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COLUNAS >>> Especial Melhores de 2005

Sexta-feira, 6/1/2006
The Search, John Battelle e a história do Google
Julio Daio Borges
+ de 10500 Acessos
+ 2 Comentário(s)


John Battelle em foto de Noah Berger (AP)

“I realized I wanted to invent things, but I also wanted to change the world. I wanted to get them out there, get them into people’s hands so they can use them, because that’s what really matters.”
Larry Page, um dos dois fundadores do Google

Conhecer a história do Google deveria ser obrigação de qualquer profissional de mídia hoje. Qualquer mídia. O Google não é mais central, apenas, no desenvolvimento da internet pós-Bolha: o Google é central, atualmente, no desenvolvimento da mídia como um todo, on-line e off-line.

Nesse sentido, The Search (Portfolio, 2005, 311 págs.) ou, em português, A Busca (Campus, 2005, 288 págs.), o livro de John Battelle, deveria ser leitura obrigatória para profissionais de mídia em geral e para curiosos acerca do futuro da internet em particular.

A obra, ansiosamente aguardada desde seu anúncio em 2003, é uma mistura de história do Google, e das buscas, com elucubrações mirabolantes de seu autor acerca do que chama de “Database of Intentions”, ou, numa tradução literal, a Base de Dados (ou o Banco de Dados) de Intenções.

O livro, além de interessante em si, tem uma história e um desenvolvimento peculiares. John Battelle, editor-fundador da Wired – a bíblia em papel destes nossos “anos virtuais” –, não se fechou em casa e se sentou para escrever, como fazem 99,9% dos escritores e autores. Battelle abriu um blog, o John Battelle’s Searchblog, e transformou-o no “diário de bordo” do livro que pretendia lançar sobre o Google e as buscas.

Graças ao seu Searchblog, John Battelle pôde submeter trechos de seu livro à avaliação dos leitores antes que o volume saísse da gráfica, e até mais do que isso: Battelle conta que escrevia (e reescrevia) cada capítulo de acordo com as reações, críticas e sugestões de seus leitores. The Search, ou A Busca, seria então um dos primeiros livros realmente interativos.

E tem mais: muito antes da obra sair, o Searchblog se tornou uma referência em matéria de busca e John Battelle, ele próprio, uma autoridade em matéria de Google.

Battelle perde um capítulo inteiro justificando porque resolveu lançar um livro sobre buscas. Para ele, a busca é o acontecimento central da internet hoje. Battelle acredita, por exemplo, que as buscas vão evoluir para uma espécie de “poço dos desejos” (aqui entra o/a Database of Intentions), no sentido de entregar ao internauta (consumidor?) o que ele efetivamente procura, gerando negócios, para empresas, na outra ponta. Talvez seja uma visão um pouco restritiva da internet como um grande shopping center, mas o autor de The Search, ao mesmo tempo, considera que o “Zeitgeist” do Google – o conjunto mais representativo de palavras-chave usadas globalmente no mecanismo de busca – revela mais sobre o nosso comportamento, o nosso futuro e a nossa cultura do que, em princípio, gostaríamos de aceitar.

Se o conceito de Banco de Dados ou Base de Dados de Intenções abre o livro, o conceito de “Perfect Search” fecha o volume. Num patente exagero, e num arriscado exercício de futurologia (nunca recomendável), John Battelle extrapola e imagina que, um dia, não necessariamente o Google (mas talvez a internet) vai ler nossas ondas cerebrais e entregar precisamente o que procuramos...

Felizmente, esses e outros exageros conceituais se contrabalançam, na obra, com a tão anunciada história do Google.

O Google começou em Stanford – onde começaram também o Excite e o Yahoo de Jerry Yang e David Filo – por meio do encontro, algo miraculoso, entre Larry Page e Sergey Brin. O Google nasceu de um paper assinado pelos acadêmicos Page e Brin, depois de desenvolverem o revolucionário conceito de “Page Rank”.

Como bons acadêmicos que eram – ou, graças a Deus, nem tanto – os pais-fundadores do Google perceberam que as teses mais valorizadas, dentro da academia, eram aquelas que mereciam mais citações das demais. O salto foi: por que não aplicar esse mesmo princípio, de valoração, ao mar de documentos da internet? Ou seja: as páginas que recebessem o maior número de links do resto da Web seriam, automaticamente, as mais representativas no universo de buscas do Google.

O passo seguinte foi varrer toda a WWW. Quanto mais páginas varridas, ou “indexadas”, mais o argumento de “valoração” funcionaria. Afinal: o Page Rank se baseava na classificação que a própria internet conferia às suas páginas. Quanto mais amplo o espectro do mecanismo de busca de Page e Brin, maior a legitimidade de seus resultados. O gigantismo da empreitada levou, então, ao nome Google: google, o termo em inglês, remete à grandeza formada por um número “1” seguido de cem números “0”...

John Battelle conta que o projeto, inicialmente hospedado nos servidores de Stanford, derrubou a rede de uma das maiores universidades do mundo, monopolizou consideravelmente sua “largura de banda” e se tornou tão voraz, à medida que crescia, quanto ambicioso. (Hoje, para que se tenha uma idéia – indica Battelle, como base de comparação –, o Google consome os recursos de mais de 175 mil servidores, o que é mais do que tudo o que havia sobre a Terra, em matéria de computadores, nos anos 70...)

Até a virada do século, e a consagração do Google, as buscas na internet haviam se pautado pelo número de palavras-chave contidas numa página. Trocando em miúdos: se alguém digitasse “Brasil” no AltaVista – o Google que não foi –, toparia com os endereços em que “Brasil” estivesse presente um maior número de vezes; mas é fácil perceber que esses resultados nem sempre seriam representativos e poderiam ser, mais do que isso, manipulados.

A luta de Larry Page e Sergey Brin sempre foi por uma boa busca. Seu idealismo, por uma busca sempre “orgânica”, quase levou o Google a morrer na praia. Seus fundadores, à medida que o serviço se consagrava, não queriam sacrificar sua intenção inicial – a do Page Rank – e, por conta disso, embora tenham lançado a idéia em 1997, aberto a empresa em 1998, apenas conseguiram gerar negócios consistentes em 2001. E, desta vez, não foi por conta de uma idéia totalmente original.

Page e Brin resistiram bravamente à tentação de encher o Google de banners e, mais do que isso, à tentação de “vender” seus resultados. Ironicamente, seu modelo de negócio surgiu através de um concorrente que, justamente, vendia as primeiras posições de seus resultados: o site Goto.com. Fundado por Bill Gross, do IdeaLab – uma incubadora de projetos pré-Bolha –, o Goto.com chegou à famigerada venda de palavras-chave, que o Google adotou na forma do conhecido programa “AdWords”.

Gross, um visionário da internet que fez fortuna pelo menos três vezes na vida – segundo nos conta John Battelle –, perdeu terreno com o estouro da Bolha, em 2000, mas sua lógica de associar palavras-chave de uma busca a determinados anunciantes prosperou, posteriormente, com o Google. E a grande contribuição do Google, além de aperfeiçoar esse pré-AdWords, seria estender sua base para exibição de anúncios pela internet afora – gerando receita para sites pequenos, médios e até grandes (vulgo programa “AdSense”).

Exemplo prático de AdWords (está no livro): você vende sapatos para homens de pé grande; não tem dinheiro para anunciar na mídia estabelecida, mas, no Google, compra, por alguns dólares, expressões como “pé grande”; imediatamente, quando alguém procura por “pé grande” no Google, logo ao lado dos resultados da busca, está o seu site e o seu anúncio.

Exemplo prático de AdSense: você tem um site relativamente movimentado, mas não tem massa crítica para vender banners ou procurar grandes anunciantes; você, então, se inscreve no programa do Google e passa a veicular anúncios que o próprio Google já vende para você (exemplo acima, AdWords), e pelos quais o Google te paga à medida que eles são clicados; a fim de que a coisa faça sentido, o Google igualmente trata de associar os anúncios (dele) ao conteúdo do site (seu).

Com essa brincadeira, o Google foi a empresa que mais (e mais rápido) cresceu na História, de 2001 a 2005. O Google também tirou a internet inteira do coma pós-Bolha, impulsionou o que já se chama de “segunda onda de conteúdo” (com previsão de explodir em 2006) e realizou uma pra lá de bem-sucedida IPO (suas ações, lançadas na bolsa em agosto de 2004, já haviam quase quintuplicado de valor em novembro de 2005). Como se não bastasse: o Google é o único concorrente a seriamente ameaçar a outrora incontrastável hegemonia da Microsoft, do ex-todo poderoso Bill Gates; e o Google, com ferramentas como Gmail, está liderando o que, tecnicamente, se chama de “Web 2.0” (um combinado de programação e metaconteúdo que promete virar a WWW do avesso).

Num contexto de franca expansão da empresa de Larry Page e Sergey Brin, o quartel general do Google adotou o slogan Don’t Be Evil (“Não Seja Mau” ou algo assim) – como que para nunca se esquecer de suas origens na “nova mídia”, evitando, nem que seja através de um simples lema, as atitudes típicas da “velha (grande?) mídia”. E uma peça-chave, claro, na “comunicação” do Google, é o seu CEO, Eric Schmidt (ex-Novell, ex-Sun) – que, segundo as más línguas, tenta apaziguar a “monarquia de dois reis”, Larry e Sergey.

Uma pergunta que atravessa The Search ou A Busca, de John Battelle, é: o Google é uma empresa de mídia? Battelle conta que, há alguns anos, a resposta era: “Não; nós somos, primordialmente, uma empresa de tecnologia”; mas que, de uns tempos pra cá, a resposta tem sido: “Nós somos uma empresa de tecnologia com foco em mídia”. Na realidade, a resposta (certa) não importa tanto. O que importa é que, em maior ou menor grau, todos seremos influenciados pelo Google. E, no esforço de compreensão desta nova etapa da nossa existência midiática, entra o livro de John Battelle.

“Look, if this Google thing pans out, then great. If not, you can return to graduate school and finish your thesis.”
Do orientador de Sergey Brin, em Stanford

Para ir além









Julio Daio Borges
São Paulo, 6/1/2006

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Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
4/1/2006
22h52min
Olá, Julio, há tempos não acessava o Digestivo... Deparei-me com A Busca em uma dessas livrarias de aeroporto e devorei-o num tempo só. Abstraindo-se da competência do autor e de ambos os "google-men", fica claro, antes de tudo, como a priorização feita por um País em favor da educação, do capital de risco e do empreendedorismo (vide Stanford), pode fazer, de fato, diferença! Abs, Bernardo B Carvalho, Goiânia-GO
[Leia outros Comentários de Bernardo B Carvalho]
5/1/2006
17h49min
Excelente resenha, Julio. Como não poderia deixar de ser, obviamente. Há tempos venho dizendo a amigos que o Google vai dominar o mundo. Só ainda não conclui em minhas elucubrações se isso é boa ou má coisa. Realmente, num mundo abarrotado de conteúdo (in)útil, o mais importante não é o que você efetivamente quer, mas sim o que te levará até lá. E é por isso que o Google é o futuro acontecendo diante de nós. Dan
[Leia outros Comentários de Daniel Gomes]
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