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Sexta-feira, 25/9/2015
Virando as Latas: o atleta brasileiro e o esporte
Heloisa Pait

+ de 2100 Acessos

Por um esporte brasileiro financeiramente independente, integrado ao saber e socialmente solidário.

Num artigo recente de jornal, o ex-deputado federal tucano Walter Feldman opõe nosso orgulho ludopédico ao reconhecimento do valor de práticas esportivas estrangeiras.1 Discordo.2

Acho que a compreensão da experiência americana no esporte pode ser muito útil. Assim como o Brasil, os Estados Unidos têm um público aficcionado pelo esporte, jovens dedicados como amadores ou profissionais e mercado capaz de financiar a prática esportiva. Cada vez mais, os jovens brasileiros querem desenhar suas carreiras de modo autônomo com o auxílio do esporte e não subordinado a ele. Os americanos conseguem integrar esporte e estudo, abrem oportunidades comerciais que financiam o esporte em vários níveis e estimulam a participação comunitária nos esportes de base, oferecendo opções aos jovens de acordo com suas prioridades de vida e interesses. Não é o que queremos?

Participação comunitária.  No esporte de base, o uso dos equipamentos públicos e privados pela comunidade é muito intenso. No verão, os parques das cidades americanas estão cheios de jovens jogando bola, com seus pais como primeira torcida da vida. As escolas do ensino fundamental não oferecem muitos programas, mas abrem as portas para que os pais organizem ligas e campeonatos. Acredito que a função do Estado  mais importante seja oferecer os caros equipamentos e deixar a própria comunidade organizar suas atividades. No Brasil, na atual situação de crise, equipamentos privados ociosos poderiam ser alugados caso o Estado não possa investir e os já construídos, como os CEUs, mais intensamente utilizados. Devemos olhar para a crise como um empurrão para a integração entre nossas crianças, com uso compartilhado de equipamentos. De qualquer forma, o que percebo nos EUA é que no esforço de organização conjunta das ligas, onde os próprios pais se voluntariam como técnicos, as crianças aprendem sobre a importância da atuação comunitária. No Brasil, ao contrário, o Estado promete tudo e ao final dá pouco, especialmente em exemplos.

Integração com os estudos.  Esse é o grande trunfo do esporte americano. Não vamos minimizar essa conquista, pois ela tem inúmeros significados tanto para o esporte como para a formação intelectual dos jovens. Não é à toa que brasileiros têm buscado nas faculdades americanas as chances de prolongar a carreira no esporte ao mesmo tempo em que obtém formação profissional. Hoje, jovens da nova classe média querem opções de vida, e não imposições.

No ensino médio, a oferta de esportes nos EUA já é bem maior que no fundamental. Mas é no ensino superior que as coisas realmente tomam corpo: as faculdades recrutam jovens atletas e elas mesmas os treinam. No basquete, a profissionalização de fato só ocorre depois da faculdade. Apenas o baseball, dos grandes esportes, não tem muito espaço nas universidades; mas a oferta de modalidades é muito grande. Muitos alunos escolhem onde vão estudar pelas condições oferecidas, sendo que as mulheres têm cada vez mais espaço no esporte universitário. O critério para a formação de ligas é o grau de apoio oferecido ao atleta. Faculdades que oferecem bolsas para atletas ficam numa liga mais competitiva e exigente; faculdades que não oferecem estão em outra. Cada liga tem seu público e suas competições, gerando receitas às faculdades ou prestígio.

Quem está nas salas de aula do ensino superior brasileiro, como eu, acaba conhecendo jovens que tiveram que interromper precocemente suas carreiras esportivas, gerando muita frustração. O outro lado, que não chega à faculdade, deve ser ainda mais melancólico: jovens que aceitam condições duras para continuar apostando no esporte, e acabam nem tendo o reconhecimento reservado a poucas estrelas.3 No Brasil, a integração entre esporte e estudo através de ligas universitárias ajudaria também a construir uma ponte entre classes sociais diversas, colocando em contato real, efetivo, jovens de distintas origens e instituições de ensino.

O negócio do esporte.  O esquema americano tem espaço para todos, cada qual com sua prioridade, seu público, seus apoiadores, e principalmente amparado por uma instituição de ensino, que é o que garante um futuro real na vida adulta. Será que o ensino privado brasileiro não teria interesse em entrar nessa atividade, de forma independente ou em conjunto com clubes, oferecendo assim uma oportunidade para que os jovens brasileiros continuem estudando enquanto se dedicam ao esporte, e também, claro, usando isso para sua promoção? Será que emissoras de TV não gostariam de transmitir jogos mais baratos, mas talvez mais próximos da comunidade? Esse esquema mais amplo daria oportunidade para que cada jovem tivesse suas conquistas, suas vitórias, não apenas reservadas aos grandes craques do futebol global. Mas também abriria oportunidades de negócios para organizadores de eventos, para os meios de comunicação, especialmente os locais, e para empresas patrocinadoras. O negócio do esporte não ficaria tão concentrado em grandes espetáculos: proporcionaria o lazer da comunidade, apoiado pelo comércio local e com seus ídolos locais. O esporte profissional se beneficiaria com atletas com melhor formação, que no futuro seriam melhores dirigentes...

O Estado brasileiro age em larga medida como concentrador de renda, apoiando negócios que podem andar com as próprias pernas, extraindo para isso recursos do conjunto da população que financiariam iniciativas menores e inovadoras. No futebol, não me parece diferente. Está na hora de o Estado deixar de financiar o esporte comercial e estimular de modo concreto, com equipamentos esportivos de boa qualidade em escolas e parques públicos, o pequeno esporte que enche de vida as cidades e dá objetivos aos jovens. O próprio Walter Feldman, com sua inegável capacidade aglutinadora, está hoje numa posição privilegiada para construir esse novo esporte brasileiro, financeiramente independente, integrado ao saber e socialmente solidário. É só botar a mão na massa. Sem receio de virar as latas.

1 Não acho que há complexo de vira-lata em buscar em outras experiências idéias para um futebol ou uma sociedade melhor. Países desenvolvidos são copiadores desavergonhados. O Japão é uma potência econômica e um exemplo de civilização, sem pudor de copiar, ontem e hoje. Os EUA nem culinária própria têm. Eles se referem a uma "experiência americana", mas não reclamam uma identidade nacional. Copiaram o sistema político e educacional, importaram a filosofia e as artes e não param de fazê-lo. E mesmo nós, o que temos de melhor, resulta do que Oswald de Andrade chamou de antropofagia. Com bom senso, a cópia é uma grande invenção humana, e aquelas piadas sobre as diferenças entre o inferno e o paraíso - o cozinheiro inglês, o amante suíço -  expressam isso de modo arguto. No Brasil de hoje, estamos obviamente nos dando conta de que algo está errado, seja na sociedade como um todo ou no futebol. Nesses momentos, é bom ver o que os outros fazem; cidadãos maduros quando há uma crise olham em volta para refletir sobre que opções temos e desconsideramos.

2 Sinto-me na obrigação de mostrar minhas credenciais para falar de futebol, que reconheço humildemente como espaço sagrado masculino. Aqui vão elas: na adolescência fui esportista "federada" por um clube privado, dei aulas nos EUA e estudei o ensino superior americano. Como professora aqui no Brasil, orientei pesquisas sobre o esporte, incluindo o estudo comparativo do esporte americano e brasileiro do jovem Rafael Martimbianco. Esse texto também traz informações e experiências do meu irmão, um fã do esporte e conhecedor da cultura americana, além de por breve período técnico de futebol feminino.

3 O antropólogo Roberto DaMatta já havia notado num estudo comparativo sobre a natação nos dois países que nos EUA cada nadador é um campeão, tantos os tipos de prêmios em disputa, enquanto no Brasil, há lugar para um punhado de vitoriosos e esquecimento para os demais.

Heloisa Pait
São Paulo, 25/9/2015



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