Zé Rodrix ― o escritor e o amigo | Luis Eduardo Matta | Digestivo Cultural

busca | avançada
23612 visitas/dia
922 mil/mês
Mais Recentes
>>> Comédia dirigida por Darson Ribeiro, Homens no Divã faz curta temporada no Teatro Alfredo Mesquita
>>> Companhia de Danças de Diadema leva projeto de dança a crianças de escolas públicas da cidade
>>> Cia. de Teatro Heliópolis encerra temporada da montagem (IN)JUSTIÇA no dia 19 de maio
>>> Um passeio imersivo pelos sebos, livrarias e cafés históricos do Rio de Janeiro
>>> Gaitista Jefferson Gonçalves se apresenta em quinteto de blues no Sesc Belenzinho
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> A cidade e o que se espera dela
>>> De pé no chão (1978): sambando com Beth Carvalho
>>> Numa casa na rua das Frigideiras
>>> Como medir a pretensão de um livro
>>> Nenhum Mistério, poemas de Paulo Henriques Britto
>>> Nos braços de Tião e de Helena
>>> Era uma casa nada engraçada
>>> K 466
>>> 2 leituras despretensiosas de 2 livros possíveis
>>> Minimundos, exposição de Ronald Polito
Colunistas
Últimos Posts
>>> Jornada Escrita por Mulheres
>>> Pensar Edição, Fazer Livro 3
>>> Juntos e Shallow Now
>>> Dicionário de Imprecisões
>>> Weezer & Tears for Fears
>>> Gryphus Editora
>>> Por que ler poesia?
>>> O Livro e o Mercado Editorial
>>> Mon coeur s'ouvre à ta voix
>>> Palestra e lançamento em BH
Últimos Posts
>>> Diagnóstico falho
>>> Manuscrito
>>> Expectativas
>>> Poros do devir
>>> Quites
>>> Pós-graduação
>>> Virtuosismo
>>> Evanescência
>>> Um Certo Olhar de Cinema
>>> PROCURA-SE
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Um jantar levantino
>>> Se eu fosse você 2
>>> Sou diabético
>>> Um olhar sobre Múcio Teixeira
>>> O Barril
>>> Como escrever bem — parte 1
>>> Quatro Mitos sobre Internet - parte 1
>>> Da capo
>>> Elesbão: escravo, enforcado, esquartejado
>>> 5ª MUMIA em BH
Mais Recentes
>>> A Lua no Cinema e outros poemas de Vários pela Companhia das Letras (2011)
>>> Goosebumps - Praia Fantasma de R. L. Stine pela Fundamento (2010)
>>> Ciências Naturais - Aprendendo o Cotidiano 6 de Eduardo Leite do Canto pela Moderna (2009)
>>> Matemática 6 - Projeto Araribá de Juliana Matsubara Barroso pela Moderna (2007)
>>> A Cidade Inteira Dorme e Outros Contos de Ray Bradbury pela Biblioteca Azul (2019)
>>> Contos Universais - Para Gostar de Ler 11 de Vários pela Ática (2003)
>>> Agatha Christie O Incidente da Bola do Cachorro de John Curran pela Leya (2010)
>>> The 39 Clues - Uma Nota Errada de Gordon Korman pela Ática (2010)
>>> David Copperfield de Charles Dickens pela Macmilan Readers (2008)
>>> Hamlet Adaptado Série Reencontro de William Shakespeare, Leonardo Chianca pela Scipione (2001)
>>> Os Miseráveis adaptado por Walcyr Carrasco de Victor Hugo, Walcyr Carrasco pela FTD (2002)
>>> O Corcunda de Notre-Dame adaptação Série Reencontro de Victor Hugo, Jiro Takahashi pela Scipione (1997)
>>> Romeu e Julieta Adaptado Reencontro de William Shakespeare, Leonardo Chianca pela Scipione (2001)
>>> La Nausée de Jean Paul Sartre pela Éditions Gallimard, (1972)
>>> La Guerra de Guerrillas de Ernesto Che Guevara pela Ocean Sur (2006)
>>> La Emancipación de la Mujer en la URSS de Solomín pela Ediciones Europa-América, (1936)
>>> Juca Mulato de Menotti Del Pcchia pela Cprculo do Livro (1976)
>>> Inferno de Dan Brown pela Doubledays Books (2013)
>>> I Am a Strange Loop de Douglas Hoftstadter pela Basic Books, (2008)
>>> Iaiá Garcia de Machado de Assis pela Ática (1996)
>>> História do Rei Degolado nas Caatingas do Sertão Ao Sol da Onça Caetana de Ariano Suassuna pela José Olympio (1977)
>>> Grundrisse Manuscritos econômicos de 1857-1858 - esboços da crítica da economia política de Karl Marx pela Boitempo (2011)
>>> Great Expectations de Charles Dickens pela BBC Books (2011)
>>> 1808 de Laurentino gomes pela Planeta (2007)
>>> Coisas da Casa de Zélia Maria Guerra Simões pela Karmim (1990)
>>> A Marca De Uma Lágrima de Pero Bandeira pela Moderna (1994)
>>> Teoria Z Como as Empresas podem enfrentar o desafio Japonês de William Ouchi pela Fundo Educativo Brasileiro (1982)
>>> Hesse Obstinação de Hermann Hesse pela Record (1971)
>>> Bilionários Por Acaso de Ben Mezrich pela Intríseca (2009)
>>> Melhores Filhos Melhores Pais de Pe. Zezinho, scj pela Universo dos Livros (2012)
>>> O Amor Humilde de Pe. Zezinho, scj pela Paulinas (2003)
>>> Pais e filhos Companheiros de viagem de Roberto Shinyashiki pela Gente (1992)
>>> Reiniciados de Teri Terry pela Farol literário (2019)
>>> A Era do Capital de Eric Hobsbawm pela Paz e Terra (2002)
>>> A Era das Revoluções de Eric Hobsbawm pela Paz e Terra (2001)
>>> Medo, Reverência, Terror - Quatro ensaios de iconografia política de Carlo Ginzburg pela Companhia das letras (2014)
>>> Cinema de Garganta de Ericson Pires pela Azougue (2002)
>>> Criando Meninas de Gisela Preuschoff pela Fundamento (2006)
>>> A Revolução Russa de 1917 de Marc Ferro pela Perspectiva (1980)
>>> A Revolução Russa de 1917 de Marc Ferro pela Perspectiva (1980)
>>> Os Últimos Anos de Bukharin de Roy Medvedev pela Civilização Brasileira (1980)
>>> Os Últimos Anos de Bukharin de Roy Medvedev pela Civilização Brasileira (1980)
>>> A Primeira Reportagem (Vaga- lume) de Sylvio Pereira pela Ática/ SP. (1991)
>>> A Primeira Reportagem (Vaga- lume) de Sylvio Pereira pela Ática/ SP. (1984)
>>> A Primeira Reportagem (Vaga- lume) de Sylvio Pereira pela Ática/ SP. (1984)
>>> A Primeira Reportagem (Vaga- lume) de Sylvio Pereira pela Ática/ SP. (1995)
>>> Lógica da Lógica de Paulo Roberto Melo Volker (org.) pela Fafich/ Fumec (1983)
>>> Diccionario de Psicología (Encadernado) de Howard C. Warren (Compilador) pela Fondo de Cultura/ México (1991)
>>> Nietzsche para Estressados (99 Doses de Filosofia para Despertar a Mente e Combater as Preocupações de Allan Percy pela Sextante (2001)
>>> Nietzsche para Estressados (99 Doses de Filosofia para Despertar a Mente e Combater as Preocupações de Allan Percy pela Sextante (2001)
COLUNAS

Quinta-feira, 25/6/2009
Zé Rodrix ― o escritor e o amigo
Luis Eduardo Matta

+ de 9500 Acessos
+ 4 Comentário(s)

Ao contrário da maioria das pessoas, meu primeiro contato com a obra de Zé Rodrix, morto em 22 de maio passado, se deu, não por meio das suas canções, ou da sua carreira como publicitário, mas do seu trabalho como escritor. Não que eu desconhecesse algumas músicas consagradas de sua autoria como "Casa no campo" e "Mestre Jonas", ou os jingles criados por ele para comerciais célebres, como os da Chevrolet e o das lojas Marisa, que embalaram a programação televisiva da década de 1980. Eu, apenas, não os havia associado ao nome de Zé Rodrix, sobretudo porque eu nem sabia ao certo quem era Zé Rodrix. Isso até uma manhã situada em algum momento entre os últimos meses de 1998 e os primeiros de 1999, quando a agente literária Ana Maria Santeiro me incumbiu de ler e dar o meu parecer sobre os originais de um romance épico que havia acabado de lhe chegar às mãos. A obra tinha o curioso nome de Diário de um construtor do Templo e narrava os primórdios da Maçonaria durante a construção do Templo de Salomão, em Jerusalém. O calhamaço de cerca de trezentas páginas impressas em espaço único me intimidou a princípio, mas, ao iniciar a leitura, logo me apaixonei pela história e cheguei ao seu final rapidamente, convicto de que me encontrava diante de uma portentosa obra literária. Meses mais tarde, vim a descobrir que eu havia sido um dos primeiros leitores desse que foi o romance de estreia de Zé Rodrix.

Zé, carioca radicado em São Paulo havia quase três décadas, era amigo de Ana Maria de longa data ― ambos foram colegas no até hoje conceituado Colégio de Aplicação da UFRJ, no Rio de Janeiro ― e, após uma longa e exitosa carreira na música e na publicidade, decidira enveredar, também, pela literatura. Estimulada pelo meu parecer favorável, Ana Maria ofereceu o livro à Editora Record, que o lançou numa belíssima edição, no final de 1999. A noite de autógrafos, seguida de um jantar, aconteceu na Livraria Saraiva de um recém-inaugurado shopping center do Rio, e contou com a presença de algumas personalidades ligadas às artes, como a escritora Angela Dutra de Menezes e a atriz Analu Prestes, além da própria Ana Maria Santeiro. Foi precisamente nesta noite, chuvosa e friorenta para os padrões de fins de novembro, que estive com o Zé e sua mulher, Julia, pela primeira vez e, durante horas, conversamos os três como se nos conhecêssemos havia anos. Na dedicatória que Zé me fez no livro está registrada a data exata deste encontro: 29 de novembro de 1999.

Nessa ocasião, a confraria dos Estertores da Razão, fundada por mim e um grupo seleto de amigos, em 1998, passava por um período de acentuado crescimento, com a gradual adesão de novos membros e a intensificação dos debates sobre toda sorte de temas no fórum de discussão do grupo, na internet. Durante um desses debates, Ana Maria Santeiro, que ingressara nos Estertores no começo de 2000 e, desde sempre, fora sua entusiasta, percebeu que o assunto interessaria ao Zé e encaminhou as mensagens a ele, que respondeu na mesma hora, como era de seu estilo e logo se entrosou com todo mundo, sendo imediatamente incorporado ao grupo. Foi a partir deste momento que o fórum viveu sua fase de maior efervescência, quando discussões de altíssimo nível rolavam entre os membros, numa intensidade impressionante, a ponto de, em junho de 2000, o fórum ter registrado a incrível marca de mais de cem mensagens diárias. Isso, vale lembrar, numa época em que o acesso à internet era discado, e a navegação incomparavelmente mais lenta e precária do que hoje em dia, com quedas constantes de conexão e dificuldades para enviar e receber e-mails com arquivos de tamanho superior a 500KB.

A convivência nos Estertores da Razão selou o nosso vínculo com Zé Rodrix, mesmo depois que o fórum perdeu fôlego e a comunicação entre nós rareou, sendo plenamente retomada apenas no final de 2005, quando eu e Zé publicamos novos romances quase em simultâneo. Foi, então, que descobri que seu livro de estreia se transformara no projeto de uma trilogia, cujo objetivo era contar a história da Maçonaria (Zé era maçom desde 1991), a Trilogia do Templo, que eu considero, sem exagero, uma das mais fantásticas obras literárias produzidas no Brasil na última década, totalizando 2.100 páginas impressas e dezenas de milhares de exemplares vendidos, além de um prêmio importante, o Lima Barreto, concedido pela União Brasileira de Escritores por Diário de um construtor do Templo. Uma obra que, apesar de tudo isso, não recebeu a merecida atenção da nossa combalida imprensa cultural, de tal modo que pouquíssimos foram os jornalistas literários a mencioná-la nos dias seguintes à morte do Zé. Em 2005, estava sendo lançado o segundo volume da trilogia, Zorobabel ― Reconstruindo o Templo, ao mesmo tempo em que o primeiro, Diário de um construtor do Templo tinha o título alterado para Johaben ― Diário de um construtor do Templo a fim de dar à série um sentido de uniformidade.

O terceiro livro, que encerra a trilogia falando sobre a relação entre os Templários e a Maçonaria, Esquin de Floyrac ― O fim do Templo, saiu em 2007, e coube a mim redigir a orelha. Foi preciso voar contra o relógio para dar conta da tarefa. Isto porque, em setembro daquele ano, Ana Maria Santeiro completaria trinta anos como agente literária e pretendia comemorar a data com o lançamento de um livro "forte" de um dos seus autores. Esquin de Floyrac estava programado para sair somente no ano seguinte, mas Ana Maria intercedeu junto à editora, que acabou antecipando a publicação para setembro. Dessa maneira, todos os procedimentos necessários para transformar os originais numa obra impressa tiveram de ser acelerados, inclusive a redação da orelha. No final de junho, Zé Rodrix me telefonou e propôs, num leve tom de desafio: "Vou te mandar o livro por e-mail. Você consegue ler tudo e aprontar a orelha em cinco dias?" (detalhe: os originais tinham quase quinhentas páginas em Word e eu tenho enorme dificuldade em ler textos longos em qualquer superfície que não seja um papel). Respondi-lhe que sim, sentindo a responsabilidade me pesar nas costas. Ele mandou o arquivo e eu não só o li detidamente em menos de dois dias ― depois de imprimi-lo, naturalmente ― como ainda reli os dois títulos anteriores a fim de situar a apresentação da orelha no contexto da trilogia. Em cinco dias, o trabalho estava pronto, o livro foi para o prelo e pôde ser oficialmente lançado na Bienal do Livro no Rio de Janeiro, na data programada. Dois meses depois, Zé Rodrix repetiu a dose e promoveu um novo lançamento, desta vez em pleno Palácio Maçônico do Lavradio, uma belíssima construção neoclássica no coração do Rio, antiga sede do Grande Oriente do Brasil. Lá, eu, Ana Maria Santeiro e alguns amigos tivemos a oportunidade única de assomar nos salões normalmente vetados à visitação pública e assistir a uma cerimônia da Maçonaria, aberta para alguns convidados, que precedeu uma palestra emocionante, na qual Zé conclamou a todos para as nossas responsabilidades em relação aos rumos da sociedade e do país.

A essa altura, a confraria dos Estertores da Razão havia retomado o ritmo do início da década, sobretudo depois que eu, Zé e Ram Rajagopal nos encontramos durante o lançamento do meu thriller 120 horas, em São Paulo, em janeiro de 2006. Com o grupo reunido novamente e a carreira literária de Zé Rodrix a toda, passamos a nos ver constantemente, sempre em torno de alguma efeméride literária. Quase sempre acompanhado de sua mulher, Julia, Zé nunca deixava de nos chamar para os eventos dos quais participava no Rio e, quando algum de nós ia a São Paulo, era praxe entrarmos em contato com ele. Com uma retórica acelerada e contagiante, Zé não permitia que uma roda de pessoas na qual ele estivesse presente ficasse em silêncio. Ele dava a impressão de deter um conhecimento infinito sobre todos os assuntos, conjugado com uma ânsia de transmiti-lo a quem estivesse aberto a recebê-lo.

Nos últimos quarenta meses, o fórum dos Estertores esteve diariamente tomado por uma troca incessante de mensagens, em torno de debates acalorados que pareciam intermináveis. Hoje, ao abrir minha caixa de e-mails, a sensação de não ver nenhuma nova mensagem do Zé é estranhíssima. E, acima de tudo, pesarosa. Assim como é pesaroso imaginar que não poderei mais trocar idéias com ele e ouvir seus conselhos e orientações. Não haverá mais os jantares e passeios por Copacabana ou pelo Centro do Rio, quando ele e Julia vinham à cidade. Não haverá mais espetáculos como o que ele fez com Tavito no Café Aurora, em São Paulo, em 2007 e no qual levou todo mundo às gargalhadas ao tropeçar na subida do palco e se justificar dizendo que era uma homenagem a Liza Minnelli, que estava se apresentando naquela semana na cidade. E, mais do que tudo, não seremos mais brindados pelo seu talento literário, prematuramente interrompido. Com a Trilogia do Templo encerrada, Zé estava preparando uma segunda trilogia que pretendia recontar os bastidores da história do Brasil, sempre pela ótica da Maçonaria. O primeiro volume, O cozinheiro do Rei, estava com a redação bastante adiantada, mas os dois seguintes prometiam fazer um barulho incômodo, já que Zé estava disposto a contestar a própria natureza do que se convencionou chamar de cultura brasileira, afirmando que boa parte dela seria, ainda hoje, subsidiária de um modelo forjado durante a ditadura Vargas. Mais de uma vez o vi se perguntando por que Getúlio Vargas nunca era lembrado como um ditador. Um ditador que, durante o Estado Novo, liderou um regime repressor tão ou mais violento do que o verificado nos anos pós-1964. Ele pretendia tocar nesta ferida e em outras. E poderia abrir um debate necessário ao Brasil contemporâneo, ainda preso a crenças tão irracionais quanto prejudiciais ao bom andamento da nação. No entanto, essa obra, dificilmente será escrita, pois o autor, em primeiro lugar, precisaria ter o fôlego e a obstinação do Zé para pesquisar (uma simples consulta à bibliografia da Trilogia do Templo é o bastante para se ter uma noção da dimensão dessas pesquisas). Em segundo, ele necessitaria de vocação para romancear os fatos históricos com competência e emoção, sem resvalar no didatismo e na descrição mecânica dos acontecimentos. E, em terceiro, e talvez mais importante, o autor precisaria ser um intelectual de pensamento independente, sem os ranços acadêmicos e ideológicos que tanto contaminam o pensamento brasileiro. Existem no Brasil, é claro, pessoas com tais talentos. Mas dificilmente com os três talentos reunidos, com o adicional de pertencer à Maçonaria e ter acesso aos seus arquivos e a todo o conhecimento que a ordem propicia aos seus membros.

A última vez em que estive com Zé Rodrix foi na "showlestra" de lançamento da caixa reunindo os títulos da Trilogia do Templo, realizada na Livraria Argumento do Leblon, Rio, no começo de maio. Chegamos a nos falar pelo telefone alguns dias depois e sua última mensagem para o fórum dos Estertores da Razão foi postada às 19h32 de 21 de maio, poucas horas antes de sua morte. O choque da perda de Zé Rodrix, ainda não totalmente digerido, me lançou numa espiral de questionamentos sobre o sentido da vida. Ele não era, de forma alguma, uma pessoa que já tivesse cumprido o seu destino. Além disso, levava uma vida saudável, não fumava ou bebia e tampouco padecia de estresse ― seu entusiasmo pelas coisas era a prova disso. Sua carreira artística, do mesmo modo, encontrava-se num excelente momento, em todos os campos nos quais atuava. Se há alguma lição a ser extraída deste episódio é a de que a vida humana é frágil, curta, por mais longa que seja, e pode acabar daqui a dois segundos. Trata-se de uma constatação óbvia, mas da qual poucos parecem se dar conta. Portanto, nunca é demasiado fazer uma reflexão e pensar naquilo por que realmente vale a pena lutar ou por que vale a pena se aborrecer. Não perder tempo, por exemplo, com bobagens mesquinhas e polêmicas tolas que só conduzem a uma animosidade e a um rancor que envenenam a alma e as relações humanas inutilmente. Tampouco se atribuir uma importância excessiva ou pretender ter a posse inconteste de alguma verdade. E, no entanto, buscar sempre a verdade, ainda que seja preciso contrariar algumas das nossas mais arraigadas paixões. Essas eram algumas das muitas noções positivas que Zé Rodrix sempre procurava reforçar e que acredito ter aprendido com ele. Noções que podem ser resumidas numa frase de Oscar Wilde: "a vida é importante demais para ser levada a sério".


Luis Eduardo Matta
Rio de Janeiro, 25/6/2009


Quem leu este, também leu esse(s):
01. Super-heróis ou vilões? de Cassionei Niches Petry
02. Inquietações de Ana Lira de Fabio Gomes
03. A difícil arte de saber mais um pouco de Ana Elisa Ribeiro
04. Procure saber: os novos donos da história de Gian Danton
05. Bruce, Bane e Batman de Vicente Escudero


Mais Luis Eduardo Matta
Mais Acessadas de Luis Eduardo Matta
01. Sim, é possível ser feliz sozinho - 19/9/2006
02. Os desafios de publicar o primeiro livro - 23/3/2004
03. A difícil arte de viver em sociedade - 2/11/2004
04. A favor do voto obrigatório - 24/10/2006
05. Literatura de entretenimento e leitura no Brasil - 21/11/2006


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
9/6/2009
14h27min
O Zé nos deixou com muitas saudades (a caixa de entrada de meu e-mail nunca mais será a mesma!), mas seu legado é uma marca que não se apaga. Que surjam novas pessoas com sua capacidade de crítica e contestação.
[Leia outros Comentários de Alexandre Sivolella]
10/6/2009
15h21min
Zé Rodrix é o protótipo do brasileiro honesto e engajado. Sua inesperada partida provoca uma sensação de que, a qualquer momento, ele abrirá aquele sorriso maior que ele e dirá: - Voltei.
[Leia outros Comentários de Antonio P. Andrade]
13/6/2009
10h39min
Conhecia Zé Rodrix apenas como um entre tantos artistas. E, como tantos brasileiros, desconhecia que a linda música "Casa no campo" era de sua autoria. Mas, lendo seu artigo, você nos deu a imagem de um grande homem e, principalmente, de um homem de muita sensibilidade. Sinto por você, pela ausência desse bom amigo. Sinto por nós, brasileiros, que desconhecemos tanto nossos artistas, nossos escritores, nossa cultura. Mas que textos como o seu possam ser uma luz para que a mídia possa dar voz e imagem a todos os artistas...
[Leia outros Comentários de Ana Cristina Melo]
25/6/2009
21h36min
Zé Rodrix foi um ótimo amigo, com quem troquei mensagens diárias nos últimos 4 anos. Ele também foi um dos mentores dos Estertores da Razão, criando e mantendo discussões sobre vários tópicos e propondo novas ideias. Ficam três coisas desta convivência: celebre os amigos, cumpra seu papel na vida, e questione sempre. Zé nunca transformava discussões de ideias em brigas pessoais, mas sempre levava muito a sério a possibilidade de transformar alguém a partir de uma conversa ou reflexão.
[Leia outros Comentários de Ram Rajagopal]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.




Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




NOSSO LIVRO
FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER
LAKE
R$ 16,00



PREPARANDO PARA O SÉCULO XXI
PAUL KENNEDY
CAMPUS
(1993)
R$ 19,83



CINEMA NO MUNDO: ESTADOS UNIDOS VOL IV
ALESSANDRA MELEIRO (ORGS)
ESCRITURAS
(2007)
R$ 17,28



CENOURA? DE JEITO NENHUM!
E M E P KES / PETER DAY
SCIPIONE
(1993)
R$ 4,87



REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DA QUALIDADE DE VIDA NO TRABALHO
IZABELA MARIA REZENDE TAVEIRA
CRV
(2016)
R$ 40,00



SONETOS DO AMOR OBSCURO E DIVÃ DO TAMARIT
FEDERICO GARCIA LORCA
FOLHA DE SÃO PAULO
(2012)
R$ 20,00
+ frete grátis



FILHO DA GUERRA
EMMANUEL JAL
ROCCO
(2010)
R$ 19,00



O SOL TAMBÉM SE LEVANTA
ERNEST HEMINGWAY
ABRIL CULTURA
(1982)
R$ 10,00



O DRAGÃO DOURADO
ELIZABETH LOWELL
NOVA CULTURAL
(1986)
R$ 4,25



EL ESPIRITU
CARLOS BERNARDO GONZÁLEZ PECOTCHE
LOGOSÓFICA
(1984)
R$ 100,00





busca | avançada
23612 visitas/dia
922 mil/mês