Desonra, por J.M. Coetzee | Fabio Silvestre Cardoso | Digestivo Cultural

busca | avançada
34284 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Show com grupo Tambora faz um mergulho na obra de compositoras de diversos países da América Latina
>>> Pianista revelação, Juliana D'agostini mostra seu talento no Natal Musical do VillaLobos
>>> Ana Marson lança livro de crônicas em São Paulo
>>> Música, dança e boa conversa na "Semana Preta" do Centro de Referência da Dança
>>> Vila Cultural Cora Coralina recebe exposição 'Tempos Líquidos'
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A poesia afiada de Thais Guimarães
>>> Manchester à beira-mar, um filme para se guardar
>>> Noel Rosa
>>> Sabemos pensar o diferente?
>>> Notas de leitura sobre Inácio, de Lúcio Cardoso
>>> O jornalismo cultural na era das mídias sociais
>>> Crítica/Cinema: entrevista com José Geraldo Couto
>>> O Wunderteam
>>> Fake news, passado e futuro
>>> Luz sob ossos e sucata: a poesia de Tarso de Melo
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
>>> Mehmari e os 75 anos de Gil
>>> Cornell e o Alice Mudgarden
>>> Leve um Livro e Sarau Leve
>>> Pulga na praça
>>> No Metrópolis, da TV Cultura
>>> Fórum de revisores de textos
>>> Temporada 3 Leve um Livro
>>> Suplemento Literário 50 anos
Últimos Posts
>>> Rios inversos
>>> Você pertence a um não lugar
>>> Olho d'água
>>> A música da corrida
>>> Retalhos da vida
>>> Limbo
>>> Transmutações invisíveis
>>> Quem te leu, quem te lê
>>> Bom dia e paz
>>> O que sei do tempo II
Blogueiros
Mais Recentes
>>> A alma boa de Setsuan e a bondade
>>> Steve Jobs sobre o mundo
>>> O Presidente Negro, de Monteiro Lobato
>>> Sobre o gênio que é Harold Pinter
>>> Gente que corre
>>> Caso Richthofen: uma história de amor
>>> Sem lero-lero
>>> A droga da felicidade
>>> Hilda Hilst, o IPTU e a Chave da Cidade
>>> Símbolos e Identidade Nacional
Mais Recentes
>>> Pensamento Complexo: suas aplicações à liderança, à aprendizagem e ao desenvolvimento sustentável
>>> Dictionnaire D'Analyse du Discours (1ª ed.)
>>> Defenda seus direitos
>>> O momento da sua virada
>>> Uma Viagem Aos Reinos
>>> Trilha para os Jovens
>>> Titan - O mundo de aventuras fantásticas
>>> Sonhos Lúcidos
>>> Raiva. Seu Bem, Seu Mal
>>> O Shadowdale Vale Das Sombras
>>> O perdedor
>>> O livro secreto da maçonaria
>>> O livro da quituteira
>>> O caso Schreber
>>> O Caminho do mago
>>> Lobisomem O - Apocalipse - Rpg
>>> Livro do Mestre - Advanced Dungeons e Dragons
>>> Gurps. Modulo Básico
>>> Francisco de Assis e Francisco de Roma: Uma Nova Primavera na Igreja
>>> Forgotten Realms 3 Guia De Campanha Para Undermontain
>>> Cinema: O Divã e a Tela
>>> Até os Felizes Sofrem
>>> Assessoria de Imprensa
>>> As Virtudes da Casa
>>> Além do bem e do mal
>>> Aleister Crowley - A Biografia de um Mago
>>> A realização espontânea do desejo
>>> Belo Desastre
>>> Nao deixe para depois o que voce pode fazer agora
>>> Ecos Dos Mortos
>>> O pai sessenta minutos
>>> A Noite dos Quatro Furacões
>>> Caixa de Pássaros
>>> Qualidade em Serviços
>>> O Quarto Poder - Uma Outra História - 1ª Edição
>>> Sem Vestígios - Revelações de um Agente Secreto da Ditadura
>>> O Arroz de Palma - Edição Comemorativa
>>> Cisnes Selvagens - Três Filhas da China
>>> Sobre o Céu e a Terra - As Ideias do Papa Francisco
>>> Sobre Heróis e Tumbas - 2002
>>> O Homem de Beijing - 1ª Edição
>>> Compêndio de Análise Institucional e Outras Correntes - Teoria e Prática
>>> As Cartas Ácidas da Campanha de Lula de 1998 - 1ª Edição
>>> A Igreja Universal e Seus Demônios - Um Estudo Etnográfico
>>> Eugene H peterson ( o caminho de Jesus e os atalhos da igreja)
>>> Cadernos do nosso tempo Cinema Brasileiro
>>> Ciência Contemplativa
>>> O Absurdo e a Graça
>>> Farra no Formigueiro
>>> Picasso - Coleção Crianças Famosas
COLUNAS >>> Especial Melhores de 2004

Terça-feira, 21/12/2004
Desonra, por J.M. Coetzee
Fabio Silvestre Cardoso

+ de 19400 Acessos
+ 3 Comentário(s)

Em 2004, poucos foram os livros que li e não escrevi uma linha a respeito. De um lado, como estudante de um curso de pós-graduação, tinha a tarefa de fazer "fichamentos" das obras escolhidas para realização de uma monografia; de outro, como jornalista, para este Digestivo, lia (Literatura, Crítica Literária, História) os livros e produzia as resenhas. Por isso mesmo, é curioso que a obra que tenha chamado mais minha atenção entre todas tenha sido um livro para o qual não produzi qualquer resenha - apenas comentário e indicações para outros amigos. Desonra (Companhia das Letras, 2003), do escritor sul-africano John Maxwell Coetzee, foi uma surpresa tanto pela forma, um estilo seco e conciso, como pelo conteúdo, um enredo interessante com contornos fortes e com temática bem atual.

De início, a história narra a desastrosa trajetória de David Lurie, um professor universitário que leciona poesia numa Universidade da África do Sul. Logo nas primeiras páginas do romance, o leitor conhece a maneira burocrática com que Lurie "administra" sua vida. Desde o relacionamento freqüente com uma prostituta até a sua conduta como professor, tudo é tratado com um discurso para lá do método. Trocadilhos à parte, o professor Lurie mantém-se sempre à distância; o máximo de envolvimento que ele se permite é a ironia que beira o sarcasmo: "Nunca foi um grande professor (...) Ele continua ensinando porque é assim que ganha a vida; e também porque aprende a ser humilde. A ironia não lhe escapa: aquele que vai aprender acaba aprendendo a melhor lição, enquanto os que vão aprender não aprendem nada".

Este cenário começa a desmoronar na vida do professor quando, um dia, a prostituta com quem ele se relaciona se recusa a vê-lo depois que se encontram casualmente num supermercado. Para um homem metódico como Lurie, aquela quebra de rotina abalaria as demais estruturas "em cadeia". É a partir daí que ele se envolve com uma aluna e, em tempos politicamente corretos como os nossos, vê não somente seu cargo ameaçado, mas sua reputação, diante da família e de amigos, em verdadeira condição de desonra. Sim, esse é um estado por demais vexatório para ele, um professor universitário, um intelectual; contudo, Lurie não parece tão incomodado por esse acontecimento. É verdade que todo o envolvimento com a aluna lhe traz algum constrangimento; no entanto, isso fica em segundo plano, principalmente porque Lurie procura minimizar o ocorrido e seus desdobramentos com uma franqueza que assusta: "Se vou sentir falta [da Universidade]? Não sei. Não era grande coisa como professor. Estava cada vez me relacionando menos, acho, com os alunos. O que eu tinha para dizer eles não estavam interessados em escutar. Então talvez eu não sinta falta. Talvez eu venha a gostar da exoneração".

O professor então deixa a Cidade do Cabo e segue para o interior do país, a fim de passar uns tempos com sua filha, Lucy, que cuida de uma fazenda por lá. Nesse local, Lurie decide escrever uma espécie de peça com letra e música, algo diferente do que ele fizera até o momento. Nesse trecho do livro, é interessante observar o tratamento dispensado pela filha ao pai. E o primeiro detalhe que denuncia isso é o fato de Lucy nunca chamar Lurie por pai. Antes, a filha prefere o primeiro nome do professor, David. Afora isso, não há muito mais o que dizer quando lemos a seguinte sentença de uma filha para o pai, quando perguntada por este sobre sua presença: "Fique o tempo que quiser. Pela razão que for".

Até aqui, em que pese a exoneração da Universidade, a vida de David Lurie seguia de maneira normal. Seus hábitos foram adequados à condição em que ele vivia, mas, de todo modo, ele sobreviveu a todas essas mudanças. Outro acontecimento, contudo, transformaria de uma vez por todas a vida do professor. Isso se dá quando ele e sua filha são atacados por três homens. Coetzee constrói aqui uma breve, porém, contundente peça descritiva; não há excessos no que está escrito, mas sobram detalhes no que o autor sugere, na brutalidade e no barbarismo que preenche o contexto daquelas cenas: ao mesmo tempo em que é um ataque bárbaro, Lurie e sua filha são vítimas de um processo de sobrevivência que permeia a África pós-apartheid. O que mais atormenta o professor Lurie nesse momento de terror é saber que, por mais que ele queira, não há nada que possa fazer; ou, pior: não há nada a ser feito. "Ele fala italiano, fala francês, mas italiano e francês de nada valem na África negra. Está desamparado, um alvo fácil (...)". Quando os bárbaros vão embora, Lurie finalmente descobre o que, tragicamente, aconteceu com sua filha. Novamente, a prosa de Coetzee marca presença principalmente pela falta. Em outras palavras, o autor evidencia a brutalidade dos fatos omitindo o nome da atrocidade. As personagens, como conseqüência, também entram nesse jogo de máscaras, a começar pela vítima principal: "David, quando as pessoas perguntarem, você se importaria de contar só a sua parte, só o que aconteceu com você?" Confuso a princípio, o pai, revoltado, logo entende o que a filha quer dizer. Esta, sim, é a sua desonra.

Desonra que, ao contrário do que ele imaginava, não se apaga com o tempo. É uma marca que ele terá de carregar para sempre, uma punição severa para quem até então não se abalava por nada, nem quando via sua reputação jogada na lama em função de um escândalo sexual. A partir do ocorrido com sua filha, o professor tenta, sem sucesso, prosseguir com sua vida, mas todas as vezes o fantasma do ataque o assusta; e a desonra o persegue como se fosse uma sina. Para ele, a situação fica mais insustentável quando ele descobre os autores do ataque e, infelizmente, não pode fazer nada. Aqui, o professor aprende, não sem ironia, mais uma dura lição: sua filha prefere se resignar a ter de enfrentar a publicidade de sua tragédia.

Em Desonra, John M. Coetzee traça, com o "subterfúgio" da ficção, um fiel retrato da condição humana. São questões pertinentes ao cotidiano e ao clima de um local muito específico (a África do Sul atual). No entanto, o autor impõe a esse contexto um ponto de vista mais abrangente, que envolve o leitor na história do começo ao fim. Não se trata de um thriller de ação, mas, mesmo assim, há uma força nas palavras, que remete a uma elaboração perspicaz de cada descrição e de cada diálogo. Nesse sentido, forma e conteúdo se completam, a fim de que um não fique abaixo do outro em termos de qualidade técnica. A propósito, não há de ser à toa que Coetzee escolhe, de forma recorrente, professores de literatura como personagens principais (além de David Lurie, há a já famosa Elizabeth Costello, presente em A vida dos Animais e em Elizabeth Costello). É a partir da literatura que ele expõe as sutilezas do real.

Para ir além






Fabio Silvestre Cardoso
São Paulo, 21/12/2004


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Um caso de manipulação de Celso A. Uequed Pitol
02. O que te move? de Fabio Gomes
03. Amy Winehouse: uma pintura de Jardel Dias Cavalcanti
04. Revolusséries de Luís Fernando Amâncio
05. Quem é mesmo massa de manobra? de Cassionei Niches Petry


Mais Fabio Silvestre Cardoso
Mais Acessadas de Fabio Silvestre Cardoso em 2004
01. Desonra, por J.M. Coetzee - 21/12/2004
02. Teoria da Conspiração - 10/2/2004
03. Cem anos de música do cinema - 8/6/2004
04. Música instrumental brasileira - 12/10/2004
05. Eleições Americanas – fatos e versões - 9/11/2004


Mais Especial Melhores de 2004
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
21/12/2004
05h21min
Curioso: não é um livro que eu vá colocar na minha lista dos "para ler" - mas a resenha é boa; pela qualidade da mesma, pode ser um estímulo à leitura para outros leitores...
[Leia outros Comentários de Carla]
2/8/2006
13h37min
Desonra, um dos melhores livros que já li.
[Leia outros Comentários de Edgard]
5/11/2007
00h52min
o livro me surpreendeu, a resenha do fabio, idem, pois me mostrou aspectos do livro que nao tinha analisado. bons textos esse livro me trouxe.
[Leia outros Comentários de Ana Flavia]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




A PEDAGOGIA DO ESPECTADOR
FLÁVIO DESGRANGES
HUCITEC
(2003)
R$ 32,00



O AMANTE DE LADY CHATTERLEY
D H LAWRENCE
PUBLIFOLHA
(2010)
R$ 12,90



CAIM
JOSÉ SARAMAGO
COMPANIA DAS LETRAS
R$ 12,00



ANALISE DE CIRCUITOS--670 PROBLEMAS RESOLVIDOS.
JOHN O. MALLEY
MCGRAW-HILL
(1983)
R$ 60,00
+ frete grátis



TORNE-SE UMA CRISE PARA A CRISE
FERNANDO MOREIRA
REINO
(2012)
R$ 29,90



EVA MARIA LAKATOS - SOCIOLOGIA GERAL (6º EDIÇÃO)
EVA MARIA LAKATOS
ATLAS
(1995)
R$ 10,00



NOS QUE AMÁVAMOS TANTO A REVOLUÇÃO: DIÁLOGO GABEIRA - COHN BENDIT
FERNANDO GABEIRA
ROCCO
(1985)
R$ 3,00



O ANÚNCIO DE CRISTO NOS EVANGELHOS SINÓTICOS
W. TRILLING
PAULINAS
(1981)
R$ 65,20
+ frete grátis



ISTO ÉS TU - REDIMENSIONANDO A METÁFORA RELIGIOSA
JOSEPH CAMPBELL
LANDY
(2002)
R$ 39,90
+ frete grátis



III A LUZ DO TÚNEL
JORGE AMADO
LIVRARIA MARTINS S.A
R$ 15,00





busca | avançada
34284 visitas/dia
1,1 milhão/mês