A volta de Gombrowicz | Flávio Moreira da Costa

busca | avançada
42220 visitas/dia
1,3 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> Rinoceronte, poemas em prosa de Ronald Polito
>>> A forca de cascavel — Angústia (FUVEST 2020)
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
Colunistas
Últimos Posts
>>> Revisores de Texto em pauta
>>> Diogo Salles no podcast Guide
>>> Uma História do Mercado Livre
>>> Washington Olivetto no Day1
>>> Robinson Shiba do China in Box
>>> Karnal, Cortella e Pondé
>>> Canal Livre com FHC
>>> A história de cada livro
>>> Guia Crowdfunding de Livros
>>> Crise da Democracia
Últimos Posts
>>> Uma crônica de Cinema
>>> Visitação ao desenho de Jair Glass
>>> Desiguais
>>> Quanto às perdas I
>>> A caminho, caminhemos nós
>>> MEMÓRIA
>>> Inesquecíveis cinco dias de Julho
>>> Primavera
>>> Quando a Juventude Te Ferra Economicamente
>>> Bens de consumo
Blogueiros
Mais Recentes
>>> Ser intelectual dói
>>> O Tigrão vai te ensinar
>>> O hiperconto e a literatura digital
>>> Aberta a temporada de caça
>>> Se for viajar de navio...
>>> Incompatibilidade...
>>> Alguns Jesus em 10 anos
>>> Blogues: uma (não tão) breve história (II)
>>> Picasso e As Senhoritas de Avignon (Parte I)
>>> Asia de volta ao mapa
Mais Recentes
>>> O Livro da moda de Alexandra Black pela Publifolha (2015)
>>> Rejuvelhecer a saude como prioridade de Sergio Abramoff pela Intrinseca (2017)
>>> O livro das evidencias de John Banville Tradução Fabio Bonillo pela Biblioteca Azul - globo (2018)
>>> O futebol explica o Brasil de Marcos Guterman pela Contexto (2014)
>>> O Macaco e a Essencia de Aldous Huxley pela Globo (2017)
>>> BATISTAS, Sua Trajetória em Santo Antônio de Jesus: o fim do monopólio da fé na Terra do Padre Mateus de Jorgevan Alves da Silva pela Fonte Editorial (2018)
>>> Playboy Bárbara Borges de Diversos pela Abril (2009)
>>> Sarah de Theresa Michaels pela Nova Cultural (1999)
>>> A Bela e o Barão de Deborah Hale pela Nova Cultural (2003)
>>> O estilo na História. Gibbon & Ranke & Macaulay & Burckhardt de Peter Gay pela Companhia das Letras (1990)
>>> Playboy Simony de Diversos pela Abril (1994)
>>> Invasão no Mundo da Superfície de Mark Cheverton pela Galera Junior (2015)
>>> José Lins Do Rego- Literatura Comentada de Benjamin Abdala Jr. pela Abril Educação (1982)
>>> A modernidade vienense e as crises de identidade de Jacques Le Rider pela Civilização Brasileira (1993)
>>> Machado De Assis - Literatura Comentada de Marisa Lajolo pela Abril Educação (1980)
>>> A Viena de Wittgenstein de Allan Janik & Stephen Toulmin pela Campus (1991)
>>> O Velho e o Mar de Ernest Hemingway pela Círculo do livro (1980)
>>> Veneno de Alan Scholefield pela Abril cultural (1984)
>>> O Livreiro de Cabul de Asne Seierstad pela Record (2007)
>>> Os Dragões do Éden de Carl Sagan pela Francisco Alves (1980)
>>> O Espião que sabia demais de John Le Carré pela Abril cultural (1984)
>>> Administração de Materiais de Jorge Sequeira de Araújo pela Atlas (1981)
>>> Introdução à Programação Linear de R. Stansbury Stockton pela Atlas (1975)
>>> Como lidar com Clientes Difíceis de Dave Anderson pela Sextante (2010)
>>> As 3 Leis do Desempenho de Steve Zaffron e Dave Logan pela Primavera (2009)
>>> Curso de Educação Mediúnica 1º Ano de Vários Autores pela Feesp (1996)
>>> Recursos para uma Vida Natural de Eliza M. S. Biazzi pela Casa Publicadora Brasileira (2001)
>>> Jesus enxuga minhas Lágrimas de Elza de Almeida pela Fotograma (1999)
>>> As Aventuras de Robinson Crusoé de Daniel Defoe pela LPM Pocket (1997)
>>> Bulunga o Rei Azul de Pedro Bloch pela Moderna (1991)
>>> Menino de Engenho de José Lins do Rego pela José Olympio (1982)
>>> Terra dos Homens de Antoine de Saint-Exupéry pela Nova Fronteira (1988)
>>> O Menino de Areia de Tahar Ben Jelloun pela Nova Fronteira (1985)
>>> Aspectos Endócrinos de Interesse à Estomatologia de Janete Dias Almeida pela Unesp (1999)
>>> Nociones de Historia Linguística y Estetica Literaria de Antonio Vilanova- Nestor Lujan pela Editorial Teide/ Barcelona (1950)
>>> El Estilo: El Problema y Su Solucion de Bennison Gray pela Editorial Castalia/ Madrid (1974)
>>> El Cuento y Sus Claves de Raúl A. Piérola/ Alba Omil (profs. Univ. Tucumán pela Editorial Nova, Buenos Aires (1955)
>>> Las Fuentes de La Creacion Literaria de Carmelo M. Bonet pela Libr. del Collegio/ B. Aires (1943)
>>> As Hortaliças na Medicina Doméstica/ Encadernado de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar (1976)
>>> A Flora Nacional na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Arlington Park de Rachel Cusk pela Companhia das Letras (2007)
>>> Muitas Vidas, Muitos Mestres de Brian L Weiss pela Salamandra (1991)
>>> As Frutas na Medicina Doméstica de Alfons Balbach pela A Edificação do Lar
>>> Coleção Agatha Christie - Box 8 de Agatha Christie; Sonia Coutinho; Archibaldo Figueira pela HarperCollins (2019)
>>> As Irmãs Aguero de Cristina García pela Record (1998)
>>> Não Faça Tempestade Em Copo Dágua no Amor de Richard Carlson pela Rocco (2001)
>>> Um Estudo Em Vermelho - Edição De Bolso de Arthur Conan Doyle pela Zahar (2013)
>>> Eu, Dommenique de Dommenique Luxor pela Leya (2011)
>>> Os Cavaleiros da Praga Divina de Marcos Rey pela Global (2015)
>>> O Futuro da Filosofia da Práxis de Leandro Konder pela ExpressãoPopular (2018)
ENSAIOS

Segunda-feira, 12/1/2009
A volta de Gombrowicz
Flávio Moreira da Costa

+ de 5300 Acessos

Uma possibilidade: fazer uma aproximação entre o brasileiro-polonês Samuel Rawet e o polonês-argentino Witold Gombrowicz, dois filhos da diáspora do século XX, dois pioneiros (involuntários e avant la lettre) de uma faceta cada vez mais presente entre nós que é a literatura sem país, transnacional ou mestiça, que nos vem revelando a chamada globalização. (Penso em Sérgio Kokis, o brasileiro que se tornou expoente da literatura canadense.) Poderíamos começar com o conto "Gringuinho", de Contos de emigrante (Rawet) e chegar a Transatlântico (romance, de Gombrowicz). Em 1958, por coincidência, o mesmo ano da estréia de Rawet, o autor deste Pornografia (Companhia das Letras, 2009, 208 págs.), ainda em sua longa vivência argentina, escrevia no seu Diário: "Caminhava com decisão: rígido, afogado na não-vista, na absoluta certeza de ser um demônio, o anticavalo, o antiárvore, o antinatureza, um intruso, um estrangeiro, um outro. Um fenômeno que não era deste mundo. De outro. Do mundo humano." Eles sempre foram, qualquer o lugar onde estivessem, estrangeiros, "um outro", vítimas e portadores de uma divisão interna e de visão insólita, "estranha". (Há um pequeno e notável ensaio de Freud sobre isso: "O estranho".) Parentes próximos de Camus e Kafka. Gregor Samsa acordou um dia transformado num gigantesco inseto. Gombrowicz, um esnobe intelectual da aristocracia de Varsóvia, acordou um dia... bancário em Buenos Aires.

Uma outra possibilidade (mais pessoal) seria voltar no tempo, recuar mais de 30 anos e chegar à época da minha tradução (a primeira, pela Expressão e Cultura, de 1970, quando saíram também os contos bizarros de Bakakai; houve outra, da Nova Fronteira; esta agora é a terceira, embora não haja nenhum registro sobre isso nesta edição) de A Pornografia. Novo no ofício e na idade, cerquei-me de todos os cuidados: as traduções do romance para o inglês (não era boa), para o francês (boa) e para o espanhol (talvez a melhor, já que o próprio autor reviu a tradução). Li tudo o que encontrei de e sobre o autor ― nessas três línguas, já que não havia nada em português. E ainda ousei escrever um ensaio sobre ele para o Correio da Manhã da época (incluído no livro Os subúrbios da criação, de 1979), além da orelha, que aqui reproduzo, com mínimas alterações:

"Quando a metáfora e a metafísica se encontram no acabamento tantas vezes incômodo de um ato de criação, o que se tem como resultado é uma literatura insólita. Nenhuma outra palavra melhor para qualificá-la. A pornografia é um livro insólito.// Não o leia, portanto. Não o leia, a menos que possa perceber que pornografia não é uma categoria externa ao homem, muito menos uma exibição pública de sexo. A pornografia ― propõe Gombrowicz ― somos nós. Ou são eles. A pornografia não é, daí a força de sua (não) existência. Pois talvez nós estejamos marcados, sobretudo por aquilo que não somos. E isso ― paradoxalmente, mas só na aparência ― marca o nosso próprio ser. // A vida é muito complicada para torná-la simples. A vida é muito simples para fazê-la complicada. Falo agora em "vida", depois de ter falado em "metáfora" e "metafísica". E não é à-toa: essas três categorias, ou melhores, esses três elementos reais ― metáfora, metafísica e vida ― servem para definir e explicar o que seja literatura (pornografia?) para esse polonês perverso (?), apátrida (o que é isso?) e genial (pelo menos, escritor de gênio). E não há censura possível de impedir sua existência: é tal a sutileza que não há nesse livro um palavrão sequer. As coisas acontecem debaixo do pano. Ou dentro da cabeça. // Gombrowicz é um homem de definições próprias. Defende a imaturidade contra adultos e maduros. O jovem é uma possibilidade selvagem de vida; o adulto é persona (máscara, representação, Forma). Os jovens são; os adultos estão. // Não cheguei a resumir o livro ― seria traí-lo. Esse romance não tem história, no sentido tradicional; seu grande personagem é a vida mental de um homem, um personagem chamado Gombrowicz. E o leitor não deve ter muita certeza de seus próprios (pré)conceitos; deve deixar-se levar pela trama diabólica (e quase que, no todo, subterrânea) do autor: pois, não tendo história, esse romance é uma das histórias eróticas mais estranhas que já foram escritas."

Termina a orelha. Desculpe sua transcrição, e o tom grave do jovem autor que eu era. Compreenda-se: aos vinte e poucos anos, às vésperas de lançar meu O Desastronauta, tomei doses sucessivas do autor na veia. Se não tivesse partido para outra coisa, teria morrido de overdose. Restou o aprendizado e talvez uma marca (eu diria, indelével, ou imperceptível), de As armas e os barões até meu recente Alma-de-gato. Afinal, ninguém, ainda mais quando jovem, mergulha na obra de um autor como Gombrowicz impunemente.

Essa minha volta há mais de trinta anos, sob o pretexto do relançamento de Pornografia (agora sem o artigo "a"), pela Companhia das Letras, não poderia ter o mesmo impacto em mim ― e talvez em outros leitores que se aventurarem agora em entrar na obra deste "argentino deformado pelos trópicos", como ele mesmo se definiu certa vez. Mas continua valendo, pelas pistas que o autor deixava já em seu primeiro romance, Ferdydurke: "Para comunicar-se com o exterior e, sobretudo, com os outros homens, o homem necessita da forma (e entendo por 'forma' todas as nossas possibilidades de manifestação, como a palavra, a idéia, os gestos, as decisões, atos etc.). Porém essa forma limita-o, deforma-o, viola-o. Expressando através de um ritual já estabelecido de atitudes e forma de ser, sempre falseando e sendo ator."

Duas palavrinhas ― sobre o título e a tradução.

Depois que deixamos de lado a percepção literal da palavra "pornografia" (bastaria desconfiar dos dicionários e desligar a televisão), vamos ver que o título é, na realidade, um achado: além de dar um novo significado à palavra (falei antes em "metáfora" e "metafísica", não falei?) ela ― ou ele, o título ― esconde e acolhe certo tom de perversão sexual de que o texto está impregnado. Já a tradução se inclui numa tendência atual (louvável, aliás) de se utilizar a língua original como ponto de partida. Mas se esquecem que tradução é, também, ou principalmente, ponto de chegada. A tradução em questão é correta, mas nem sempre consegue o nível de linguagem conquistado pelo autor ― e às vezes derrapa em opções vocabulares equivocadas. O verbo "adentrar", por exemplo, é usado umas cinco vezes nas primeiras páginas da narrativa ― logo esse "adentrar" folclórico dos nossos locutores esportivos. ("Pelé adentrou o gramado e...") Nada que um trabalho editorial não pudesse ter evitado.

São detalhes que, longe de desclassificar a edição, não deveriam ― como não devem ― afastar o leitor atento que não se quer enganado por outro tipo de pornografia ― a dos cabeleireiros e livreiros de Cabul, caçadores de pipas e congêneres. É uma oportunidade de se entrar em contato com "um fenômeno que não era deste mundo. De outro. Do mundo humano." Ou seja, a boa, velha e resistente literatura. O último a chegar é mulher de padre.

Nota do Editor
Texto gentilmente cedido pelo autor. Originalmente publicado no Jornal do Brasil, em 03 de janeiro de 2009.

Para ir além






Flávio Moreira da Costa
Rio de Janeiro, 12/1/2009

Mais Flávio Moreira da Costa
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




SOCIEDADE DOS PAIS MORTOS (LACRADO)
MATT HAIG
RECORD
(2011)
R$ 31,00



OS COMEDIANTES
GRAHAM GREENE
CIVILIZAÇÃO BRASILEIRA
(1966)
R$ 10,00



PARA SEMPRE
KRICKITT CARPENTER; KIM CARPENTER
NOVO CONCEITO
(2012)
R$ 10,00



ANTES QUE VOCÊ PENSE OUTRA COISA
BRUCE I. DOYLE I I I
CULTRIX
(2013)
R$ 19,95



O RAMO DE PRATA - VOL. 2
ROSEMARY SUTCLIFF
GALERA RECORD
(2012)
R$ 30,00



QUESTÕES DE PORTUGUÊS COM PREFÁCIO DE RUI BARBOSA
ASSIS CINTRA RUI BARBOSAPREF
MELHORAMENTOS
R$ 19,84



DA COAÇÃO COMO DEFEITO DO JURÍDICO
OROSIMBO NONATO
ED. FORENSE
(1957)
R$ 55,00



EXAME DE ORDEM: DIREITO PROCESSUAL PENAL
NESTOR TÁVORA E VILMAR VELHO PACHECO FILHO
IESDE BRASIL (CURITIBA)
(2009)
R$ 25,28



CRÔNICAS DA INSÔNIA
KLAUS K.S.
SOUL
(2018)
R$ 29,90



A INVASÃO CULTURAL NORTE-AMERICANA (CULTURA)
JÚLIA FALIVENE ALVES
MODERNA
(1989)
R$ 12,00





busca | avançada
42220 visitas/dia
1,3 milhão/mês