A viuvez da palavra | Ezequiel Sena, BLOG

busca | avançada
30196 visitas/dia
1,4 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
BLOGS >>> Posts

Terça-feira, 14/2/2017
A viuvez da palavra
Ezequiel Sena

+ de 900 Acessos

Texto vencedor do Prêmio Nacional Assis Chateaubriand de Redação - 16ª edição/2010 -, em homenagem ao poeta Carlos Drummond de Andrade.

Pela fresta da janela entreaberta, côa-se uma luz fêmea, de manhã nascitura. Raio sorrateiro pousa rasante sobre “A Rosa do Povo” em cima da mesa desarrumada do escritório. Abre-se o livro, bebe-se o cálice diário de poesia.

Lá fora, o sol ladrilha o dia, escancarado em luzes e cores, e o calendário do relógio lembra que é 17 de agosto. Há 23 anos, morria Carlos Drummond de Andrade. De tão multifacetado, até dizem por aí que a morte emendou a Gramática: “Morreram Carlos Drummond de Andrade”.

Uma concordância ideológica para os tantos poetas que trazia em si. Morta Julieta, filha e razão da sua vida, coração se esvaziou, resolveu pedir licença, fechar a porta e ir-se, morrer-se. Nesta inusitada transitividade do verbo morrer – aí proposital – evoca-se o modernismo transgressor, de cujas águas, um dia, bebeu o poeta.

Farmacêutico por formação, jornalista por sobrevivência, poeta por sina, não mais gastaria “uma hora pensando num verso que a pena não quer escrever”. “Pássaro […] livre na prisão do ar”, por certo, poderá, agora, penetrar “surdamente o reino das palavras” à cata das suas íntimas parceiras numa metalinguagem recorrente.

Pois bem, sem Drummond sobra uma dormência no território das palavras: um tanto de viuvez, um tanto de deserto. Elas se recolhem dicionarizadas, cobertas de pó, expostas nas prateleiras, à espera de um demiurgo que as ressuscite, que as reinvente, que as desperte do estado letárgico de hibernação.

É verdade: palavras rasas se esgotam no estro de outro, menos no de Drummond, que lhes resgata um significado novo com a lógica de uma semiótica ousada. Sem ele, palavra é pássaro de gaiola, é terra lavada e estéril, perde a liga, não dá tijolo para o verso, mergulha-se na trivialidade do óbvio, perde o brilho da alegoria, não insufla de alma o poema.

Sem ele, palavras são velhas prostitutas que não suportam a luz da manhã a lhes expor as rugas, a lhes desmascarar o viço postiço de uma maquiagem barata. Sem Drummond, sobra um outono sombrio e temporão na estação dos versos. Vestiu palavras gastas com tecidos novos – chitas ou sedas – e fê-las crer-se vestais nunca dantes manipuladas, ataviadas em pedrarias.

Assim, rompeu-lhes a maldição de “estado de dicionário” e as dicotomias denotação/conotação, significado/sentido. Soprou-lhes espírito de animação e fê-las pairar como a onda antes de arrebentar-se nas pedras da escarpa e, assim, postarem-se coaguladas, num instante eterno, à espera que sua pena as colhesse na plenitude da essência para o cio alquímico do poema, espraiando-se num mar de significados e vida, pois que, de cara lavada, palavra não gesta poesia e descamba para a noite eterna da insignificância.

Palavra na tinta de Drummond é bicho vivo, pulsa, queima, sangra, veste-se das mais inimagináveis metáforas, para decantar a angústia humana nas cenas triviais de uma “vida besta, meu Deus”. Conquanto armado de misterioso alçapão de pegar momentos, o fazer poético em Drummond era uma quase contrição, tão natural como o germinar de sementes; tão despojado, a ponto de decantar a flor plebéia, tímida, insegura e amedrontada que “furou o asfalto, o tédio, o nojo, o ódio”. Tudo tinha a duração de uma vírgula pausando a eternidade de um minuto.

Drummond transitava entre o destecer de significados e o entretecer de outros, até que elas (as palavras) saltassem novinhas em folha para dentro do poema. Um mesmo vocábulo, corpo morto em lavra pobre, enraíza-se na seara do poeta e viça com vigor de ineditismo. Assim como, no dizer de Octávio Paz, “a pedra triunfa na escultura e humilha-se na escada, e a matéria, vencida ou deformada no utensílio, recupera seu esplendor na obra de arte”, na estética drummondiana, as palavras flutuam num campo semântico de sentidos vários, e se transubstanciam.

Hábil, Drummond sabia cortejar as emoções, de modo a cristalizá-las em versos, para o regalo e banquete do leitor. Há um abismo intransponível entre a poesia do momento e o ato de registrá-la, porque a matéria-prima do poema é etérea, fugaz, insubstancial, intangível, embora com intermitência de vaga-lume. Entanto, ante Carlos Drummond de Andrade, o fio do tempo – bicho arisco – estanca-se num coágulo poético, sem, paradoxalmente, deixar de fluir na sua sina e sede de eternidade.

Bem que Drummond poderia ter-se atido, tão somente, a decantar as mísulas das janelas barrocas, o cheiro de incenso fumegando nos turíbulos das novenas, a métrica dos pilões batendo cantigas nos quintais mineiros. Mas seu evangelho de versos era um tanto desmesurado a não caber no paroquialismo de sua aldeia. Havia de chegar, sim, o tempo do saudosismo, do tom afetuoso, em que, marcando sua poesia com o fogo da lembrança, “Itabira é apenas uma fotografia na parede”, a doer desatinada na alma do poeta, pois “Minas não há mais. José, e agora?”

O tom silencioso de “Infância”, a presença antitética da “preta velha No meio dia branco de luz”, a ingenuidade daquele “menino que ao sol posto perde a sabedoria das crianças” nem lhe davam conta de que sua “história era mais bonita que a de Robinson Crusoé”.

Drummond, uma caravela de seguidores navega nas águas abissais dos teus versos, vezes confessa como Adélia do Prado com “Quando nasci um anjo esbelto…”, vezes velada no “Brejo da Cruz” de Chico Buarque, vezes outras ignotas nos anônimos discípulos que fizeste. É fato que ainda há leiteiros, virgens ou não, varando a solidão das madrugadas; Minas cristalizadas nos retratos empoeirados de um casarão qualquer por entre montanhas num silêncio quase litúrgico; histórias de desamor em vestidos pendurados; josés perdidos na “Máquina do Mundo”; o tempo, em fatais, ainda “industrializa a esperança” de ano-novo; e a “Verdade”, recolhe-se na geometria das metades, num contínuo desafiar que a vejam “conforme seu capricho, sua ilusão, sua miopia”.

Na sua oblíqua relação com o “Bruxo do Cosme Velho”, teria Drummond herdado um jeito Capitu de trair as palavras, saindo de cena silenciosa e sorrateiramente? Ou foram elas que, por não acompanhá-lo, zanzam loucas de orfandade farejando “faces secretas sob a face neutra”? Quem se arriscaria a dizer?

O certo é que Drummond deixou viúva a palavra e não levou apenas “Alguma Poesia”, mas carregou consigo, entre “Versiprosa”, todo o “Sentimento do Mundo”.

(Texto gentilmente cedido pelo poeta: Esechias Araújo Lima)


Postado por Ezequiel Sena
Em 14/2/2017 às 10h04


Mais Ezequiel Sena, BLOG
Mais Digestivo Blogs
Ative seu Blog no Digestivo Cultural!

* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




O FANTASMA DE CANTERVILLE - COL REENCONTRO
RUBEM BRAGA, OSCAR WILDE
SCIPIONE
(2003)
R$ 9,90



BLOGS DO ALÉM
VITOR KNIJNIK
REALEJO
(2011)
R$ 35,00



O ESCONDERIJO
W. BARRET
CLUBE DO LIVRO
(1976)
R$ 13,00



O SOM DO OUTRO SINO, UM BREVIARIO LIBERAL
AFONSO ARINOS DE MELO FRANCO
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA SA
(1978)
R$ 8,00



OS 11 MISTÉRIOS DO UNIVERSO
REINALDO JOSÉ LOPES
ABRIL
(2014)
R$ 10,00



GRANDE ENCICLOPÉDIA LAROUSSE CULTURAL VOL. 14
VÁRIOS AUTORES
NOVA CULTURAL
(1999)
R$ 5,00



A CADEIRA VAZIA
JEFFERY DEAVER
RECORD
(2001)
R$ 15,00



A VIDA DO HOMEM E DA MULHER NO LAR
JAIME MONTEIRO DE BARROS
OFFICINAS GRAPHICAS ATC
(1938)
R$ 50,00



UM COMEDOR DE ÓPIO
CHARLES BAUDELAIRE
D. E. L
(1996)
R$ 10,00



COMPUTER BASED EXERCISES FOR SIGNAL PROCESSING USING MATLAB 5
JAMES H. MC CLELLAN- ALAN V.- RONALD W. SCHAFER
MATLAB
(1998)
R$ 49,90





busca | avançada
30196 visitas/dia
1,4 milhão/mês