O legado de Graciliano Ramos | Ronaldo Correia de Brito

busca | avançada
41731 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
>>> Leminski, estações da poesia, por R. G. Lopes
>>> Crônica em sustenido
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jesus não era cristão
>>> Analisando o Amazon Prime
>>> Amazon Prime no Brasil
>>> Censura na Bienal do Rio 2019
>>> Tocalivros
>>> Livro Alma Brasileira
>>> Steve Jobs em 1997
>>> Jeff Bezos em 2003
>>> Jack Ma e Elon Musk
>>> Marco Lisboa na Globonews
Últimos Posts
>>> O céu sem o azul
>>> Ofendículos
>>> Grito primal V
>>> Grito primal IV
>>> Inequações de um travesseiro
>>> Caroço
>>> Serial Killer
>>> O jardim e as flores
>>> Agradecer antes, para pedir depois
>>> Esse é o meu vovô
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Marco Lisboa na Globonews
>>> Bibliotecas públicas, escolares e particulares
>>> O Vendedor de Passados
>>> Entre a crise e o espectro do humor a favor
>>> Dicas para a criação de personagens na ficção
>>> Tiros, Pedras e Ocupação na USP
>>> Oficina de conto na AIC
>>> Crônica em sustenido
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> O julgamento do mensalão à sombra do caso Dreyfus
Mais Recentes
>>> O Papa e o Concílio de Janus pela Elos
>>> Cristianismo Rosacruz ( Em 02 volumes) de Max Heindel pela Kier (1913)
>>> A Grande pirâmide revela seu segredo de Roselis Von Sass pela Ordem do Graal na Terra (1972)
>>> Obras Interpretação Sintética do Apocalipse de Cairbar Schutel pela O Clarim (1943)
>>> Poesias Completas de Mário de Andrade pela Martins (1974)
>>> As Cruzadas - Livro 1 - a Caminho de Jerusalém de Jan Guillou pela Berttrand Brasil (2006)
>>> O Romance da Astrologia ( Em 03 volumes) de Omar Cardoso pela Iracema
>>> A Grande Caçada de Robert Jordan pela Intrinseca (2014)
>>> Livro Vermelho dos Pensamentos de Millôr de Millôr Fernandes pela Nordica (1974)
>>> Outra Você de Newton Tornaghi pela Rio de Janeiro (1977)
>>> Emagreça Comendo de Dr. Lair Ribeiro pela Objetiva (1993)
>>> Rosa e Lotus Invocações Espirituais de Molinero Yogakrisnanda pela Mandala
>>> Fim dos Tempos de Omar Cardoso pela Artenova (1975)
>>> magia y Sacrificio en la historia de las Religiones de H. Hubert y M. Mauss pela Lautaro (1946)
>>> Apenas uma Sombra de Mulher de Fernando do Ó pela Federação Espírita Brasileira (1950)
>>> Quando tudo falha de Rodolpho Belz pela Casa Publicadora Brasileira (1984)
>>> O Capataz de Salema / Antônio Conselheiro / Marechal, Boi de Carro de Joaquim Cardozo pela Agir/MEC (1975)
>>> La Isla Magia de W.B. Seabrook pela Cenit S.A. (1930)
>>> Un Nuevo Modelo Del Universo de Pedro Ouspensky pela Sol (1950)
>>> La Puerta ( Egipto) de Vários pela Obelisco (1990)
>>> Arpas Eternas (Em 03 volumes) de Hilarion de Monte Nebo pela Fraternidad Cristiana (1952)
>>> Muitas vidas muitos Mestres de Brian L. Weiss M.D. pela Salamandra (1991)
>>> O Sentido da Vida de Valfredo Tepe pela Mensageiro da Fé Ltda (1971)
>>> A aurora cósmica de Eric Chaisson pela Francisco Alves (1984)
>>> Deus Fala a seus Filhos de Elenore Beck pela Verbo Divino (1993)
>>> Encontro com a Alma Gêmea de Paulo Kronemberger pela Novo Milênio (1993)
>>> The Reincarnation Workbook de J.H. Brennan pela The Aquarian Press (1989)
>>> A Granja do Silêncio de Paul Bodier pela Federação Espírita Brasileira
>>> Os Astros Governam nossa Vida de Perpétuo Horário pela Pensamento
>>> La vida de Buda de A. Ferdinand Herold pela Lautaro (1944)
>>> Viagem no Tempo Expansão da Consciência Temporal de Colin Bennett pela Ediouro (1987)
>>> Fraternidade Rosacruz ( O enigma da vida e da morte) de Max Heindel pela Edição do Autor
>>> A L'Ombre des Monastères Thibétains de Jean M. Riviére pela Victor Attinger (1956)
>>> O Espirito Consolador de Padre V. Marchal pela Pensamento (1930)
>>> Los Misterios Rosacruces de Max Heindel pela Kier (1955)
>>> Rosa Cruz de Krumm Heller pela Kier (1944)
>>> Los Raja y Hatha Yogas de Ernesto Wood pela Schapire (1949)
>>> Autodefensa Psiquica de Dion Fortune pela Luiz Cárcamo (1979)
>>> Filosofia Elementar da Rosacruz Moderna de J. Van Rijckenborgh pela Lectorium Rosicrucianum (1975)
>>> Jesus (La Mision de Cristo) de Eduardo Schuré pela Victor Hugo (1944)
>>> Amor e Sabedoria de Emmanuel de Clovis Tavares pela Calvário (1970)
>>> Rosa Esoterica de Krumm Heller pela Kier (1938)
>>> Manual Informativo do Membro da Sociedade Teosófica de Armando Sales pela Sociedade Teosófica (1951)
>>> Cartas da prisão de Frei Betto pela Civilização Brasileira (1977)
>>> Los Antiguos Simbolos Sagrados de Ralph M. Lewis F.R.C. pela Suprema Gran Logica de Amorc (1950)
>>> El Hijo de Zanoni de Sévaka pela Mexicana (1975)
>>> Em Busca da Verdade de Ruth Montgomery pela Record (1967)
>>> Recolecciones de un Místico ( La Fraternidad Rosacruz) de Max Heindel pela Kier (1944)
>>> Enseñanzas de un Iniciado de Max Heindel pela Kier (1955)
>>> Principios Rosacruces de H. Hogar y los Negocios pela Gran Logica Suprema de Amorc (1929)
ENSAIOS

Segunda-feira, 19/10/2009
O legado de Graciliano Ramos
Ronaldo Correia de Brito

+ de 5100 Acessos

Em 1948, dez anos após a publicação de Vidas Secas, Homero Sena perguntou a Graciliano Ramos, numa entrevista:

― Acredita na permanência de sua obra?

E ele, um pessimista que reagiu ao convencionalismo da linguagem e sempre brigou com as palavras, convencido de que essa era uma briga essencial, de vida ou morte, respondeu amargo e com sinceridade:

― Não vale nada; a rigor até já desapareceu...

***

Nos setenta anos de publicação de Vidas Secas, o mais sereno e otimista dos romances de Graciliano, escrito sob o signo do silêncio como se tudo nele estivesse apenas velado, é possível reconhecer a permanência dessa cartilha de concisão. Permanência atestada não apenas na escritura do livro, mas nos autores brasileiros que surgiram posteriormente a ele e que se beneficiaram dos seus experimentos, pois Graciliano era um experimentador. Cada uma de suas obras é um tipo diferente de romance, como chamou atenção Aurélio Buarque de Holanda. Todas num estilo próprio, a linguagem trabalhada até a última possibilidade de apuro, mas sem ser literária num modo antigo, luso-brasileiro. Graciliano reagiu à impostura do convencionalismo da linguagem, tornou-se romancista da modernidade brasileira, por mais que tentem vinculá-lo ao naturalismo. Moderno, mas não "modernista", na conotação que ganhou o termo com os modernistas de São Paulo e do Rio de Janeiro.

Quando Vidas Secas foi publicado, em 1938, a técnica do escritor chegara ao máximo de pessoal, em quatro romances diferentes nos temas e na construção, mas que mantinham o mesmo estilo, "a mesma atitude filosófica perante o Homem, matéria prima da ficção", como observou Wilson Martins. De romance para romance ― Caetés (1933), São Bernardo (1934), Angústia (1938) ― Graciliano se desfaz gradualmente da carga de subjetivismo e angústia que o caracterizam, até que em Vidas Secas, que mais parece um livro de crônicas ou contos, alcança um alto grau de serenidade no estudo psicológico dos personagens: de Fabiano, de Sinhá Vitória, dos meninos, de Baleia e do soldado amarelo.

A paisagem sertaneja, quando descrita, é apenas para realçá-los. Ela só agrava o pessimismo do autor em relação ao mundo; acentua o silêncio das pessoas, que desaprenderam os modos de falar, único jeito de se livrarem de suas memórias. Os entraves de Fabiano, questionando a necessidade da fala, recriminando-se quando comete excessos, nada mais são que os questionamentos de Graciliano em torno da própria escrita, obcecado pela depuração, convencido de que o escritor luta menos com ideias do que com palavras. E que apenas por meio delas pode livrar-se do sofrimento da memória, mergulhando no esquecimento ao escrever.

***

Assumidamente avesso aos resultados da Semana de 22, Graciliano achava que os modernistas brasileiros confundiam o ambiente literário do país com a Academia e traçavam linhas divisórias, mas arbitrárias, entre o bom e o mau, querendo destruir tudo o que ficara para trás, condenando por ignorância ou safadeza muita coisa que merecia ser salva. Com a desconcertante franqueza de sempre, respondeu quando lhe perguntaram se era um "modernista": "Enquanto os rapazes de 22 promoviam seu movimentozinho, achava-me em Palmeira dos Índios, em pleno sertão alagoano, vendendo chita no balcão". Se o regionalismo criado por Gilberto Freyre em reação aos "modernistas" ajudou a polemizar a cena literária brasileira, também acentuou uma linha divisória que nunca se desfez, separando o Brasil em Nordeste e Sudeste.

Há quem se apegue ao uso que Graciliano faz de uma meia dúzia de vocábulos próprios do Nordeste ― que não poderiam ser outros, pois falsificariam Vidas Secas, para datar o romance ou classificá-lo como regionalista, num sentido que diminui sua grandeza. Desde o manifesto escrito por Gilberto Freyre, em que chama os modernistas de inimigos de toda espécie de tradicionalismo e de toda forma de regionalismo, confundem o movimento literário deflagrado por Freyre com regionalismo geográfico. Passaram a ser regionalistas, até os dias de hoje, os que escrevem fora da latitude sudeste, principalmente nordestinos, desde que refiram a linguagem e os cenários em que vivem. Uma danosa herança. Mesmo morando no Rio de Janeiro, a partir de 1937, Graciliano continuou emocionalmente vinculado à sua origem. Preferia o interior à cidade grande, e o contato íntimo com a terra e o povo. Reconhecia vir daí a força de escritores como Rachel de Queiroz, José Lins do Rego e Jorge Amado.

Sendo um dos escritores modernos que melhor manejaram o nosso idioma, convencido de que não há talento que resista à ignorância da língua, deixou o exemplo de luta e querência pela palavra, a escrita como um difícil exercício de construção em meio ao silêncio. Preocupou-se com o estilo, mas não inventou um idioma, como Guimarães Rosa. Sem forçar comparações, pois acredito que os movimentos literários surgem como sintonias de um tempo em vários espaços do mundo, por afinidades estéticas, filosóficas e outras afinidades, reconheço nas obras de Graciliano e do francês Albert Camus um traçado que os aproxima. Essa analogia surpreendente ou evidente foi registrada por Lourival Holanda no seu livro Sob o signo do silêncio. Ele escreve: "Não cabe inquirir influências: o contato de Camus com o Brasil foi mínimo e tardio; Graciliano é já maduro quando conhece Camus". No entanto, ambos captam as ondas de seu tempo, escrevem obras em que reverbera o social, e antecipam mudanças no espírito literário.

Qual o legado de Vidas Secas para a literatura brasileira, nesses 70 anos? São muitas as respostas. Tornou-se quase estereótipo referir a exatidão, as frases curtas e limpas de excessos humanos, o ritmo dado às frases, a escolha certa das palavras, a eliminação de tudo o que não é essencial. Porém, o maior legado de Vidas Secas é o de uma escrita em que é possível reconhecer a linguagem no processo de tornar-se literatura.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no Terra Magazine, em junho de 2009.

Para ir além






Ronaldo Correia de Brito
Recife, 19/10/2009

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Para o Daniel Piza. De uma leitora de Eugenia Zerbini
02. Morreu Vinicius de Moraes de Affonso Romano de Sant'Anna
03. A mídia e os escritores de Rubem Mauro Machado
04. Arquiteto de massas sonoras de Luís Antônio Giron
05. A Geração Paissandu de Ruy Castro


Mais Ronaldo Correia de Brito
Mais Acessados de Ronaldo Correia de Brito
01. Artistas não são pirados - 23/10/2006
02. Para onde estão me levando? - 3/1/2011
03. O legado de Graciliano Ramos - 19/10/2009
04. Onde botar os livros? - 28/6/2010
05. Entre o jornalismo e a academia - 21/12/2009


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




NUEVO LISTO - VOLUME ÚNICO - COM CADERNO DE EXAMES
ROBERTA AMENDOLA
SANTILLANA
(2012)
R$ 64,90



ASTROLOGIA: CIÊNCIA OU SUPERSTIÇÃO?
LINNEU HOFFMANN
MUSEU DA ASTRONOMIA
(1994)
R$ 31,28



SOMOS DA QUARTA COLÔNIA
RAFAELA VENDRUSCOLO
NOVAS EDIÇÕES ACADÊMICAS
R$ 419,00



QUAL É A TUA OBRA?
MARIO SERGIO CORTELLA
VOZES
(2007)
R$ 20,00



VIVER É CRISTO
R. W. GLEASON
VOZES
(1967)
R$ 10,00



PREVISÃO E CONTROLE DAS FUNDAÇÕES
URBANO RODRIGUEZ ALONSO
EDGARD BLUCHER
(1991)
R$ 43,00



JUCA JABUTI, DONA LEÔNCIA E A SUPERONÇA
ORIGENES LESSA
MODERNA
(1982)
R$ 8,00



A ÉTICA
ANGÈLE KREMER-MARIETTI
PAPIRUS
(1989)
R$ 18,00



BÓRGIA 2 VOLUMES
MICHEL ZEVACO
MINERVA
R$ 20,00



POLIEDRO ROMA 1965/66
MURILO MENDES
JOSÉ OLYMPIO
(1972)
R$ 50,00





busca | avançada
41731 visitas/dia
1,1 milhão/mês