Desonra, por J.M. Coetzee | Fabio Silvestre Cardoso | Digestivo Cultural

busca | avançada
32166 visitas/dia
773 mil/mês
Mais Recentes
>>> Recordar é TV resgata conteúdo histórico sobre futebol em série temática
>>> Trilha de Letras estreia segunda temporada nesta terça (19) na TV Brasil
>>> Sessão da peça infantil
>>> Consulado Geral da Hungria promove na capital paulista:
>>> Monja Cohen, Rabino Schlesinger e Gilberto Dimenstein vão debater sobre a mentira como um obstáculo
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Um Furto
>>> Mais outro cais
>>> A falta que Tom Wolfe fará
>>> O massacre da primavera
>>> Reflexões sobre a Liga Hanseática e a integração
>>> A Fera na Selva, filme de Paulo Betti
>>> Raio-X do imperialismo
>>> Cães, a fúria da pintura de Egas Francisco
>>> O Vendedor de Passados
>>> A confissão de Lúcio: as noites cariocas de Rangel
Colunistas
Últimos Posts
>>> Eleições 2018 - Afif na JP
>>> Lançamentos em BH
>>> Lançamento paulistano do Álbum
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 2
>>> Ana Elisa Ribeiro lança Álbum
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
>>> Conceição Evaristo em BH
>>> Regina Dalcastagné em BH
>>> Leitores e cibercultura
>>> Sarau Libertário em BH
Últimos Posts
>>> O alívio das vias aéreas
>>> PRESSÁGIOS. E CHAVES II
>>> Honra ao mérito
>>> Em edição 'familiar', João Rock chega à 17ª edição
>>> PATÉTICA
>>> Presságios. E chaves III
>>> Minha história com Philip Roth
>>> Lars Von Trier não foi feito para Cannes
>>> O brasileiro e a controvérsia
>>> Greve de caminhoneiros e estupidez econômica
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ivan Angelo e a experiência da reescrita
>>> Ivan Angelo e a experiência da reescrita
>>> Sexo e luxúria na antiguidade
>>> Sexo e luxúria na antiguidade
>>> Sexo e luxúria na antiguidade
>>> Conversas com Paul Rand, por Michael Kroeger
>>> A vitrola de Jaime Prado Gouvêa
>>> Público, massa e multidão
>>> Sobre o Ronaldo gordo
>>> Jackie O., editora
Mais Recentes
>>> Ana Elisa Egreja
>>> Suporte Nutricional Parental e Enteral
>>> Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século
>>> Ilíada: a guerra de Tróia
>>> Um Certo Capitão Rodrigo
>>> Sobrevivi para Contar
>>> O Vôo Do Hipopótamo - Coleção Descobrindo Clássicos
>>> Rio Antigo - confissões de um assassino na Belle Epoque
>>> Os Deuses do Olimpo
>>> Boni & Amaral: Guia dos Guias - Restaurantes 2014
>>> Amor de Capitu
>>> Muito Longe De Casa
>>> Da elite ao povo: Advento e ...
>>> Um Grito de Amor do Centro do Mundo
>>> Elementos de teoria geral do Estado
>>> Stupid White Men : Uma nação de idiotas
>>> Métodos de Laboratório
>>> Dom Quixote de La Mancha
>>> Essa Cara Não Me É Estranha e Outros Poemas
>>> Hiperatividade Eficaz - Uma Escolha Consciente
>>> Things Are What You Make of Them: Life Advice for Creatives
>>> O Caminho Sombrio das Drogas e a Libertação do Espírito
>>> Manuelzão e Miguilim
>>> Agora ou na Terra do Nunca
>>> Pérola No Parque
>>> Prazer de Viver
>>> Andante com Morte
>>> As outras faces do sagrado: protestantismo e cultura ...
>>> Abra Sua Mente, Abra Sua Vida
>>> Capitão Kidd
>>> Filho do Homem, põe-te em pé
>>> Herança de Sangue - Guerra das Rosas 3
>>> O Redemoinho da Imprensa
>>> Negociaçâo - Fortalecendo O Processo
>>> Negociação - Fortalecendo O Processo
>>> Você é um vencedor, acredite!
>>> Vestido de Noiva
>>> Viver A Vida
>>> Faça Sua Luz Brilhar
>>> Bartolomeu: A vida gloriosa e os feitos memoráveis...
>>> Paula
>>> El Cementerio de Praga
>>> Meu filho nasceu no além
>>> Minha Família, o Mundo e Eu
>>> O avatãra dourado
>>> Tudo que eu queria te dizer
>>> Uma Prova do Céu: A jornada de um neurocirurgião à vida após a ..
>>> Morreram E Voltaram Para Contar
>>> Obsessão - Assédio por Espíritos
>>> Harry Potter e o cálice de fogo
COLUNAS >>> Especial Melhores de 2004

Terça-feira, 21/12/2004
Desonra, por J.M. Coetzee
Fabio Silvestre Cardoso

+ de 20400 Acessos
+ 3 Comentário(s)

Em 2004, poucos foram os livros que li e não escrevi uma linha a respeito. De um lado, como estudante de um curso de pós-graduação, tinha a tarefa de fazer "fichamentos" das obras escolhidas para realização de uma monografia; de outro, como jornalista, para este Digestivo, lia (Literatura, Crítica Literária, História) os livros e produzia as resenhas. Por isso mesmo, é curioso que a obra que tenha chamado mais minha atenção entre todas tenha sido um livro para o qual não produzi qualquer resenha - apenas comentário e indicações para outros amigos. Desonra (Companhia das Letras, 2003), do escritor sul-africano John Maxwell Coetzee, foi uma surpresa tanto pela forma, um estilo seco e conciso, como pelo conteúdo, um enredo interessante com contornos fortes e com temática bem atual.

De início, a história narra a desastrosa trajetória de David Lurie, um professor universitário que leciona poesia numa Universidade da África do Sul. Logo nas primeiras páginas do romance, o leitor conhece a maneira burocrática com que Lurie "administra" sua vida. Desde o relacionamento freqüente com uma prostituta até a sua conduta como professor, tudo é tratado com um discurso para lá do método. Trocadilhos à parte, o professor Lurie mantém-se sempre à distância; o máximo de envolvimento que ele se permite é a ironia que beira o sarcasmo: "Nunca foi um grande professor (...) Ele continua ensinando porque é assim que ganha a vida; e também porque aprende a ser humilde. A ironia não lhe escapa: aquele que vai aprender acaba aprendendo a melhor lição, enquanto os que vão aprender não aprendem nada".

Este cenário começa a desmoronar na vida do professor quando, um dia, a prostituta com quem ele se relaciona se recusa a vê-lo depois que se encontram casualmente num supermercado. Para um homem metódico como Lurie, aquela quebra de rotina abalaria as demais estruturas "em cadeia". É a partir daí que ele se envolve com uma aluna e, em tempos politicamente corretos como os nossos, vê não somente seu cargo ameaçado, mas sua reputação, diante da família e de amigos, em verdadeira condição de desonra. Sim, esse é um estado por demais vexatório para ele, um professor universitário, um intelectual; contudo, Lurie não parece tão incomodado por esse acontecimento. É verdade que todo o envolvimento com a aluna lhe traz algum constrangimento; no entanto, isso fica em segundo plano, principalmente porque Lurie procura minimizar o ocorrido e seus desdobramentos com uma franqueza que assusta: "Se vou sentir falta [da Universidade]? Não sei. Não era grande coisa como professor. Estava cada vez me relacionando menos, acho, com os alunos. O que eu tinha para dizer eles não estavam interessados em escutar. Então talvez eu não sinta falta. Talvez eu venha a gostar da exoneração".

O professor então deixa a Cidade do Cabo e segue para o interior do país, a fim de passar uns tempos com sua filha, Lucy, que cuida de uma fazenda por lá. Nesse local, Lurie decide escrever uma espécie de peça com letra e música, algo diferente do que ele fizera até o momento. Nesse trecho do livro, é interessante observar o tratamento dispensado pela filha ao pai. E o primeiro detalhe que denuncia isso é o fato de Lucy nunca chamar Lurie por pai. Antes, a filha prefere o primeiro nome do professor, David. Afora isso, não há muito mais o que dizer quando lemos a seguinte sentença de uma filha para o pai, quando perguntada por este sobre sua presença: "Fique o tempo que quiser. Pela razão que for".

Até aqui, em que pese a exoneração da Universidade, a vida de David Lurie seguia de maneira normal. Seus hábitos foram adequados à condição em que ele vivia, mas, de todo modo, ele sobreviveu a todas essas mudanças. Outro acontecimento, contudo, transformaria de uma vez por todas a vida do professor. Isso se dá quando ele e sua filha são atacados por três homens. Coetzee constrói aqui uma breve, porém, contundente peça descritiva; não há excessos no que está escrito, mas sobram detalhes no que o autor sugere, na brutalidade e no barbarismo que preenche o contexto daquelas cenas: ao mesmo tempo em que é um ataque bárbaro, Lurie e sua filha são vítimas de um processo de sobrevivência que permeia a África pós-apartheid. O que mais atormenta o professor Lurie nesse momento de terror é saber que, por mais que ele queira, não há nada que possa fazer; ou, pior: não há nada a ser feito. "Ele fala italiano, fala francês, mas italiano e francês de nada valem na África negra. Está desamparado, um alvo fácil (...)". Quando os bárbaros vão embora, Lurie finalmente descobre o que, tragicamente, aconteceu com sua filha. Novamente, a prosa de Coetzee marca presença principalmente pela falta. Em outras palavras, o autor evidencia a brutalidade dos fatos omitindo o nome da atrocidade. As personagens, como conseqüência, também entram nesse jogo de máscaras, a começar pela vítima principal: "David, quando as pessoas perguntarem, você se importaria de contar só a sua parte, só o que aconteceu com você?" Confuso a princípio, o pai, revoltado, logo entende o que a filha quer dizer. Esta, sim, é a sua desonra.

Desonra que, ao contrário do que ele imaginava, não se apaga com o tempo. É uma marca que ele terá de carregar para sempre, uma punição severa para quem até então não se abalava por nada, nem quando via sua reputação jogada na lama em função de um escândalo sexual. A partir do ocorrido com sua filha, o professor tenta, sem sucesso, prosseguir com sua vida, mas todas as vezes o fantasma do ataque o assusta; e a desonra o persegue como se fosse uma sina. Para ele, a situação fica mais insustentável quando ele descobre os autores do ataque e, infelizmente, não pode fazer nada. Aqui, o professor aprende, não sem ironia, mais uma dura lição: sua filha prefere se resignar a ter de enfrentar a publicidade de sua tragédia.

Em Desonra, John M. Coetzee traça, com o "subterfúgio" da ficção, um fiel retrato da condição humana. São questões pertinentes ao cotidiano e ao clima de um local muito específico (a África do Sul atual). No entanto, o autor impõe a esse contexto um ponto de vista mais abrangente, que envolve o leitor na história do começo ao fim. Não se trata de um thriller de ação, mas, mesmo assim, há uma força nas palavras, que remete a uma elaboração perspicaz de cada descrição e de cada diálogo. Nesse sentido, forma e conteúdo se completam, a fim de que um não fique abaixo do outro em termos de qualidade técnica. A propósito, não há de ser à toa que Coetzee escolhe, de forma recorrente, professores de literatura como personagens principais (além de David Lurie, há a já famosa Elizabeth Costello, presente em A vida dos Animais e em Elizabeth Costello). É a partir da literatura que ele expõe as sutilezas do real.

Para ir além






Fabio Silvestre Cardoso
São Paulo, 21/12/2004


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Dilúvio, de Gerald Thomas de Jardel Dias Cavalcanti
02. Estevão Azevedo e os homens em seus limites de Guilherme Carvalhal
03. Crônica de Aniversário de Julio Daio Borges
04. Poesia e Guerra: mundo sitiado (parte I) de Jardel Dias Cavalcanti
05. Super Campeões, trocas culturais de Brasil e Japão de Luís Fernando Amâncio


Mais Fabio Silvestre Cardoso
Mais Acessadas de Fabio Silvestre Cardoso em 2004
01. Desonra, por J.M. Coetzee - 21/12/2004
02. Teoria da Conspiração - 10/2/2004
03. Cem anos de música do cinema - 8/6/2004
04. Eleições Americanas – fatos e versões - 9/11/2004
05. Música instrumental brasileira - 12/10/2004


Mais Especial Melhores de 2004
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
21/12/2004
05h21min
Curioso: não é um livro que eu vá colocar na minha lista dos "para ler" - mas a resenha é boa; pela qualidade da mesma, pode ser um estímulo à leitura para outros leitores...
[Leia outros Comentários de Carla]
2/8/2006
13h37min
Desonra, um dos melhores livros que já li.
[Leia outros Comentários de Edgard]
5/11/2007
00h52min
o livro me surpreendeu, a resenha do fabio, idem, pois me mostrou aspectos do livro que nao tinha analisado. bons textos esse livro me trouxe.
[Leia outros Comentários de Ana Flavia]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




THE BIG RIVER - MODERN READERS STAGE 1
VERA ABI SABER
RICHMOND
(2004)
R$ 16,90



PAI RICO, PAI POBRE - ATUALIZADO
ROBERT KIYOSAKI
ALTA BOOKS
(2017)
R$ 71,90



UM RETRATO FATAL
ROSS MACDONALD
ABRIL CULTURAL
(1984)
R$ 8,00



ENTRE REAL E SURREAL: ANTOLOGIA DA LITERATURA BELGA DE LÍNGUA FRANCESA
MARC QUAGHEBEUR, ZILÁ BERND, LEONOR LOURENÇO DE ABREU, ROBERT PONGE
TOMO EDITORIAL
(2009)
R$ 47,00



PAIS COMPENTENTES, FILHOS BRILHANTES
CAIO FEIJÓ
NOVO SÉCULO
(2010)
R$ 20,00



A GÊNESE - FORMATO DE BOLSO
ALLAN KARDEC
IDE
(2004)
R$ 14,86



GEOMETRIA PLANA MATEMÁTICA COC
SISTEMA COC DE ENSINO
SISTEMA COC
R$ 4,90



A GREVE DO SEXO - LISÍSTRATA
ARISTÓFANES (TRADUÇÃO DE MILLÔR FERNANDES)
L&PM
(2003)
R$ 10,90



GÊNEROS RADIOFÔNICOS
ANDRÉ BARBOSA FILHO
PAULINAS
(2009)
R$ 10,00



MEFISTO - ROMANCE DE UMA CARREIRA
KLAUS MANN
ESTAÇÃO LIBERDADE
(2000)
R$ 9,00





busca | avançada
32166 visitas/dia
773 mil/mês