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Quarta-feira, 5/1/2011
The Daily, de Rupert Murdoch, no iPad
Julio Daio Borges

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+ 1 Comentário(s)




Digestivo nº 475 >>> Com o advento da internet, a imprensa mundial passou de crítica de Rupert Murdoch a entusiasta do bilionário da Austrália. Se antes da Web, ele era pior que Kane, depois dela, ele passou a ser elogiado por (ainda) comprar jornais impressos e, ao enfrentar o Google, terminou apontado como redentor da velha mídia. A jornalistas de papel, desesperados por um salvador, simplesmente não ocorre que Murdoch tem duração finita, seu império não tem sucessor claro e, nas suas atitudes contra a nova mídia, ele pode estar sendo apenas senil. É verdade, Murdoch comprou o MySpace, numa tentativa de se estabelecer na internet, mas, desde então, a empresa perdeu sua liderança para o Facebook, afastou seus fundadores e deixou de ter interesse (até para o próprio Rupert). Como todo bom jornalista de papel, cego para as inovações e arraigado em seus velhos princípios, Murdoch não é capaz de conceber um mundo sem jornais e, aproveitando o modismo do iPad, quer fazer mais uma tentativa. Seu "jornal", se é que podemos intitulá-lo assim, já tem nome: The Daily, ou "O Diário" (merecendo, no nascedouro, um prêmio de originalidade). A ideia de Murdoch é "fechar" The Daily toda a noite e dispará-lo, na madrugada, para seus assinantes via iPad. O leitor amanheceria e, em vez de pegar o impresso (se é que ainda tem esse hábito), devoraria The Daily, no iPad, durante o café da manhã. Mudorch, como tantos outros jornalistas, ainda não percebeu que, no mundo digital, "fechar uma edição" não faz mais sentido. O mundo continua girando, o Twitter continua sendo atualizado (e até as homepages do portais), só The Daily chegaria com notícias envelhecidas. Outra coisa: como uma app (aplicação) fechada dentro do iPad, The Daily poderia talvez "lincar" para fora, mas nunca seria "lincado" na Web, pois não teria URLs, perdendo um dos maiores canais de divulgação agora, o boca a boca on-line. Para completar, alguém precisaria avisar a Murdoch, e aos jornalistas de papel, que o modelo, generalizante, de trabalhar com muitos "cadernos", perdeu seu apelo. Como tem de ser genérico, o jornal não se aprofunda em nada; mas a internet, como trabalha com nichos hiperespecializados, dá um banho na cobertura impressa, em várias "editorias", todos os dias. Ryan Tate, no Valleywag, enumerou essas e outras questões, que apontam para o fracasso de The Daily, desde novembro. Tate acrescenta que esse sonho de ser resgatado pelo iPad — como uma aplicação paga —, que todos os veículos impressos nutriram, nos EUA não se concretizou. A Wired, uma publicação supostamente antenada, partiu de 100 mil aplicações vendidas, na primeira semana, para menos de 30 mil, na última contagem (estamos falando de uma revista que costumava vender, impressa, 750 mil exemplares). Como se não bastasse, a conta não fecha: Murdoch quer, com sua antiga cabeça de "redação", contratar 100 jornalistas; mesmo que venda quase 20 vezes mais que a Wired no iPad, alcançaria pouco mais da metade dos milhões que sua redação consumiria (pelas contas de Ryan Tate). Para terminar, mesmo com o apoio de Steve Jobs (ele apoia qualquer coisa que venda mais iPads), a News Corp, como tantas empresas jornalísticas, não tem nenhum cérebro especializado em tecnologia. Talvez porque — como observaram Jay Rosen e Dave Winer, no melhor podcast sobre mídia atualmente — nenhum programador vai trocar ações do Google ou do Facebook por participações em mortos vivos como a Newsweek e o The Independent. Mas os jornalistas de papel, naturalmente, preferem morrer abraçados a Murdoch e a seu Titanic do que reconhecer a hegemonia da Web.
>>> Why the iPad Newspaper is Doomed
 
Julio Daio Borges
Editor

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COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
2/2/2011
15h35min
A vida é um conjunto de contradições que somente a dialética pode interpretar, virando-se do avesso. E essa questão dos novos trabalhos, os novos focos, é interessante, o caráter é mesmo informar. O que morre é a resistência do não transformar, embora a morte de uma forma de trabalho gere o nascimento de outra, mais criativa. Portanto, até a morte, neste caso, é dialética.
[Leia outros Comentários de Manoel Messias Perei]
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