Parangolé: anti-obra de Hélio Oiticica | Jardel Dias Cavalcanti | Digestivo Cultural

busca | avançada
19055 visitas/dia
829 mil/mês
Mais Recentes
>>> Extra é ponto de encontro para trocar figurinhas da Copa
>>> Eduardo Ferraz faz palestra gratuita em Curitiba
>>> TV Brasil exibe especial 'Sonho Meu' em homenagem a Dona Ivone Lara nesta sexta (20)
>>> Alexandre Hallais, um dos escritores mais evidentes da atualidade fecha parceria com a Soul Editora
>>> Juiz federal estreia na literatura com contos sobre heróis históricos
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Nobel, novo romance de Jacques Fux
>>> De Middangeard à Terra Média
>>> Dos sentidos secretos de cada coisa
>>> O pai da menina morta, romance de Tiago Ferro
>>> Joan Brossa, inéditos em tradução
>>> Sebastião Rodrigues Maia, ou Maia, Tim Maia
>>> 40 anos sem Carpeaux
>>> Minha plantinha de estimação
>>> Corot em exposição
>>> Existem vários modos de vencer
Colunistas
Últimos Posts
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
>>> Conceição Evaristo em BH
>>> Regina Dalcastagné em BH
>>> Leitores e cibercultura
>>> Sarau Libertário em BH
>>> Psiu Poético em BH esta semana
>>> Existem vários modos de vencer
>>> Lauro Machado Coelho
>>> Jeff Bezos é o mais rico
>>> Stayin' Alive 2017
Últimos Posts
>>> Pierrô
>>> Lugar comum
>>> Os galos
>>> Cenas do bar - Wilsinho, o feio.
>>> Desenhos a lápis na poesia de Oleg Almeida
>>> Eloquência
>>> Cenas do bar - Vladimir, o solteiro.
>>> Deu na primeira página...
>>> Palavra vício
>>> Premissas para reflexão
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Os Franceses, de Ricardo Corrêa Coelho
>>> Jogando uma pedra no poço sem fundo
>>> A arte contemporânea refém da insensatez
>>> Quem é Gian Danton
>>> Um conselho: não leia Germinal
>>> O pós-modernismo morreu
>>> Nelson ao vivo, como num palco
>>> Furo
>>> Parangolé: anti-obra de Hélio Oiticica
>>> Adagio ma non troppo
Mais Recentes
>>> A Garota do Lago
>>> O Elo de Alexandria
>>> A Profecia Romanov
>>> o mito de Lincoln
>>> Vingança em Paris
>>> Quadribol através dos Séculos
>>> Não Pare!
>>> Deusa da Primavera
>>> Deusa do Mar
>>> Sobre a Morte e o Morrer
>>> Saúde no Brasil - Políticas e Organização de Serviços
>>> Família brasileira, a base de tudo
>>> Aristóteles - Volume I dos argumentos sofísticos - Os Pensadores -
>>> Avaliação de Políticas Sociais: Uma questão em Debate
>>> 300 Propostas de Artes Visuais
>>> Pesquisa Social em saúde
>>> Ainda existe esperança
>>> A Mitologia Templária - Os Conceitos Esotéricos da Ordem do Templo
>>> Historia Social da Criança e da Família
>>> Dicionário de Filosofia
>>> Che Guevara - o pensamento vivo
>>> Saúde e Democracia - A luta do CEBES
>>> Desenvolvimento de Iniciativas Sociais
>>> Maquiavel - Os pensadores
>>> Historia Menuda De Un País Que Ya No Existe
>>> Comunicação Científica - Normas Técnicas para Redação Científica
>>> Piores Inimigas/ Melhores Amigas
>>> Más Notícias/ boas notícias
>>> Cartas Da Alma
>>> Ultrapassando Limites
>>> Promessas e Mais Promessas
>>> Hq Camelot 3000 Nº 1-2-3-4 Completa Formatinho Dc
>>> O Lago Rescue
>>> Em Pânico
>>> Amuleto da Sorte
>>> Paixão Pela Moda
>>> Brincadeirinha!
>>> Novo Universo Força Psi Hq Formatinho Do 1 Ao 12
>>> Cidade Fantasma
>>> Acabou o Tempo
>>> Algas Verdes e Guerra de Chicletes
>>> Garotas Da Rua Beacon 14 - Alerta De Paixão
>>> Garotas Da Rua Beacon 15 - A Grande Caça Ao Tesouro
>>> Garotas Da Rua Beacon 16 - Meus Doces 13 Anos
>>> Mil Oitocentos e Oito
>>> Mil Oitocentos e Vinte e Dois
>>> Mil Oitocentos Oitenta e Nove
>>> Demian
>>> Le capital - (Livre 1)
>>> Psicologia e Religião Oriental
COLUNAS

Terça-feira, 17/12/2002
Parangolé: anti-obra de Hélio Oiticica
Jardel Dias Cavalcanti

+ de 111100 Acessos
+ 4 Comentário(s)

A idéia da criação dos Parangolés aparece para Oiticica no momento de seu envolvimento com o samba. O interesse por esta dança, por sua vez, nasceu, segundo o artista, de "uma necessidade vital de desintelectualização, de desinibição intelectual, da necessidade de uma livre expressão". O samba leva o participante a uma imersão no ritmo, na verdade, a uma identificação completa e vital do ato com o ritmo, fazendo com que o seu intelecto permaneça obscurecido diante das imagens móveis, constantemente improvisadas, rápidas e inapreensíveis durante a dança. Esta experiência da "lucidez expressiva da imanência", obtida na dança, leva Oiticica a criar o Parangolé.

Parangolé são capas, estandartes, bandeiras para serem vestidas ou carregadas pelo participante de um happening. As capas são feitas com panos coloridos (que podem levar reproduções de palavras e fotos) interligados, revelados apenas quando a pessoa se movimenta. A cor ganha um dinamismo no espaço através da associação com a dança e a música. A obra só existe plenamente, portanto, quando da participação corporal: a estrutura depende da ação. A cor assume, desse modo, um caráter literal de vivência, reunindo sensação visual, táctil e rítmica. O participante vira obra ao vesti-lo, ultrapassando a distância entre eles, superando o próprio conceito de arte.

Mas que fique claro, ao vestir o Parangolé o corpo não é o suporte da obra. Oiticia diz que se trata de "incorporação do corpo na obra e da obra no corpo". Nessa espécie de anti-arte, diz Oiticia, "o objetivo é dar ao público a chance de deixar de ser público espectador, de fora, para participante na atividade criadora".

Com o Parangolé Oiticia propõe ao espectador (agora participante) em lugar de meramente contemplar a cor, vestir-se nela. Este simples ato, que libera o participante do domínio da sensação visual, produz uma "maravilhosa sensação de expansão", criada pela incorporação dos elementos da obra numa vivência total do espectador.

O crítico Mário Pedrosa comenta a origem da criação do Parangolé por Oiticica: "Foi durante a iniciação ao samba, que o artista passou da experiência visual, em sua pureza, para a experiência de tato, do movimento, da fruição sensual dos materiais, em que o corpo inteiro, antes resumido na aristocracia distante do visual, entra como fonte total da sensorialidade".

Dá-se início a uma nova visão de como o ser humano e uma obra de arte podem integrar-se: a morte do espectador e o nascimento do participante.

No Parangolé, portanto, o motor ontológico é a capacidade de revelar a necessidade da ação. O vestir contrapõe-se ao assistir. Oiticica explica: "O 'ato' do espectador ao carregar a obra revela a totalidade expressiva da mesma na sua estrutura: a estrutura atinge aí o máximo de ação própria no sentido do 'ato expressivo'. A ação é a pura manifestação expressiva da obra". Para que a ação aconteça, exige-se a participação inventiva e improvisada do expectador, como acontece no samba.

A partir daí, o próprio conceito tradicional de exposição desaparece, pois nada significa "expor" Parangolés. Por isso, dizer que o Parangolé de Oiticica está sendo exposto é um contra-senso. O que importa agora é a criação de espaços livres para a participação e invenção criativa do espectador. O objetivo da participação, nos indica Hélio Oiticica, "é dar ao homem, ao indivíduo de hoje, a possibilidade de 'experimentar a criação', de descobrir pela participação, esta de diversas ordens, algo que para ele possua significado."

O que o Parangolé nos propõe é o deslocamento da experiência do campo intelectual racional para o da proposição criativa vivencial. E isto só é possível com a radicalização da vivência através da manipulação, do movimento e da utilização plurisensorial da "obra". Novamente damos voz a Oiticica: "O que interessa é justamente jogar de lado toda essa porcaria intelectual, ou deixá-la para os otários da crítica antiga, ultrapassada, e procurar um modo de dar ao indivíduo a possibilidade de 'experimentar', de deixar de ser espectador para ser participador."

Parangolé, portanto, não é uma "obra", mas o "lugar" no qual a experiência artística se funda. Seu objetivo é uma intensificação da vida, da agitação do pulso, da batida do coração, levando o indivíduo a trocar a percepção artística pela expressão artística.

Num primeiro momento, Oiticica aproxima-se de Marcel Duchamp no tocante ao questionamento do estatuto da arte: a obra de arte é apenas o ato artístico mumificado em um museu. A proposta da "antiarte" consiste em sensibilizar o cotidiano através da repotencialização do "coeficiente" criativo do indivíduo, sem pretender impor um padrão estético. Funda-se aqui uma ética para a qual a liberdade reside numa tentativa constante de autodesprendimento e auto-invenção.

Num segundo momento, superando a idéia duchampiana de que o que determina o valor estético já não é um procedimento técnico, um trabalho, mas um puro ato mental, uma atitude diferente em relação à realidade, Oiticica leva o espectador a explorar a própria "fonte" da linguagem, ou melhor, recapturar a linguagem em sua fonte. Despojando a arte de qualquer fim transcendente ou estético, faz com que subsista apenas o mero ato artístico.

A arte agora está livre para assumir-se como um objeto de experiência, anunciando, inclusive, o fim da instituição da autoria. O Parangolé, decididamente anti-retórico, materializa-se enquanto experiência e desmaterializa-se enquanto arte. O desejo de uma experiência artística única, intransferível, entra em choque com a instituição da arte, o consumo mercadológico do objeto artístico, o primado da técnica e a emoção "estética". Deixa de ser puramente arte para virar um embate com o "mundo" da arte.

O que é proposto por Oiticica é uma estética da existência e não dos objetos, das formas de vida, não das formas de arte, sendo a obra apenas o ato de fazer a obra. Ou seja, uma ética do compromisso com formas constituídas de experiência, de libertação pessoal para a invenção de novas formas de vida (ou para ser mais certeiro, uma estética da auto-invenção).

Oiticica nos leva a pensar que a arte contemporânea traz em si mesma as fontes de todas as artes, que toda obra anterior nada mais é do que uma antecipação alegórica daquela. Com o objetivo de superar a distância entre arte e vida, propõe a experiência como eixo condutor do ato artístico. O objetivo é tirar o indivíduo da atitude meramente contemplativa e submergi-lo na sensibilidade ativa. Destruindo o consumidor pequeno-burguês da cultura, o homem da cultura asséptica, com sua tagarelice ociosa (séculos de interpretação), o indivíduo será levado à fonte irrepresentável ou não discursiva da experiência.

O interesse de Oiticica, ao criar o Parangolé, não foi outro senão o de levar o indivíduo ao dilatamento de suas capacidades artísticas, para a descoberta de seu centro interior criativo, de sua espontaneidade expressiva adormecida, condicionada ao cotidiano. E, termino aqui, com as palavras de Bergson, que sintetizam a experiência Parangolé: "Ao libertar e acentuar esta música, eles hão de impô-la à nossa atenção; farão com que venhamos a inserir-nos nela, como passantes que entram numa dança. E por aí impelir-nos-ão a vibrar nas profundezas de nosso ser, algo que só estava esperando o momento de vibrar".

Para saber mais:

FAVARETTO, Celso. A Invenção de Hélio Oiticica. São Paulo: EDUSP, 1992.

CATÁLOGO: Hélio Oiticica. Centro de Arte Hélio Oiticia. Rio de Janeiro; Galerie nationele du Jeu de Paume, Paris.

OITICICA, Hélio Oiticia & CLARCK, Lygia. Cartas: 1964-74. Rio de Janeiro: Ed. da UFRJ, 1898.

OITICICA, Hélio. Aspiro ao grande labirinto. Rio de Janeiro: Rocco, 1986.

JUSTINO, José Maria. Seja Marginal, Seja Herói: modernidade e pós-modernidade em Hélio Oiticia. Curitiba: Ed. da UFPR, 1998.

SALOMÃO, Wally. Hélio Oiticia: qual é o parangolé. Rio de Janeiro: relume-Dumará, 1996.

Nildo da Mangueira, com Parangolé, 1964


Jardel Dias Cavalcanti
Campinas, 17/12/2002


Mais Jardel Dias Cavalcanti
Mais Acessadas de Jardel Dias Cavalcanti em 2002
01. Parangolé: anti-obra de Hélio Oiticica - 17/12/2002
02. Drummond: o mundo como provocação - 26/11/2002
03. A Vagabunda Letrada e os Sentimentos Nobres - 5/11/2002
04. O último Shakespeare - 3/12/2002
05. Cactos Implacáveis: entrevista com Ronald Polito - 10/12/2002


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
17/12/2002
02h18min
“Os parangolés surgiram a partir do momento em que Hélio Oiticica passou a freqüentar a escola de samba da Mangueira. É algo muito pobre se você comparar com a roupa de uma porta-bandeira, colorida, barroca, popular. É uma arte que remonta ao século 17. Aí o Hélio botava a roupa em um passista e pedia para o cara rodar e falava que com isto ele estabelecia uma relação da forma com o espaço e a luz. É pura teoria. Qualquer objeto rodando mantém uma relação com o espaço e a luz.” Ferreira Gullar, como pode ser lido em www.revan.com.br/catalogo/0058b.htm
[Leia outros Comentários de Renata Paraguaçu]
17/12/2002
19h08min
Hélio Oiticica era um artista medíocre, se chegou a tanto, e seu discurso era falho. Espero que o século 21 não tenha a mesma dificuldade para enxergar o óbvio que teve o século 20. Conceitos como "a obra de arte é apenas o ato artístico mumificado em um museu" não significam nada.
[Leia outros Comentários de Eduardo Arruda]
18/12/2002
18h40min
caros renata e eduardo, vocês contribuem para um momento importante: iniciar uma crítica à obra de oiticica. está, realmente, na hora de avaliar algumas obras "pobres" do hélio. coisas que se fazia em 1920 e que o Hélio só descobriu em 1960-70, repetindo o procedimento. projetos que aparentam uma inovação, quando na verdade não passam de apropriações de idéias já "antigas" dentro do projeto das vanguardas internacionais. mas é bom que a crítica seja consistente. um abraço, jardel
[Leia outros Comentários de jardel]
25/5/2005
10h59min
A arte em si não é uma novidade. Ela é, antes de tudo, uma renovação, uma nova maneira de estetizar o velho, uma releitura contemporânea. O Parangolé renova o conceito carnavalesco que estabele uma ponte da estética carnavalesca com a história ou com o cotidiano. A carnavalização se dá, ocorre, sempre que se muda de máscara. E esta mudança o Parangolé estabele com maior simplicidade do que a instituição carnavalesca atual. Para mim, Oiticica é um artista plástico representativo da contemporaneidade. Tanto é que, meio século depois, pessoas sérias continuam discutindo e comentando os seus trabalhos.
[Leia outros Comentários de Lionel]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




NERUDA PARA JOVENS - ANTOLOGIA POÉTICA - EDIÇÃO BILÍNGUE - 3ª EDIÇÃO
PABLO NERUDA
JOSÉ OLYMPIO
(2013)
R$ 7,00



A EVOLUÇÃO DO MERCADO FUTURO DE AÇÕES DA BOLSA DO RIO
BOLSA DE VALORES DO RIO DE JANEIRO
RJ
(1982)
R$ 7,00



AS CULTURAS, A IGREJA E A FÉ - INICIAÇÃO A TEOLOGIA - VOL. 4
EDIÇÕES PAULINAS
PAULINAS
(1979)
R$ 8,98



SEM MEDO DE SABER - A IMPORTÂNCIA DO DIAGNÓSTICO PRECOCE
ILAN GORIN
SEXTANTE
(2010)
R$ 9,00



A MESA COM BURLE MARX
CECILIA MODESTO E CLAUDIA PINHEIRO
CONTRACAPA
(2018)
R$ 75,00



HUNGARY
ZOLTÁN HALÁSZ EDIT
CORVINA PRESS
(1960)
R$ 30,00



ESPIRITÍSMO - SÉRIE CONHECENDO AS RELIGIÕES
VÁRIOS AUTORES
TODOLIVROS / BRASILLEITURA
(2012)
R$ 5,00



O CARTÃO POSTAL - DE SÓCRATES A FREUD E ALÉM
JACQUES DERRIDA
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
(2007)
R$ 25,40



POR QUE AS COMUNICAÇÕES E AS ARTES ESTÃO CONVERGINDO?
LUCIA SANTAELLA
PAULUS
(2005)
R$ 12,00



LINHA DE RISCO: O MOVIMENTO DA MORTE DE DEUS
CHARLES BENT
MORAES
(1968)
R$ 16,00





busca | avançada
19055 visitas/dia
829 mil/mês