Entrevista com Ryoki Inoue | Digestivo Cultural

busca | avançada
29791 visitas/dia
1,1 milhão/mês
Mais Recentes
>>> Banda GELPI, vencedora do concurso EDP LIVE BANDS BRASIL, lança seu primeiro álbum com a Sony
>>> Celso Sabadin e Francisco Ucha lançam livro sobre a vida de Moracy do Val amanhã na Livraria da Vila
>>> No Dia dos Pais, boa comida, lugar bacana e MPB requintada são as opções para acertar no presente
>>> Livro destaca a utilização da robótica nas salas de aula
>>> São Paulo recebe o lançamento do livro Bluebell
* clique para encaminhar
Mais Recentes
>>> O reinado estético: Luís XV e Madame de Pompadour
>>> 7 de Setembro
>>> Outros cantos, de Maria Valéria Rezende
>>> Notas confessionais de um angustiado (VII)
>>> Eu não entendo nada de alta gastronomia - Parte 1
>>> Treliças bem trançadas
>>> Meu Telefunken
>>> Dor e Glória, de Pedro Almodóvar
>>> Leminski, estações da poesia, por R. G. Lopes
>>> Crônica em sustenido
Colunistas
Últimos Posts
>>> Banco Inter É uma BOLHA???
>>> Não Aguento Mais a Empiricus
>>> Nubank na Hotmart
>>> O recente choque do petróleo
>>> Armínio comenta Paulo Guedes
>>> Jesus não era cristão
>>> Analisando o Amazon Prime
>>> Amazon Prime no Brasil
>>> Censura na Bienal do Rio 2019
>>> Tocalivros
Últimos Posts
>>> O céu sem o azul
>>> Ofendículos
>>> Grito primal V
>>> Grito primal IV
>>> Inequações de um travesseiro
>>> Caroço
>>> Serial Killer
>>> O jardim e as flores
>>> Agradecer antes, para pedir depois
>>> Esse é o meu vovô
Blogueiros
Mais Recentes
>>> O apanhador no campo de centeio
>>> Curriculum vitae
>>> O Salão e a Selva
>>> Ed Catmull por Jason Calacanis
>>> Por que a Geração Y vai mal no ENEM?
>>> Por que a Geração Y vai mal no ENEM?
>>> A massa e os especialistas juntos no mesmo patamar
>>> Entrevista com Jacques Fux, escritor e acadêmico
>>> Nuno Ramos, poesia... pois é
>>> Literatura e interatividade: os ciberpoemas
Mais Recentes
>>> Amor de Perdição / Eurico, o Presbítero de Camilo Castelo Branco / Alexandre Herculano pela Círculo do livro (1978)
>>> Carajás de Paulo Pinheiro pela Casa Publicadora Brasileira (2007)
>>> Menopausa de Diversos pela Nova Cultural (2003)
>>> Guia de Dietas de Diversos pela Nova Cultural (2001)
>>> Seguros: Uma Questão Atual de Coordenado pela EPM/ IBDS pela Max Limonard (2001)
>>> O Significado dos Sonhos de Diversos pela Nova Cultural (2002)
>>> A Dieta do Tipo Sanguíneo - A B O AB de Peter J. D'Adamo pela Campus (2005)
>>> Cem Noites - Tapuias de Ofélia e Narbal Fontes pela Ática (1982)
>>> Direito do Trabalho ao Alcance de Todos de José Alberto Couto Maciel pela Ltr (1980)
>>> Manon Lescaut de Abade Prévost pela Ediouro (1980)
>>> A Reta e a Curva: Reflexões Sobre o Nosso Tempo de Riccardo Campa (com) O. Niemeyer (...) pela Max Limonard (1986)
>>> Introdução às Dificuldades de Aprendizagem de Vítor da Fonseca pela Artes Médicas (1995)
>>> Dos Crimes Contra a Propriedade Intelectual: Violação... de Eduardo S. Pimenta/ Autografado pela Revista dos Tribunais (1994)
>>> O Cortiço de Aluísio Azevedo pela Ática (1988)
>>> A Voz do Mestre de Kahlil Gibran pela Círculo do livro (1973)
>>> O Jovem e seus Assuntos de David Wilkerson pela Betânia (1979)
>>> Emília no País da Gramática de Monteiro Lobato pela Brasiliense (1978)
>>> The Art Direction Handbook for Film de Michael Rizzo pela Focal Press (2005)
>>> A Escrava Isaura de Bernardo Guimarães pela Melhoramentos (1963)
>>> O Grande Conflito de Ellen G. White pela Casa Publicadora Brasileira (1983)
>>> Filosofia do Espírito de Jerome A. Shaffer pela Zahar (1980)
>>> Muito Além das Estrelas de Álvaro Cardoso Gomes pela Moderna (1997)
>>> A Grande Esperança de Ellen G. White pela Casa Publicadora Brasileira (2011)
>>> É Fácil Jogar Xadrez de Cássio de Luna Freire pela Ediouro (1972)
>>> O Espião que saiu do Frio de John Le Carré pela Abril cultural (1980)
>>> A Primeira Reportagem de Sylvio Pereira pela Ática (1988)
>>> Distúrbios Psicossomáticos da Criança de Haim Grunspun pela Atheneu
>>> Aprenda Xadrez com Garry Kasparov de G. Kasparov pela Ediouro (2003)
>>> Poemas para Viver de P. C. Vasconcelos Jr. pela Salesiana Dom Bosco (1982)
>>> A Casa dos Bronzes de Ellery Queen pela Círculo do livro (1976)
>>> Warcraft Roleplaying Game de Christopher Aylott e outros pela Blizzard / Arthaus / wizards (2004)
>>> A Dama do Lago de Raymond Chandler pela Abril cultural (1984)
>>> ABC do Vôo Seguro de Manoel J. C. de Albquerque Filho pela O Popular (1981)
>>> A Relíquia de Eça de Queirós pela Klick (1999)
>>> Manual Completo de Aberturas de Xadrez de Fred Reinfeld pela Ibrasa (1991)
>>> Para Sempre - Os Imortais - volume 1 de Alyson Noel pela Intrínseca (2009)
>>> A Máscara de Dimítrios de Eric Ambler pela Abril cultural (1984)
>>> Rômulo e Júlia - Os Caras-Pintadas de Rogério Andrade Barbosa pela Ftd (1993)
>>> O Nariz do Vladimir de José Arrabal pela Ftd (1989)
>>> Perigosa e Fascinante de Merline Lovelace pela Nova Cultural (2002)
>>> Brincar de Viver de Maggie Shayne pela Nova Cultural (2001)
>>> O Grande Conquistador de Rita Sofia Mohler pela Escala (1978)
>>> Comédias para se Ler na Escola de Luis Fernando Veríssimo pela Objetiva (2001)
>>> As 21 Irrefutáveis Leis da Liderança de John C. Maxwell pela Agir (2007)
>>> Dungeon master guide de Jonathan Tweet / Skip Williams pela Core Rulebook II (2000)
>>> Disfunção Cerebral Mínima de Antonio Branco Lefévre - Beatriz Helena Lefevre pela Sarvier (1983)
>>> Viagem Fantástica II - Rumo ao Cérebro de Isaac Asimov pela Best Seller (1987)
>>> Tpm Número 57 Maio 2009 de Caetano Veloso pela Trip (2009)
>>> Incorporações Imobiliárias de J. Nascimento Franco/ Nisske Gondo pela Revista dos Tribunais (1984)
>>> Cavalo-Marinho no Céu de Edmund Cooper pela Hemus
ENTREVISTAS

Segunda-feira, 9/8/2010
Ryoki Inoue
Guilherme Pontes

+ de 23700 Acessos
+ 5 Comentário(s)

Ele escreveu e publicou (até o momento) 1.086 livros. Romances policiais, ficção científica, thrillers políticos, faroeste e terror. Publicou também manuais ensinando a escrever ficção, baseados em sua experiência prolífica (o adjetivo mais usado por todos em relação a ele). É o autor recordista no Guinness Book. Um escritor capaz de produzir capítulos de livros em visitas ao banheiro, como deu no Wall Street Journal. Produzia um livro por dia. Às vezes, mais de um.

Além de livros, escreve roteiros ― e disso também dá aulas. Além de roteiros, presta serviços como
webwriter. Além de livros, roteiros e webwriting, também dedica algum tempo para a atividade de ghost-writer. Antes que eu esqueça, também é editor.

Ryoki Inoue começou a escrever no final dos anos 80, já com quarenta anos de idade. Era médico, cirurgião torácico. Deixou a saúde e passou a se dedicar integralmente à literatura, escrevendo sob mais de trinta pseudônimos. Sozinho, era responsável por mais de 90% dos
pocket books comprados na década de 90, aqui no Brasil.

Seu nome completo é José Carlos Ryoki de Alpoim Inoue. Brasileiro nipo-lusitano (pai japonês, mãe portuguesa), nascido em 1946 na capital paulista. Hoje, Ryoki Inoue é publicado por grandes editoras, como Globo e Record, por exemplo.

O Brasil, "país que lê pouco", como todos nós já falamos um dia, tem dois fenômenos editoriais: um chamado Paulo Coelho, recordista de vendas; outro, Ryoki Inoue, recordista de produção. Aquele, não muito querido pela crítica ― com justiça ― por sua pouca habilidade literária, mas a quem não posso negar o crédito de ter incentivado a leitura. Este, menos conhecido que o primeiro, autor de mais de mil obras ― que paradoxo ―, mas também um incentivador da leitura e que tem em mente, e na ponta dos dedos, o claro objetivo de escrever para entreter. ― GM


1. As primeiras coisas que gostaria de saber, Ryoki, são as curiosidades básicas que um escritor recordista desperta e sobre as quais você, suponho, deve falar com frequência: como você consegue escrever tanto? Qual a sua rotina de trabalho hoje? (E como era na década de noventa, quando você foi elencado no Guinness Book?) Há alguma espécie de ritual ou preparação para o momento da escrita?

Sempre digo que escrever é 99% de suor e 1% de talento. Publicar e vender já é um pouco diferente: 98% de suor, 1% de talento e 1% de sorte. Sobreviver da escrita num país como o nosso, onde poucas pessoas leem, é muito complicado e requer realmente muito esforço. Assim, minha produção literária é principalmente uma questão gástrica: se não escrever e não publicar, ninguém come aqui em casa.

Na década de 90 era uma loucura. Quando assinei, sem pensar, um contrato com a Abril para produzir cinquenta títulos em dois meses, esqueci que já tinha firmado compromisso com outras duas editoras. O resultado foi eu ter de escrever três livros por dia durante esses dois meses. Hoje em dia a coisa é bem mais light. Acordo às sete da manhã, tomo meu café e vou fazer uma caminhada de uma hora. Com 64 anos, isso é fundamental. Começo a trabalhar entre oito e meia e nove horas. O período da manhã é dedicado à minha editora e depois do almoço, lá pelas duas horas, começo a trabalhar nos livros que estou escrevendo (normalmente escrevo dois ao mesmo tempo), no momento um sobre os desmandos na Igreja Católica nos últimos 20 anos (Também se lava com água benta) e um outro sobre a lavagem de dinheiro com o reflorestamento (Fraude Verde). Trabalho até sete da noite, janto, assisto o jornal e volto ao trabalho até mais ou menos meia-noite.

Se você considerar que encher e acender meu cachimbo é um ritual de preparação, então há. Caso contrário, não tenho esse tipo de frescura. Escrever é um trabalho como outro qualquer, para mim. É sentar e escrever. Claro que há algumas exigências como, por exemplo, não deixar que me interrompam (minha secretária atende todos os telefonemas e só passa para mim se for algo realmente importante ― e ela tem discernimento e treinamento para essa filtragem), o escritório tem de estar arrumado (sobre a mesa não pode haver nada além do computador, o cinzeiro e o apoio do cachimbo). E, evidentemente, o computador tem de estar completamente operacional. Odeio falhas de eletrônica.

2. Para quem produziu tanto (e ninguém produziu mais), o senhor acha que o seu reconhecimento é justo? Digo, se lhe atribuem mais o valor da quantidade e não o da qualidade? Como o senhor vê sua obra no panorama da literatura brasileira de agora?

Creio que, na realidade, ninguém acha que é suficientemente reconhecido por seu trabalho. Não sou diferente. Porém, no meu caso, tomo a liberdade e a ousadia de achar que tenho razão. Existe uma maldita mania de acharem que quem produz quantidade não produz qualidade. Acho que quem fala isso deveria no mínimo ler alguma coisa do que eu escrevo para depois criticar.

Sempre tive como meta a literatura de lazer. O que escrevo é feito para leitores comuns, aqueles que buscam distração, tentam sonhar por algumas horas nas páginas de meus livros. Não tenho intenções de eruditismo e muito menos sonhos acadêmicos. Acho que a literatura que eu pratico é a mais adequada para o momento atual do Brasil, um país em que o povo está se intelectualizando, buscando aprender a gostar de ler. E, para desgosto e desespero de muitos, acho que nós, escritores brasileiros, devemos isso ao Paulo Coelho, que ensinou o brasileiro a comprar livros.

3. É uma ótima proposta, essa de uma literatura de entretenimento, sobretudo agora, no Brasil. Nos anos 90, o senhor criou um James Bond nipobrasileiro, o Mário Kiyoshi Nogaki. Os jovens brasileiros hoje têm lido mais, há muita fidelidade por parte dos leitores para com seus ídolos fictícios (Harry Potter, Percy Jackson, os vampiros e lobisomens juvenis de Stephenie Meyer etc). O senhor já cogitou trabalhar com esta literatura juvenil sobrenatural? Ou mesmo em retomar as aventuras do Nogaki? Seu foco, agora, é mesmo o entretenimento adulto? O que o senhor acha da literatura de "entretenimento adulto" produzida hoje no Brasil?

Não gosto desse estilo dito "sobrenatural". Vampiros não me atraem e nem lobisomens. Já escrevi alguns romances com tendências espiritualistas, um dos quais (Herança Maldita) fala de uma verdadeira guerra entre a Umbanda e a Quimbanda. Mas, decididamente, não é a minha praia.

Estou escrevendo o quinto título do Nogaki, realmente. Ele já com quase cinquenta anos, mas ainda muito ativo. É minha intenção retomar esse nicho, agora mais voltado para o Brasil.

Não vejo muita diferença entre entretenimento "adulto" e "juvenil" hoje em dia. Assim acho que livros do tipo O fruto do ventre ou Quinze dias em setembro podem despertar o interesse tanto de jovens como de "adultos". De mais a mais, meu foco sempre foi ― é (e acredito que sempre será) ― a literatura de lazer. Não tenho a menor intenção de voltar minhas baterias para outro alvo.

Tirando o [Tony] Belotto, acho que está faltando esse tipo de literatura nas nossas livrarias. Os escritores brasileiros têm uma terrível tendência ao academicismo, ao eruditismo. E literatura de lazer não deve ser assim. A linguagem tem de ser o máximo possível coloquial e o autor não pode deixar que seus fantasmas escrevam o texto. Na maior parte das vezes, esses fantasmas não são muito claros e isso prejudica o entendimento do leitor. E o leitor que busca a literatura de lazer não quer ser obrigado a pensar demais no que está lendo. Ao contrário, ele quer "ver" o percurso dramático como se estivesse assistindo a um filme.

4. Para o senhor, que escreveu tantos policiais, existe um cânone da literatura policial brasileira? Se o senhor tivesse de escolher candidatos para este cânone, que obras seriam? Aliás, considerando-se que o senhor escreve pelo entretenimento, como o senhor vê o assunto "cânones literários"? Por fim, existiria um cânone da literatura de entretenimento?

Sim, o Rubem Fonseca. Seguido de perto pelo Belotto. Qual obra é difícil dizer, mas Agosto, do Rubem, seria candidata forte. Já a questão dos cânones é uma discussão estéril. A literatura de lazer não deve admitir cânones literários, mesmo porque não há espaço para muito eruditismo.

Eu considero o Harold Robbins um ícone (prefiro esta palavra a "cânone"). E também o Sidney Sheldon.

5. O senhor tem livros com temas religiosos (Herança Maldita, O fruto do ventre), políticos (E agora, Presidente?), históricos (Saga) e místicos (O nome não importa). Como é seu trabalho de pesquisa? É estritamente bibliográfico? O senhor, que tem uma imaginação tão prolífica, acha que há limites para as "licenças narrativas" (deturpações da realidade, dirá o leigo), seja no que convencionamos chamar de "literatura de entretenimento", seja na "alta literatura"?

Respondendo pelo fim: a verossimilhança é condição importantíssima. Tem de ser respeitada em todos os casos e sob todos os aspectos. Por isso a pesquisa é fundamental. Seja bibliográfica ou in loco, é preciso pesquisar de maneira a não se falar barbaridades na hora de transmitir ao leitor. Não vale usar excesso de licenças narrativas e isso em qualquer tipo de literatura que não seja aquelas (que eu detesto) que tendem para o fantástico, para o que é sabido que não pode existir. Meu trabalho de pesquisa, obviamente, antecede a escrita e é normalmente muito mais longo e complicado do que a redação do livro propriamente dita. Pesquiso em livros, na Internet e, sempre que possível, vou aos lugares onde faço transcorrer a ação dramática para vivenciar no local e ao vivo os ambientes.

6. O senhor mencionou o Tony Belloto. O que acha da Patrícia Melo, que já foi apelidada de "Rubem Fonseca de saia"? Esta nova geração, nomes como Eduardo Spohr e Luis Eduardo Matta, o senhor tem acompanhado? Sobra tempo para ler as novidades?

Sim, sobra tempo (pouco) para ler a acompanhar as novidades. Falei do Tony, deveria ter mencionado a Patrícia e o Luis Eduardo. Foi mero esquecimento, perdoem-me, os dois. Mas há muita gente boa e que ainda são absolutamente desconhecidos. Assim, por exemplo, o Sandoval Assef, o Fábio Fujii, o Nelson Machado...

7. O senhor também é autor de livros tutoriais sobre como escrever romances. O "caminho das pedras" que o senhor traça como mentor literário é baseado na sua própria produção?

O caminho das pedras, assim como a sua versão mais aprofundada, Vencendo o desafio de escrever um romance são a descrição do meu método pessoal e particular de trabalhar. Procuro mostrar como faço para criar um romance. Apenas isso. O último mencionado gerou um curso de 10 aulas que ministro on-line e presencialmente. Já tive vários alunos que, depois do curso, escreveram bons romances e publicaram.

8. Gostaria que o senhor falasse de suas outras atividades relacionadas à escrita criativa. Roteirização, webwriting, ghost-writing. Como e quando o senhor começou a roteirizar? Sobre webwriting: o senhor acha que a escrita para a Web é só uma moda que antecede a estabilização dos leitores eletrônicos (e-readers como o Kindle) ou é um tipo de redação que durará mais temporadas? E o ghost-writing, a demanda é grande? Daria para viver só disso?

Comecei a estudar formatação de roteiros para cinema e teledramaturgia com o Renato Bulcão, em 1997. De lá para cá fiz vários roteiros para filmes e alguns para a televisão. Porém, esse mercado é muito limitado, pois todos os diretores e autores acham que podem ser roteiristas...

O trabalho de webwriting veio para ficar. É uma linguagem nova que tende a evoluir e esperamos que venha a ser uma boa evolução. Webwriting não tem nada a ver com o vocabulário sincopado e estranho que se usa no Twitter, por exemplo. Isso, aliás, deveria ser combatido, pois é uma terrível deturpação do vernáculo. Nossa esperança é que os e-readers também tenham chegado para ficar, só temos de lutar para impedir o monopólio das grandes... Precisamos fazer com que nossos e-books possam ser lidos por qualquer leitor eletrônico.

Quanto ao trabalho de ghost-writing, a demanda é bem grande. Não produzo teses, trabalhos de formatura e outras coisas que devem ser feitas pelo próprio autor. Isso eu acho desonestidade. Porém, discursos, formatação de relatórios e principalmente romances, nós fazemos. E são muitos os autores que, por falta de tempo para cumprir um determinado contrato, por exemplo, contratam nossos serviços. Porém, a maioria dos nossos clientes de ghost-writing é constituída por pessoas que têm excelentes ideias para um romance, mas não detêm o know-how suficiente para desenvolvê-lo. Há muita demanda e, para aqueles que, como eu, não têm a vaidade de ver seu nome na capa de um livro, daria perfeitamente para viver só disso.

9. O senhor também é editor. Quais são as falhas que o senhor aponta no mercado editorial, sob o ponto de vista de autor? Na sua atividade editorial, como o senhor lida com elas? O assunto quente do momento são os e-books e seu incipiente mercado editorial. O que o senhor acha da transição papel-pixel no o mercado brasileiro?

O mercado editorial é cruel, perverso e muito difícil. Fora do Brasil, pelo que tenho ouvido dizer, é igual. Os novos autores têm pouca chance de um lugar ao sol mesmo porque as editoras nem sequer têm o cuidado de ler seus originais. Está certo que há uma profusão de originais chegando todos os dias... Mas essas editoras poderiam aceitar o projeto literário e, uma vez este julgado interessante, pediriam o original completo. Daria muito menos trabalho para a análise e, provavelmente, mais oportunidade para os novos e bons autores que, desiludidos, acabam por engavetar suas obras, privando o público, muitas e muitas vezes, de textos extremamente bons.

Na Ryoki Produções, esses problemas não existem. Como grande parte das editoras norte-americanas (aliás, a ideia foi copiada de lá), o autor financia a publicação de sua obra, portanto, é dono absoluto da edição. Não há royalties a serem pagos. Ele pode optar por distribuir pessoalmente seu livro ou contar com o serviço de nossa distribuidora, que prestará contas diretamente a ele. Nós sempre aconselhamos a tentar evitar distribuidoras, pois elas cobram muito caro e, o maior problema, trabalham mal. As vendas nos lançamentos, em palestras, através da Internet e através de nossas duas livrarias virtuais funcionam muito melhor. Normalmente, a venda de 40% da edição cobre com folga o investimento feito na publicação. O resto passa a ser lucro e, então, pode ser entregue para uma distribuidora. Atualmente, com o advento dos e-books, esperamos que a "coisa" possa melhorar para o nosso lado (autores e editores pequenos). Em minha editora, estamos investindo forte nesse setor. Aliás, será bom em todos os sentidos, inclusive no sentido ecológico, pois muita árvore poderá deixar de ser derrubada. Nós, da Ryoki Produções, estamos editando livros em formato e-book e dando gratuitamente para o autor 20 exemplares em papel. Se alguém quiser comprar o livro em papel e não em formato e-book, nós atendemos, produzimos quantos exemplares essa pessoa comprar. Mas o foco está nos e-books. Ainda é um pouco complicado, mas chegaremos lá... Afinal, temos de acompanhar de perto o desenvolvimento, não acha?

10. Mais de mil livros publicados. Uma pergunta mais pessoal: o quanto de soberba tem nesta marca?

Nenhuma, mesmo porque eu jamais pretendi alcançar esse número de publicações. Acontece que era tão mal remunerado que era preciso produzir muito para manter o mesmo trem de vida de quando era médico. Ainda bem que eu sempre encarei o ato de escrever como um trabalho e não como diletantismo. Assim, eu trabalhava. Cerca de 16 horas por dia, às vezes até 18 horas. Todos os dias. Por isso produzi tanto. Foi muito mais uma questão gástrica do que qualquer outra coisa.

Para ir além
Site oficial de Ryoki Inoue.


Guilherme Pontes
Brasília, 9/8/2010


Quem leu esta, também leu essa(s):
01. Jaime Pinsky por Julio Daio Borges
02. Catarse por Vicente Escudero
03. Chico Pinheiro por Rafael Fernandes
04. Sheila Leirner por Jardel Dias Cavalcanti
05. Guilherme Fiuza por Maurício Dias


Mais Entrevistas Recentes
* esta seção é livre, não refletindo necessariamente a opinião do site

ENVIAR POR E-MAIL
E-mail:
Observações:
COMENTÁRIO(S) DOS LEITORES
17/8/2010
12h29min
Pecincha! Pechincha! Quem quer trocar um García Márquez por mil Ryoki Inoue?! Quem quer? Aproveitem! Ninguém? Ninguém?
[Leia outros Comentários de LUCKY PITA]
17/8/2010
13h43min
Parabéns, Ryoki. Um escritor Profissional, sem vaidades, que escreve porque gosta. Um grande abraço!
[Leia outros Comentários de josé marins]
18/8/2010
10h10min
Grande Ryoki! Meu primeiro editor e um dos primeiros a apostar no meu trabalho. Ele só não conseguiu me convencer ainda de que é possível viver como escritor no Brasil. Mas é claro que isso depende de mim e não dele, que sempre conseguiu. Valeu pela entrevista, Guilherme!
[Leia outros Comentários de Yuri Vieira]
24/8/2010
13h06min
Hey, Lucky Pita, eu troco um García Márquez somente por 1 Ryoki Inoue, sem dúvida! Aposto que você nunca leu uma obra dele. Então leia primeiro para depois falar qualquer coisa.
[Leia outros Comentários de Cínthia Lemes]
31/8/2010
09h21min
Meu novo ídolo. Sou redator publicitário e vejo muita gente da área reclamando porque tem que fazer 50, 100 títulos prum anúncio, imagina se eles têm que escrever 2 livros por dia? Exemplo de dedicação, método, trabalho, criatividade e, claro, inspiração. A ser imitado.
[Leia outros Comentários de Alberto de C Freitas]
COMENTE ESTE TEXTO
Nome:
E-mail:
Blog/Twitter:
* o Digestivo Cultural se reserva o direito de ignorar Comentários que se utilizem de linguagem chula, difamatória ou ilegal;

** mensagens com tamanho superior a 1000 toques, sem identificação ou postadas por e-mails inválidos serão igualmente descartadas;

*** tampouco serão admitidos os 10 tipos de Comentador de Forum.

Digestivo Cultural
Histórico
Quem faz

Conteúdo
Quer publicar no site?
Quer sugerir uma pauta?

Comercial
Quer anunciar no site?
Quer vender pelo site?

Newsletter | Disparo
* Twitter e Facebook
LIVROS




PROSPECÇÃO DE JAZIDAS LÍTICAS EM ARQUEOLOGIA: PROPOSTA METODOLÓGICA
ULISSES CYRINO PENHA
NOVAS EDIÇÕES ACADÊMICAS
R$ 321,00



ASSISTENTES VIRTUAIS INTELIGENTES E CHATBOTS
LEÔNCIO TEIXEIRA CRUZ, ANTONIO JUAREZ ALENCAR, EBER ASSIS SCHMITZ
BRASPORT
R$ 80,00



O EVANGELHO SEGUNDO O FILHO
NORMAN MAILER
RECORD
(1998)
R$ 13,39



ATUALIDADES VESTIBULAR GUIA DO ESTUDANTE
GUIA DO ESTUDANTE - VÁRIOS AUTORES
ABRIL
(2009)
R$ 5,00



A QUESTÃO AMBIENTAL E AS CIÊNCIAS SOCIAIS
IDÉIAS ANO 8 (2) DE 2001
UNICAMP (CAMPINAS SP)
(2001)
R$ 26,82



MÁRIO DE ANDRADE - LITERATURA COMENTADA
JOÃO LUIZ LAFETA
NOVA CULTURAL
(1990)
R$ 5,00



CADERNO DE APOIO ESTATÍSTICA APLICADA À GESTÃO
CRISTINA VILHENA DE MENDONÇA J. CALDEIRA
UNIVERSIDADE ABERTA
(1997)
R$ 73,64



GUIA COMPLETO DO FUNCION DE UMA EMPRESA : MICRO MÉDIA E GRANDE 7239
ROGR BARKI JOSY ALZOGARAY
VOZES
(1985)
R$ 11,00



SEM TEMPO PARA CHORAR
MARILUSA MOREIRA VASCONCELLOS
RADHU
R$ 28,00



RAIO X DO LIVRO ESPIRITA
EURÍPEDES KUHL
ALIANÇA
(2003)
R$ 5,00





busca | avançada
29791 visitas/dia
1,1 milhão/mês