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Terça-feira, 16/12/2014
O problema da Petrobras são vários
Julio Daio Borges

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Para quem acha que o problema da Petrobras é ter sua cotação despencando em bolsa, lamento informar que esse é apenas o problema mais visível, o mais aparente, posto que é mensurável, nítido, incontrastável. E, ao contrário do que acreditam certos petistas, não basta cada brasileiro "comprar uma ação da Petrobras" para que tudo volte ao normal (sim, tem gente que acredita que é como fazer crowdfunding para as multas dos mensaleiros...). Repito a metáfora já utilizada: a cotação em bolsa, o valor de mercado, é apenas o termômetro. A Petrobras vive a pior crise de sua história e existem outros problemas a serem resolvidos, a fim de que o mercado reflita, posteriormente, a "boa saúde" da empresa. Como se chegou a este ponto? Tento explicar refazendo o percurso de trás para frente.

* Por que o valor da ação desabou recentemente? Entre outros motivos, porque a empresa não apresentou seu balanço "não auditado", referente ao terceiro trimestre de 2014. Traduzindo: uma empresa listada em bolsa, como a Petrobras, tem de apresentar, trimestralmente, seus resultados para o mercado, para os investidores. Quando não apresenta, é sinal de problemas. (Mais problemas.) Logo, o mercado desconfia e os investidores "punem" a ação. Pense analogamente: você investiria numa empresa que você sequer sabe se está indo bem ou mal? E digo "investir" no sentido mais amplo, não falo apenas de dinheiro. Você trabalharia numa empresa que ninguém sabe como está caminhando? Você adquiriria um produto de uma empresa que está com problemas financeiros? Em bolsa, é a mesma coisa. Por que alguém permaneceria "comprado" em Petrobras com tudo o que está acontecendo?

* Por que os resultados da empresa não foram apresentados? Entre outros motivos, por causa do petrolão. O raciocínio é simples. A Petrobras estava, supostamente, investindo numa refinaria como, por exemplo, Abreu e Lima. Se houve superfaturamento, e supostamente houve, a propina deve ser discriminada nos resultados. Porque propina não é investimento. É roubo. Não acredito que existe uma linha, no relatório da Petrobras, para "roubo" - mas propina entra como "perda". Acontece que foram *anos* de supostos desvios. Então imagina lançar isso tudo num balanço... O quanto dos "ativos" da Petrobras são ativos mesmo (ou são "passivos")? Agora imagine a mesma presidência e a mesma diretoria da empresa - que permitiram a ocorrência do petrolão - apontando o que é ativo e o que é passivo... Você confiaria? Você colocaria sua mão no fogo pelos resultados apresentados por essa gente que fez vista grossa para o petrolão?

* Por que a auditoria externa não quer assinar o balanço? Porque, justamente, as investigações continuam e, a cada dia, surge um novo desdobramento do escândalo do petrolão. Apenas um exemplo recente: na mesma sexta-feira em que a Petrobras havia prometido apresentar o "balanço não auditado" ao mercado, surgem as denúncias de Venina Velosa da Fonseca no jornal Valor Econômico. Ou seja: mesmo que a empresa tivesse apresentado os resultados, naquela sexta, eles não seriam válidos, porque o depoimento de Venina, no mesmo dia, revelava que havia ainda mais propina do que originalmente se pensava, ainda mais perdas, ainda menos ativos e ainda mais passivos. Seguindo esse exemplo: Venina, a ex-gerente que desmentiu a presidente, desembarca no Brasil a qualquer momento. E promete novas revelações. Mesmo que a Petrobras apresente seus resultados nesse meio tempo, se surgirem novos indícios de propina, como confiar nos números apresentados ao mercado (antes de Venina chegar)?

* Por que a Petrobras não contabiliza logo o petrolão "todo"? Porque não se sabe a extensão do escândalo (eu ia escrever "roubo"). São doze anos de PT no poder. A Petrobras está nas mãos de Dilma Rousseff desde 2003, quando era ministra de Minas e Energia (isso no primeiro governo Lula). O petrolão remonta, segundo o doleiro Alberto Youseff, a 2004. A operação Lava Jato foi deflagrada em março deste ano. Então, faça as contas: por baixo, são dez anos de petrolão. Nem Graça Foster, que assumiu a presidência em 2012, sabe a extensão do escândalo. E nem Sergio Gabrielli, o presidente imediatamente anterior. Nem Guido Mantega, o presidente do Conselho de Administração desde 2010. E nem Dilma Rousseff, a ex-presidente do Conselho... E mesmo que eles organizassem uma força-tarefa, para mapear o alcance do petrolão, amanhã poderia surgir um novo desdobramento, sobre o qual eles não tinham conhecimento. Uma nova Venina Velosa da Fonseca, por exemplo.

* Por que Dilma não manda todo mundo embora (presidente e diretores)? Nem todo mundo sabe, mas Graça Foster já pediu para sair. E a maioria acha que Dilma não a manda embora por serem "amigas", por consideração a ela, Graça Foster. Mas é o contrário. Dilma não manda Graça Foster embora porque, enquanto ela estiver na presidência da Petrobras, todos os ataques serão centrados nela, Graça (e na atual diretoria). Dilma não é amiga, é *muy* amiga. Nem toda a culpa pela crise é de Graça Foster, mas a tendência, quase automática, é jogar a culpa em quem está na presidência da empresa. Vamos considerar o cenário em que Graça Foster sai. No primeiro dia, as ações da Petrobras sobem. A bolsa, igualmente, sobe. Talvez até a cotação do barril de petróleo suba. Mas, nos dias subsequentes, começará a expectativa em torno de quem assumirá a Petrobras no lugar de Graça Foster. E, pelo que sabemos da capacidade decisória de Dilma, a indefinição pode se arrastar por semanas, como no ministério da Fazenda, de Mantega a Joaquim Levy. E para onde vão apontar os holofotes, enquanto a presidência da Petrobras estiver vacante? Para o Palácio do Planalto.

* Por que não chamam logo um executivo de mercado, para assumir a Petrobras? Você se lembra do parto que foi encontrar um novo ministro da Fazenda que encarasse a tarefa? Luiz Trabuco recusou. Henrique Meirelles desconversou. Não queriam assumir a herança maldita de Guido Mantega. Por que na Petrobras seria diferente? Com o PT desde 2003, e "sob os cuidados" de Dilma desde então, passando por Gabrielli, Graça Foster e até por Guido Mantega, quem vai querer aceitar essa missão (quase) impossível? Teria de ser um executivo, no mínimo, especializado em turnaround. Lembrando que um dos maiores "turnarounds" da história empresarial aconteceu na Apple, quando Steve Jobs voltou, praticamente relançando a empresa, no final da década de 90 - quando ela tinha meses de caixa, e estava, contabilmente, morrendo. Jobs, como se sabe, pediu ajuda ($) até para Bill Gates, refez toda a linha de produtos, investiu em pesquisa & desenvolvimento e, na década de 2000, começou a reconquistar o mercado, para dominá-lo só nesta década de agora... Veja o quanto demora. E estamos falando de Steve Jobs... Qual seria o grande executivo brasileiro capaz do "turnaround" da Petrobras? Henrique Meirelles? Sergio Rial? (Resisto a piadas com Eike Batista...)

* Por que *tem* de ser um nome "de mercado" (ou por que o mercado não aceita qualquer nome)? Porque é de capitalismo que estamos falando. "Socializar" a gestão da empresa, distribuindo cargos (e "benefícios") para partidos da base aliada, não deu certo. Como fez no caso da política econômica, o governo tem de reconhecer. Mesmo que o PT não reconheça. Na verdade, não importam as declarações de gente como o próprio Guido Mantega, Aloizo Mercadante e até Luiz Inácio Lula da Silva. O importante é entregar a gestão para alguém tecnicamente qualificado, em matéria de administração, e, como o caso envolve corrupção, um nome acima de qualquer suspeita, eticamente falando. Com todos os problemas (mesmo com o petrolão), a empresa não pode parar. Porque está, justamente, inserida do mercado, na economia brasileira - como poucas. Basta lembrar que, até há pouco, era a empresa brasileira de maior valor de mercado. Imagine o que isso significa em termos de empregos. Em termos de parceiros comerciais, cadeia produtiva, PIB. A Petrobras é praticamente um setor da economia brasileira. Não é para amadores. Não é para a "companheirada".

"Por que, afinal de contas, eu tenho de me preocupar com a Petrobras?", você deve estar se perguntando. "Eu não sou acionista nem nada." Mas você é brasileiro(a). Para que se tenha ideia da magnitude do impacto da Petrobras sobre nós, Dilma conseguiu segurar a inflação represando os preços dos combustíveis, via Petrobras, nos últimos *anos*. Foi um erro, obviamente, porque o governo continuou gastando e produzindo inflação, mas é só para mostrar a influência da Petrobras até sobre a economia doméstica. Fora que, se a Petrobras quebrar, o Brasil também quebra, como país. Grande parte da imagem do Brasil fora - mesmo com todos os problemas - ainda depende da performance da Petrobras. Se a empresa não paga os empréstimos que contratou, ou os bônus que emitiu, todas as outras empresas brasileiras sofrem, porque sua credibilidade é igualmente questionada. O Brasil perde seu "investment grade". E o País perde, literalmente, investimentos. O que significa menos desenvolvimento, menos empregos e menos futuro para todos. Por mais que você torça pelo impeachment da Dilma, torça para que ela dê um encaminhamento correto para a Petrobras. Antes que seja tarde (digo, mais tarde ainda). Afinal, o buraco é mais embaixo (em todos os sentidos)...


Julio Daio Borges
São Paulo, 16/12/2014


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