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COLUNAS

Quinta-feira, 18/10/2018
O Voto de Meu Pai
Heloisa Pait

+ de 6800 Acessos

Um parente distante especulou sobre o voto de meu pai nessas eleições, caso ele estivesse vivo, e questionou as opções minha e de meu irmão. Ele usou termos e formas de expressão que se tornaram normais nos dias de hoje, especialmente nas redes sociais. Mas uma leitura generosa de sua diatribe nos daria a seguinte pergunta: quais os valores de seu pai e como eles se expressam em seu voto? De modo torto, foi isso o que ele perguntou. Foi o que me pôs a pensar, a rememorar, a imaginar.

Essa eleição está sendo fundamentalmente sobre valores. A Rede Globo propôs uma brincadeira, sobre o país que queremos para o futuro, enviado em vídeos sinceros e tocantes. Achei a iniciativa bonita e otimista. Mas por alguma razão, talvez pelas próprias redes sociais, descolada do voto na urna, onde um outro país era proposto. Estamos pensando além da política, em valores. Além de propostas, em ideais. Então procuro aqui resgatar os valores que me movem, os mais profundos, os de meus pais, para justificar o voto dramático que é o de outubro de 2018. (foto de Jacques Jesion)

Meu pai era um homem honrado, que trabalhou duro a vida toda e só viveu do que ele mesmo produziu. O que nos deixou foi fruto do trabalho dele e tão somente dele, nada mais.

Meu pai começou a trabalhar com 18 anos, e me lembro de ele contar que entregou o primeiro salário para a mãe dele, com orgulho. Parou morto aos 72 anos, e eu sei que trabalhou até o fim pois ainda tinha escultura no serralheiro, que depois inauguramos na Chácara Klabin. Ainda tinha produto dele, do esforço dele, para ser entregue. Eu sei que ele trabalhava pois desde de criança me encantava a mão áspera do meu pai, e depois com as esculturas a mão sempre suja de tinta, mão de homem, mão de trabalhador. As costas curvadas de noites na prancheta, meu pai.

Durante dois anos, por volta de 1980 a 1982, meu pai esteve desempregado, com breves empregos de poucos meses. (Ou seja, no total, foram 52 anos de trabalho. 52 anos.) Ele entrou numa depressão violenta, pois para ele um homem que não trabalhava não era um homem. Não suportava ver-se a si mesmo sem um ofício, uma tarefa a desempenhar, um compromisso profissional. Emergiu dessa experiência renovado, como escultor, retomando o aspecto criativo que tinha deixado de lado com as demandas profissionais. Fez exposições, alugou um studio que era um prazer visitar. Eu tentei vender esculturas dele em Nova York, era bem recebida por galeristas, que apreciaram as fotografias das obras, também tiradas por meu pai. Temos ainda várias em casa, são testemunhos de uma vida lidando com materiais, com formas. Temos também seus livros, que ele levava para a faculdade para ensinar os alunos, livros pesados, livros de verdade. Sei que ensinou pois quando adoeceu os alunos vinham vê-lo no hospital e durante anos depois de sua morte ainda recebia ligações de ex-alunos, que eu tinha que consolar.

Esse é meu pai.

Como marido, quando minha mãe ficou doente, os médicos nem sabiam da separação, de tão solidário que foi. Eu sei disso pois vi a cara do oncologista quando ele percebeu que ali estava um casal separado, de choque, pois meu pai ia religiosamente às consultas, estava lá, e seu sofrimento quando minha mãe se foi era de doer mesmo. Esse é o exemplo que meu pai nos deixou. Ele tinha direito a metade da aposentadoria da minha mãe, por não terem se separado legalmente. Era aposentadoria de INPS, uma complementação apenas, não era salário integral nem nada. Era coisa justa, de trabalhador. Acho que hoje seriam uns 4 mil reais o total, e metade uns 2 mil, nessa ordem de grandeza, talvez menos. Pois bem. Todo mês, ele ia visitar minha avó e entregava para ela os 2 mil da filha que a tinha deixado. Eu sei porque vi isso, encontrei ele uma vez na Angélica, indo lá pessoalmente visitar minha avó.

Esse era meu pai.

Ele também era divertido em festa e contava piada. Ele nos deixa saudade pois era esse cara exuberante e cativante, por trás do qual se escondia um homem digno e trabalhador, ao passo que no Brasil e talvez no mundo atrás desta máscara em geral se escondam canalhas. Mas esse era meu pai. Trabalhador, dedicado, respeitador das mulheres e que honrava a própria sogra, em nome de valores familiares superiores. Nunca vi ele levantar a voz para minha mãe, e muito menos o braço. Nunca o vi dizer o que minha mãe deveria fazer ou deixar de fazer, e a carreira da minha mãe seguiu desimpedida por qualquer machismo que na época existisse. Eu sei pois fui testemunha disso, criança, nos anos 1970.

A relação deles era de independência, ancorada no respeito mútuo: nunca vi um vigiando o outro, nem cobrando whereabouts. A única crise de ciúme que vi minha mãe ter com meu pai tinha a ver com o afeto extremo que ele tinha pelo irmão, o tio Gilberto, e pela mãe, a dona Fanny. Minha mãe se ressentia de meu pai falar de “minha casa” se referindo à casa da sogra dela. Uma vez minha mãe descobriu que meu pai havia financiado parte do apartamento da Rua Dr. Melo Alves do meu tio. Ele já havia saldado a dívida ou estava em vias de o fazer, mas minha mãe ficou possessa em saber que meu pai havia aberto mão da poupança da família, que poderia ser necessária numa emergência, para ajudar o irmão. Esse era o nível da confiança entre eles, esse era o nível das traições que um cometia contra o outro: no caso de minha mãe, levar sempre a própria mãe nas viagens; no caso de meu pai, emprestar ajuda ao irmão.

A oura crise de ciúmes me contaram eles, e retomo aqui pois é divertida. Minha mãe recém-casada encontrou um bilhete com um nome feminino e um telefone entre as coisas do meu pai. Minha mãe não deixou por menos: quem era ela? Por que o telefone ali anotado? De que se tratava? Meu pai posou de marido pego em flagrante. Desconversou, disse que era bobagem, que aquilo não era nada de mais... E minha mãe ficando possessa. E meu pai dando corda, com negativas evasivas. “Deixa isso pra lá, Rosa.” Aí quando ela já estava roxa de raiva, ele explica: “Rosa, Sisa não é nome de mulher. Sisa é o imposto que eu tenho que pagar para regularizar a doação do apartamento do seu Leo.” O telefone era de algum cartório, pelo que lembro. Minha mãe é que foi pega no flagra de seu ciúme pelo humor do meu pai.

Minha mãe eu tenho certeza que teria votado no Alckmin e estaria votando no Haddad. Minha mãe tinha alma tucana, e não era por fidelidade a um líder ou outro, era pelos valores da social-democracia que eram ela integralmente: uma sociedade livre e justa; com direitos iguais para homens e mulheres, sem paternalismo; uma sociedade de leis protegendo direitos e de transparência ajudando os governantes; de apoio aos necessitados mas com a valorização do trabalho; de escola boa e serviços médicos para todos; de esporte para os jovens e respeito à natureza; uma sociedade onde os adultos governam e cuidam das crianças. Isso eu tenho certeza, não preciso pensar. Ela era Montoro e Covas, mas era fundamentalmente uma social-democrata, uma professora universitária sem unha pintada, banhada em giz de lousa, que pegava no pesado para poder enfrentar a vida de ombros erguidos.

Meu pai tinha a alma livre, não dá pra saber em quem votaria. O modo como pensava era sempre surpreendente, mas óbvio que nunca cogitaria votar num milico mequetrefe, censor covarde de livro. Meu pai apoiou o Marechal Teixeira Lott, junto com o PCB, em 1960, mas não se pode comparar. Vejam só a foto de Lott na Wikipédia e vocês vão entender o que digo: Lott era um militar de verdade, um democrata. Nada a ver com um capitão expulso por terrorismo. Agora, em quem ele teria votado no primeiro turno, não dá pra saber. Pelo temperamento, em Ciro Gomes, mas não vejo meu pai votando em coronel nordestino, o contrário de sua alma livre. Meu pai não gostava muito dos tucanos, tão certinhos e previsíveis, e um tanto pernósticos também. Não tinha paciência para Fernando Henrique nem Celso Lafer. (Meu irmão conta que ele votou em Fernando Henrique em 1985 e se espantou com a quantidade de votos que Jânio, um idiota, recebeu.) Votou em Luiza Erundina em 1988 e logo a seguir em Collor de Mello, adorava uma polêmica. É, talvez votasse em Ciro... Ele tinha uns critérios surpreendentes. Fazendo um esforço imaginativo, vejo ele votando na Manuela d’Ávila, por ser uma mulher jovem, bonita e articulada, que lembraria meu pai das alunas inteligentes e preparadas que encontrou quando voltou às salas de aula. Ou então perguntando a meu irmão: “Filho, e esse Haddad, é pra votar?” “É sim, pai.” “Então vou votar.” Acho que só votaria em Alckmin num voto útil, não por escolha.

Agora, que nós filhos do meu pai votemos no Haddad agora no segundo turno, isso não deve surpreender ninguém. Um sujeito de livros, professor, ministro da educação, casado e pai presente, querendo dar aos outros a oportunidade que ele mesmo teve, estudando no Bandeirantes e entrando na USP. Que dúvida? Diante de um militar que manda os soldados fazerem o serviço sujo da campanha, sem se responsabilizar pelo estrago da violência e intimidação? Fora de questão. Nossos valores, de pai e de mãe, são esses: estudo, trabalho, família e tsedaká, que é a justiça social nos moldes da tradição judaica.

O tanto que minha mãe não suportava as mentiras do regime militar, meu pai abominava a corrupção. Ele a conhecia de perto, tento prestado serviços à Petrobrás, que extorquia os fornecedores do modo como hoje conhecemos tão bem. Tinha verdadeiro asco dos que, incrustados no serviço público, se beneficiavam sugando da sociedade seu trabalho e recursos. Dos militares no poder, se locupletando em negociatas com empresários coniventes, falava com desprezo e assim aprendi a desprezar achacadores e corruptos. Uma vez caí na besteira de repetir ao meu pai o que um professor tinha dito em aula, que a corrupção azeita a economia. “Como assim, filha? Como pode a corrupção que tira recursos de todos ter algum benefício?” Ouvi um sermão. E aí voltei à visão intuitiva que roubo é roubo, seja de um aparelho eletrônico na porta da alfândega, de uma carteira na praça da Sé ou de superfaturamento de navios sonda.

Se meu pai e minha mãe tratavam bem – e nisso eram idênticos – vagabundos, ladrões e ignorantes, era que eles gostavam de cultivar a conversa, o humor e a convivência, que lhes davam tanto prazer. Eu e meu irmão prezamos mais o debate profundo, as discussões mais focadas, o companheirismo com lastro. É questão de personalidade. Não me perguntem a mim o que pensavam meus pais de um e de outro fora da roda de conversa, para não me obrigar a quebrar imagens róseas de relações apenas sociáveis. Não era que eram duas caras, não é isso. É que não cabia julgar ninguém na conversa esporádica, ainda que coubesse avisar a prole de que há comportamentos corretos e outros inaceitáveis. E, garanto a todos, fui avisada! “Esse aí nunca vi com um livro aberto no colo.” “Aquele fez fortuna assim e assado.” “Esse outro a própria mãe lhe tem medo.” “E esse ainda nunca fez nada na vida.” “Já essa é puta de um homem só.” Não faltaram exemplos, e como bons professores, exemplos próximos, que pudessem os filhos observar e aprender como um homem e uma mulher devem se comportar.

Nessa eleição, entre um partido esfacelado e outro inexistente, vamos optar entre dois homens e, no caso dos vices, entre um ogro e uma mulher. Escolheremos entre uma dupla e outra. Será uma escolha de valores. A educação versus a censura, o trabalho versus o privilégio, a responsabilidade versus a delegação, a família versus o teste de DNA, a justiça social versus a força bruta, os princípios versus o modismo.

Eu vou votar com os princípios do meu pai. Pense nos princípios do seu. É seu melhor santinho.


Heloisa Pait
São Paulo, 18/10/2018



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