Pequena poética do miniconto | Marcelo Spalding | Digestivo Cultural

busca | avançada
86234 visitas/dia
2,1 milhões/mês
Mais Recentes
>>> ZapMusic, primeiro streaming de músicos brasileiros, abre inscrições para violonistas
>>> Espetáculo de dança em homenagem à Villa-Lobos estreia nesta sexta
>>> Filó Machado comemora 70 anos de vida e 60 de carreira em show inédito com sexteto
>>> Série 8X HILDA tem sessões com leitura das peças As Aves da Noite e O Novo Sistema
>>> Festival Digital Curta Campos do Jordão chega a todo o território nacional com 564 filmes inscritos
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Um antigo romance de inverno
>>> O acerto de contas de Karl Ove Knausgĺrd
>>> Assim como o desejo se acende com uma qualquer mão
>>> Faça você mesmo: a história de um livro
>>> Da fatalidade do desejo
>>> Cuba e O Direito de Amar (3)
>>> Isto é para quando você vier
>>> 2021, o ano da inveja
>>> Pobre rua do Vale Formoso
>>> O que fazer com este corpo?
Colunistas
Últimos Posts
>>> Queen na pandemia
>>> Introducing Baden Powell and His Guitar
>>> Elon Musk no Clubhouse
>>> Mehmari, Salmaso e Milton Nascimento
>>> Gente feliz não escreve humor?
>>> A profissão de fé de um Livreiro
>>> O ar de uma teimosia
>>> Zuza Homem de Mello no Supertônica
>>> Para Ouvir Sylvia Telles
>>> Van Halen ao vivo em 1991
Últimos Posts
>>> A TETRALOGIA BUARQUEANA
>>> Bom de bico
>>> Diário oxigenado
>>> Canção corações separados
>>> Relógio de pulso
>>> Centopéia perambulante
>>> Fio desemcapado
>>> Verbo a(fiado)
>>> Janelário
>>> A vida é
Blogueiros
Mais Recentes
>>> De Auschwitz a ClubMed
>>> À propos de Nice (1930)
>>> Sonhos olímpicos nos Lençóis Maranhenses
>>> Lifestyle Media
>>> A voz de Svetlana em Paraty
>>> São João del-Rei
>>> Convite para as coisas que não aconteceram
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Where I End and You Begin
>>> Nós, os afogados, de Carsten Jensen
Mais Recentes
>>> São paulo , políticas públicas e habitação popular de Celine sachs pela Edusp (1999)
>>> Cidade de muros de Teresa pires do rio caldeira pela Edusp (2000)
>>> Por que democracia? de Francisco c weffort pela Brasiliense (1985)
>>> Por que democracia? de Francisco c weffort pela Brasiliense (1985)
>>> Da totalidade do lugar de Milton santos pela Edusp (2012)
>>> Região : espaço ,linguagem e poder de Jean rodrigues sales pela Alameda (2010)
>>> Economia política da urbanização de Paul singer pela Contexto (1998)
>>> Pequena história da agricultura brasileira de Tamás szmrecsányi pela Contexto (1998)
>>> Amêndoa de Nedjma pela Objetiva (2004)
>>> Tatu - Balão de Sônia Barros pela Alegria (2014)
>>> Papai! (Livro infantil) de Philippe Corentin pela Cosac Naify (2014)
>>> Documentos historicos municipais de Valeria agra pela C E H m (2011)
>>> Jurisdição Comunitária de Marcelino Meleu pela Lumen Juris (2014)
>>> O Estado e a Revolução de Lenin pela Expressão Popular (2007)
>>> Pedagogia e estética do teatro do oprimido: Marcas da arte teatral na gestão pública de Dodi Leal pela Hucitec (2015)
>>> Constitucionalismo Latino-Americano: Tendências Contemporâneas de Antonio Carlos Wolkmer , Milena Petters Melo pela Juruá (2013)
>>> Qu'est-ce que la démocratie? de Alain Touraine pela Le Livre de Poche (1997)
>>> Sobre a questão judaica de Karl Marx pela Boitempo (2010)
>>> O direito dos oprimidos de Boaventura de Sousa Santos pela Cortez (2015)
>>> La domination masculine de Pierre Bourdieu pela Éditions du Seuil (2002)
>>> Le citoyen de Marie Gaille (Apres.) pela Flammarion (1998)
>>> Le langage silencieux de Edward T. Hall pela Éditions du Seuil (2000)
>>> O 18 Brumário de Luis Bonaparte de Karl Marx pela Escriba (1968)
>>> Citoyenneté et politiques sociales de Annick Madec; Numa Murard pela Flammarion (1995)
>>> Sociologie de la vie politique française de Michel Offerlé pela La Découverte (2004)
COLUNAS

Terça-feira, 20/2/2007
Pequena poética do miniconto
Marcelo Spalding

+ de 23200 Acessos
+ 5 Comentário(s)

Você certamente já leu um miniconto e possivelmente já escreveu um. Miniconto é um tipo de conto muito pequeno, digamos que com no máximo uma página, ou um parágrafo. Alguns dizem que ele é o primo mais novo do poema em prosa, outros apontam as fábulas chinesas como origem, de certo é que desde meados do século XX o conto tem experimentado - com sucesso - formas extremamente breves a partir de textos de gente como Cortázar, Borges, Kafka, Arreola, Monterroso e Trevisan.

Nos últimos anos este tipo de ficção ganhou muito espaço na literatura de diversos países. Nos Estados Unidos, antologias sucessivas foram lançadas com textos cada vez menores culminando na chamada microfiction, cuja antologia inaugural reúne textos de até 300 palavras. A literatura latino-americana, responsável pela difusão inicial do gênero, tem não apenas apresentado antologias como também estudos acadêmicos acerca do que eles chamam de "microrelato". É de um hispano-americano, o guatemalteco Augusto Monterroso, o micro mais famoso:

Quando acordou, o dinossauro ainda estava lá. E de outro latino-americano, o mexicano Juan José Arreola, o meu preferido:

"CONTO DE HORROR"
A mulher que amei se transformou em fantasma. Eu sou o lugar das aparições.
No Brasil, há uma grande quantidade de autores publicando livros com ou exclusivamente de minicontos: o pioneiro Ah, é?, de Dalton Trevisan (1994), Contos Contidos, de Maria Lúcia Simões (1996), O filantropo, de Rodrigo Naves (1998), Pérolas no decote, de Pólita Gonçalves (1998), Passaporte, de Fernando Bonassi (2001), Coração aos pulos, de Carlos Herculano Lopes (2001), Eles eram muitos cavalos, de Luiz Rufatto (2001), Mínimos Múltiplos Comuns, de João Gilberto Noll (2003), Os cem menores contos brasileiros do século, organizado por Marcelino Freire (2004), Ao homem que não me quis, de Ivana Arruda Leite (2005), Tentando entender Monterroso, de Luiz Arraes (2005), A milésima segunda noite, de Fausto Wolff (2005), Contos de Bolso e Contos de Bolsa, da Casa Verde (2005 e 2006), Curta-Metragem e Expresso 600, de Edson Rossatto (2006), Entre Duas Mortes, organizado por Frederico Alberti (2006), entre tantos outros. Há inclusive um livro de minicontos juvenis, do competente e criativo gaúcho Leonardo Brasiliense, Adeus conto de fadas (2006), que ao testar esta estética com outro público comprovou a flexibilidade do miniconto e a possibilidade de o tratarmos como um gênero (da mesma forma que os poetas tratam como gênero o haicai).

Devido ao seu formato enxuto e de rápida leitura, o miniconto se tornou um gênero cultivado não apenas pelos leitores como também pelos escritores das novas gerações, seduzidos pela (aparente) facilidade de se escrever um bom miniconto. Só aparente. Aqui nesta pretensiosa poética pretendo demonstrar como algumas regras são, se não fundamentais, bastante indicadas para que um miniconto funcione.

Concisão

A velha insônia tossiu três da manhã.
Dalton Trevisan (Ah, É?, 1994)
Ser breve e ser conciso são coisas diferentes. O miniconto precisa ser conciso, mais do que breve. Nesse sentido não deveríamos falar de um limite de número de letras, palavras ou páginas para o miniconto, e sim num limite conceitual. A história que ele conta precisa caber exatamente naquele pequeno tamanho, não mais, não menos. Não pode-se atrofiar uma narrativa, tampouco espichá-la. Por isso nem todos os temas e enfoques podem ser transformados em miniconto. Na verdade, raros o podem. Uma tosse às três da manhã pode ser a superfície de um miniconto; a insônia, não.

Narratividade

Caiu da escada e foi para o andar de cima.
Adrienne Myrtes (Os cem menores..., 2004)
Se a brevidade originada pela concisão diferencia o mini do conto tradicional, é a narratividade que primeiro diferencia o miniconto do haicai ou do poema em prosa (que não necessariamente são narrativos, ainda que possam sê-lo). Ser narrativo significa, por óbvio, narrar algo, contar a passagem de uma personagem de um estado a outro, implicitamente (como no mini do Trevisan) ou explicitamente (como neste exemplo da Adrienne). Sem essa narratividade, corre-se sempre o risco de fazer uma simples descrição de cena em vez de um miniconto.

Efeito

"TV NO QUARTO"
E os pais na sala, assistindo a um documentário sobre os dramas da adolescência.
Leonardo Brasiliense (Adeus conto de fadas, 2006)
O grande mestre do conto moderno, Edgar Allan Poe, talvez tenha sido quem primeiro colocou o efeito pretendido no topo dos objetivos do escritor. Ainda hoje é considerado um bom conto aquele que consegue provocar algo no leitor, seja medo, compaixão ou reflexão. Quando temos uma simples descrição, não chega a ocorrer no leitor este efeito, por menor que seja, enquanto em uma narrativa como a do Leonardo Brasiliense o leitor não tem como não pensar na sua adolescência ou na sua atitude com os próprios filhos.

Abertura

Um vida inteira pela frente. O tiro veio por trás.
Cíntia Moscovich (Os cem menores..., 2004)
Como pode um texto tão pequeno provocar efeito em quem lê? A resposta está no próprio agente da questão: o leitor. À Cíntia coube contar a história de uma pessoa que morreu assassinada numa representação contundente da banalização da vida. Mas se a vítima é um homem, uma mulher, gorda, magra, nova, velha, se mora na cidade, no campo, noutro país, se era bandido ou mocinho, amante ou amado, casto ou tarado, nada disso está dito, cabe ao leitor preencher as lacunas a partir de seus conceitos e experiências. Muito possivelmente um leitor urbano como nós verá aí uma ironia com a insegurança que ceifa a vida de tantos jovens. Mas talvez um trabalhador suburbano veja a covardia de quem mata pelas costas, e não o futuro perdido por quem morre. Essa abertura é uma das riquezas do conto potencializada no miniconto.

Exatidão

"AVENTURA"
Nasceu.
Luís Dill (Contos de Bolso, 2005)
Tudo bem que a abertura do texto para o leitor seja aspecto fundamental do miniconto, mas é importante que o autor seja suficientemente claro para criar o efeito desejado no leitor, e não seu oposto, sob o risco de não ser compreendido. Para tanto a escolha de cada palavra em cada posição é fundamental, quase como em um poema, pois disso depende o sucesso ou não da narrativa. Se Cíntia Moscovich escrevesse "Teria sido um ótimo escritor, mas o tiro veio por trás" o texto perderia seu recurso estético causado pela oposição frente/trás, vida/morte, comprometendo até o efeito semântico. Mesma coisa, e mais ainda, no texto "Aventura", do Dill. Não sei se existem outras duas palavras que se casem tão bem para formar uma narrativa instigante, aberta e ao mesmo tempo repleta de significados como esta. São apenas duas palavras, quinze caracteres tão bem dispostos que é difícil não sentirmos seu efeito. E percebermos ali o cerne do conto e da literatura.

Nota do Editor
Leia também "Micronarrativa e pornografia"


Marcelo Spalding
Porto Alegre, 20/2/2007


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Entrevista com Dante Ramon Ledesma de Celso A. Uequed Pitol


Mais Marcelo Spalding
Mais Acessadas de Marcelo Spalding em 2007
01. Sexo, drogas e rock’n’roll - 27/3/2007
02. O dinossauro de Augusto Monterroso - 10/4/2007
03. Vestibular, Dois Irmãos e Milton Hatoum - 31/7/2007
04. Com a palavra, as gordas, feias e mal amadas - 30/1/2007
05. Estrangeirismos, empréstimos ou neocolonialismo? - 1/5/2007


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
21/2/2007
11h35min
Sem dúvida, o miniconto, quando bem escrito, é um colírio para o coração. É como os hai-kais: têm que ser perfeitos, com as palavras certas, para dar um tiro certeiro na alma. Parabéns pelo seu texto. Abraço. Adriana
[Leia outros Comentários de Adriana]
23/2/2007
19h51min
Pois é Marcelo, sou viciada em minicontos. Também gosto de haikais, mas sou apaixonada mesmo por POETRIX. Diferente do haikai o POETRIX, apesar de ser também um terceto, permite título, rimas, temas urbanos, metáforas, e até 30 sílabas métricas. Foi criado pelo poeta baiano Goulart Gomes. Abraço meu.
[Leia outros Comentários de Ana Mello]
28/2/2007
03h58min
Marcelo, tu sempre passando teus conhecimentos adiante, né?!!! Obrigada por existires, por seres tão competente e amigo. Obrigada por suportar minhas dúvidas, inseguranças; meus "desconheceres". Quero deixar registrado aqui o quanto as dicas do Sr. Marcelo são eficazes, queridas e muito bem-vindas. Ao restante dos "Super" profissionais do DIGESTIVO, parabéns!!! Que bom que o Marcelo é um de vocês!
[Leia outros Comentários de Maira Knop]
28/2/2007
18h34min
Na correria diária da nossa vida nada como poder absorver essas pequenas delícias da literatura. Parabéns pelo texto e por ter lembrado de escrever sobre o que gosto tanto, ou seja, minicontos, haicais, Poe...
[Leia outros Comentários de Rose Peixer]
13/3/2007
15h17min
Sempre gostei de contos curtos, haicais (amo os do Leminski), versos minúsculos, um parágrafo de crítica. E a sensibilidade de Spalding reforça, agora, minha opinião diante dos prolixos...
[Leia outros Comentários de Chuchi Silva]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Viva Agora Envelheça Depois
Isadore Rosenfeld
Unesp
(2002)
R$ 10,00



Fim de Viagem, Começo de Vida
Rosa Ghelman
Oficina do Livro (rj)
(2003)
R$ 22,82



Ontem Á Noite era 6ª Feira
Roberto Drummond
Siciliano
(1991)
R$ 5,00



Morte na Rua Hickory
Agatha Christie
Nova Fronteira
(1974)
R$ 10,00



A Vida e Obra de Santo Expedito
Vários
Canaã
R$ 10,00



Terror na Festa - Série Vaga Lume
Janaina Amado
Atica
(2003)
R$ 9,42



Psicologia, Revista da Associação Portuguesa de Psicologia, Viver N...
Alexandre Castro Caldas
Afrontamento
(1988)
R$ 28,32



Os Mortos - Vivos - Volume 01
Robert Kirkman
Hqm
(2006)
R$ 19,90



Señas Diccionario para La Enseñanza de La
Universidade de Alcalá de Henares
Martins Fontes
(2001)
R$ 70,00



Estadística y Su Aplicacion Al Comercio
A. Lester Boddington
Labor
(1936)
R$ 39,00





busca | avançada
86234 visitas/dia
2,1 milhões/mês