O dinossauro de Augusto Monterroso | Marcelo Spalding | Digestivo Cultural

busca | avançada
21498 visitas/dia
708 mil/mês
Mais Recentes
>>> Mulheres detêm o poder do mundo em eletrizante romance de Naomi Alderman
>>> Comédia Homens no Divã faz curta temporada no Teatro Municipal Paulo Eiró
>>> Ballet Acadêmico da Bahia apresenta STAR DANCE no TCA, dia 07/06 às 20h
>>> Zé Eduardo faz apresentação no Teatro da Rotina, dia 30.05
>>> Revista busca artigos inspirados no trabalho de professores
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A Fera na Selva, filme de Paulo Betti
>>> Raio-X do imperialismo
>>> Cães, a fúria da pintura de Egas Francisco
>>> O Vendedor de Passados
>>> A confissão de Lúcio: as noites cariocas de Rangel
>>> Primavera para iniciantes
>>> Nobel, novo romance de Jacques Fux
>>> De Middangeard à Terra Média
>>> Dos sentidos secretos de cada coisa
>>> O pai da menina morta, romance de Tiago Ferro
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lançamentos em BH
>>> Lançamento paulistano do Álbum
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 2
>>> Ana Elisa Ribeiro lança Álbum
>>> Arte da Palavra em Pernambuco
>>> Conceição Evaristo em BH
>>> Regina Dalcastagné em BH
>>> Leitores e cibercultura
>>> Sarau Libertário em BH
>>> Psiu Poético em BH esta semana
Últimos Posts
>>> Lars Von Trier não foi feito para Cannes
>>> O brasileiro e a controvérsia
>>> Greve de caminhoneiros e estupidez econômica
>>> Publicando no Observatório de Alberto Dines
>>> Entre a esperança e a fé
>>> Tom Wolfe
>>> Terra e sonhos
>>> Que comece o espetáculo!
>>> A alforja de minha mãe
>>> Filosofia no colégio
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ao vivo do Roda Viva, pelo Twitter
>>> Os Eleitos, de Tom Wolfe
>>> O Bigode
>>> A dor do inexplicável
>>> Caiu na rede, virou social
>>> Davi, de Michelangelo: o corpo como Ideia
>>> Mas afinal, o que é podcasting?
>>> Contra um Mundo Melhor, de Luiz Felipe Pondé
>>> Nhô Guimarães
>>> Destaques da Mostra Internacional de Cinema
Mais Recentes
>>> Manual de direito penal brasileiro
>>> História das Literaturas- Teatro Vivo
>>> História das Literaturas-Noções ds Literaturas Volume 2
>>> Filoctetes
>>> Enquanto a noite não chega
>>> Contabilidade de custos facil
>>> Sociologia aplicada a administração
>>> História das Literaturas-Clareza e Mistério da Crítica
>>> O Negrinho do Pastoreio - Conto popular
>>> Machado de Assis- histórias mal contadas e outros assuntos
>>> Afrânio Coutinho - Romances Completos
>>> Novas Prioridades Para o Currículo
>>> Revista Brasileira de História Nº 48 - Produção e Divulgação
>>> Educação - Modernização ou Dependência?
>>> Vida e Educação
>>> Hard Times
>>> Aspectos da Formação Brasileira
>>> Ensino, Sua Técnica - Sua Arte - 3ª Edição
>>> Cotidiano e Diferentes Saberes
>>> Educação Para Uma Vida Criativa - 2ª Edição
>>> Oxigênio
>>> Bombardeiros da 2ª Guerra Volume 1
>>> A Guerra do Fim do Mundo - 2ª Edição
>>> No Wonder They Call Him The Savior
>>> Ophélia Speaks
>>> Gaudí
>>> Foto-Grafismo
>>> Arte Moderna no Salão Nacional 1940-1982
>>> The Assassin - The Explosive Badge of Honor Novel
>>> The Wonderful Wizard Of Oz - Penguin Popular Classics
>>> Tempo de Médico
>>> Um Guia Para os Remédios Florais do Dr. Bach
>>> The Rainmaker
>>> The Trailsman - Montana Fire Smoke Nº 130
>>> The Final Diagnosis
>>> A Queda da França Volume 3 - O Colapso da Terceira República
>>> A Queda da França Volume 2 - O Colapso da Terceira República
>>> A Queda da França Volume 1 - O Colapso da Terceira República
>>> O Romano
>>> Parati Entre Dois Pólos
>>> Cem Dias Entre Céu E Mar
>>> Parati Entre Dois Pólos
>>> Viagens internacionais - O Nomadismo da Conscienciologia
>>> Vagamundo
>>> Os Lusíadas
>>> História de Mayta
>>> Erros Médicos
>>> Aspectos do Antigo Egito
>>> Saúde Natural Para Mulheres Gravidas
>>> Um Liberal da República - Volume 1
COLUNAS

Terça-feira, 10/4/2007
O dinossauro de Augusto Monterroso
Marcelo Spalding

+ de 21900 Acessos
+ 3 Comentário(s)

Menos de cinqüenta letras: esse é o tamanho do texto mais famoso de Augusto Monterroso, "O dinossauro", que é também considerado o microconto mais famoso do mundo:

"Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá."

O texto tornou-se célebre porque foi a partir dele que se criou a onda dos microcontos, ou microrelatos, que temos vistos nos últimos anos, inclusive na literatura brasileira. Foi no texto de Monterroso, por exemplo, que Marcelino Freire se inspirou para organizar a antologia Os cem menores contos brasileiros do século. E neste último que Laís Chaffe e a Casa Verde se basearam para os Contos de bolso e Contos de bolsa.

Mas se o nome de Monterroso já tornou-se famoso, sua obra, sua biografia e sua história são absolutamente desconhecidas no Brasil, o que prejudica inclusive a interpretação desta pérola que é "O dinossauro".

Augusto Monterroso, hondurenho que foi ainda jovem para a Guatemala, fez carreira literária no México, para onde mudou-se em 1944, aos 23 anos, por motivos políticos. Seu primeiro livro foi publicado em 1959 com o curioso e irônico título Obras completas (y otros cuentos), o que já aponta para o estilo caricatural e satírico de sua obra. O conjunto de narrativas do livro de estréia é muito influenciado pela trajetória política do escritor, que utiliza o humor de maneira crítica para ressaltar situações de injustiça social e discriminação. Talvez por opção estética, talvez por estratégia literária diante de um período tão conturbado politicamente, já são marcas de suas narrativas a concisão, a brevidade, a caricatura e as referências cultas que o leitor não percebe numa primeira leitura. É nesta obra da metade do século que está publicado "O dinossauro".

Dez anos mais tarde, Monterroso publica outro livro com pequenas narrativas, mas desta vez as chama de fábulas: La oveja negra y demás fábulas. A obra, que ganhou edição brasileira pela Record, traduzida por Millôr Fernandes e ilustrada por Jaguar, em 1983, traz quarenta pequenas narrativas com feitio fabular que voltam a utilizar a paródia e o humor para fazer denúncias sociais, como em "O raio que caiu duas vezes no mesmo lugar" e no texto que dá título ao livro.

"O raio que caiu duas vezes no mesmo lugar" é o menor texto da edição, com 28 palavras - bem maior que "O dinossauro" - e conta de um raio que caiu duas vezes no mesmo lugar, mas ficou muito deprimido porque achou que, na primeira vez, já tinha feito estrago suficiente. "A ovelha negra", de 59 palavras, conta a história de uma ovelha negra fuzilada pelo rebanho em um país distante, rebanho este que, arrependido, lhe levantou uma estátua; a partir de então, sucessivamente, "cada vez que apareciam ovelhas negras eram rapidamente passadas pelas armas para que as futuras gerações de ovelhas comuns e vulgares pudessem se exercitar também na escultura".

Na orelha da edição da Record, nomes como Gabriel García Márquez, Carlos Fuentes e Isaac Asimov louvam o livro. O russo criado nos Estados Unidos, por exemplo, afirma que "os pequenos textos de Monterroso, aparentemente inofensivos, mordem os que deles se aproximam sem a devida cautela e deixam cicatrizes. (...) Depois de ler 'O macaco que quis ser escritor satírico' jamais voltarei a ser o mesmo".

O terceiro livro de Monterroso sai em 1972, Movimiento perpetuo, e se inicia com uma citação de Lope de Vega: "Quiero mudar de estilo y de razones". Depois de um livro de "contos" e outro de "fábulas", neste o que predomina são os ensaios ou reflexões literárias, ainda que a obra seja, como indica o título, um oscilar perpétuo entre distintos gêneros, pois como assegura o autor no prefácio o ensaio é um conto que pode inclusive se tornar um poema.

Nesta obra encontramos um texto particularmente interessante, com menos de uma página, chamado "La brevedad". No texto, Monterroso toca no ponto central de sua obra, a brevidade, surpreendendo, entretanto, quem dele esperava um manifesto contundente em defesa deste valor. Vejamos um bom trecho em tradução livre deste resenhista:

"Com freqüência escuto elogiar a brevidade e eu mesmo fico feliz quando ouço repetir que o bom, se breve, é duas vezes bom. Contudo (...) o escritor de brevidades nada anseia mais no mundo do que escrever interminavelmente grandes textos, grandes textos em que a imaginação não tenha que trabalhar, em que depois de feito, coisas, animais e homens se cruzem, se busquem ou fujam, vivam, convivam, se amem ou derramem livremente seu sangue sem se sujeitar ao ponto e vírgula, ao ponto. A este ponto que neste instante me é imposto por algo mais forte que eu, algo que respeito e que odeio."

Seis anos depois, Monterroso publica a novela Lo demás es silencio, única narrativa longa de sua vida, em que narra a vida de um escritor, Eduardo Torres, tido por alguns como alter-ego do próprio autor. Talvez seja a vitória do autor sobre o ponto e a vírgula ou a libertação política que o tenha permitido estender-se.

Claro que daqui do Brasil, onde não se tem acesso a obra de Monterroso, é difícil falar que a escrita elíptica e repleta de silêncios é uma forma de lidar com o conturbado período latino-americano, os anos sessenta de muita violência e repressão. Sabe-se, porém, que sua obra esconde numa aparente simplicidade e ingenuidade diversas referências cultas e provoca profundas reflexões no leitor, como já dissera Asimov. Ler "O dinossauro" como um reles jogo de linguagem, portanto, pode ser apenas metade da verdade do texto, que talvez esconda, a partir do substantivo dinossauro, o adjetivo jurássico que bem caberia a tantos governantes de então, jurássicos porque carnívoros, selvagens, violentos e antiquados, ainda que fortes e poderosos.

Não por acaso, antes de morrer em 7 de fevereiro de 2003, Monterroso foi condecorado com a Águila Azteca por seu aporte à cultura do México e viu sua obra fazer parte de coletâneas com os melhores livros do século XX em língua espanhola. Notícias, aliás, que me deixaram muito feliz, pois fica evidente que um bom texto, seja grande ou micro, só nasce de um grande autor.


Marcelo Spalding
Porto Alegre, 10/4/2007


Mais Marcelo Spalding
Mais Acessadas de Marcelo Spalding em 2007
01. Sexo, drogas e rock’n’roll - 27/3/2007
02. Vestibular, Dois Irmãos e Milton Hatoum - 31/7/2007
03. Com a palavra, as gordas, feias e mal amadas - 30/1/2007
04. Estrangeirismos, empréstimos ou neocolonialismo? - 1/5/2007
05. O dinossauro de Augusto Monterroso - 10/4/2007


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
10/4/2007
02h31min
Obrigada pela explanação. Apesar da brevidade (rs) consegui entender o espírito do autor, desconhecido por mim até então.
[Leia outros Comentários de Vanessa Beck]
10/4/2007
11h53min
Muito fascinante o seu texto. Já tinha ouvido e lido alguns breves trechos desse autor, em uma aula de filosofia, sobre a questão do tempo... Bem, obrigada, vou tentar achá-lo por aí, escondido em alguma livraria, quem sabe? Abraço, Adriana
[Leia outros Comentários de Adriana]
22/4/2008
20h18min
Este célebre da literatura realmente merece todo nosso apreço. De maneira lúdica e descontraída seus textos levam em consideração situações que a sociedade está passando. São críticas válidas para todas as pessoas pensantes. Gostaria de pode conhecer mais sobre o autor e suas obras.
[Leia outros Comentários de Jose A. Aguiar Gama]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




TODO RISCO, O OFÍCIO DA PAIXÃO
DAMÁRIO DACRUZ
LIVRO COM
(2012)
R$ 25,00



DIÁRIO DE UM ZUMBI DO MINECRAFT 3 - FÉRIAS DO TERROR
HOROBRINE BOOKS
SEXTANTE
(2015)
R$ 28,00
+ frete grátis



MODERNAS TÉCNICAS EMPRESARIAIS VOL. 6 TÉCNICAS DE LIDERANÇA
OSWALDO DORIA
GRAFIPAR
(1970)
R$ 8,26



O RABI DE BACHERACH
HEINRICH HEINE
HUCITEC
(1992)
R$ 10,00



MEGUILAT ESTER
BEGUM SCHMUL OSHER
LUBAVITCH
(2010)
R$ 25,00



CARTA VIVA SEM LENHA O FOGO SE APAGARÁ Nº 62
R. R. SOARES
IGREJA INTERNACIONAL DA GRAÇA DE DEUS
(2001)
R$ 3,00



COLEÇÃO OS PENSADORES: NIETZSCHE
NIETZSCHE
ABRIL CULTURAL
(1983)
R$ 20,00



TIEMPO CON SHAKESPEARE - MARIO RODRÍGUEZ ALEMÁN (EM ESPANHOL)
MARIO RODRÍGUEZ ALEMÁN
EDITORIAL LETRAS CUBANAS - CUBA
(1982)
R$ 25,00



MOISÉS
IVAN FRANKÓ
CIA BRASILEIRA ARTES GRAFICAS
(1981)
R$ 8,99



OS ENIGMAS DA SOBREVIVÊNCIA
JACQUES ALEXANDER
EDIÇÕES 70
(1977)
R$ 26,00





busca | avançada
21498 visitas/dia
708 mil/mês