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Segunda-feira, 6/1/2003
Blog
Redação

 
Entrevista a Agulha

Antes de qualquer outra coisa, um pouco de biografia: de onde emergiu Julio Daio Borges, o que fazia antes, em resumo, quem é você? Em especial, antes do Digestivo, seu campo de atuação era mais o jornalismo impresso, marketing, informática?

Sou engenheiro por formação. Estou ligado aos computadores desde os onze anos de idade. E às letras, desde os dezessete. Mantive sempre essa dualidade. De 1996 até 2001, trabalhei em bancos, consultorias e empresas de telecomunicação. O lado engenheiro prevaleceu nessa época. Mas eu nunca parei de escrever. Montei um site pessoal (jdborges.com.br, em 1999) e o Digestivo Cultural (digestivocultural.com, em 2000). No entanto, foi só em meados de 2001 que o jornalista emergiu, e subjugou o engenheiro. (Quer dizer, em termos: para estruturar o Digestivo, eu precisei muito da minha "expertise" de engenheiro.)

Examinando tudo o que você apresenta, fica-se com a impressão de que é simples manter à tona um periódico eletrônico. Basta trabalhar 26 horas por dia. É isso mesmo?

Considero uma profissão de fé. Um verdadeiro ato de heroísmo. Trabalhar com cultura no Brasil. Ainda é aquele negócio da cereja no bolo. Quando você fala sério, é considerado chato, difícil, prolixo. Quando você faz piada, acaba atraindo um leitor ou outro, mas corre o risco de se repetir e cair no entretenimento puro e simples. Na internet, mais ainda. Já reparou que nós somos os "filhos do jornalismo impresso" falando para os "filhos da televisão"? O diálogo parece impossível (e é), mas, ainda assim, existe (embora pouca gente queira investir nisso).

Dê algumas coordenadas cronológicas: quando foi que você começou a pensar em fazer um informativo, jornal ou boletim, eletrônico? Como surgiu a idéia? Digestivo? De onde saiu esse título? Anglicismo, é? De digest, um sumário ou condensação de informações?

O Digestivo propriamente dito surgiu em setembro de 2000. Eu estava tentando resolver esse enigma: por um lado, o desejo de escrever e seguir carreira em jornalismo; por outro, a internet se abrindo como um mar de possibilidades. Então pensei num formato relativamente breve, falando de cultura, num sentido utilitarista e, ao mesmo tempo, crítico. O nome vem daí. É contraditório, na verdade. Mas é também simpático e as pessoas, em geral, apreciam. Eu queria que o Digestivo - como boletim - fosse auto-sustentável e, portanto, me direcionei a um público mais amplo. Não queria apenas os iniciados, nem só os especialistas.

Quais as razões da escolha do segmento cultura, e não economia e/ou política, ou negócios em geral, por exemplo? Em tese, dariam mais Ibope. Aliás, é cultura, ou cultura e variedades?

Por que "cultura"? É o mesmo que me perguntar por que "azul" e não "vermelho". Simplesmente porque me pareceu o caminho mais natural. Nunca me vi editando um semanário sobre economia ou política. Fora que o efêmero não me atrai. A informação, a notícia. Prefiro a análise, a reflexão. Admiro os repórteres, claro, mas sempre preferi o lado mais autoral do jornalismo. O subjetivo em vez do objetivo. Sem dizer que economia e política não são assuntos que eu domino (ou que tenho pretensão de dominar). Sobre cultura dar pouco Ibope, não concordo. Basta pensar em três dos colunistas mais populares no Brasil: Diogo Mainardi, que "mexe com cultura"; José Simão, que escreve na Ilustrada; e Luis Fernando Verissimo, que escreve no Caderno2.

Quanto tempo levou, entre definir as principais características do Digestivo, e pô-lo no ar? Houve modelos, veículos nos quais se inspirou?

O Digestivo Cultural, como ele é hoje - falo do site como um todo -, resultou de um trabalho de mais de dois anos. Como eu disse, a minha referência e a dos Colunistas era fundamentalmente a imprensa escrita. A partir disso, a idéia foi dinamizar alguns processos aproveitando as facilidades da internet. Em termos de publicação, por exemplo: cada um hoje publica, controla e modifica o seu texto automaticamente. Em termos de interatividade, outro exemplo: por meio de fóruns, e-mails, número de acessos, lista dos mais lidos, etc. Foi um grande aprendizado - e continua sendo. Algumas idéias mirabolantes se revelaram inúteis; outras, nem tanto, produziram resultados surpreendentes.

Quando o Digestivo Cultural foi lançado, há pouco mais de dois anos, as expectativas sobre o crescimento de veículos eletrônicos eram outras. Hoje, reverteram-se. Havia uma previsão, talvez apocalíptica, de substituição total ou parcial do jornalismo impresso pelo eletrônico, que não se cumpriu. Você não acha que está pisando em um campo minado? Você chegou a fazer uma análise crítica de outros projetos, a diagnosticar onde falharam?

Quando o Digestivo apareceu, a internet já claudicava (estamos falando do final de 2000). Quando chamei os Colunistas, e decidi implementar a revista eletrônica (início de 2001), ninguém pensava em faturar milhões. Queríamos fazer barulho, mostrar um trabalho digno de nota, provar que havia novos talentos não contemplados pela imprensa, agitar o meio, derrubar alguns paradigmas, etc. Nesse sentido, diria que conseguimos. Óbvio que, em outros tempos, o conteúdo do Digestivo seria remunerado por um portal - e, quem sabe, poderíamos viver disso (o que não acontece hoje). Sobre a análise crítica de outros sites, ela é feita constantemente e nos ensina muito.

Quando, nos informativos sobre o Digestivo Cultural, você declara viabilidade econômica, o que isso significa? Cobertura de custos de manutenção, ou que dá para viver bem disso? Quanto por cento da sua receita é diretamente ligada ao Digestivo (anunciantes, patrocinadores, assinantes), e às vendas ou à prestação de serviços, do tipo construção de sites? (isso, mesmo considerando a óbvia sinergia entre ambos, que um puxa o outro, que a circulação do Digestivo o fortalece em prestação de serviços e vice-versa).

Quando falo em viabilidade econômica, falo em custos muito baixos se compararmos o Digestivo a uma publicação equivalente em papel. Como a estrutura já está montada, não há quase manutenção. Fora que o site e as facilidades que a internet proporciona eliminam uma porção de intermediários. Há basicamente a redação, para se remunerar - o que é, convenhamos, a parte menos onerosa de uma revista ou de um jornal. Quanto às receitas, o grosso vem do e-commerce (no entanto, muito longe daquilo que você está imaginando). Já a publicidade em internet foi praticamente banida - ficando restrita aos grandes portais (às vezes, nem isso). E a parte de serviços vai crescendo aos poucos, embora tenha sofrido um baque com a desaceleração geral da mídia.

O Digestivo Cultural apresenta textos e informação, mas também bastante e-commerce. Em parte, não seria um Submarino terceirizado? (ou seja, assumindo funções de que Submarino desistiu, diretamente, como sua própria revista)

A pergunta é interessante. Sérgio Buarque de Holanda tentou introduzir Weber no Brasil, mas tudo indica que não foi feliz. Aqui, ganhar dinheiro ainda é pecado. Entre a intelectualidade, então, pecado mortal. Assim, se um "site de cultura" se propõe a faturar alguns trocados com os produtos que gratuitamente divulga, logo é tachado de "vendido" ou de "mercenário". O que existe entre o Digestivo Cultural e o Submarino é uma relação de parceria comum, e nada mais. Acontece que nos pareceu lógico oferecer a facilidade de se adquirir livros, CDs e DVDs via internet, através do nosso site, e receber uma comissão por isso. Os intelectuais brasileiros precisam perder esse preconceito. Quem sabe abandonando o voto de pobreza e pensando em soluções comercialmente mais viáveis. Teríamos, inclusive, publicações financeiramente mais salutares.

O que lhe deu maior prazer publicar, lhe provocou maior satisfação? Do Digestivo atual, o que lhe agrada mais? Fale um pouco mais sobre a contribuição propriamente cultural do Digestivo, o que ele acrescenta, além de possibilitar acesso a mais informações via net e, portanto, dar sua contribuição para a democratização da informação.

Não vou falar de um texto ou outro, porque cometeria certamente alguma injustiça com algum colaborador. O que me orgulha mais é termos construído, a partir do zero, um periódico que hoje é referência em termos de jornalismo cultural, tanto dentro quanto fora da internet. Veja bem: eu sou praticamente um "outsider", não venho de nenhum jornal, nunca tive ligações na grande imprensa, entrei como novato nesse negócio. A maioria dos Colunistas também (começaram como eu). De repente, recebemos elogios do Millôr Fernandes, felicitações do Mino Carta. Depois uma citação honrosa do Sérgio Augusto, uma indicação do Ruy Castro. Uma menção do Daniel Piza, uma consideração do Sérgio Dávila, um voto de confiança do Luís Antônio Giron. Por fim, as mensagens do Diogo Mainardi, da Ana Maria Bahiana, o apoio da Sonia Nolasco. Tudo isso não é mera coincidência e eu não acredito que aconteça por acaso. Em termos de reconhecimento, ninguém imaginou que chegaríamos tão longe. Nem nós mesmos. Pessoalmente, acredito que nem ninguém mais chegue. É o tipo de coisa que não acontece duas vezes.

[Entrevista concecida a Claudio Willer, presidente da União Brasileira de Escritores (UBE), a ser publicada na revista Agulha, de Floriano Martins.]

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Postado por Julio Daio Borges
6/1/2003 às 19h29

 
Recesso

Abaixo a programação do Digestivo Cultural para os feriados:

* os Digestivos seguem nas retrospectivas por tema até dia 1º de janeiro de 2003. A partir do dia 2, voltam à programção normal;

* as Colunas seguem com o Especial Festas 2002 até o dia 27 de dezembro de 2002. Entram em recesso, então, a partir de 30 de dezembro de 2002, e retornam à programação normal no dia 6 de janeiro de 2003;

* os Ensaios não mudam de rotina. Nas próximas segundas-feiras, teremos textos de José Nêumanne, Sérgio Augusto e Luís Antônio Giron;

Ficam os votos de Feliz Natal e Próspero Ano Novo, de toda a equipe do Digestivo Cultural.

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Postado por Julio Daio Borges
22/12/2002 às 08h00

 
Henrique Meirelles

fonte: www2.uol.com.br/veja

Henrique Meirelles, o novo presidente do Banco Central, foi paraninfo (ê, palavrinha) da minha turma na Poli, em 1997. Não lembro de quem foi a idéia de chamá-lo, mas tenho a impressão de que surgiu na nossa sala. (Desiludidos com a engenharia, muitos já se encaminhavam para o mundo dos bancos, ainda antes de se formar.)

Também não sei se foi o Brisac (estou meio vago hoje), mas agora me ocorre o seu comentário. Como alguém também sugeriu o nome de Fernando Henrique Cardoso para paraninfo (maldito cacófato), o Brisac fez piada dizendo que seria uma idéia melhor, pois o presidente da República do Brasil deveria ser menos ocupado que o presidente mundial do Bank Boston. Mais fácil encaixar FHC na agenda de Henrique Meirelles do que o contrário. (Outro dia, lendo o jornal, soube que eles finalmente se encontraram, e conversaram. O Brisac estava certo: um teve que se aposentar; o outro, que eleger seu sucessor.)

Vão me perguntar do discurso na formatura, mas eu me lembro (também) muito pouco. Estava tão atordoado com o cerimonial, a roupa e a "coreografia" que, confesso, não prestei muita atenção. Meirelles tinha uma voz de trovão, que ecoava pelo ginásio do Ibirapuera afora (o som de lá é, sempre, horroroso). Enfim, ele falou algo sobre a sua carreira (fez uma retrospectiva) e alguma coisa também sobre focar-se em resultados (hoje, um chavão).

Depois soube mais detalhes sobre o Henrique Meirelles jovem, graças ao padrinho da Carol. Eles foram colegas de Poli (sempre ela) e parece que o nosso presidente do Banco Central era um desleixado que, no auge da indumentária hippie, aparecia na última hora, antes da prova, atrás de cola ou de alguém para colar. A história sugere um certo folclore, do sujeito genial que foi um rebelde, etc. e tal - mas é verdade. Anos depois, numa reunião de formatura, o mesmo tio da Carol conta que Meirelles apareceu de barba feita e cabelo cortado, quando todo mundo, intimamente, se perguntou: - "Quem é esse cara?"

Há ainda uma terceira ou quarta história, sobre o nosso novo presidente do Banco Central. É de um colega dele, de Bank Boston, da área de Leasing, onde mundialmente se consagrou. Infelizmente ainda preciso investigá-la. Até porque este texto já está bastante longo e eu não quero sobrecarregar o Blog. Fica para a próxima.

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Postado por Julio Daio Borges
19/12/2002 às 18h46

 
Cabeça de Francis

O Brasil tem uma dívida com Paulo Francis. Uma dívida que jamais será saldada. Continuaremos no vermelho. Os velhos caloteiros de sempre. Paulo Francis gerava anticorpos contra nossa patológica covardia intelectual, contra nossa cultura conchavista, contra nossa natureza servil.

Ele inibia nosso irrefreável desejo de apaziguamento, vigiando-nos o tempo todo: quando um de nós capitulava, sentia vergonha de estar sendo observado por ele. Paulo Francis conseguia fazer tudo isso com muita graça, com aquele seu ar desdenhador, aquele seu cabotinismo desavergonhado, quase teatral.

Quando ele morreu, perdemos todas as defesas. Viramos mais vulgares, mais medrosos, mais reacionários. O Brasil piorou sem ele. Empobreceu. Banalizou-se. Restaram seus livros, porém. A imensa figura de Paulo Francis acabava por obscurecê-los. Lendo-os, víamos sua cara, ouvíamos sua voz, sentíamos que ele estava logo ali, deitado em nosso sofá, comentando com sarcasmo os acontecimentos do dia. Era uma presença familiar demais para permitir um saudável distanciamento narrativo. Agora isso mudou. Paulo Francis já pode ser lido. Mais: ele deve ser lido. Cabeça de Negro é um bom começo. Aumentará sua dívida com ele.
Diogo Mainardi

Muitos talvez achassem o contrário, mas Paulo Francis tinha profundo amor pelo Brasil. Seu mau humor e irritação para com os rumos e os desrumos nacionais eram um reflexo de sua revolta pelo que o País poderia ser e não era. E o que ele temia era que não fosse nunca.
Ruy Castro

Uma vez na Bahia, vomitando duas semanas, acordei no vigésimo quinto andar do Hotel Meridien, corri pelas praias do Rio Vermelho e entrei no gélido mar furioso gritando para Nova York - come back, volte Francis, volte!
Glauber Rocha

[Todos na orela e na contracapa de Cabeça de papel e Cabeça de Negro, relançados pela W11 de Sonia Nolasco e Wagner Carelli]

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Postado por Julio Daio Borges
17/12/2002 às 14h40

 
Balanço Contábil

Reparo na estante de livros lidos neste ano. 32, aproximadamente - incluindo os emprestados, de amigos e bibliotecas, e excluindo os que simplesmente não compensa citar. É pouco. O ideal é que se leia em torno de 40 e 50 livros de umas 300 páginas, pelo menos. Dispenso, claro, as baboseiras didáticas, que nós, estudantes, somos obrigados a engolir em quantidade assustadora.

Reconheço, naturalmente, a necessidade e a conveniência desses livros; mas não posso deixar de assumir: são um saco. Não ensinam a escrever e endurecem o espírito. E ocupam, no meu caso, mais ou menos o mesmo tempo que dedico à leitura agradável. Não entendo, mesmo assim, a desculpa comum de que, como "tenho que ler muito para a escola, não arrumo tempo para ler o que gostaria". Pois para mim é o contrário: quanto mais leio Statistics for Business and Economics ou Financial for Business and Administration, mais preciso ler livros escritos por seres humanos.

A lista abaixo, portanto, foi composta exclusivamente por mim. Com recomendações de amigos, mas com um único objetivo: ocupar meus momentos de lazer. Que, infelizmente, têm sido poucos, ultimamente. E dei a cada um uma nota, baseada na seguinte escala, se é que me entendem: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis - 10; O sucesso é ser feliz, Roberto Shinyashiki - 0. Ou seja: 10 - livros que um brasileiro civilizado não pode morrer sem ler; e 0 - livros que um brasileiro civilizado prefere morrer antes de ler.

Mas, fora de ordem cronológica, foi assim:

Letters to a Young Contrarian, Christopher Hitchens - 7

Short Stories, Oscar Wilde - 10

De Profundis, Oscar Wilde - 10

Short Stories, Jack London - 8,5

Hunter, J. A. Hunter- 7

Alice's Adventures in Wonderland and Through the Looking Glass, Lewis Carroll - 10

Com o Diabo no Corpo e O baile do conde d'Orgel, Raymond Radiguet - 10

Cartas a um jovem poeta, Rainer Maria Rilke - 10

Groucho e eu, Groucho Marx - 6

A coisa não-Deus, Alexandre Soares Silva - 7

200 crônicas escolhidas, Rubem Braga - 8

Lado B, Sérgio Augusto - 7,5

O caminho da servidão, F. A Hayek - 10

Visão do Jogo, José Moraes dos Santos Neto - 5

Hiroshima, John Hersey - 8,5

Contra o Brasil, Diogo Mainardi - 7

Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco - 8

Ficar ou não ficar, Tom Wolfe - 8

O Brasil e o Dilema da Globalização, Rubens Ricupero - 6

Um estudo em vermelho, Conan Doyle - 6

Recordações do escrivão Isaías Caminha, Lima Barreto - 7

Como ser legal, Nick Horby - 6,5

High Fidelity, Nick Horby - 6,5

Saudades do século 20, Ruy Castro - 6,5

Aqui está Nova York, E. B. White - 7

The Years with Ross, James Thurber - 6,5

O diário de H. L. Mencken, H. L. Mencken - 7

Literatura e vida literária, Álvaro Lins - 7

Serpente, Rex Stout - 7

Cozinheiros Demais, Rex Stout -7

Flor de obsessão, Nelson Rodrigues - 6

Tales of the Sea, Joseph Conrad - 10

Somando todos os pontos e dividindo pelo total de livros, minha nota final de 2002 é, então, 8,10. Entusiasmante.

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Postado por Eduardo Carvalho
15/12/2002 às 11h55

 
Teaching students not to think

Como chegar lá

Os melhores alunos não são necessariamente os melhores - e provavelmente, como sugere Andrew Conway na Spectator, nem sejam bons o suficiente. Isso, vale lembrar, na Inglaterra. Por causa, basicamente, de dois motivos: da falta de curiosidade dos alunos, e da postura politicamente correta que são obrigados a assumir. Conclusão: não acumulam conhecimento além do que lhes é cobrado, e, sem desconfiar do que o professor ensina, não conseguem pensar sozinhos. Repito: isso na Inglaterra, onde existe debate sobre o assunto, e espaço, como na Spectator, para um professor universitário escrever sobre o assunto. E, vá lá, escrever como gente, e não como professor universitário. Acompanhe, a seguir, os imperdíveis melhores momentos:

There is only one problem - they lack even the slightest spark of initiative or intellectual curiosity.

The attitude of most students, as far as I can tell, is one of good-humoured resignation; they have learnt not to question what their teachers tell them - an attitude which, in many ways, I find more depressing than the plagiarism itself.

Of course one shouldn't get too nostalgic for the good old days. Correlli Barnett and others have argued that the effect of the old public-school-and-Oxbridge education was to instil a deadening Civil-Service mentality - the familiar 'on the one hand ...on the other hand' habit (or, as my A-level history teacher told me, 'Always use the word "whereas" at least once in each paragraph') - which left the nation's finest minds incapable of making firm decisions.

Today's students are terrified of taking a point of view, in case it turns out to be wrong. Confronted with a direct question - 'Was the Protestant Reformation a success?' - they will twist and turn to avoid giving a direct answer. 'In conclusion' - this, by the way, is a genuine quotation from a first-year essay, not my own invention - 'it is clear that while some have regarded the Reformation as a success, others have regarded it as a failure, and we may therefore say with confidence that it is a very complex matter.'

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Postado por Eduardo Carvalho
12/12/2002 às 17h41

 
Gerundismo

legenda

Obra da Dani, do Mundo Perfeito

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Postado por Julio Daio Borges
12/12/2002 às 16h06

 
Valsinha

Rio, 2 de fevereiro.

Caro Poeta,

Recebi as suas duas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto alto do "show", junto com o "Apesar de Você". Então dá um certo medo de mudar demais. Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e a Gessy, e se não gostar foda-se, ou fodo-me eu.

- Valsa hippie é um título forte. É bonito, mas pode parecer forçação de barra, com tudo o que há de hippie à venda por aí. Valsa Hippie, ligado à filosofia hippie como você a ligou, é um título perfeito. Mas hippie, para o grande público, já deixou de ser a filosofia para ser a moda pra frente de usar roupa e cabelo. Aí já não tem nada a ver. Pela mesma razão eu prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. A sua solução é mais bonita e completa, mas eu acho que ela diminui o efeito do que segue. Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippie. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda. Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou "xingou" mesmo) a vida tanto e convidou-a para rodar. Convidou-a pra rodar eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar que é dar um passeio e é dançar. Depois eu acho que, se ele já for convidando a coitada para amar, perde-se o suspense do vestido no armário e o tesão da trepada final. "Pra seu grande espanto", você tem razão, é melhor que "para seu espanto". Só que eu esqueci que ia por ítens. Vamos lá:

- Apesar do Orestes (vestido dourado é lindo), eu gosto muito do som do vestido decotado. É gostoso de cantar vestidodecotado. E para ficar dourado o vestido fica com o acento tendendo para a primeira sílaba. Não chega a ser um acento, mas é quase. Esse verso é, alias, o que mais agrada, em geral. E eu também gosto do decotado ligado ao "ousar" que ela não queria por causa do marido chato e quadrado. Escuta, ô poeta, não leve a mal a minha impertinência, mas você precisava estar aqui para sentir como a turma gosta, e o jeito dela gostar desta valsa, assim à primeira vista. É por isso que estou puxando a sardinha mais para o lado da minha letra, que é mais simplória, do que pelas modificações que enriquecendo os versos, talvez dificultem um pouco a compreensão imediata. E essa valsinha tem um apelo popular que nós não suspeitávamos.

- Ainda baseado no argumento acima, prefiro abraçar ao bailar. Em suma, eu não mexeria na segunda estrofe.

- A terceira é a que mais me preocupa. Você está certo quanto ao "o mundo" em vez de "a gente". Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do último verso onde você diz "e cheios de ternura e graça" em vez de "e foram-se cheios de graça". Agora estou pensando em retomar uma idéia anterior, quando eu pensava em colocá-los em estado de graça. Aproveitando a sua ternura, poderíamos fazer "Em estado de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar". Só tem o probleminha da junção "em-estado", o em-e numa sílaba só. Que é o mesmo problema do começaram-a. Mas você mesmo disse que o probleminha desaparece, dependendo da maneira de se cantar. E eu tenho cantado "começaram a se abraçar" sem maiores danos.

Enfim, veja aí o que você acha de tudo isso, desculpe a encheção de saco e responda urgente. Há um outro problema: o pessoal do MPB-4 está querendo gravar essa valsa na marra. Eu disse que depende de sua autorização e eles estão aqui esperando. Eu também gostaria de gravar, se o senhor me permitisse, porque deu bolo com o "Apesar de Você", tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um sarro. É claro que não vendeu tanto quanto a Tonga, mas a Banda vendeu mais que o disco do Toquinho tocando Primavera. Dê um abraço na Gesse, um beijo no Toquinho e peça à Silvina para mandar notícias sobre shows etc. Vou escrever a letra como me parece melhor. Veja aí e, se for o caso, enfie-a no ralo da banheira ou noutro buraco que você tiver à mão.

Valsinha

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado, cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz

Carta de Chico Buarque a Vinicius de Moraes, em "Achados"

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Postado por Julio Daio Borges
12/12/2002 às 12h04

 
Assim falou os mano

Direto do Dicionário dos Mano (e de outras tribos também...):

* tretar: brigar
* ir pra balada: ir a uma festa
* chapar o coco: beber
* capotar: cair
* furar: fazer amor
* se ligar: entender
* dar uns pega: fumar
* dar um rolê: passear
* rangar: comer
* cair pra dentro: entrar
* deschavar: destruir, matar
* trocar idéia: falar
* vazar: ir embora
* apagar: dormir
* (es)tar afim: estar apaixonado
* dar uns cato: namorar
* dar um migué: mentir
* curtir um som: ouvir música
* cair a casa ou ficar na água: dar-se mal em alguma coisa
* irado ou bem lôco: interessante
* uns truta ou uns camarada: uns amigos
* na área ou nas quebrada: no bairro
* cair pro litoral: ir ao Guarujá
* parada firmeza: alguma coisa legal

Por e-mail, através do meu cunhado, Felipe Albuquerque

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Postado por Julio Daio Borges
11/12/2002 às 16h11

 
Mise en abime

Miguel de Cervantes levou dez anos para escrever a segunda parte de Don Quixote de La Mancha. Nestes dez anos, a primeira parte ficou famosa. De sorte que, quando o cavaleiro e seu fiel Sancho Panza retomam suas aventuras pelo mundo, é o mesmo mundo do primeiro volume mas com uma diferença importante: neste mundo existe um livro publicado e muito comentado sobre as aventuras de um certo fidalgo chamado Don Quixote de la Mancha e seu escudeiro, do qual o próprio Don Quixote, tornado famoso pelo livro, ouve falar, embora não chegue a ler. As alucinações do Don no primeiro volume tomam forma e o assolam de verdade no segundo, em grande parte porque, depois da publicação do primeiro volume, suas humilhações são esperadas, e provocadas, pelo público. E assim, como observou o escritor Martin Amis num comentário sobre a obra, o aristocrata enlouquecido pela literatura que se transforma no seu próprio personagem andante num mundo irreal, do primeiro volume, enfrenta uma realidade enlouquecida pela literatura, no segundo.

Como o próprio Cervantes, que quando escreveu o segundo volume já não era o mesmo escritor, era o mesmo escritor tocado pelo sucesso da primeira parte, portanto com outra relação com seu personagem - e com a realidade.

Acho que o Borges tem um conto sobre a impossibilidade de desenhar um mapa cem por cento fiel do mundo e dos seus habitantes, pois o último homem desenhado teria que fatalmente ser o desenhista fazendo o desenhista fazendo o desenhista fazendo o desenhista fazendo o desenhista...

Ainda o Pai das Cobras, no Estadão

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Postado por Julio Daio Borges
11/12/2002 às 10h05

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