Niemeyer e a unanimidade | Daniel Piza

busca | avançada
35344 visitas/dia
1,6 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Ciclo de leitura online e gratuito debate renomados escritores
>>> Nano Art Market lança rede social de nicho, focada em arte e cultura
>>> Eric Martin, vocalista do Mr. Big, faz show em Porto Alegre dia 13 de abril
>>> Gabriel Cândido lança livro no Sesc São Caetano que aborda a aborda diáspora negra
>>> 'Estilhaços', o novo livro de Luís Fernando Amâncio
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Obra traz autores do século XIX como personagens
>>> As turbulentas memórias de Mark Lanegan
>>> Gatos mudos, dorminhocos ou bisbilhoteiros
>>> Guignard, retratos de Elias Layon
>>> Entre Dois Silêncios, de Adolfo Montejo Navas
>>> Home sweet... O retorno, de Dulce Maria Cardoso
>>> Menos que um, novo romance de Patrícia Melo
>>> Gal Costa (1945-2022)
>>> O segredo para não brigar por política
>>> Endereços antigos, enganos atuais
Colunistas
Últimos Posts
>>> Lula de óculos ou Lula sem óculos?
>>> Uma história do Elo7
>>> Um convite a Xavier Zubiri
>>> Agnaldo Farias sobre Millôr Fernandes
>>> Marcelo Tripoli no TalksbyLeo
>>> Ivan Sant'Anna, o irmão de Sérgio Sant'Anna
>>> A Pathétique de Beethoven por Daniel Barenboim
>>> A história de Roberto Lee e da Avenue
>>> Canções Cruas, por Jacque Falcheti
>>> Running Up That Hill de Kate Bush por SingitLive
Últimos Posts
>>> Saudades, lembranças
>>> Promessa da terra
>>> Atos não necessários
>>> Alma nordestina, admirável gênio
>>> Estrada do tempo
>>> A culpa é dele
>>> Nosotros
>>> Berço de lembranças
>>> Não sou eterno, meus atos são
>>> Meu orgulho, brava gente
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Para amar Agostinho
>>> Discos de MPB essenciais
>>> Conceitos musicais: blues, fusion, jazz, soul, R&B
>>> O Passado, de Hector Babenco
>>> Curtas e Grossas
>>> Caneando o blog
>>> Arte é entropia
>>> Amor fati
>>> 50 anos da língua de Riobaldo
>>> Dando nome aos progres
Mais Recentes
>>> Introdução à Engenharia Ambiental: O Desafio do Desenvolvimento Sustentável de Benedito Braga pela Pearson Universidades (2005)
>>> Magia e cura Kahuna: Saúde holística e práticas de cura da Polinésia de Serge Kahili King pela Madras (2004)
>>> Dicionário De Filosofia de Nicola Abbagnano pela WMF Martins Fontes (2000)
>>> PNF: Facilitação neuromuscular proprioceptiva: Um guia ilustrado de Susan S. Adler pela Manole (2007)
>>> Teoria Do Estado E Da Constituição de Jorge miranda pela Forense (2009)
>>> Livro Completo De Etiqueta De Amy Vanderbilt de Nancy Tuckerman pela Nova Fronteira (2000)
>>> Faça Como Steve Jobs de Carmine Gallo pela Lua de Papel (2010)
>>> A Chave do Reino Interior Inner Work de Robert A. Johnson pela Mercuryo (1989)
>>> O Livro de Deus - a Bíblia Romanceada de Walter Wangerin Jr. pela Mundo Cristão (1998)
>>> Araribá Plus. Geografia - 9º Ano de Cesar brumuni dellore pela Moderna (2018)
>>> Araribá Plus Artes 9º Ano de Denis Rafael pereira pela Moderna (2018)
>>> Projeto do Submarino Nuclear Brasileiro de Fernanda das Graças Corrêa pela Capax Dei (2010)
>>> Um Futuro Moldado por Deus de Ron Phillips pela Graça (2013)
>>> Mudança de Mo Yan pela Cosac & Naify (2013)
>>> Cem anos de solidao de Gabriel Garcia pela Mediasat (1967)
>>> Quando uma Garota Entra Em um Bar de Helena S. Paige pela Novo Conceito (2013)
>>> História do Japão: Origem, Desenvolvimento e Tradição de um País Milenar de Associação Cultural e Esportiva Saúde pela Graftipo Ltda (1995)
>>> Minha formação de Joaquim Nabuco pela Topbooks (2004)
>>> 64 Contos de Rubem Fonseca de Rubem Fonseca pela Cia das Letras (2004)
>>> Processo de Enfermagem de Wanda de Aguiar pela E.p.u. (1979)
>>> Paganism: An Introduction to Earth-Centered Religions de Joyce Higginbotham pela Llewellyn Publications (2011)
>>> Fantasma - Edição Histórica nº 14 A invasão de Bengala e A vitória em Bengala de Vários Autores pela King Features Syndicate (1995)
>>> Penguin Minis, Legend: 1 de Marie Lu pela Penguin (2019)
>>> Sem Tesão não há Solução de Roberto Freire pela Sol e Chuva (1990)
>>> A Arte De Amar de Erich Fromm pela Itatiaia (1995)
ENSAIOS

Segunda-feira, 7/1/2008
Niemeyer e a unanimidade
Daniel Piza
+ de 7400 Acessos
+ 4 Comentário(s)

Oscar Niemeyer divide ambientes no sentido literal e figurado. No figurado, porque está longe de ser a unanimidade que alguns autores brasileiros pintam. Há quem o admire muito, como alguns arquitetos mais novos como Christian de Portzamparc e Santiago Calatrava, e há quem o ataque acidamente, como os ensaístas Kenneth Frampton, Robert Hughes e Marshall Berman. Mesmo no Brasil é comum ouvir críticas à falta de funcionalidade de sua arquitetura, que seria de "um escultor, não um arquiteto", assim como a classificação dele como o maior ou um dos cinco maiores arquitetos do século 20.

Acho que parte dos motivos de tanta polêmica está no fato de que sua arquitetura não se encaixa facilmente nas classificações disponíveis. Ele nunca foi um modernista "bauhausiano" ou "internacionalista", do tipo que pretende abolir todo ornamento e toda referência local; tampouco, porém, pode ser classificado como um tradicionalista ou não vanguardista. Do mesmo modo, não pode ser tido como pós-moderno ou como precursor do pós-modernismo em sua ênfase nos elementos quentes e lúdicos, pois Niemeyer sempre foi adepto da simplicidade. A sua é uma arquitetura ao mesmo tempo minimalista e lírica, contida e ousada ― e talvez este seja o maior elogio que se possa fazer a ela.

Não é de hoje que a interpretação da arquitetura se divide entre os que põem ênfase na paixão e na expressão e os que a põem na razão e na construção. Isso vem desde pelo menos a disputa entre o "romântico" Ghiberti e o "racional" Brunelleschi no Renascimento italiano. Nos termos atuais, a contraposição se dá entre a arquitetura "espetacular", como a de Frank Gehry ou Herzog & de Meuron, e a arquitetura "silenciosa", de Renzo Piano ou Tadao Ando. Como de praxe, os rótulos são insuficientes: basta visitar o museu de Gehry em Bilbao e se surpreender com a sofisticada organização dos vazios internos; e basta pensar no Pompidou e lembrar como Piano pode ser orgânico e rítmico.

É por isso que Niemeyer é reivindicado por ambas as correntes. Os do "espetáculo" salientam seu gosto pelas curvas, pelos elementos coloridos, pela disposição cênica em relação ao ambiente. Os do "silêncio" acentuam sua leveza e singeleza, seu desprezo com o acabamento, seus blocos lisos e suspensos. Na realidade, Niemeyer sempre se colocou, deliberadamente, a meio caminho. Seus aprendizados com Le Corbusier e Lucio Costa foram até onde lhe interessava ― o uso de pilotis para revelar o horizonte, o gosto pelo "brise-soleil", etc. ― e logo ele tratou de buscar outras referências, como a natureza do Rio e a arquitetura colonial, para definir seu estilo. Em Pampulha, especialmente, ficou claro que as curvas do barroco mineiro seriam o recurso essencial.

Aqui faço uma advertência. Niemeyer gosta de se dizer pioneiro no uso das curvas e declara que foi ele quem incentivou Le Corbusier a utilizá-las, o que o arquiteto suíço faria com grande brilho na Capela de Ronchamps. Mas as curvas não eram novidade na arquitetura (a começar por Aleijadinho em sua igreja São Francisco de Assis em Ouro Preto), Le Corbu as utilizou de forma diferente (não como recorte do espaço, mas como quebra de simetria) e nos anos 40 e 50 uma série de arquitetos estrangeiros investiria nelas, como Frank Lloyd Wright (Guggenheim de Nova York), Eero Saarinen (TWA, também em Nova York) e Jorn Utzon (Ópera de Sydney).

De qualquer modo, Niemeyer transformou sua combinação de formas curvas e contornos singelos numa assinatura, numa identidade autoral, de tal modo que jamais se confunde uma obra sua com a de qualquer outro arquiteto. Atingiu uma síntese entre a linguagem modernista e a cor local, como não conseguiram nem mesmo os proponentes dessa tese ― Mário e Oswald de Andrade, os paulistas que conheceu pouco antes de ter contato com Juscelino Kubitschek. À maneira de Drummond e João Cabral, ele combinou o construtivo e o expressivo, só que com uma diferença fundamental: em tom maior, não em tom menor. Num gesto raro nas artes brasileiras, Niemeyer sempre gostou do monumental.

Ele costuma dizer que sua monumentalidade não é a dos prédios altos ou a dos volumes pesados, e é verdade. Mas que é monumental, é. Suas obras muitas vezes têm mais apelo quando vistas de longe ― do avião ou de algum ângulo panorâmico. Foi por esse motivo que Hughes disse que são "fotogênicas" mas "desumanas", pois tornam o homem pequeno diante de tanta imensidão de concreto. Não à toa suas praças, como a da Esplanada dos Ministérios ou a do Memorial da América Latina, que em sua visão seriam tomadas por multidões, em geral se encontram desérticas, inabitadas, como grandes maquetes sem rotina vital. Frampton e Berman associaram essa inclinação para as dimensões grandes e superfícies áridas à sua ideologia stalinista.

Também a idéia de que seria melhor escultor do que arquiteto, como já escrevi, não escapa ao exame visual. Seus monumentos, como o de JK e o do MST, para não falar da mão sangrenta do Memorial, beiram o kitsch, por sua retórica emotiva e ao mesmo tempo impessoal. O efeito, nesses casos, se sobrepõe ao signo. Do excessivamente literal "olho" do museu que leva seu nome em Curitiba, para dar outro exemplo, fez como base uma coluna de azulejos amarelos com uma enorme figura estilizada em azul, à maneira de um ginásio esportivo soviético. Nos últimos tempos, sua arquitetura tem se aproximado mais e mais dessas formas gráficas, talvez porque facilitadas pelas técnicas de engenharia modernas. O museu de Niterói, por exemplo, é pouco mais que uma forma de disco voador com uma rampa sinuosa, tal como queria o futurismo de 80 anos atrás. E seu projeto para o novo MAC de São Paulo é feio.

As melhores obras de Niemeyer são justamente aquelas em que o prédio se combina com o grafismo de uma maneira mais integrada, menos mecânica. É o caso do Palácio da Alvorada, com sua sucessão de colunas angulosas que cria uma espécie de caligrafia ao redor do volume principal; o mesmo ocorre nos arcos do Itamaraty, reaproveitados na sede da editora Mondadori em Milão. É o caso da Casa das Canoas, no Rio, em que há uma rara harmonia com a natureza ao redor, pela composição com a pedra e a paisagem. É o caso do interior da Catedral de Brasília, que surpreende a quem do exterior a achou pequena e que o põe sob um amplo rendilhado de linhas e luzes. É o caso do Copan e do Partido Comunista Francês, grandiosos edifícios dançantes. É até mesmo o caso do conjunto do Ibirapuera, pavilhão-marquise-oca-auditório, talvez a mais democrática de suas obras. Nelas, o lirismo vence o gigantismo.

Apesar dos problemas funcionais (falta de ventilação e iluminação, disposição ou espaço ruins para ambientes como banheiros, etc.) e também políticos (pois se trata do comunista que mais trabalhou para governos em todo o mundo, com especial domínio sobre as obras públicas do Brasil), a arquitetura de Niemeyer não pode ser reduzida a eles. Tampouco precisa ser exaltada em bloco, como se não oscilasse entre momentos geniais e fracassos lamentáveis, só porque está na moda entre cultores da arquitetura "espetacular". O que ele fez, porém, nenhum outro arquiteto brasileiro fez: tornou sua arquitetura, mais do que um marco de época ou nacionalidade, uma marca de estilo e universalidade.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado em O Estado de S. Paulo, em 16 de dezembro de 2007.


Daniel Piza
São Paulo, 7/1/2008
Mais Daniel Piza
Mais Acessados de Daniel Piza
01. Arte moderna, 100 anos - 10/9/2007
02. Como Proust mudou minha vida - 15/1/2007
03. Saudades da pintura - 16/5/2005
04. A pequena arte do grande ensaio - 15/4/2002
05. André Mehmari, um perfil - 20/11/2006


* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
9/1/2008
20h37min
Oscar Niemeyer é tão excepcional que merece elogios e muitas críticas. Certamente o autor do texto não conhece o nosso pequeno e tão visitado "Mirante" da Ilha Porchart na cidade de São Vicente-SP. No topo da Ilha, majestoso, é o espetáculo que espia outro espetáculo: cidades e praias da Baixada Santista. A TV de Santos costuma ir até lá para dizer "estamos em Santos", quando na verdade estão na cidade acima citada. O artigo faz jus à fama do arquiteto, pois quanto ao nosso monumento ele acertou em cheio.
[Leia outros Comentários de Gelza Reis Cristo]
23/1/2008
20h31min
Gosto de ler tudo o que Daniel Piza escreve. Sem dúvida, ao citar Frampton e Berman, ele tem noção do riscado. De fato, muito se elogia e muito se critica Niemeyer. Escultural, monumental ou não, a verdade é que o arquiteto centenário contribuiu para a elevação da arquitetura brasileira a uma categoria internacional. As poucas referências que existem sobre o Brasil no ramo da arquitetura fazem menção a Niemeyer. Das duas uma: ou se incentivam novos talentos ou teremos que nos contentar com, pelo menos, um nome como Oscar Niemeyer.
[Leia outros Comentários de Lúcia do Vale]
11/2/2008
09h37min
Niemeyer sabe que ele contribui para um mundo melhor, suas obras são fundamentadas na simplicidade, na ternura dos ventos, na beleza do espaço, ele soube como conquistar o mesmo atuando no seu concretismo, na sua dialética histórica.
[Leia outros Comentários de manoel messias perei]
30/1/2010
21h17min
Em tempos de ecologia e ambientalismanis, as obras de Niemeyer deveriam ser banidas da face da terra. Falta de funcionalidade, beleza, desperdício de tempo, dinheiro e material.
[Leia outros Comentários de Titus]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




As Lágrimas de Alá
Patrice de Méritens
Globo
(2008)



Garota Perfeita
Mary Hogan
Record
(2008)



Na Colmeia do Inferno
Pedro Bandeira
Moderna
(1991)



Treinamento Avançado Em Net
Anderson Viçoso de Araújo
Digerati Books
(2006)



Pílula da Liderança, A
Ken Blanchard
A Girafa
(2003)



Escola e Desenvolvimento Humano
Roberto A. Algarte
Livre
(1994)



Feng Shui Ecologia Habitacional (2006)
José Cardoso
Escala
(2006)



O Outro Lado da Moeda
Anamelia Bueno Buoro
Nacional
(2007)



Rota dos Amantes
Roberto Brant Campos
Asadepapel
(2012)



O Jardim da Meia-noite
Philippa Pearce
Salamandra
(2006)





busca | avançada
35344 visitas/dia
1,6 milhão/mês