O melhor de Dalton Trevisan | Marcelo Spalding | Digestivo Cultural

busca | avançada
49036 visitas/dia
1,8 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Quilombaque acolhe 'Ensaios Perversos' de fevereiro
>>> Espetáculo com Zora Santos traz a comida como arte e a arte como alimento no Sesc Avenida Paulista
>>> Kura retoma Grand Bazaar em curta temporada
>>> Dan Stulbach recebe Pedro Doria abrindo o Projeto Diálogos 2024 da CIP
>>> Brotas apresenta 2º Festival de Música Cristã
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Garganta profunda_Dusty Springfield
>>> Susan Sontag em carne e osso
>>> Todas as artes: Jardel Dias Cavalcanti
>>> Soco no saco
>>> Xingando semáforos inocentes
>>> Os autômatos de Agnaldo Pinho
>>> Esporte de risco
>>> Tito Leite atravessa o deserto com poesia
>>> Sim, Thomas Bernhard
>>> The Nothingness Club e a mente noir de um poeta
Colunistas
Últimos Posts
>>> Bill Ackman no Lex Fridman (2024)
>>> Jensen Huang, o homem por trás da Nvidia (2023)
>>> Philip Glass tocando Opening (2024)
>>> Vision Pro, da Apple, no All-In (2024)
>>> Joel Spolsky, o fundador do Stack Overflow (2023)
>>> Pedro Cerize, o antigestor (2024)
>>> Andrej Karpathy, ex-Tesla, atual OpenAI (2022)
>>> Inteligência artificial em Davos (2024)
>>> Bill Gates entrevista Sam Altman, da OpenAI (2024)
>>> O maior programador do mundo? John Carmack (2022)
Últimos Posts
>>> Napoleão, de Ridley de Scott: nem todo poder basta
>>> Sem noção
>>> Ícaro e Satã
>>> Ser ou parecer
>>> O laticínio do demônio
>>> Um verdadeiro romântico nunca se cala
>>> Democracia acima de tudo
>>> Podemos pegar no bufê
>>> Desobituário
>>> E no comércio da vida...
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Making it new
>>> Nick Carr sobre The Shallows
>>> O bom e velho formato site
>>> Escrever não é trabalho, é ofício
>>> A metade da vida
>>> A última discoteca básica
>>> van Gogh: Os livros amarelos
>>> A terra do nunca
>>> O maior banco digital do mundo é brasileiro (2023)
>>> Digestivo empreendedor
Mais Recentes
>>> Do Sonho às Coisas de J. C. Mariátegui pela Boitempo (2005)
>>> A Turma do Pererê: O Mais Brasileiro de Ziraldo Alves Pinto pela Nova Didática (2000)
>>> Relatos de Belcebú a su Nieto - Libro Tercero de G. Gurdjieff pela Hachette (1984)
>>> Relatos de Belcebú a su Nieto - Libro Segundo de G. Gurdjieff pela Hachette (1985)
>>> Curso de desenho e pintura - A arte de ver: luz e movimento de Varios pela Globo (1996)
>>> Uma obsessão indecente de Coleen McCullough pela Difel (1981)
>>> O Canto Da Praça de Ana María Machado pela Atica (2002)
>>> O Minotauro de Monteiro Lobato pela Pé Da Letra (2018)
>>> O flautista De Hamelin de Ciranda Cultural pela Ciranda Cultural (2014)
>>> Mahamudra Tantra de Geshe Kelsang Gyatso pela Tharpa Brasil (2006)
>>> Sherlock Holmes As Aventuras de Sherlock Holmes 586 de Arthur Conan Doyle pela Principis (2019)
>>> Não é caso para rir de Joseph Heller & Speed Vogel pela Rocco (1987)
>>> Venha Ver o Pôr do Sol e Outros Contos de Lygia Fagundes Telles pela Atica (2003)
>>> Curso de desenho e pintura - Aquarela: Impacto da cor de Varios pela Globo (1996)
>>> Histórias à Brasileira 2 586 de Ana Maria Machado pela Companhia das Letrinhas (2020)
>>> As Mentiras Que Os Homens Contam de Luis Fernando Verissimo pela Objetiva (2000)
>>> O moleiro e seus amigos de Eliane silva pela Prazer de Ler (2012)
>>> Sintaxe Da Linguagem Visual de Donis A. Dondis pela Martins Fontes (2015)
>>> Pragas e epidemias histórias de doenças infecciosas 586 de Antonio Carlos de Castro Toledo Jr. pela Folium (2006)
>>> Livro Capa Dura Literatura Estrangeira O Grande Amigo de Deus de Taylor Caldwell pela Circulo do Livro (2023)
>>> As Flores Do Mar de André Moura, Eduardo Bordoni E Fábio Muniz pela Nova Didática (2002)
>>> Para Sempre 586 de Kim Carpenter pela Novo Conceito (2012)
>>> Sherlock Holmes O Signo Dos Quatro 586 de Arthur Conan Doyle pela Principis (2020)
>>> O zollógico em festa de Evan bessa pela Imeph (2009)
>>> A Voz do Monte de Richard Simonetti pela Feb (2010)
COLUNAS

Quinta-feira, 27/3/2008
O melhor de Dalton Trevisan
Marcelo Spalding
+ de 21700 Acessos

Muitos conhecem o vampiro de Curitiba por seus contos violentos, concisos e premiados, mas vários ouviram falar de Dalton Trevisan apenas pela personalidade misteriosa e controversa que o autor criou para si mesmo ― confundindo-se com suas personagens e suas histórias ― sem jamais ter se debruçado sobre sua obra. Pois para esses digo que acaba de ser lançada uma edição revista da obra que talvez melhor sintetize Trevisan: Dinorá (Record, 2007, 178 págs.).

Autor de pequenos folhetos com feitio de cordel que enviava para amigos e conhecidos, sem arriscar a publicação em volume, folhetos fora de circulação comercial e hoje desconsiderados pelo autor, Trevisan estréia de fato na literatura em 1959 com Novelas nada exemplares, chamando a atenção da crítica. Só para se ter uma idéia, já no começo dos anos setenta Trevisan é incluído na famosa antologia O conto brasileiro contemporâneo, organizada por Alfredo Bosi, ao lado de Guimarães Rosa, Lygia Fagundes Telles, Osman Lins, Clarice Lispector, Rubem Fonseca e outros treze autores. Bosi, na apresentação, chama a atenção para o fato de que nos contos de Trevisan a concisão é uma obsessão do essencial que parece beirar a crônica, "mas dela se afasta pelo tom pungente ou grotesco que preside à sucessão das frases, e faz de cada detalhe um índice do extremo desamparo e da extrema crueldade que rege os destinos do homem sem nome na cidade moderna". E se nos primeiros livros Trevisan já chama a atenção pela estética de feitio minimalista, com Ah, é? , de 1994, o autor leva o conto a uma espécie de limite e praticamente inaugura o miniconto contemporâneo brasileiro.

São esses três Trevisans, o poeta, o contista e o minicontista, além de um curioso Trevisan cronista e crítico literário, que se reúnem em Dinorá, também datado de 1994 mas publicado um ano depois de Ah, é?, tornando o volume extremamente interessante, verdadeiro ponto de partida para se compreender a obra do vampiro "iconoclasta ou alienado, que abomina o social e o político", como se define o próprio autor em "Quem tem medo de vampiro?".

O poeta, pouco conhecido, bebe do mesmo sangue que o prosador, exibindo seres violentos, velhinhos tarados e tipos pervertidos em versos secos e sem espaço para rimas ou outras gracinhas literárias. Em "Dinorá", por exemplo, texto que dá título ao livro, uma mulher revela ser espancada e maltratada por um homem que a "queima de cigarro e corta de faca". Em "Curitiba Revisitada", o pessoal dá lugar ao social, mas o tom pungente é mantido, criando uma espécie de ode ao avesso de sua cidade natal, "cidade irreal da propaganda/ ninguém não viu não sabe onde fica".

Mesmo sem grande variação de estilo, o contista é o que mais chama a atenção, sem dúvidas. Alternando contos mais longos, de até dez páginas, com contos de menos de uma página, Trevisan demonstra domínio técnico e segurança temática em textos como "O afogado" e "Iniciação", permitindo-se até um tom amoroso e sentimental em "Tiau, Topinho", quando narra em primeira pessoa a volta para a casa de um homem que precisou sacrificar seu cãozinho.

Entre a prosa e a poesia, numa espécie de hibridismo de ambas, surge também o minicontista, o mesmo que assinou sozinho Ah, é?, dono de um estilo em formação e então ainda chamado de "haicai", mas que preferimos chamar de narrativas mínimas, ou minicontos. Há três coleções deles no livro, "Dez haicais", "Nove haicais" e "Oito haicais", o que totalizam 27 mínis (em Ah, é? são 187, todos também sem títulos). E se alguns deles se parecem anedotas, como "Toda noiva goza duas vezes a lua-de-mel: uma, quando casa, e outra, ao ficar viúva.", outros preservam muitas características do conto, revelando história oculta, história aparente, conflito e tensão:

"Parentes e convidados rompem no parabéns pra você. De pé na cadeira, a aniversariante ergue os bracinhos:
― Pára. Pára. Pára.
Na mesa um feixe luminoso estraga o efeito das cinco velinhas:
― Mãe, apaga o sol."

Numa primeira leitura, o que temos aqui é a história de um aniversário de criança. Mas, indo um pouco além da superfície, veremos o sem-limite dos quereres de uma criança, possivelmente uma criança mimada da classe média, exigindo da mãe mais do que bolos, parabéns e velinhas, exigindo a alteração da natureza para satisfazer seus caprichos.

Mas o mais curioso Trevisan de Dinorá é o cronista/crítico literário. Tal qual um senhor sem papas na língua, escreve sobre Machado de Assis, sobre os críticos de má fé que questionam a traição de Capitu em Dom Casmurro, ironiza Borges e, em "Quem tem medo de vampiro?", brinca com sua própria produção:

"Há que de anos escreve ele o mesmo conto? Com pequenas variações, sempre o único João e a sua bendita Maria. Peru bêbado que, no círculo de giz, repete sem arte nem graça os passinhos iguais. Falta-lhe imaginação até para mudar o nome dos personagens".

Em "Cartinha a um Velho Poeta" e "Cartinha a um Velho Prosador", sobram conselhos e alfinetadas a pretensos escritores:

"Escrever bem é pensar bem, não uma questão de estilo. Os bons sabem de seus muitos erros, os medíocres não sabem coisa alguma. O que há de ser, para você já foi. Não se finge o talento ― falto de engenho, vento é vento e pó. As letras roubadas são falsas."

Não é leitura fácil, sem dúvidas: a colagem de textos tão diferentes pode confundir o leitor e dissolver o efeito obtido, tão caro ao conto. Mas o que se perde em unidade se ganha em originalidade e graça, graça que revela um Trevisan mais humano, sem tantos "passinhos iguais" e conhecedor profundo de teoria e história literárias. Que, se não tornam ninguém melhor escritor, estão por trás de toda bem-sucedida carreira literária.

Para ir além






Marcelo Spalding
Porto Alegre, 27/3/2008

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Bento XVI e os bastidores do Vaticano de Humberto Pereira da Silva
02. Privacidade de Daniel Bushatsky


Mais Marcelo Spalding
Mais Acessadas de Marcelo Spalding em 2008
01. Burguesinha, burguesinha, burguesinha, burguesinha - 6/3/2008
02. O melhor de Dalton Trevisan - 27/3/2008
03. Nossa classe média é culturalmente pobre - 21/8/2008
04. Cartas a um jovem escritor - 31/1/2008
05. Literatura é coisa para jovem? - 11/9/2008


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site



Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




Tragédias e Comédias Sombrias
William Shakespeare
Nova Aguilar
(2006)



Minha Alma nos Espaços Divinos
Rose Gribel
Pensamento
(1995)



Furacão Elis
Regina Echeverria
Nórdica
(1985)



/Pato Donald Nº 2167
Walt Disney
Abril
(1999)



Livro Literatura Estrangeira Ciao Bella Sex, Dante and How to Find Your Father in Italy
Helena Frith Powell
Gibson Square
(1988)



O Ciclo Da Auto-sabotagem
Stanley Rosner
Best Seller
(2009)



Crônicas de Los Angeles
Annette Levy-willard
Barcarolla
(2004)



O Último Adeus
Cynthia Hand
Darkside Books
(2016)



Mémoires Despoir
Charles de Gaulle- Le Renouveau- 1958- 1962
Plon
(1970)



Livro Infanto Juvenis Carta Errante, Avó Atrapalhada, Menina Aniversariante Volume 3 Novela Coleção Literatura em Minha Casa
Mirna Pinsky
Ftd
(2001)





busca | avançada
49036 visitas/dia
1,8 milhão/mês