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COLUNAS

Quinta-feira, 5/2/2004
Os narradores de Eliane Caffé
Lucas Rodrigues Pires
+ de 16400 Acessos

Certamente o leitor já ouviu as célebres frases “Quem conta um conto aumenta um ponto”, “Existem três verdades: a minha, a sua e a que de fato é”, “O povo aumenta, mas não inventa”. Enfim, são verdades populares que estão na boca do povo e que é o elemento-chave do segundo filme da paulista Eliane Caffé, Narradores de Javé.

Noite num bar à beira do S. Francisco. Moradores da região e um rapaz que perdera a balsa se encontram sentados esperando o tempo passar. Eis que um deles, Zaqueu (Nelson Xavier), começa a contar uma história em que ele próprio foi protagonista, uma história que vale a pena ser contada. Ele inicia seu relato da história de Javé, um povoado então ameaçado de ser inundado pelas águas de uma represa recém-construída. Quando seu povo descobre que iriam afundar Javé, decide fazer algo para impedir. E qual a solução encontrada? Escrever a grande história de Javé para que, com isso, a cidade seja considerada patrimônio histórico e receba o rótulo de tombamento, o que evitaria a submersão de suas terras.

E como fazer para solucionar a solução (sic) se todos no povoado eram analfabetos? A resposta está em Antônio Biá (José Dumont, a alma maior do filme), um ex-funcionário dos Correios expulso da cidade após fazer futricas e caluniar moradores em cartas enviadas a conhecidos para salvar seu emprego. Pois bem, eis o impasse para o início da grande história de Javé – para sua “escritura”, o elemento marginalizado recebe status de herói e salvador da pátria javélica. Agora só falta a ele ouvir os moradores e escrever a história de Javé baseada nesses relatos orais. Mas aí que ele vai ver que toda história tem diversas versões...

História

O mais interessante em discussão nesse filme é a oposição que ele traz entre história, memória e verdade – todas ligadas à cultura oral. Esses três conceitos norteiam os discursos dos personagens, as falas bem humoradas e sarcásticas de Biá – uma espécie de malandro irônico e anárquico descrente de pudores – e, principalmente, os relatos em tom de fábula dos moradores, que não conseguem se entender entre suas versões. Enquanto vamos ouvindo e nos divertindo com os casos contados – a verdadeira fundação de Javé, o papel e a forma da morte de Indalécio, seu fundador, e da participação de Mariadina; a eterna briga entre os irmãos, conhecidos um como “Gêmeo” e o outro como “O Outro”, para saber quem é o pai de cada um e a legitimidade da herança – um discurso vai se formando por trás do humor: afinal de contas, o que é História e o que é invenção? Num primeiro momento, parece que o filme prova a tese de que a história oral é deficitária para revelar com destreza os fatos históricos. Como ela é baseada na memória – e esta, como todos sabem, é falível –, decorre que a história dela apreendida também pode ser falível, portanto, passível de discussão. Mas, ao mesmo tempo, e aqui reside toda a riqueza dessa pequena obra-prima, Biá vai montando em suas reflexões (um tanto desconexas de início) o desmonte do discurso histórico escrito. Se, para as autoridades (e a sociedade em geral), um documento escrito vale mais que um relato oral, Biá trata de derrubar qualquer forma de superioridade quando sugere a um morador “florear” tal passagem da história do fundador Indalécio, “criando” maior grandiosidade ao fato histórico. Biá, em sua sabedoria malandra e debochada, é o único que sabe escrever, o que o torna o único dono da versão final – verdadeira ou não, pouco importa. Biá faz história desconstruindo o discurso histórico.

Assim, a História como ciência vai sendo “desforjada” com tamanha facilidade e destreza. Nas palavras de Biá estão a ciência e a invenção (em todo momento ele fala em nome de um saber científico), e em seu texto histórico, como propõe ao morador, certamente elas irão se confundir. No final, saber o que é verdade ou não perde a razão de ser, e o produto – dito histórico – recebe status de verdade. A pergunta que fica disso é, na verdade, um questionamento sobre o quanto há de verdade em livros de História que nos reproduzem lutas, guerras e vidas com diversos detalhes impossíveis de serem verificados em razão da distância temporal. Será que a carta de Caminha não pode ter sido “floreada” como Biá pregava na fundação de Javé para que a tal terra descoberta parecesse mais interessante do que realmente era? Será que Caminha não tomou nenhuma licença poética em seu texto? Não seria Caminha o primeiro Biá em nosso território? (Um dos moradores diz em determinado momento: “Uma coisa é o fato acontecido, outra é o fato escrito”.) Hoje não temos como provar as descrições de Caminha em sua famosa carta. Temos um documento histórico de valor que nos afirma tais considerações e só nos resta crer.

Não se quer aqui desacreditar o ofício do historiador (até porque estão lendo um texto de um deles), mas indicar como o fazer história é uma tarefa impossível de ser realizada plenamente. Alguém que escreve num determinado tempo sofre as influências de seu próprio tempo – o que inclui toda a gama de leituras, ideologia, crenças, valores e até humor – e é compreensível que haja erro, omissão ou equívoco. A História, portanto, não deixa de ser uma ciência, só que inexata porque simplesmente impossível de totais certezas. E é assim porque ela lida com mentes, idéias, com o que é imprevisível no ser humano – o próprio fato de ser humano. A natureza tem um ritmo previsível e racional, mas o homem, esse ser pensante e cheio de vaidades, é capaz de todas as coisas e, por isso, ser a História uma matéria instigadora e enigmática. Se as aparências enganam, a História também pode nos enganar porque é fruto do humano, dos nossos desejos, sonhos, anseios.

Memória

Voltando a Narradores de Javé, nota-se que na verdade o filme não se leva a sério nessa discussão porque ele próprio se coloca num tom fantástico, que é fruto do próprio relato de um dos moradores de Javé (não se esqueçam que a história de Javé está sendo contada depois que tudo aconteceu)!! Isso quer dizer que o filme que vemos na tela é o relato de um ex-morador de Javé dos relatos que outros moradores fizeram a Biá!! O filtro pela qual a história passa é muito maior e as chances de algo se perder e algo se acrescentar é muito grande. Tal qual a brincadeira do telefone sem fio, que chega ao final uma história muito diferente da original.

E essa idéia da “história da história”, essa idéia metalingüística, está muito bem clara na montagem do filme com a presença de três tempos distintos – o presente, tempo de narração do filme; o passado – tempo de narração dos relatos de moradores a Biá e da história do afundamento de Javé; e o tempo mitificado, que é o tempo da fábula, da imaginação e da memória dos moradores. Os três casos aparecem em imagens, e a diretora evitou a clássica idéia de diferenciar uma da outra pela fotografia. Em Narradores de Javé, a fotografia é a mesma porque, mesmo sendo tempos distintos, são todos frutos da oralidade, dos relatos de pessoas. Apenas o tempo presente – o do filme em si – se diferencia pela ausência de vida, de cores. Ele é todo filmado durante a noite, sem abertura para que vejamos alguma paisagem que não os personagens. Isso nos prende àqueles homens, às suas histórias. Valoriza o tempo do mito, da fábula, da imaginação dos narradores.

Verdade

Javé é um filme mais inteligente do que parece, mais profundo do que se pode crer num primeiro momento. Ele tem vida, tem carisma, tem um frescor que poucos filmes ambientados no sertão têm. E diante da extinção de Javé, só se pode lamentar, mas também comemorar, pois se o livro da grande história de Javé não foi escrito (ainda), há um filme fabuloso pra provar seu valor.



Lucas Rodrigues Pires
São Paulo, 5/2/2004

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