Poli e o Processo de Bolonha
Proposta de pré mestrado na elétrica
O Tao da Fiesp
Don't Nobody Bring Me No Bad News
The Constitution of the United States of Europe
Post racista da Erundina
Half a dialogue about impeachment
Einstein já dizia: tem muita bobagem na rede
Tudo que você sabia sobre a queda do Shah da Pérsia estava errado
Imprensa aparelhada na Rússia e na China
Fim da liberdade acadêmica na USP?
Voltando ao ensino na Poli
Hashtags orquestrados
Eu acho que o Temer vai fazer um bom governo
O engenheiro constitucionalista ataca novamente
Me pediram um discurso breve
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Postado por O Blog do Pait
9/9/2016 às 10h26

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