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Quinta-feira, 1/10/2015
Primavera ao ar livre
Elisa Andrade Buzzo

+ de 1900 Acessos


ilustra: Renato Lima

Mal começou a primavera e ela desabrocha em nosso coração, assim, de maneira mais distante que ao alcance da mão. Vejam estas pitangas que são tão boas avermelhando o chão da escola. Por que sempre na cidade os galhos com os frutos estão no alto? Então a gente desiste e se esquece de comer o que fica como uma decoração risonha e temporária da natureza.

E o pé de acerola num domingo prazenteiro já soltou seus frutos bem vermelhos, que escorregam na ladeira, antes aqueles que escaparam dos pisões. E a amoreira mais uma vez pinta de uma cor rubra e suja a calçada decrépita da ruazinha cheia de carros estacionados.

Os frutos tão bons, azedos e doces esquecidos pelos chãos imundos, pelas gretas das lajotas, tingindo de cor forte com aquilo que na boca não se prova. O pólen e as folhas pequenas das árvores chuviscando sobre as cabeças pesadas e desavisadas. Que imagem mais poética pode haver do que esta que uma brisa de primavera nos proporciona?

E os ainda pequenos e esbeltos ipês-amarelos soltam suas flores, como sinos despencando suaves, que se grudam nos galhos de outras árvores, antes que em algum momento tombem tantos que as calçadas e as gramas se irão tingir de sua cor. Nas noites quentes haverá uma oculta dama-da-noite, em arvoreta ou trepadeira, a seguir o caminho dos passantes com seu aroma inebriante. E este e outros jardins perfumados, de pungente aroma, seguirão o seu próprio caminho misterioso resguardados por trás de muros e gradeados.

As escadarias das pequenas vilas citadinas vão guardar os tenros cadáveres de hibiscos vermelhos. Até que sejam de lá varridos, sem antes deixar um pouco de sua substância pegajosa de flor. Mas são muitos os hibiscos, me aproximo com os olhos bem perto de suas intimidades. O estigma de pelúcia delicada, as anteras guardando o pólen que mais parece um pó de ouro. E essa vida vibrante ainda guarda mais substância secreta, no interior do ovário suculento.

Aguardando o ônibus, um velho homem, de camisa e calça social e sozinho, empunha um buquê fino. Não é ilustração de Mucha, nem estátua europeia da Primavera, mas é nossa e afetuosa. Tudo o que os estabelecimentos comerciais lacrados com seus ares-condicionados, com sua protuberância de flores artificiais, suas borboletas sem esqueleto não conseguem de jeito nenhum fazer - uma primavera, citadina e magrinha, mas de terra e asa verdadeira.


Elisa Andrade Buzzo
São Paulo, 1/10/2015


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