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Quarta-feira, 9/5/2007
Não há outro como Fraga
José Ricardo Manini

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Nas vésperas do lançamento de material inédito, o escritor carioca permanece como lenda

Estupefato e assombrado, Antônio Fraga acordou sua esposa no meio de uma madrugada qualquer. "Consegui medir o universo!", exclamou. Podia ser um sinal de insanidade. Não para ele, que nunca quis mais do que entender o mundo, desenhá-lo em palavras e invadiu culturas diversas sem mesmo uma moeda no bolso. Poliglota, intelectual e malandro, Fraga era a própria poesia, o próprio texto, vivido e escrito nos quase mesmos segundos.

Fraga bateu as botas em mil-novecentos-e-noventa-e-três. Mas, como ele conta em Desabrigo (Relume Dumará, 1999, 120 págs.), seu único trabalho disponível, seu personagem "Evêmero bateu a bota em mil-novecentos-e-quarenta-e-dois". Evêmero, que, em Desabrigo, representa Fraga, pensava em escrever um livro. Dizia:

"'...vou escrever ele todo em gíria pra arreliar um porrilhão de gente Os anatoles vão me esculhambar Mas se me der na telha usar a ausência de pontuação ou fazer as preposições ir parar na quirica das donzelinhas cheias de nove-horas ou gastar a sintaxe avacalhada que dá gosto do nosso povo não tenho modo nenhum que dar satisfações a qualquer sacanocrata não acha?'". Fraga não é apenas Evêmero na obra. Cobrinha, um malandro de passos esguios, apelido que o escritor recebera de um delegado de polícia, também.

De Oswald de Andrade, Fraga ganhou elogios. "Na prosa a maturidade está aí, em Clarice Lispector, em Guimarães Rosa, em Antônio Fraga". De Antônio Callado, um momento histórico. "Retiro hoje da estante o pequeno livro e recupero, mal leio as primeiras palavras, a mesma impressão de descoberta, o mesmo prazer do texto que senti na leitura de há quase meio século. O Fraga foi um pioneiro". De João Antônio, admiração profunda. "Acho que o desconcertante Fraga, de talento explosivo em 1942, ano real em que escreve Desabrigo, flagra toda uma mentirada de política literária, tida como cultural e representativa do país".

"É um dos livros mais interessantes já escritos sobre o Rio de Janeiro", opina João Carlos Rodrigues, pesquisador da obra de João do Rio, outro a falar sobre "a alma encantadora das ruas". Quando foi lançado, em 1945, Fraga escandalizou os bons costumes por trazer um novo mundo para as páginas da literatura nacional. Não incomodou em vão - pela primeira vez, um escritor brasileiro unia os contrastes nacionais em uma novela experimental, na qual quebrava a sintaxe da língua portuguesa como as quebradas da vida impõem nas falas dos populares. O impacto foi tão forte que as livrarias se recusaram a vender Desabrigo. O autor foi vendê-lo nas ruas. Na Cinelândia, lia trechos em voz alta dentro do bonde e descumpria as regras do capitalismo. "Um livro, cinco mil réis. Dois, quatro mil! Com autógrafo, dois mil!", anunciava. "A assinatura de um homem não vale nada", repetia. Vendeu todos os mil exemplares.

As livrarias não o recusarão em breve quando Fragamentos, com material inédito do autor, aportar pela José Olympio. Enquanto isso, Moinho E..., uma poesia épica, com apenas uma edição, em 1978, é disputada por duas editoras cariocas, e uma espécie de biografia, escrita pela pesquisadora Maria Célia dos Reis, a primeira a se debruçar sobre sua obra, é cuidadosamente preparada. Ao que parece, o autor finalmente chegará aos leitores, como sempre quis, mas nunca conseguiu. Ficou à margem. "Marginal é quem vê a sociedade como uma coisa injusta, safada, e não se integra a ela", explicava.

Fraga enxergou as primeiras luzes da vida no Rio, perto de onde o samba se criou. "No momento em que surgi no mundo, pegaram dentro da nossa casa um ladrão. Quer dizer, já tinha marginal querendo saber quem era esse tal de Fraga". Ao lado da nata da malandragem carioca e com a pobreza a invadir seus passos, ele aprendeu logo a não ser otário. Vestia-se como queria, morava onde podia, falava com quem desejava. Impunha-se.

Havia quem reclamasse de sua gravata furada, marca de cigarro acesso, e da camisa manchada de líquido que ali caíra. Fraga então perguntava: "Você é tintureiro? Está interessado em mim ou em como me visto?", entre a estupidez cômica e a ironia corrosiva, forma de crítica à sociedade de consumo que queria a embalagem. Fraga queria essência.

Na infância, invadiu a cultura sozinho, em uma sala cheia de livros, na qual trancavam-no depois das aulas. Fez só até a terceira série. Sua mãe trabalhava, seu pai abandonara a família. "Era anarquista. Passou para a direita porque já tinha dinheiro suficiente para isso. Então trocou uma mulher de quarenta anos por duas de vinte e botou os filhos na rua", lembrava. Antes dos 18, Fraga cansou de morar com a mãe e foi viver no Mangue, em um bordel, convidado pelas prostitutas. Um delegado ameaçou prendê-lo se não saísse dali. Nervoso, foi acalmado pela cafetina, polaca e judia, como contava. "Olha Cobrinha, você não ser processada porque você menor de idade. Você meio burrinha". "Foi aí que eu aprendi que todo marginal tem a lei na cabeça. São os maiores conhecedores da jurisprudência". Tempo depois, Cobrinha cansou do Rio de Janeiro. Resolveu subir o país a pé.

No caminho, dormiu nas casas de desconhecidos, que cediam camas em trocas de orações de sua autoria. Da autoria de um ateu. Andou quilômetros: nas Minas do Morro Velho, sul das Gerais, virou mineiro. Trabalhava dias sim, dias não, já que o pó perturbava seus pulmões e o obrigava a não permanecer ali dentro. Em Goiás, foi garimpeiro. No meio dos anos 30, Fraga enxergou ouro. De volta ao Rio, tornou-se escritor. Encontrou sua jazida nas ruas e casas velhas do centro da cidade, em meio a prostitutas, fumo e bebidas ao cair da noite. "É preciso entender que não fui ao Mangue como um intelectual, fui como um miserável, um sujeito tangido por necessidades", cansou de dizer. Não era mera curiosidade.

"Os intelectuais da época visitavam o Mangue como visitavam uma terra estranha. O Chico Buarque fez a Ópera do Malandro. Mas ele é um rapaz da Zona Sul, aliás, nem tem culpa disso. Tem uma cena onde um personagem diz: 'Vou botar você no Mangue. Vai ficar entre aquelas mulheres baratas'. Coitado! Ele acha que aquilo é uma queda. Mas, na verdade, tudo é rodízio. A mulher sabe que um dia ela se vende por cinco, no outro ela se vende por trinta. O Chico Buarque consultou os teóricos da prostituição, aqueles que não viveram o problema para poderem opinar".

Nas vielas estreitas e próximas à Tijuca, Fraga vendeu siris para ganhar trocados. No meio de mulheres a venderem seus corpos e homens cheios de esperteza e malícia, chamavam-no de "Professor". Os livros preenchiam suas horas vagas junto aos problemas que todos ali enfrentavam: fome, preconceito, indiferença. Havia de levar com humor. Mas era inevitável que as cenas aparecessem no livro com o qual sonhava.

Fome, no diálogo entre os malandros Miquimba e Cobrinha:

"- Vais dizer que não sabes que eu sou o cobrinha?
- Ué!... É mesmo gente! Mas tu não era maneta!
- Ah! Isso é uma história da fome! Tem um porrão de tempo que não pego gordura e cobrinha pegou a dizer que um dia começou a pensar que a mão dele bem que podia ser um mamão (que bom seria se a minha mão fosse um mamão) e pegou a mastigar em seco para tapiar o estômago Em seco? Viu que tinha engulido mesmo uma coisa e vai ver tinha sido o dedo Agora tava só com o cotoco do braço".

Preconceito, no dizer de um intelectual, que visita um bordel e comenta com Evêmero: "Parece que saímos dum outro mundo não? Que ambiente antinatural! E que linguajar!". Indiferença em todas as páginas.

Anos antes de lançar o livro, Fraga começou a freqüentar o Vermelhinho, na Cinelândia, em que a intelectualidade se reunia em noites encharcadas de cerveja e de opinião. Tornou-se amigo de Djanira, Mário Pedrosa, Antônio Houaiss e uma infinidade de outros mestres. Junto com Antônio Olinto, hoje da Academia Brasileira de Letras, fundou a editora Macunaíma e o grupo modernista Malraux. Numa noite próxima ao fim de 1945, discutiam o governo Vargas quando rumores começaram a circular que Getúlio renunciara. Desceram até a praça, lotada de gente, para terem certeza do fim do governo autoritário.

Certo dia, quando Houaiss estava sentado a uma mesa próxima, Fraga denunciava, como sempre fazia, o "ciclo mineiro". "O Drummond elogia o Guimarães Rosa. Daí o Guimarães elogia o Otto Lara Rezende. Daí o Otto elogia o Fernando Sabino, que elogia o Drummond", repetia, cada vez com uma ordem diferente dos nomes. Houaiss irritou-se, o que não era difícil de acontecer quando Fraga criticava alguém. "E ele criticava todo mundo. Menos os mortos e o Guimarães Rosa", ri sua viúva, Terezinha Manga.

Desde o início dos anos 40, Fraga não vivia mais no Mangue - estava instalado em uma pensão barata ainda no centro do Rio, mas não reclamava: "Sou modesto, não sou pobre". Ganhava um salário como redator da Rádio Vera Cruz e, logo após, como ajudante de cozinha do Hotel Glória. Ficou amigo de um chef francês e aprimorava o idioma estrangeiro, assim como já dominava o alemão, o italiano, o inglês e o grego, este ao menos para leitura.

A editora Macunaíma não deu certo, tampouco o grupo Malraux sobreviveu ao passar dos anos. Antes de sumir até das ruínas da história oficial, o grupo programou uma "Exposição Pública de Poesia", a primeira no mundo. Também editou Sintonizações do Cérebro Experimental, com comentários poéticos e irônicos de Fraga sobre o mundo.

Estados Unidos: "Antes, porém, Einstein perguntara ao mundo inteiro: 'Tempo é espaço?' 'Não', respondeu Ford através duma buzina. 'Time is money!'." Itália: "Mafarka, il futurista, inventor da parole in liberta, velozmente acrescenta: 'GUERRA, SOLA IGIENE DEL MONDO'." França: 'Le style est l´homme même: liberte, egalité, fraternité et guillotine!'." Irlanda: "Wilde and B. Shaw and Joyce IRLANDA! Ulisses odisseando nas ruas de Dublin. Talento da Inglaterra: IRLANDA! IRLANDA! IRLANDA!".

Em uma noite de 1949, Fraga foi ao teatro, como costumava. No palco, uma atriz lhe chamou a atenção pela beleza e pelo jeito. Pediu ao amigo: "Fotografa ela!", e emendou "Vou ganhar essa mulher para mim". Não demorou muito para que ele e Terezinha engatassem um namoro, contra a família da moça. Não a queriam com um homem 19 anos mais velho e que morava em um local como aquele. Ela, esperta, preferiu fugir de casa a perder o namorado. Foram para o Vermelhinho. Djanira surpreendeu-se: "Quem é essa moça, Fraga?" "É minha mulher", ele anunciou. "Sua mulher?!". De lá, sem ter para onde ir, sem poder levá-la para a pensão que só aceitava homens, rumaram para a casa da pintora, onde moraram por algum tempo.

Na década de 50, os empregos para Fraga rareavam. Faltava dinheiro, e os filhos que chegavam o deixavam cada mais preocupado com a pobreza. Resolveu sair do Rio, mudou-se para Queimados, em Nova Iguaçu, local paupérrimo, de casas pequenas e muito simples. Ao mesmo tempo, preferia seguir à margem: só desejava escrever e recusava trabalhar em bicos que nada lhe acrescentassem. No começo dos anos 60, adoeceu. Não tinha sequer como sair de casa e a família passaria fome se nada fosse feito. Sua mulher estava grávida, mas foi ela quem juntou algumas mercadorias e foi vendê-las, nas ruas do Rio de Janeiro, como camelô.

"Quanto é que custa?", um homem perguntou. "Que custa o que?", ela respondeu. "Tudo". Desconfiada, Terezinha avisou que, se ele fosse policial, podia levar tudo o que ali estava porque no outro dia ela voltaria a vender em outro local, já que o seu marido precisava dela. "Eu conheço o seu marido", respondeu o homem, antes de lhe dar dinheiro e um cartão. "Passe amanhã neste local que te dou um emprego".

A situação de Fraga chegou ao ouvido de velhos amigos, que passaram a enviar a Fraga algum dinheiro, necessário para que a família não passasse por dificuldades mais sérias. No começo dos anos 70, Antônio Houaiss e Antônio Callado organizaram um leilão de arte em benefício do escritor, com quadros e esculturas de artistas como Ana Letycia e Lazarrini. A moeda que chegou não deu para comprar uma casa em Queimados. A família desconfia até hoje que alguém tenha usurpado boa parte do dinheiro. Enquanto isso, Fraga escrevia.

Nos maços de cigarros já fumados, que Fraga dobrava para poder escrever do lado de dentro, peças de teatro, poesias e alguns contos foram criados. Havia também pornoesias, suas poesias eróticas. "Eu vi - lá em Verona, no ouro de uma tarde - o túmulo comum onde foram enterrados Romeu e Julieta - esse par de fudidos. Pois lá estava eu, quando surgiu um encanto de frangota. 'Só os grandes amorosos passam à posteridade... Existe algum Romeu que me ame e comigo entre na História?' Então, bastante comovido, e sem pensar no que fazia, eu lhe ergui a saia, desci-lhe a calcinha 'Perdoe-me a pergunta. Que pretende fazer?' Indagou ela, quase ruborizada. 'Eu só quero entrar na posteridade', informei. 'Sou o novo Romeu'. Em homenagem aos enterrados mortos me enterrei nela, muito vivo".

Quase ao fim da vida, quando parecia que ninguém mais no Rio lhe dava a menor atenção, uma matéria de jornal fez o presidente da LBA lhe dar um emprego. Com o dinheiro que sua mulher já recebia desde os anos 60, o escritor conseguiu comprar um sítio, grande, mas afastado até de Queimados. Terezinha não gostou do lugar e pediu para irem embora. "Se você quiser, pode ir. Eu já comprei e vou ficar por aqui mesmo. Agora tenho onde cair morto", disse, já sabendo que ela não iria sair dali. Caiu morto um ano depois, vítima de um ataque cardíaco fulminante, em um local que não tinha telefone, era de acesso precário e com a mulher e um dos filhos tentando salvá-lo.

Não havia dinheiro para um túmulo. A prefeitura de Queimados e o governo do Rio de Janeiro prometeram construir um, mas no cemitério local até hoje nada foi feito. A morte? "Ao exalar meu último suspiro num sopro delicado, inaudível, por entre a festa de vozes e de risos, certeza mesmo eu só tenho uma: a de seguir para o nada que me espera sem perturbar com minha morte os vivos". Passou mesmo despercebido: deu as costas para a sociedade brasileira, não se acovardou. Ela não se comoveu. O problema é dela, ele deve ter pensado.


José Ricardo Manini
Campinas, 9/5/2007


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