Decompondo uma biblioteca | Alberto Mussa

busca | avançada
74455 visitas/dia
1,7 milhão/mês
Digestivo Cultural
O que é?
Quem faz?

Audiência e Anúncios
Quem acessa?
Como anunciar?

Colaboração e Divulgação
Como publicar?
Como divulgar?

Newsletter | Disparo
* RSS, Twitter e Facebook
Últimas Notas
>>> Eu Maior, o filme de Fernando, Paulo e Marco Schultz e Andre Melman
>>> Diálogos de Platão, pela editora da Universidade Federal do Pará
>>> Porta dos Fundos
>>> Os Enamoramentos, de Javier Marías
>>> One Click, a História da Amazon, de Richard L. Brandt
>>> Amores & Arte de Amar, de Ovídio
>>> Gonzaga - De Pai pra Filho, de Breno Silveira
>>> Claro Enigma, de Carlos Drummond de Andrade
Temas
Mais Recentes
>>> Os EEUU e o golpe de 64
>>> Todas as Tardes, Escondido, Eu a Contemplo
>>> Família e Maldade
>>> O Corno em Série
>>> A Cidade do Improvável
>>> Um Lugar para Fugir Antes de Morrer
>>> O goleiro que ganhou o Nobel
>>> O Amor é Sexualmente Transmissível
>>> Na minha internet foi assim, e na sua?
>>> Um livro canibal
Colunistas
Mais Recentes
>>> Millôr Fernandes
>>> Daniel Piza (1970-2011)
>>> Steve Jobs (1955-2011)
>>> 11/9: Dez Anos Depois
>>> Séries de TV
>>> Discoteca Básica
Últimos Posts
>>> John Huston: cinema e armas
>>> Paulo de Tarso Lima #EuMaior
>>> The Doors Live at The Bowl 68
>>> The Doors com Eddie Vedder
>>> Ricardo Lindemann #EuMaior
>>> AnaE lança novo livro em SP
>>> Professor Hermógenes #EuMaior
>>> Waldemar Falcão #EuMaior
>>> Barbara Abramo #EuMaior
>>> O turista cinéfilo
Mais Recentes
>>> Sergio Britto & eu
>>> Para o Daniel Piza. De uma leitora
>>> Joey e Johnny Ramone
>>> A Cultura do Consenso
>>> De Kooning em retrospectiva
>>> Delírios da baixa gastronomia
>>> Jane Fonda em biografia definitiva
>>> Psicodelia para Principiantes
Mais Recentes
>>> Luis Salvatore
>>> Catarse
>>> Chico Pinheiro
>>> Sheila Leirner
>>> Guilherme Fiuza
>>> Antonio Henrique Amaral
Mais Recentes
>>> 40 mil seguidores no Twitter
>>> Comentários via Facebook
>>> Obrigado, Daniel Piza
>>> Seção Mais Acessados
>>> Digestivo no Facebook
>>> Você no Twitter do Digestivo
Mais Recentes
>>> A felicidade, segundo Freud
>>> A Web matando a velha mídia
>>> Isso é arte?
>>> O Espadachim de Carvão
>>> Planejamento de Carreira e Networking
>>> Um quarto com vista
>>> Alguns momentos com Daniel Piza
>>> A polêmica em torno do Free, de Chris Anderson
>>> Nana, Nenê
>>> A Elite
Mais Recentes
>>> Papo com Valdeck A. de Jesus
>>> Papo com Valdeck A. de Jesus
>>> Papo com Valdeck A. de Jesus
>>> Papo com Valdeck A. de Jesus
>>> Papo com Valdeck A. de Jesus
>>> Papo com Valdeck A. de Jesus
>>> Olga e a história que não deve ser esquecida
>>> Receita para se esquecer um grande amor
>>> Quem é (e o que faz) Julio Daio Borges
>>> A teoria do caos
Mais Recentes
>>> Exposição sobre Walter Levy será inaugurada dia 15/6
>>> Rock'n'roll Celebration terá convidado especial na comemoração de um ano no Santa Marta
>>> Banda Delorean apresenta viagem pela história do rock
>>> Hotel de Curitiba oferece serviço de transporte gratuito para hóspedes
>>> Mini Guaíra exibe clássicos da dramaturgia mundial
>>> Rede Deville inicia campanha de combate ao frio
>>> A Crítica de João Apolinário - lançamento de livro
>>> SBIm e SLIPE promovem congresso sobre imunização e infectologia pediátrica
>>> 24 de maio - Dia do Vestibulando
>>> 11ª Fantástica Jornada Noite Adentro
ENSAIOS

Segunda-feira, 15/2/2010
Decompondo uma biblioteca
Alberto Mussa

+ de 4000 Acessos
+ 5 Comentário(s)

Eric Benqué

Não sou capaz de dizer que obra ou que autor inoculou em mim o vício da leitura, porque nasci entre livros, milhares deles. Meu pai tinha estantes espalhadas por várias partes da casa, inclusive na garagem.

A presença da biblioteca, sua imponência concreta, material, sempre me impressionou. Por maiores que fossem minhas divergências com meu pai, eu sabia que aquele era o bem a ser legado. Em toda minha vida, creio que só não fui proibido de mexer nos livros. E isso, naqueles tempos severos, não era pouco.

Obviamente, eu tinha títulos só meus, que ocupavam três ou quatro prateleiras: romances policiais e de terror, compartilhados com minha mãe, particularmente os da Agatha Christie; livros comprados em bancas de jornal, como a fabulosa série da Giselle Monfort, a espiã nua que abalou Paris, que ainda conservo; alguns livros sobre umbanda e candomblé; e muita coisa do Círculo do Livro: Amado, Verissimo, Nelson Rodrigues.

Não devo ter feito esta reflexão, na época; mas talvez intuísse que aquelas três ou quatro prateleiras materializavam o traço rebelde da minha personalidade. Meu pai não condescendia que eu experimentasse os prazeres simples da rua ― pela mesma razão que via com desconfiança aquele gosto literário "popular", que poderia me afastar da erudição.

Quando ingressei na faculdade de matemática, a noção de que o conhecimento é um bem físico ― e cabe numa biblioteca ― se manifestou em mim de forma consciente. Meus colegas estudavam em apostilas fotocopiadas. Aquilo, para mim, era inconcebível: eu necessitava de livros, dependia daquele objeto para aprender. Passei, então, a montar algo que não era apenas uma coleção aleatória, mas uma pequena biblioteca pessoal, que obedecia a um plano rigoroso e predeterminado. Podia me orgulhar de ter livros que inclusive não faziam parte da bibliografia. Foi essa uma lição que a biblioteca me ensinou: a busca do conhecimento deve ser feita de maneira independente.

Houve nessa época um caso curioso e decisivo, na minha história de leitor. Meu livro de cálculo diferencial era o de um certo Piskounov, um nome assim. Era uma obra que ninguém possuía. Logo que se espalhou a notícia de que eu estudava cálculo num livro russo, fiquei com um imenso prestígio entre os colegas comunistas; e ganhei de um deles um pequeno volume do poeta Agostinho Neto, o presidente comunista de Angola ― que me iniciaria numa das mais importantes aventuras da minha vida: a literatura africana.

Lama
Quando meu pai morreu, eu deveria, naturalmente, herdar a biblioteca; mas uma outra circunstância triste mudou completamente meu destino. Como a casa ficara fechada, uma rachadura no teto permitiu que as chuvas destruíssem praticamente tudo. Nunca esqueci a imagem de toda aquela inteligência transformada em lama. Sabia que o conhecimento era concreto, mas não me dera conta de que fosse perecível.

De toda aquela massa, só consegui salvar um exemplar das poesias completas do Fernando Pessoa. Este livro foi o único objeto pessoal que herdei. Passei a sentir, assim, uma necessidade radical de reconstituir a biblioteca. Não sei se foi isso que me fez decidir voltar à faculdade. Mas, dessa vez, para estudar literatura.

Meu primeiro projeto foi o de ler toda a literatura brasileira. Todos os sábados eu ia ao centro da cidade para pechinchar nos sebos, em todos eles. Talvez já tivesse consciência de sofrer de uma obsessão certamente adquirida em função daquela primeira biblioteca: a de obter um conhecimento que fosse total, absoluto, ainda que num campo específico do saber.

O objetivo, na prática, era inalcançável; mas foi essa meta que me fez desenvolver a capacidade de ler tão rápido sem perder a concentração. A frase clássica mens sana in corpore sano, na verdade, é tautológica, porque o cérebro é uma parte do corpo. A leitura, assim, é uma atividade atlética como outra qualquer: exige treino, exige condicionamento físico. Por isso, não há livros difíceis, apenas leitores mal treinados.

Embora minha biblioteca continuasse crescendo, percebi que para compreender a essência da literatura brasileira, para obter um conhecimento total sobre ela, seria necessário compará-la a outras. Comecei, então, um processo compulsivo de comprar livros para formar, nessa mesma biblioteca, uma seção com os grandes clássicos universais, muitos dos quais eu conhecera na biblioteca paterna.

Então, aos autores brasileiros se somaram franceses, russos, portugueses, ingleses, italianos, norte-americanos, espanhóis, alemães e o magistral conjunto dos chamados hispano-americanos. Alguns dirão que essa biblioteca não tinha nada de especial, era uma simples coleção de clássicos. Mas havia uma diferença: é que, a partir dos poemas do Agostinho Neto, também passei a ler ― e muito ― os escritores da África.

E foi a experiência profunda e original expressa na literatura africana que me fez perceber que os cânones convencionais são o reflexo de uma mentalidade colonial e evolucionista. Assim, para obter o conhecimento total da literatura, era necessário incluir, além dos africanos, o mundo inteiro. E era fundamental estudar as literaturas antigas, clássicas e medievais. Porque a comparação tinha também que se fazer no tempo.

O cúmulo desse processo ocorreu quando constatei que a literatura ― aliás, a literariedade é anterior à escrita; e para compreendê-la era necessário conhecer as culturas ágrafas, a mitologia dos povos ditos primitivos. E não bastava o texto dos mitos: tinha que ler também monografias etnográficas que me permitissem interpretá-los.

Desmonte
Minha biblioteca, nessa altura, atingira proporções enormes, borgeanas. Mesmo mantendo um sistema rígido de leitura, concluí que nem em 60 anos eu conseguiria ler todos os meus livros. E foi essa consciência que me fez, de uma hora para outra, simplesmente abdicar da literatura, como objeto de um conhecimento total.

E talvez estivesse influenciado por uma estranha descoberta, lida em algum lugar: a de que Borges conservava em casa não muito mais que 500 volumes.

Comecei, então, um processo muito mais complexo que o de construir uma biblioteca: o de desmontá-la. Talvez nem todos tenham noção do que significa, para um viciado em livros, reduzir todas as possibilidades de conhecimento (e de prazer) a não muito mais de 4 mil obras. Não vale a pena mencionar detalhes, que seções foram mais ou menos afetadas. Importa é que no fim desse drama consegui tornar a casa transitável, moderar a compulsão e descobrir coisas muito profundas a respeito de mim mesmo.

Primeiro: que o excesso de subjetividade me incomoda, que ainda conservo um certo espírito matemático. Por isso, a grande enxurrada que partiu foi de romances, enquanto permaneceu a maioria dos contistas ― que lidam com um gênero mais intelectual.

Segundo: que, embora a ideia de "civilização" pressuponha ou enseje a de "palavra escrita", não tenho por ela, a "civilização", tanto apreço assim. Por isso, não consegui me libertar de nenhum livro de mitologia; concluí, depois de muito tempo, que os grandes feitos literários da humanidade foram alcançados na pré-história.

Terceiro: que sou quase um alienado, que não me interesso por muitos dos problemas do meu tempo. Por isso, conservei as literaturas antigas, clássicas e medievais, em detrimento da modernidade.

Quarto: que não passo de um provinciano. Por isso, mantive intacta a literatura brasileira, não fui capaz de retirar nenhuma obra escrita na minha língua, a língua hegemônica do Brasil, que nenhum acordo ortográfico tornará universal.

Os volumes que saíram da minha casa foram trocados por créditos num elegante sebo do centro do Rio, que dispõe também de um restaurante. Tenho, assim, bebido e petiscado boa parte dos meus antigos livros.

Dizem que costumo frequentar o sebo para estar, de alguma forma, perto deles. É uma calúnia. Esses livros não me dão saudade. Vou lá para falar de futebol, beber uma cerveja, cantar sambas antigos. Porque a vida tem outras coisas muito boas.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no caderno "Prosa & Verso" do jornal O Globo, em 31 de outubro de 2009. Leia também "O curioso caso de Alberto Mussa".


Alberto Mussa
Rio de Janeiro, 15/2/2010

Quem leu este, também leu esse(s):
01. As letras de música de hoje de André Forastieri
02. O senhor embaixador de Adelto Gonçalves
03. Novos caminhos para a cultura de Mauro Dias
04. Onde botar os livros? de Ronaldo Correia de Brito
05. Música ainda é profissão? de Pena Schmidt


Mais Alberto Mussa
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
15/2/2010
19h27min
Bem interessante o relato. Compartilho do vício de querer abranger todos os livros do mundo com a minha mente - mesmo sabendo que isto é impossível, e também concordo que nossa língua é bela demais para qualquer lei ortográfica deturpá-la... Mas enfim, sou apenas uma jovem leitora!
[Leia outros Comentários de Gabi Silvestrini]
17/2/2010
17h40min
Posso não ter feito a mesma jornada do autor, pelo menos não em sua total envergadura, mas entendo perfeitamente a sua "saga literária": estou no mesmo processo de "desmonte". E viva os livros E a vida real!
[Leia outros Comentários de maria thereza amaral]
18/2/2010
23h52min
Sempre fui chamado de "eclético", por ter muitos e variados livros (2000) e filmes (700). E nunca entendi muito por que certas pessoas simplesmente não leem (sem serem analfabetas) e nem têm vontade de ler. Se alguém quiser desmontar sua biblioteca, aceito doações...
[Leia outros Comentários de Douglas Pescadinha]
25/2/2010
17h14min
Minha biblioteca não tem essas dimensões tão grandiosas, mas também estou passando por esse processo de "desmonte", pois percebi que, ultimamente, apenas tenho acumulado os livros - e não os leio como eles merecem, e como eu mereço. Mas, se fosse possível, eu gostaria de ter um prédio inteiro disponível, para armazenar todos os livros de todos os assuntos que me interessam...
[Leia outros Comentários de Cassia Silva]
30/6/2010
12h36min
Que artigo fantástico e abrangente. Acho que toda pessoa que gosta de ler deveria imprimir e guardar esse texto. A realização que tanto buscamos por meio da literatura parece estar muito além dela, como bem mostrou o nosso ensaísta. Parabéns, Sr. Mussa.
[Leia outros Comentários de João Batista]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.

Hedra
Editora Record
Nova Fronteira
MercadoLivre
Editora Francis
Editora Conteúdo
Civilização Brasileira
Bertrand Brasil
Madras Editora
Globo Livros
Cortez Editora
Intrínseca
WMF Martins Fontes
Companhia das Letras
José Olympio
Editora Perspectiva
Best Seller
LIVROS


REDAÇÃO OFICIAL PARA CONCURSOS


OS SEGREDOS DA AUTOCONFIANÇA


ZIRALDO NO PASQUIM


NOTAS SOBRE O ANARQUISMO


IMAGINE: CRESCENDO COM O MEU IRMÃO JONH LENNON


DEPENDÊNCIAS QUÍMICAS


A LINGUAGEM DAS COISAS


O TEMPO DAS CATÁSTROFES


CONSTRUINDO PLANOS DE EMPREENDIMENTOS


CAKE CHIC


A CONSTRUÇÃO DO PENSAMENTO E DA LINGUAGEM


SENTIMENTO DO MUNDO


ZAP COMIX


CELERIDADE PROCESSUAL COMO PRESSUPOSTO DA EFETIVIDADE DOS DIREITOS


ENCHENTES


busca | avançada
74455 visitas/dia
1,7 milhão/mês