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Quarta-feira, 11/3/2015
É mentira?
Marcio Acselrad
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A mentira
Mal vista por muitos como imoral, motivo de alertas sem fim a filhos rebeldes, a mentira é talvez o maior problema que se possa colocar à possibilidade universal de comunicação entre os homens. Habermas o sabia muito bem. Para podermos nos comunicar, é fundamental que partamos do princípio da honestidade recíproca. Afinal, como podemos saber se o outro está ou não dizendo a verdade? Neste sentido é exemplo lapidar o paradoxo de Epimênides. "Eu minto", disse ele. Com esta simples afirmação, desmonta qualquer possibilidade futura de diálogo. A partir deste momento, jamais saberemos se Epimênides é ou não digno de confiança. A frase é tão absurda que se desmente de todas as formas. Se Epimênides mente, então ao dizer que mente, está dizendo a verdade. Eu hein.
Quando falha o princípio moral da assumpção de verdade, a comunicação entra em crise e a diplomacia dá lugar à guerra. E, no entanto, quando se trata da arte em geral e das artes da narrativa em particular, a mentira não apenas não é punida como passa a ser valorizada, ansiada mesmo. Nosso desejo de sermos enganados é o que faz nossa espécie, por essência mentirosa, como veremos adiante, ter uma verdadeira compulsão universal pela narrativa. Dos mitos gregos e indígenas às páginas de Gabriel Garcia Marques e José Saramago, passando pelo teatro e pelo cinema, o que nos encanta e fascina é um mesmo desejo. Queremos ser enganados. Queremos que nos mintam.
Geralmente o mentiroso paga por sua mentira, às vezes com a própria vida. No caso de Sherazade, curiosamente, é o contrário que se dá. A personagem principal do clássico da literatura árabe faz da mentira sua forma de diplomacia, conquistando noite após noite um indulto sempre provisório. E assim termina por obter êxito, conseguindo finalmente o perdão do sultão. No meio tempo, ao longo das famosas mil e uma noites, entre uma narrativa e outra, engravida três vezes. Na milésima primeira noite Sherazade pede ao rei que não a sacrifique, utilizando inclusive a maternidade como argumento (estaria falando a verdade?). Como negar um tal pedido?
O sultão Schariar, por sua vez, representa nossa ânsia por estórias, nossa vontade interna de sermos enganados, nossa ingênua, talvez infantil, mas não inocente relação com toda forma de narrativa, de entretenimento. Tal como o sultão diante de Sherazade, também pedimos (ou exigimos) que nos entretenham, que nos ajudem a passar o tempo enquanto a morte não vem, que nos mintam que somos eternos. Pois se por um lado Sherazade precisa narrar para não morrer, o sultão também precisa da narrativa pelo mesmo motivo.
E assim acontece a cada vez que abrimos um livro ou vamos ao cinema ou teatro ou mesmo assistimos a um anúncio de televisão. "Me enganem", suplicamos. "Mintam para mim", exigimos. Pois literatura, cinema, teatro, enfim, o universo da arte é, em última instância, o universo da mentira consentida, da mentira desejada. A estética permite o que a moral condena. Neste sentido não apenas são dimensões diferentes, como lembrava Kant, mas verdadeiramente dimensões opostas da existência.
A relação entre o sultão e Sherazade também pode nos ajudar a entender melhor a relação de comunicação que estabelecemos em boa parte das situações que se nos apresentam. Trata-se da comunicação continuada, ininterrupta, possivelmente infinita (afinal mil e um é um número mágico, não é um número aleatório mas a representação mesma do infinito, do tempo do sem fim). Sherazade representa a possibilidade da comunicação plena, da perpetuação do diálogo e, conseqüentemente, da relação entre duas pessoas. Constantemente buscamos, de certo modo, reviver o mito em questão e a cada nova tentativa, um novo jogo se estabelece. Um jogo em que ganha quem consegue esticar ao máximo a conversa e a convivência, quem consegue evitar as armadilhas da rotina e do tédio e perpetuar a aventura da comunicação em narrativas inusitadas e originais.
A perspectiva evolucionista nos ensina que nada permanece por acaso. Se surge alguma novidade, qualquer que seja, em uma determinada espécie/indivíduo, imediatamente ela será posta a prova. E é uma prova de sangue, uma prova de vida ou morte. Se a novidade for benéfica, a espécie tornar-se-á mais apta a sobreviver. Caso contrário, estarão ambas, novidade e espécie, fadadas à desaparição, e delas não sobrará rastro. Não fomos nós a inventar tal regra, e muitas vezes buscamos subvertê-la. Afinal somos a espécie que inventou a consciência, esta ferramenta que, segundo Nietzsche, é o recurso dos que não dispõem de presas ou garras afiadas, não tem o pelo denso nem a pele grossa. A consciência, em suma, é a arma dos que não têm armas.
Neste sentido, é equivocada a crença generalizada de que a mente humana é apenas e tão somente uma ferramenta destinada ao auto-conhecimento e à busca da verdade. Aqui é o contrário que se dá. Como muitas vezes a verdade é prejudicial à sobrevivência do indivíduo e da espécie, ela deve ser utilizada estrategicamente, com moderação. Outras vezes deve ser simplesmente abandonada ou rejeitada. É difícil exigir de alguém que diga a verdade caso esta venha a prejudicar a si próprio ou àqueles que lhe são próximos. Sabemos bem o que seria de Sherazade se dissesse que não sabia contar estórias, que estava com dor de cabeça ou que não era mulher de se submeter aos caprichos de homem nenhum!
Nietzsche é bastante categórico a esse respeito: "No homem, a arte do disfarce chega a seu ápice; aqui o engano, o lisonjear, mentir e ludibriar, o falar por trás das costas, o representar, o viver em glória de empréstimo, o mascarar-se, a convenção dissimulante, o jogo teatral diante de outros e diante de si mesmo, em suma, o constante bater as asas em torno dessa única chama que é a vaidade, é a tal ponto a regra e a lei que quase nada é mais inconcebível do que como pôde aparecer entre os homens um honesto e puro impulso à verdade".
Juntamente com a crença de que somos feitos para encontrar e perpetuar a verdade, que reinou incólume por milênios até desmoronar em fins do século XIX, também merece menção a crença de que fomos feitos para nos auto-conhecer. Repare-se que Nietzsche diz "o jogo teatral diante de outros e diante de si mesmo". Desde a premissa do oráculo de Delfos, o célebre conhece-te a ti mesmo, encarnação do espírito socrático, até o desenvolvimento da psicologia científica, não fizemos outra coisa que tentar entender quem somos e o que estamos fazendo aqui. E uma resposta depende da outra. Não é possível conhecer o verdadeiro se antes não o encontramos em nós. Mas como fazê-lo? Filósofos, psicanalistas e angustiados em geral penam nesta busca.
Mas o professor David Livingstone Smith sugere que nem a busca e perpetuação da verdade nem o auto-conhecimento são naturais. "O engano é uma dimensão crucial de todas as associações humanas, sempre à espreita nos bastidores dos relacionamentos entre pais e filhos, maridos e esposas, empregados e empregadores, profissionais liberais e seus pacientes, governos e seus cidadãos". A verdade é opcional. A mentira, ao contrário, é obrigatória. Livingstone a define como "qualquer forma de comportamento cuja função seja fornecer aos outros informações falsas ou privá-los de informações verdadeiras." Aqui incluem-se fenômenos como o mimetismo, o silêncio, o sorriso forçado, as próteses de silicone, a maquiagem, o penteado do Alckmin e diversos tipos de falsidades verbais, escritas e virtuais.
O que queremos, portanto, não é a verdade mas tão somente suas conseqüências favoráveis, aquelas que conservam a existência. Nietzsche encontra Darwin. Dizer a verdade não é mais natural que mentir. Talvez mesmo seja menos natural, algo aprendido em nome da civilização, da confiança mútua, do espírito gregário. Se não dependêssemos tanto uns dos outros, muito provavelmente mentiríamos mais. E melhor. O problema da mentira, portanto, não é faltar com a verdade mas antes ser descoberto, ser desmascarado. Quando a máscara cái, fica evidente que somos todos egoístas, que mentimos para nos proteger e para nos perpetuar.
A revisão da questão da verdade e da mentira deve sua origem histórica dentro da filosofia ocidental ao movimento romântico que atravessou a Europa no século XVIII. A partir dos dilemas levantados pela filosofia kantiana, os românticos buscaram a compreensão dos fenômenos que a razão não era capaz de abarcar, tais como a vida, o sentimento, a natureza e a arte. Se desde seus primórdios gregos, o fundamento do pensar ocidental era considerado a busca do verdadeiro, o ser arrancado do caos sendo capaz de produzir um pensamento lógico, ao mesmo tempo o pensamento encontrava-se condenado a uma espécie de ilegalidade de todas as outras tentativas de acessar o mundo. A condição romântica buscou retirar a mística e a poesia da clandestinidade a que haviam sido lançadas pela filosofia.
A razão, diz Schiller em suas Cartas sobre a Educação Estética, tende a suprimir a natureza no homem a fim de fornecer-lhe aquilo que ele deveria possuir. É incapaz, no entanto, de substituir completamente a realidade física e social por uma realidade ideal, una e coesa. A natureza, e nesta inclui-se o homem, é múltipla e clama por multiplicidade. O homem vê-se assim dividido, tem de obedecer a dois chamados distintos e opostos, um real, físico, sensível; o outro ideal, formal, utópico. Seu objetivo será então conciliar, utilizando-se de sua liberdade, estes dois instintos contraditórios e buscar o que Schiller chama 'a beleza'.
Também exerceram influência no que dizia respeito às práticas morais do homem, discutindo a validade universal de se dizer a verdade. À proposta kantiana de que não se deve mentir jamais, responde Benjamin Constant: a verdade deve ser dita a quem merece. Para deixar claro seu ponto de vista, utiliza-se de uma situação hipotética. Suponha-se que um fugitivo acusado injustamente (por exemplo, um judeu fugindo dos nazistas) venha procurar abrigo em nossa casa e decidamos ajudá-lo. Em seguida seus perseguidores aparecem e perguntam se sabemos de seu paradeiro. Segundo a premissa kantiana, não podemos mentir e, portanto, devemos entregar o fugitivo. Constant afirma que agindo assim estaremos fazendo um mal, e que a mentira, neste caso particular, é benéfica e deve ser estimulada. Desta forma recoloca-se a ética como uma questão a ser resolvida caso a caso, e não com base em uma premissa universal, portanto válida para qualquer um em qualquer situação. Mentir ou não mentir, e mesmo a definição do que seja mentir, é algo que só pode ser decidido culturalmente. Com o romantismo, ressurge a força do particular, desta vez ancorada por um pensamento que leva em conta a individualidade.
Influenciado por tais idéias, o escritor americano Mark Twain realizou a seguinte experiência, que ele próprio trata de narrar: "Em uma ocasião me aproximei de um amigo meu, um homem dolorosamente propenso a dizer a verdade em todas as circunstâncias, incapaz de dizer uma mentira e o fiz escrever sua autobiografia, tanto para sua própria diversão quanto para a minha. Ele fez. O manuscrito poderia dar um livro soberbo, porém, ainda sendo um homem honrado em todos e cada um dos detalhes de sua vida que eu conhecia, no papel resultou ser um farsante formidável. Não podia evitá-lo. Não faz parte da natureza humana escrever a verdade sobre si mesmo". O problema levantado não é o da mentira proposital mas um, muito mais complexo, o do auto-engano. O amigo de Twain não é um trapaceiro, não mente para se dar bem na vida. Pior, mente sem saber. Mente para si mesmo. Por isso pode ser acusado de confuso ou mesmo insano.
E no entanto o mesmo ocorre conosco em grande parte das situações do convívio social. Boa parte das mentiras que contamos não seriam consideradas mentiras nem se fosse analisadas pormenorizadamente. Para as restantes diríamos: "São coisas sem importância", antes de rapidamente voltar nossa atenção para outro lado. São as chamadas "white lies", as mentirinhas inocentes tais como "seu cabelo está lindo" ou "a comida está ótima". Mas dizem muito sobre nossa essência.
Estas idéias afastam-se do ideal filosófico da busca da verdade, mas aproximam-se bastante da vida, da experiência cotidiana bem como da teoria da seleção natural. Alguém que diga a verdade não importa a que custo terá muita dificuldade de passar seus genes adiante. "Como todo sedutor sabe, honestidade e sucesso reprodutivo não são necessariamente bons amigos". Assim, curiosa e paradoxalmente, a verdade e a virtude nem sempre são a melhor escolha, apesar de tudo o que nos ensinam pais, educadores, filósofos e todos aqueles preocupados com nosso futuro. Sherazade que o diga.


Postado por Marcio Acselrad
Em 11/3/2015 às 16h44

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