United States of Brazil | Sérgio Augusto

busca | avançada
88011 visitas/dia
2,7 milhões/mês
Mais Recentes
>>> Nova Exposição no Sesc Santos tem abertura online nessa quinta, 17/06
>>> Arte dentro de casa: museus e eventos culturais com exposições virtuais
>>> “Bella Cenci” Estreia em formato virtual com a atriz Thais Patez
>>> Espetáculo teatral conta a história de menina que sonha em ser astronauta
>>> Exposição virtual 'Linha de voo', de Antônio Augusto Bueno e Bebeto Alves
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Ao pai do meu amigo
>>> Paulo Mendes da Rocha (1929-2021)
>>> 20 contos sobre a pandemia de 2020
>>> Das construções todas do sentir
>>> Entrevista com o impostor Enrique Vila-Matas
>>> As alucinações do milênio: 30 e poucos anos e...
>>> Cosmogonia de uma pintura: Claudio Garcia
>>> Silêncio e grito
>>> Você é rico?
>>> Lisboa obscura
Colunistas
Últimos Posts
>>> Cidade Matarazzo por Raul Juste Lores
>>> Luiz Bonfa no Legião Estrangeira
>>> Sergio Abranches sobre Bolsonaro e a CPI
>>> Fernando Cirne sobre o e-commerce no pós-pandemia
>>> André Barcinski por Gastão Moreira
>>> Massari no Music Thunder Vision
>>> 1984 por Fabio Massari
>>> André Jakurski sobre o pós-pandemia
>>> Carteiros do Condado
>>> Max, Iggor e Gastão
Últimos Posts
>>> A lei natural da vida
>>> Sem voz, sem vez
>>> Entre viver e morrer
>>> Desnudo
>>> Perfume
>>> Maio Cultural recebe “Uma História para Elise”
>>> Ninguém merece estar num Grupo de WhatsApp
>>> Izilda e Zoroastro enfrentam o postinho de saúde
>>> Acentuado
>>> Mãe, na luz dos olhos teus
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Autores & Ideias no Sesc-PR I
>>> Balangandãs de Ná Ozzetti
>>> Hemingway by Ken Burns
>>> A sétima temporada de 24 horas
>>> De olho neles
>>> Saudações cinemusicais
>>> 1998 ― 2008: Dez anos de charges
>>> The Book of Souls
>>> Carta ao pai morto
>>> Rousseau e a Retórica Moderna
Mais Recentes
>>> Walter Benjamin: os cacos da história de Gagnebin, Jeanne Marie pela Mercado Editorial (2018)
>>> O Enigma de Teotihuacán de P. Guirao pela Hemus (1984)
>>> O mito, o ritual e o oral de Jack Goody pela Vozes (2012)
>>> O Peregrino Ilustrado de John Bunyan pela Mundo Cristão (2007)
>>> Cancioneiro para Encontro Vocacionais e de Jovens de N/t pela Loyola (1983)
>>> Cristãos Hoje de N. Maccari pela Paulinas (1976)
>>> Salmos de Edgard Armond pela Aliança (1979)
>>> Lobas, Lobos e Afins - a Eterna Busca da Liberdade... de Solange Torino pela Virgo (2001)
>>> Vida, Morte e Destino de Maria Fernanda S. e Edson Olivari de Castro pela Cia Ilimitada (1992)
>>> Rezas, Orações e Preces de Varios Autores pela Rita Carneti (1992)
>>> Como Falar em Publico e Influenciar Pessoas no Munndo dos Negócios de Dale Carnegie pela Record (1962)
>>> Uma Jornada Interior de Sara Mariott pela Pensamento (1993)
>>> Jovens e Adultos Dominical Fidelidade de Varios Autores pela Betel
>>> O Manual da Felicidade de Pe. Alberto Luiz Gambarini pela Ágape (2008)
>>> Como Enfrentar o Stress de Marilda Novaes Lipp e Colaboradores pela Ícone (1990)
>>> Auxiliares Invisíveis de C. W. Leadbeater pela Pensamento (1997)
>>> Oito Passos para Você ter Saúde de Ana Maria Freitas pela N/a
>>> O Livro do Destino de Herman Kirchenhoffer pela Círculo do Livro (1978)
>>> Eles Voltaram de Francisco Cândido Xavier pela Instituto de Difusão Espírita (1982)
>>> Os Remédios Florais do Dr. Bach de Dr. Edward Bach pela Pensamento (2006)
>>> Encontros, Desencontros e Reencontros de Florangela M. Desidério pela Paulinas (1982)
>>> Cavaleiro da Concórdia de Manoel Jacintho Coelho pela Racional (1988)
>>> Fátima, Aurora do Terceiro Milênio de João S. Clá Diaz pela Associação Cultural Nossa Senhora de Fátima (2000)
>>> I Ching, O Livro das Mutações de Juan Echenique Pérsico pela Melhoramento (2012)
>>> O Encontro, os mais Belos Encontros de Cristo de João Mohana pela Agir (1979)
ENSAIOS

Segunda-feira, 24/6/2002
United States of Brazil
Sérgio Augusto

+ de 5300 Acessos

Estados Unidos do Brasil ou United States of Brazil era como, na década de 40, Orson Welles e outros americanos chamavam o país do mulato inzoneiro. Ou, simplesmente, Brazil, que é como hoje os gringos grafam a nossa república federativa, a "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso, e aquele filme do Terry Gilliam. Claro que muito antes de 1939 já se escrevia Brasil com z, mas só naquele ano descobrimos que a nossa mais profunda aspiração era que o Brasil fosse mais Brazil do que Brasil – vale dizer, mais americano. Percebemos isso durante uma feira internacional, inaugurada em Nova York em 30 de abril de 1939, a acintosamente montada para embasbacar o resto do mundo com os prodígios tecnológicos dos Estados Unidos da América. Nela boquiabertos entramos e boquiabertos saímos. Boquiabertos e orgulhosos, pois enquanto durou a feira – e até o fim da guerra que em seu curso teve início – vivemos a ilusão de que havíamos estourado no norte, que éramos ou podíamos ser iguais aos americanos, tantas foram as referências e reverências feitas a nós e à nossa cultura na mídia americana naquele período.

Os americanos já haviam organizado várias outras feiras, nenhuma, porém, tão ambiciosa e dispendiosa (US$150 milhões) quanto a New York World's Fair. Vendendo uma imagem otimista do futuro e propondo aos visitantes a transformação de qualquer sonho em realidade, seu mote era o mundo de amanhã (The world of tomorrow), subliminarmente entendido como um domínio das incomparáveis invenções americanas: da meia de náilon da Dupont aos mais mirabolantes aparelhos eletrodomésticos da Westinghouse, da televisão RCA ao robô Eletro ("que em breve tornaria a dona de casa obsoleta"). Um vôo simulado percorrendo todos os Estados Unidos e avançando 21 anos no tempo era a atração do Futurama, da General Motors, a mais procurada pelos 45 milhões de visitantes da feira. Que maravilhoso mundo novo a General Motors previa para 1960! Ecologicamente equilibrado, sem câncer, com carros zerinho custando apenas US$200, fontes de energia alternativas e abundantes, criados cibernéticos.

Como ficaríamos sabendo em 1960, nada disso vingou. Mas o domínio americano medrou. Por força, inclusive ou sobretudo, da estupenda esperteza dos gringos.

Uma prova dessa esperteza foi a criação da Política de Boa Vizinhança, coordenada por Nelson Rockefeller, durante o governo Roosevelt. Boa vizinhança com a América Latina para fortalecer não só laços de amizade continentais, mas também assegurar aos EUA uma reserva de matérias-primas que a guerra tornaria ainda mais escassas e, por isso mesmo, mais preciosas. Para não falar da ampliação do mercado para os produtos made in USA que o avanço do nazismo praticamente baniu de várias praças européias. Impunha o programa a adulação de todos os países latino-americanos. Uns seriam mais paparicados que outros. A ordem de preferência era ditada pela dimensão do país, por sua posição estratégica, por suas riquezas naturais e por sua simpatia pelo nazifacismo europeu. O Brasil tirou a nota máxima em todos esses quesitos e por isso pôde promover seu café na Feira de Nova York como se o colombiano e o guatemalteco nem existissem. "Toda hora que você tomar um café brasileiro, você estará comprando a Política de Boa Vizinhança", alardeava-se nas rádios, nos jornais e nas revistas americanas.

Apesar de nominalmente mundial, a Feira de Nova York acabou sendo, por causa da guerra, uma Disneyworld ou um Epcot Center a serviço da Política de Boa Vizinhança. Erguemos lá um pavilhão desenhado por Lúcio Costa e Oscar Niemeyer e fomos tratados pelos anfitriões, em reportagens, artigos e discursos, como uma "pujante democracia" – pura cortesia da PBV, pois desde o final de 1937 vivíamos debaixo de uma ditadura. Expusemos na feira 25 obras de Portinari, produtos da terra como madeiras, minérios, tecidos, tapetes, mobiliário, goiaba em calda, o indefectível café; até uma Brasiliana completa acondicionamos numa estante e um busto de Getúlio Vargas, esculpido por Hildegardo Leão Veloso, exibimos à curiosidade dos circunstantes.

A todos aqueles signos de nossa pujança agregamos um restaurante típico, animado por uma orquestra comandada por Romeu Silva, curiosa figura da música popular que começou tocando saxofone no rancho carnavalesco Ameno Rosedá, compôs maxixes, criou uma banda de jazz, gravou discos com Josephine Baker nos anos 20, acompanhou Carmen Miranda numa excursão à Argentina, importou o clarinetista Booker Pittman e acabou no Cassino da Urca. Aliás, foi mais para rever o amigo Romeu do que para badalar o café brasileiro que Carmen Miranda bateu ponto na feira tão logo desembarcou em Nova York, em maio de 1939.

Antes mesmo de sua construção, o pavilhão brasileiro foi motivo de festa, com direito a discurso ufanista, hino (o Nacional, claro) e uma peça de Villa-Lobos, Descobrimento do Brasil, regido pelo autor. Transmitido em ondas curtas pela NBC e retransmitido para todo o Brasil pelo DIP (o Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo), o lançamento da pedra fundamental do Brazilian Pavilion foi o primeiro de uma série de programas radiofônicos apadrinhados pela PBV através das quais os americanos tomaram conhecimento de nossa existência e de nossa cultura. Entre 1939 e 1945, o Brasil esteve sempre presente nos lares americanos, especialmente através do rádio, o mais poderoso veículo de informação e entretenimento da época. E não apenas representado pelos expoentes de sua música popular, como Carmen Miranda, o Bando da Lua e Ary Barroso, que em 1939 compôs "Aquarela do Brasil" e depois viajou para Hollywood nas asas desse e outros sucessos promovidos por dois desenhos animados que Walt Disney aqui ambientou, como parte de sua contribuição à PBV.

Villa-Lobos, Bidu Sayão, Arnaldo Estrela, Camargo Guarnieri também eram ouvidos e homenageados a torto e a direito. Até uma soprano especializada em música folclórica, Olga Coelho, ganhou certa notoriedade. Para não falar de Elsie Houston, soprano de repertório ortodoxo que, apesar do nome e do pai americano, era brasileira da gema e diversas vezes foi comparada a Carmen Miranda.

Quando a guerra acabou e o mercado internacional reabriu-se às necessidades e à volúpia dos americanos, a PBV virou peça de museu e o Brasil voltou a ser, para a maior parte dos gringos, aquele gigante adormecido onde se fala espanhol e cuja capital é Buenos Aires – até porque essa confusão havia sido induzida pelo filme de Carmen Miranda rodados nos EUA, Serenata tropical (Down Argentine Way). Ainda estão para ser avaliadas com rigor – o que vale dizer sem passionalismo e corporativismo gay – as conseqüências da passagem de Carmen Miranda pela América e sua entusiástica cumplicidade com o sincretismo rítmico que, rotulado de samba – embora mais parecesse ramba ou sumba –, Hollywood ajudou a difundir, empastelando as diferenças culturais entre o Brasil e o Caribe. Não surpreende que os três murais feitos por Portinari para a Biblioteca do Congresso, em Washington, estejam na "Hispanic Division".

A passagem de Orson Welles pelo Brasil é outro capítulo da PBV ainda à espera de uma análise menos ingênua que as esboçadas até hoje. Com o passar dos anos e o acúmulo de leituras, passei a desconfiar que Welles não era aquele sincero, devoto e crucificado amigo do Brasil e sua gente que desde 1942 nos tentaram vender. Se nos amava com tanta intensidade por que nunca sequer esboçou o desejo de voltar? Simples: Welles nunca morreu de amores por esta terra. Numa entrevista a Peter Bogdanovich, publicada no livro This is Orson Welles, o cineasta foi bem claro: não foi idéia sua vir aqui e rodar It's All True porque seu interesse pelo Brasil era e continuou sendo nenhum. Daqui só apreciava a música: "Gostava de samba, mas não me passava pela cabeça visitar e viver na América do Sul – que é a parte do mundo que menos me interessa."

Poor Brazil.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado, em maio de 1999, na revista Bravo!.


Sérgio Augusto
Rio de Janeiro, 24/6/2002

Quem leu este, também leu esse(s):
01. Eu nunca fui nerd de André Forastieri
02. Pirataria 2.0 de Paulo Rebêlo
03. Duas cartas de Luís Henrique Pellanda
04. Um trailer do apocalipse de Sérgio Augusto
05. Papai Noel cientificamente correto de Sérgio Augusto


Mais Sérgio Augusto
Mais Acessados de Sérgio Augusto
01. Para tudo existe uma palavra - 23/2/2004
02. O frenesi do furo - 22/4/2002
03. Achtung! A luta continua - 15/12/2003
04. O melhor presente que a Áustria nos deu - 23/9/2002
05. Filmes de saiote - 28/6/2004


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




História da Ll Guerra Mundial- 1939-1945
Edgard Mc Innis
Globo
(1956)



Iniciação a Administração de Recursos Humanos
Idalberto Chiavenato
Manole
(2014)



O crime do padre Amaro (15ª ed.)
Eça de Queirós
Ática
(2001)



Teatro Grego ( Ésquilo, Sófocles, Eurípedes, Aristófanes)
Osmar Perazzo Lannes (tradução e Adaptação)
Matos Peixoto (rj)
(1965)



Renato Russo: o Filho da Revoluçao
Carlos Marcelo
Agir
(2009)



Os Dispersos - Contos
Janette Fishenfeld
Do Autor
(1966)



Um Assassinato um Mistério um Casamento
Mark Twain
Rideel
(2007)



Como Fazer do Sucesso um Hábito
Mack R. Douglas
Pro Net
(1994)



Vamos para Casa: uma História de Amor
Maria do Carmo Lima de Rezende (dedicatória)
7letras
(2004)



Gregor Mendel - Vida e Obra
Newton Freire Maia
T a Queiroz
(1995)





busca | avançada
88011 visitas/dia
2,7 milhões/mês