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Segunda-feira, 7/2/2022
A pós-esquerda identitária e grupalista
Luis Dolhnikoff

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A expressão “politicamente correto” surgiu nos anos 1930, no chamado “campo da esquerda”, adotada pelos partidos comunistas ocidentais que seguiam as diretrizes político-ideológicas ditadas por Moscou. Era, por exemplo, “politicamente correto” não se alinhar, nem no discurso nem em eleições, aos social-democratas (que buscavam reformar o capitalismo em direção ao que se tornaria o Estado de bem-estar social) ou aos trotskistas. A expressão caiu em desuso durante a Segunda Guerra Mundial, quando a própria URSS se aliou a entidades politicamente “incorretas”, como os EUA.

O politicamente correto reapareceria nos anos 1980-90, nos mesmos EUA, no contexto da queda da URSS, ou seja, do fim do chamado “socialismo real” (o stalinismo). Para se tornar, então, a expressão-chave da pós-esquerda.

Pós-esquerda, pois o fim da URSS significou o fim do projeto histórico da esquerda, de tomar o poder para substituir o capitalismo e a democracia representativa por um modelo alternativo, o socialismo.

Perdido qualquer projeto de poder alternativo ao capitalismo, e incapaz de criar uma nova utopia, a pós-esquerda adotaria um novo inclusivismo como projeto político possível. Aqueles que, junto à classe operária, seriam socialmente redimidos pela vitória do socialismo, agora o seriam pela conquista de novos e maiores espaços (inclusão, representatividade) dentro do sistema vencedor. Era o novo politicamente correto.

A readoção pela pós-esquerda de antigos termos e conceitos da velha esquerda histórica não é nem novo nem inusual; recentemente, a pós-esquerda também readotou, para nomear a si mesma, o adjetivo “progressista”; ocorre que este é um termo do tempo da Guerra Fria, entre os anos 1960-90, usado pela velha esquerda; para piorar, sua origem etimológica é o antigo conceito positivista de progresso (como no lema da bandeira do Brasil: “Ordem e Progresso”] – a explicação está no velho marxismo, que data do século XIX, para o qual o progresso técnico-científico do capitalismo deveria ser adotado e emulado pelo então futuro socialismo, como de fato o foi pela ex-URSS.

Como a derrota histórica da esquerda acabou, também, com a grande utopia da liberdade universal, que o socialismo prometia pelo fim da opressão do capital, ao lado da superação de todas as demais opressões, políticas, sociais, culturais, o novo politicamente correto buscaria na revalorização de culturas e comportamentos não hegemônicos um elemento de ampliação e sentido desse novo inclusivismo pós-esquerdista (o feminismo e o movimento negro norte-americano por direitos civis são anteriores ao politicamente correto original stalinista dos anos 1930; mas o feminismo do início do século XX, representado pelas sufragistas, era fundamentalmente um movimento da classe média e da alta burguesia brancas, enquanto o movimento negro tinha pouca expressão até os anos 1960 e a poderosa liderança de Martin Luther King; ambos foram afinal encampados pelo grande guarda-chuva ideológico do politicamente correto atual).

Não se trata, portanto, apenas de maior inclusão socioeconômica no sistema capitalista, embora este seja um dos objetivos (igualdade salarial, de oportunidades etc.), mas também da ampliação de espaços, pois as diferenças culturais e de representatividade tampouco seriam mais extintas pela grande utopia universal igualitária socialista. A pós-esquerda, portanto, seria identitária e grupalista. A morte do socialismo como projeto de poder apagou o caminho que pretensamente levaria à inclusão universal.

O politicamente correto acabaria por se tornar uma nova ideologia, o “político-corretismo”; nome feio, mas necessário, porque preciso. Pois nomeia a nova ideologia da pós-esquerda.

O político-corretismo é, enfim, a ideologia que substituiu o socialismo no campo da ex-esquerda. A face ideológica mais visível do político-corretismo, perdida a possibilidade de tomar o poder político em nome de uma sociedade alternativa, é sua intenção de, substitutivamente, “tomar o poder” cultural. Pois não há projeto político-econômico alternativo. Não há uma nova utopia. Apenas a busca por novas e maiores oportunidades dentro do velho sistema (a ampliação de direitos se dá, ao fim e ao cabo, no capitalismo, pela ampliação da renda; neste sentido, já é um caso clássico de estudo de caso o dos gays americanos).

O sistema não está em questão. Isso seria coisa de revolucionários, não de culturalistas (nos anos 1960-70, os Panteras Negras e Malcom X; nos anos 2000, “O pantera negra” e Chadwick Boseman; uma almejada república negra independente no Sul dos EUA nos anos 1960-70; “Wakanda forever” nos anos 2000). Mas de culturalismo agora se trata. Daí a aguerrida guerra de narrativas, a derrubada de estátuas, a hipervigilância jurídico-ideológica das redes e, principalmente, o autorreivindicado e auto-outorgado legislativismo impositivo e censório sobre a língua e a linguagem.

A “correição linguística” é um importante braço pragmático e programático do político-corretismo (que leva, mais do que eventualmente, a nonsenses como a ideia de neutralização dos gêneros pronominais em português: “IIu é minhe amigue” etc. – antes que me acusem de nãobináriofóbico, ou coisa parecida, lembro que a língua pertence ao conjunto de todos os seus falantes). Há ainda a busca da imposição de temas tematicamente corretos. No campo das artes em geral e da poesia em particular, isso resulta em uma nova poesia engajada (da qual é exemplo o grupo de finalistas do Jabuti 2020).

Conhece-se o caso histórico da devastação da arte russa pela arte soviética. Se no século XIX a Rússia produziu muitos dos maiores romancistas da história, como Tolstói e Dostoiévski, no século XX a União Soviética, pátria-mãe do stalinismo, não produziu nenhum grande romancista. O mesmo vale para a poesia: Maiakóvski, para ficar apenas em um exemplo, era anterior à Revolução. E não sobreviveu a ela.

A arte russa, incluindo a poesia, foi morta pelo “realismo socialista”, com suas duras diretrizes temáticas e formais ditadas pelo Partido para a criação de uma arte “compreensível para as massas”. A poesia brasileira (mas não só ela) hoje se reengaja, voluntariamente, em outras duras diretrizes temáticas e formais, desta vez não ditadas pelo Partido, mas por uma ideologia difusa e descentralizada (ou melhor, multicentrada em vários grupos).

Sim, há a crença de que se está lutando contra um “novo fascismo” (muitas vezes com métodos que emulam o próprio fascismo, como a censura e o controle ideológicos do vocabulário, dos temas, dos pontos de vista etc.; mesmo se verdadeiro, esse fato não justificaria reduzir a arte a mera serviçal de uma causa), enquanto o poder econômico, o verdadeiro poder, está onde sempre esteve – e onde há de ficar, a depender da pós-esquerda culturalista.

Desde o clássico estudo de Hannah Arendt sobre o totalitarismo, sabe-se que este não é exclusivo da direita: existe também o totalitarismo de esquerda (o stalinismo, espécie de fascismo vermelho) e o teocrático (das ditaduras islâmicas). De fato, os únicos fascismos que merecem o nome hoje estão no Irã dos aiatolás, na Coreia do Norte e na China, onde 1,5 bilhão de pessoas são submetidas à ditadura totalitária do Partido Comunista Chinês, incluindo polícia política, execuções extrajudiciais, campos de concentração, censura à imprensa, à internet e à criação artística, além de limpeza étnica, como a dos uigures do Xing Yang, e devastação cultural, como a do Tibet ocupado. Mas quem se preocupa com chineses?

Não, com certeza, os “progressistas” ocidentais, que, com o abandono do internacionalismo socialista pelo grupalismo identitário, abandonaram o internacionalismo pelo grupalismo – à diferença, para ficar em um exemplo, do que ocorreu no tempo da guerra do Vietnã.

A única vertente restante de internacionalismo é o ambientalismo. Mas como se trata, ao fim e ao cabo, não de ideologia, mas de necessidade de sobrevivência, o ambientalismo também agrega indivíduos, grupos e instituições muito além do neoculturalismo neonaturista da pós-esquerda, como cientistas, capitalistas lúcidos, governos europeus e organizações internacionais.

O novo engajamento politicamente correto da arte, assim como o velho engajamento socialistamente correto, anula a potência criativa individual pela submissão a normas político-ideológicas gerais. Um dos resultados mais evidentes é uma poesia panfletária, discursiva, cheia de clichês e, pasme-se, de palavras de ordem, por isso mesmo sintaticamente pobre, pois seu discursivismo exige linearidade. Enquanto o mundo se torna cada mais complexo (e confuso), a poesia se torma mais claramente autossatisfeita.


Luis Dolhnikoff
São Paulo, 7/2/2022


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