A odisseia do homem tecnomediado | Guilherme Mendes Pereira | Digestivo Cultural

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Terça-feira, 3/12/2013
A odisseia do homem tecnomediado
Guilherme Mendes Pereira

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No épico filme 2001: A Space Odyssey, de Stanley Kubric, numa das mais mencionadas e representativas cenas da história do cinema mundial, na qual os hominídeos descobrem usos para ossos encontrados (ferramentas para a caça e defesa), podemos vislumbrar uma menção a habilidades ancestrais que foram responsáveis pela sobrevivência do frágil homem primitivo num mundo brutal e caótico. Habilidades como a capacidade de observar, de racionalizar e de subjugar a natureza e as coisas através do conhecimento e do fazer técnicos.

Ao final da cena com os primatas para o início da cena do homem no espaço sideral há uma transição metafórica: um hominídeo, após intuir usos ao pedaço de osso o joga ao céu. A partir daí, na sequência, advém a cena do espaço sideral e do astronauta no interior de uma estação espacial, adormecido e com a sua caneta (outra ferramenta técnica crucial ao desenvolvimento e imperar do homem) flutuante ao seu lado devido a ausência de gravidade. Do osso, convertido a ferramenta tosca para caça, os hominídeos desenvolveram e aprimoraram durante a sua evolução outros recursos técnicos, como a oralidade e a capacidade de registro de seus conhecimentos empíricos através da escrita iconográfica e mais tarde fonética, por exemplo. Esta última representada na referida cena através da icônica caneta. Tais conhecimentos foram seminais à sobrevivência e desenvolvimento das sociedades humanas.

A técnica se revela de maneira explícita em objetos simples, complexos e sistemas tecnológicos. Mas como ilustrado no filme de Kubric, a técnica perpassa também nossas relações e corpos. Logo, nós também nos tornamos objetos técnicos.

Hoje, na medida em que nascemos e coexistimos num mundo completamente constituído e instituído pela técnica, a mesma acaba nos parecendo invisível e escapando do exercício reflexivo. Deste modo, o pensar sobre a técnica só pode acontecer a partir de um distanciamento filosófico.

Superando a acepção antropológica da técnica — a de um meio para determinado fim —, e marcando profundamente os rumos do pensamento ocidental moderno, o pensador alemão Martin Heidegger postulou que a técnica é um saber que interpela a tudo e a todos e que antevê toda a infinidade de práticas humanas.

Em suas reflexões, Heidegger explicou que tudo o que existe através do entendimento do homem é artificioso, tecnicamente forjado. Se antes a técnica antiga (techne para os gregos) tinha uma estreita relação com a ideia de uma essência etérea e seminal das coisas e com a revelação dessas coisas a partir da observação contemplativa (alethea), a tecnologia moderna, por sua vez, fundiu a técnica antiga com a palavra exata do saber científico esquemático (logos). Note aí a diferença entre técnica (techne) e tecnologia (techne + logos). Aquela refere-se a uma habilidade aprendida empiricamente mediante o domínio da natureza e a segunda trata dessa técnica agora automatizada pelo saber metódico e científico, e regulada por sistemas que passam a funcionar sem a interferência do homem.

Técnica e tecnologia são assim princípios para a construção de mundos. As ideias de técnica e tecnologia enquanto conhecimentos metafísicos, ou seja, que perpassam a todas as coisas, foram desconstruídas por Heidegger.

O pensador questionou se a técnica seria um elemento definidor do homem e de seu destino no mundo ocidental e como essa técnica existiria. O questionar é uma prática amplamente sustentada pelo filósofo por ser um contraponto ao imperar global da figura dominadora e repressora da tecnologia na modernidade.

Originariamente, segundo Heidegger, o mundo é algo poético (poiesis) e passa a existir em função da palavra criadora, que trouxe a possibilidade de pensar, compreender e criar mundos e existências. A palavra, essência das coisas, define assim os limites de mundos e de suas existências, constitui-os. Mundos, para o pensador, são as pluralidades, os modos de perceber as coisas e de conduzir as existências. A partir de um acordo entre pares surge um mundo.

Na contemporaneidade, a técnica e a tecnologia estão vinculadas a todas as nossas ações e desse modo acabam, muitas vezes, por nos alienar e sobrepujar-nos, prendendo-nos ao esquema denominado por Heidegger de armação. O mundo da armação é um mundo que em parte não depende mais de nós e que em parte passa a funcionar automaticamente.

A armação então se mostra como um fenômeno para além do homem e de seu movimento no mundo humano, atrelado a uma sede de poder, a vontade de vontade (conforme Friedrich Nietzsche). A armação, portanto, é uma convocação para um novo mundo, não mais humano, mas agora tencionado estritamente pelo pensamento científico-matemático. Seria o mundo pós-humano, um mundo o qual começamos a experenciar. Um mundo tecnologicamente autorregulado, no qual não caberia mais espaço para o homem e as competências humanas.

A questão da tecnologia atrelada a sistemas cibernéticos, no sentido de "apreensão e controle total da realidade", tão comum na atualidade, já traz o início de uma espécie de auto-regulação tecnológica do mundo. E isso tem demonstrado que cada vez menos precisaremos manifestar qualquer tipo de competência técnica ou humana já que os maquinismos passam a dar conta de tudo. Com isso, o fator humano acaba incidindo em sobra, resíduo ou erro, como no mundo de Hall 9000, o robô que controla a estação espacial no filme de Kubric, e que tenta eliminar o homem.

O prenúncio do império da armação, o pós-humano, advindo no acabamento do humano só poderia ser contornado, conforme Heidegger, através de um modo de ser diametralmente diverso: o agir reflexivo e meditativo, como o saber artístico, por exemplo, cada vez menos visitado.

Heidegger, ao argumentar sobre da questão da técnica, criticou os sistemas científico-matemáticos, pretensamente reguladores do mundo natural e do mundo humano em suas totalidades. Criticou o programar da existência, que tem promovido a redução do espaço poético, da espontaneidade e da autenticidade. O pensador defendeu a criatividade, o pensamento no sentido forte, o questionar incessante, a inquietação. Seriam essas as ações que trariam a inovação que transformaria e movimentaria os mundos através da dinâmica da diferença.

O fato é que, ansiosos e preocupados enquanto seres técnicos, buscamos sempre o avanço do destino, o movimento artificioso das coisas, pois não conseguimos aguentar o movimento intrínseco e incontrolável da existência, o devir espontâneo, nos termos de Heidegger, o ser-aí.

Procuramos a emancipação tendo apenas uma certeza em mente: a inevitabilidade de nossos destinos que culmina na morte. Talvez em função dessa única certeza é que surja a necessidade de ocuparmo-nos incessantemente, de nos deixarmos muitas vezes levar pelos sistemas tecnológicos e pelas utopias sociotécnicas, e assim, de certa forma, escaparmos do tédio e da melancolia, do inevitável niilismo.

O que resta a nós é talvez um estímulo ao pensar autêntico, questionador e ao exercício poético e da intuição. Somos provocados assim, pelo pensamento de Heidegger, a buscar a emancipação e a mudança criativa de mundos através da diferença e da pluralidade, e da aceitação de que nem tudo pode ser sujeitado e controlado ao domínio tecnológico (pós)humano. Uma compreensão talvez ainda humana.

Para ir Além:
HEIDEGGER, Martin. O Ser e o Tempo. Petrópolis: Vozes, 2012.
RÜDIGER, Francisco. Martin Heidegger e a Questão da Técnica: Prospectos Acerca do Futuro do Homem. Porto Alegre: Sulina, 2006.


Guilherme Mendes Pereira
Pelotas, 3/12/2013


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